Capítulo 3: Ao alcance

Por Marmalade Fever

A mãe de Draco o segurou pelo braço quando ele estava prestes a partir. Ele se voltou para encará-la, sentindo-se relutante. Era uma situação com a qual ele não sabia lidar. Os olhos dela estavam cheios de lágrima, começando a escorrer e deixar caminhos silenciosos nas suas bochechas macias. "Draco", sua voz estava tão estrangulada por lágrimas e desespero que ele mal podia ouvi-la, "tudo que eu quero, tudo que eu sempre quis, é que você fosse feliz. Contanto que você esteja a salvo e feliz, eu estarei feliz. Então, eu quero que você faça algo pra mim. O que quer que você ache que vai te fazer feliz, não tenha receio em pegar." Ele olhou para seus claros olhos vermelhos por um momento, sem certeza de como receber essa declaração, os dedos dela cavando marcas em seu pulso como uma deformidade, então ele simplesmente afirmou com a cabeça. O que mais ele poderia fazer quando sua mãe estava em tal estado? O menor dos sorrisos tentou curvar os lábios dela enquanto ela passava a mão pelos cabelos delem do jeito que ela fazia quando ele era muito pequeno e dormia com a cabeça no colo dela. A mão dela vacilou, seus músculos perderam a força e ela se moveu para cobrir os olhos quando uma onda de angústia se apossou dela. Em pânico, Draco olhou para os lados antes de inclinar-se para beijar a testa de sua mãe, esperando em vão que aquele pequeno gesto pudesse lhe trazer algum conforto. Suspirando, ele entrou no trem.

Ele desejou amargamente que seu pai não fosse uma casca vazia esperando a morte.

Draco assistia McGonagall concluir seu discurso com amargura. Seja bonzinho, se dê bem com os outros, supere. Vamos evitar outra guerra, certo? Essas não eras as palavras exatamente, mas foi o que ele entendeu. Ela explicou a todos sobre os alunos que voltaram. Havia outros alunos de anos diferentes, mas eles não estavam sendo tão segregados quanto ele e os outros "Oitavanistas".

Ele estava deliberadamente tentando não fazer contato visual com o resto da Sonserina. Era difícil dizer o porquê exatamente, mas parecia que ao falar com alguém, de verdade, ele estaria admitindo algo. O que esse algo era... ele não tinha certeza. Mas quanto menos ele falasse sobre aquele último ano, melhor. E falar com seus colegas sonserinos parecia a pior opção, eles haviam o conhecido e admirado por algo que não significava mais nada.

Na verdade, ele sentia como se precisasse se reinventar. Tudo bem, aquela parecia uma palavra forte demais. Ele sentia como se ele precisasse de um novo motivo para ser respeitado, algo que ninguém, nem Potter ou o antigo Lorde das Trevas, pudesse tomar dele.

Ele percebeu, relutantemente, durante aquele verão terrível que ele passara quase sua vida escolar inteira escondendo-se atrás das formas corpulentas de Crabbe e Goyle, o nome (discutivelmente) respeitável de seu pai, seu próprio sobrenome, seu sangue e dinheiro. Tirando aquilo, que qualidades respeitáveis ele tinha? Sua postura, seu humor afiado, suas habilidades decentes – mas nunca o bastante – de Quadribol, um bom conhecimento de feitiços e um cabelo bonito.

Não era o bastante.

Crabbe e seu pai nunca voltariam mesmo.

Logo quando todos já estavam se levantando para se ir para cama, com as cabeças pendendo um pouco, McGonagall fez um limpou a garganta. "Todos os Oitavanistas, por favor venham a mim para serem conduzidos a sua sala comunal".

Draco deslizou silenciosamente ao longo da mesa até onde McGonagall estava. Havia oito dele, um número irônico já que eles eram oitavanistas. Eles até mesmo eram quatro meninas e quatro meninos. E metade, ele notou azedamente, era composta de grifinórios.

Quão absolutamente nauseante.

Draco desenvolvera um desejo inabalável de nunca, jamais falar com Harry Potter novamente. O que não parecia muito provável a essa altura. Ele passara a maior parte do mês tentando digerir o fato de que ele de alguma forma fora o dono da melhor varia, a droga da Varinha da Morte pelo amor de Deus, sem nem ao menos saber.

Sua varinha atual era boa e tudo mais. Mas sempre seria uma decepção em comparação.

"Sigam-me, por favor," McGonagall disse formalmente. Draco seguia o pequeno grupo, apenas alguns passos atrás de Dean Thomas.

Uma repentina ânsia de vômito o tomou quando Weasley pegou a mão de Granger e a apertou com excessiva ternura. Bem, já estava mais do que na hora. Tornara-se óbvio para Draco que os dois se tornariam um casal desde o quarto ano, quando Weasley parou de adular para rosnar para Viktor Krum. Granger não tinha agido de forma mais de forma mais digna no sexto ano, ainda que as memórias de Draco andassem um pouco... ocupadas com outras coisas na época.

Quando McGonagall finalmente parou, tudo que Draco conseguia fazer era olhar, e quase perdeu a senha que ela deu a impressionante estátua de Merlim: salamandra vermelha.

Sério? Sério?

Ao lado, Harry Potter deu uma gargalhada mal disfarçada e os outros dois terços também estavam tentando problemas em esconder a risada.

Era o banheiro da Murta-Que-Geme, só que completamente reformado. Onde os boxes ficavam, havia uma fileira de cadeiras macias e confortáveis e um sofá enorme. À direita, onde antigamente houvera um espelho de uma parede a outra para as garotas se emperiquitarem na frente, agora existia uma lareira, a fumaça magicamente redirecionada. Mas o mais interessante de tudo estava ao lado da lareira, onde antes ficava a pia quebrada. Havia, agora, uma escada em espiral levando ao andar de baixo.

"Abaixo", McGonagall disso, "as escadas levam a duas direções. Para a direita fica o dormitório feminino, e o masculino, para a esquerda".

"Professora?"Granger, tipicamente, com a mão levantada.

"Som, Srta. Granger?"

"Professora, eu poderia perguntar o que houve com a Câmara?" Câmara? Do que ela estava falando?

"Ela fica ainda mais embaixo, mas bastante inacessível. Seus dormitórios são recentes, da mesma forma que um porão ou sótão". McGonagall fungou.

"Olá, Draco". Ele quase pulou de susto quando a Murta flutuou logo de trás através dele, mandando calafrios pelos seus braços e pescoço. "Harry", ela acrescentou em tom desdenhoso.

"Olá, Murta", disse Potter, repentinamente tenso. Seus olhos passaram por Draco por um momento, talvez lembrando da última vez que os três estiveram no aposento juntos. Não era uma memória exatamente agradável para Draco também.

"Murta", McGonagall disse, como se escolhesse as palavras como muito cuidado, "Eu aprecio o fato de você ter se voluntariado a ser meio que a Fantasma dos oitavanistas, mas realmente não é necessário. E eu sinto muito pelo inconveniente".

"Inconveniente?" Os olhos da Murta se estreitaram. "Inconveniente!" Ela voou ao redor da sala rapidamente. "Você destruiu o meu cano!" ela guinchou.

"Ora, vamos, Murta", McGonagall enfatizando suas palavras, adotando o tom de detenção, "há muitos outros cômodos no castelo que você poderia assombrar! Mas eu realmente preciso que você deixe este".

Murta estufou o peito "Mas foi aqui onde eu morri", ela enfatizou. "Seu vivos insensíveis, sempre pensando em vocês mesmos só porque ainda respiram! Só esperem até vocês morrerem. Aí vocês vão querer que alguém desse um cano pra assombrar". Ainda chorando, a Murta desapareceu lareira acima.

McGonagall respirou fundo antes de olhar para os alunos. "Vocês são todos jovens adultos responsáveis. Eu espero que vocês ajam de acordo". Ela olhou deliberadamente para a sua direção. Ela pausou então, como se considerasse as suas opções. "Além disso, eu sinto em informar que o Conselho decidiu que os oitavanistas não poderão participar dos times de quadribol das casas este ano devido a injustiça pela sua idade".

Do outro lado da sala, os olhos do Weasley se esbugalharam. Draco teria rido, não fosse pela pulseira... algema... tanto faz, mexendo no seu braço. Ele preferia não ser assassinado na sua cama sem ter como revidar.

"Alguma pergunta?" McGonagall perguntou, passando os olhos por detrás dos óculos ao redor da sala.

Granger, previsivelmente, levantou a mão, sua manga escorregando e revelando seu longo braço pálido. "Nós poderemos visitar as salas comunais das nossas casas?"

McGonagall pareceu considerar a pergunta. "Sim", ela disse finalmente, "No entanto, eu gostaria de desencorajar que passem a maior parte do tempo lá. Nós investimos muito tempo e esforço para remodelar essa sala comunal para vocês –" Draco riu com isso, era um banheiro feminino, afinal "– e eu odiaria que fosse desperdiçado".

Granger levantou o braço de novo, mas McGonagall acenou para que ela continuasse antes que o braço dela alcançasse o ar. "Nós podemos ter convidados aqui?"

"Receio que não, só por causa da privacidade. Agora, a menos que tenham mais alguma dúvida, eu tenho muito a fazer antes do começo das aulas amanhã". Ela desejou boa noite e saiu.

Com uma assustadora sincronia, todas as cabeças se voltaram para Draco. "Quê?", ele perguntou, cruzando os braços de forma que a algema ficasse escondida.

"Vai ser um longo ano", Potter disse afinal, e deixou nisso.

Um a um, todos começaram a investigar seu novo ambiente. Havia dois quadros nas paredes. Um de um homem quase dormindo cujo chapéu de dormir caíra em seu colo. O outro era um diabrete que sorria para eles, arreganhando as 4 fileiras de dentes afiados. "Acho que não vou gostar muito dele", Hannah observou.

"Oh!" Isso veio da Granger. "Pensei em outra coisa que eu queria perguntar". Ela suspirou tirando o cabelo do rosto. "Eu vou para o dormitório". E com isso ela desceu as escadas.

Draco permaneceu na sala comunal o bastante apenas para fazer uma observação geral do cômodo. Apesar das modificações, ainda era um banheiro, e aquilo era um insulto ao nome Malfoy.

Com isso, ele seguiu o exemplo de Granger e desceu as escadas, olhando por detrás do ombro para ter certeza que nenhum garoto grifinório decidiria expressar sua inimizade com uma boa azaração de pernas bambas.

Ao final da escada, havia duas portas.

Sendo um adolescente, Draco se perguntou por um momento se havia algum topo de feitiço na porta da direita. Não havia escadas para se transformarem em escorregador como no dormitório feminino da sonserina. McGonagall não era burra, no entanto. Ele tinha certeza que ela tomara algum tipo de precaução. Mas afinal, por que ele se importava?

Quatro garotas dividiriam aquele dormitório. Duas eram lufa-lufas. Ele tinha limites que iam acima daquilo. A Patil era conrvinal, e ele não tinha nada conta aquela casa. Mas ele nunca se sentira particularmente atraído por nenhuma das gemas Patil, apesar da sua óbvia beleza. Havia algo na forma como elas se portavam. Embora Padma fosse um pouco melhor que sua irmã idiota e obcecada pela Trelawney, ela ainda possuía algo de irritante que ele não conseguia nomear. E, finalmente, havia a Granger, a única ocupante do quarto no momento. Tinha coisas erradas demais nela para ele citar: seu sangue era apenas uma delas, e o fato dela ter sido torturada pela tia dele apenas alguns meses antes era outra.

A porta da esquerda abriu facilmente e ele se encontrou num quarto muito mais digno do que ele esperava depois de ver a sala comunal. Havia quatro camas de dossel decentes, tudo em cores neutras ou de madeira. Seu malão estava ao lado da sua cama à esquerda da porta do banheiro. Havia duas janelas encantadas que agora mostravam o céu noturno e a Floresta Proibida.

Se ele sentasse em sua cama com as cortinas fechadas, ele talvez conseguisse ignorar seus novos colegas de quarto.

Ele esperava que sim, pelo menos.

Draco fingiu dormir e ouviu Thomas, Weasley e Potter contando histórias sobre seus verões. Weasley falava sobre Granger... muito.

"Você acha que a Hermione iria comigo a Hogsmeade neste final de semana?", ele perguntou.

"Não sei, Ron". Potter respondeu. "É a primeira semana de aula. Ela vai querer estudar".

Weasley riu, "É, provavelmente. Você quer voar, então? Eu ainda não consigo acreditar no que a McGonagall falou sobre o quadribol!"

Potter suspirou. "É, a gente pode jogar uma partida entre nós três. Talvez a Ginny também. Afinal, eu comprei um kit de bolas no verão e eu quero testar a Skybeam em algum lugar que não seja o pomar".

Skybeam? Skybeam Millenium? "Você acabou de dizer o que eu acho que disse, Potter?"

Embora Draco não pudesse ver, os outros deram um pulo. "O que parece pra você?" Weasley perguntou.

Draco grunhiu, "Caso você tenha esquecido, cabeça de fuinha (n/t:Fuinha em inglês é weasel, daí a piada Weasley/Weasel), eu por acaso gosto de quadribol. Você disse que tem uma Skybeam Millenium, Potter?"

"É, eu disso, Doninha". Eles ficaram em silêncio por um momento.

"Interessante". Aquele era o único comentário seguro em que ele conseguiu pensar sem expressar seu entusiasmo.

"Essa é uma palavra engraçada", disse Thomas, entre um bocejo. "Interessante é meio neutro. Poderia ser bom ou ruim".

"Eu tenho consciência disso".

Weasley grunhiu. "Por que diabos nós estamos falando com a Doninha? Silencio."

Draco abriu e fechou a boca e nenhum barulho saiu. Que audácia!

"Ron", Potter disse meio ralhando meio rindo.

Draco abriu as cortinas e deu dedo para o Weasleu. E ao invés de causar a raiva que ele pretendia, o outro caiu na gargalhada.

"Certo, certo, Ron, tire o feitiço e nós vamos pra cama, certo?" Potter ainda estava tendo problemas para não rir.

"Certo. Mas eu estou avisando, Malfoy. Eu seu onde você dorme". Há-há-há, muito inteligente. "Finite incantatum".

"Pela primeira fez eu fico satisfeito que o Potter te mantenha com a rédea curta", Draco resmungou antes de fechar as cortinas de novo. Ele dormiu com um olho aberto. Seria um longo ano.

N/T: Ok! Desculpem pelos dois dias de atraso, certo? Antes tarde do que nunca :D