Capítulo 6: Seus Adoráveis Cabelos

Por Marmalade Fever

Draco foi em direção ao banheiro dividido pelos meninos do dormitório, ainda grogue de uma noite mal dormida. Toda vez que ele achava que estava prestes a adormecer, ele ouvia uma das camas ranger. Embora ele, Weasley e Potter não tivessem interagido tanto quanto possível no dia anterior, era possível que um deles – ou seja, o Weasel – tivesse decidido colocar em prática algum tipo de vingança enquanto ele dormia. Ele foi o último a se levantar, e os outros já haviam ido para o café-da-manhã.

Ele tomou banho, fazendo careta ao ver os fios de cabelo castanho e encaracolado, preto e rebelde, e ruivo e brilhante que entupiam o ralo. Os elfos domésticos não deveriam limpar aquilo? Ele colocou um feitiço de limpeza nas solas dos pés quando saiu do banho.

Depois de se vestir, ele secou seu cabelo com a toalha, penteou e, então, abriu o armário acima da pia. Sua mão pairou sobre os objetos que estavam lá por um tempo, suas sobrancelhas franzindo.

De todas as coisas baixas e idiotas para fazer. O desprezível do Weasel consficara seu gel de cabelo.

Seus adoráveis cabelos teriam de, simplesmente, ir au naturale. Ele cuidadosamente secou melhor o cabelo e penteou menos pra trás, grunhiu, e foi para o Salão Principal.


Hermione acabara de levantar o copo de suco de abóbora quando Ron repentinamente gargalhou histericamente, e ela acabou engolindo errado e tossindo inutilmente, a acidez do suco não ajudando em nada enquanto seus olhos enchiam de lágrimas. Ele parou de rir instantaneamente e deu tapinhas nas suas costas. "Você tá bem?", perguntou. Ela assentiu, embora ainda sentisse um arranhar no fundo da garganta.

"O que foi tão engraçado?", Harry perguntou, colocando água num copo e colocando-o em frente à Hermione.

Ron riu maliciosamente, sua mão parando de dar tapinhas. Ele a levantou, abanando-a como um mágico antes de um truque, e então colocou a mão no bolso para tirar de lá um pote de plástico. "Surrupiei do armário em cima da pia hoje de manhã", explicou. Ele jogou para o outro lado da mesa para Harry, que pegou o pote sem maiores esforços.

"Gel de cabelo?", perguntou.

"Gel de cabelo", Ron confirmou. "Daquele lugar esnobe do Beco Diagonal. Provavelmente custou ao babaca pelo menos um galeão."

Harry se inclinou para esconder a risada. "Você roubou o gel de cabelo do Malfoy?" Ele se virou e discretamente lançou um olhar para a mesa da Sonserina, os olhos de Ron e Hermione fazendo o mesmo.

Realmente, lá estava Malfoy sentado a dois lugares de distância da Greengrass mais nova, seu cabelo secando naturalmente. Ele parecia diferente, Hermione percebeu. Ela comparou às vezes que vira Harry sem seus óculos. Como se visse uma pessoa completamente diferente, irmão dele, talvez. Sem o cabelo chupado para trás em mechas rigorosamente lisas, seu queixo parecia menos pontudo, como se seu cabelo tivesse acentuado a característica durante todos aqueles anos.

Ela engoliu em seco. Ele estava... bonito. Seu cabelo cacheava suavemente perto das orelhas e na nuca.

"O babaca parece ter sido arrancado do pedestal, não é?", Ron perguntou, sorrindo. "Tirar o título de príncipe a plebeu passo a passo."

Harry gargalhou e se abaixou para examinar o pote de gel mais de perto. "Se minha tia Petúnia soubesse que isso existia, eu aposto que ela teria colocado um pote inteiro na minha cabeça." Ele passou a mãe pelas mechas rebeldes que escondiam apenas parcialmente sua cicatriz.

"Bem, eu não estou disposto a devolver pra ele. Por que não tentamos?" Ron sugeriu, se voltando para seu mingau.

Harry franziu a testa. "Nah. Estou bem assim mesmo." Ele jogou o pote de volta para Ron. "Acho que prefiro ficar fora disso. Falando nisso, tira as minhas impressões digitais daí, sim?"

Ron pareceu confuso. "Impressões digitais?"

Hermione revirou os olhos com exasperação. "Eu explico depois. Agora, no entanto, acho que você deveria me entregar o gel."

"Por quê?"

"Porque", ela disse, sentando ereta e usando sua voz mais severa, "Eu acho que você está sendo um idiota. Malfoy não o provocou e ele está vulnerável agora."

Ron soltou um ronco de riso. "Vulnerável? Hermione, é só gel de cabelo. Não vai doer nada ele ficar um tempo sem."

"E como você se sentiria, Ron, se o seu pai acabasse de ser sentenciado ao Beijo do Dementador, você só pudesse usar magia na sala de aula, não tivesse amigos e alguém roubasse seus produtos de cabelo?"

"Ele tem amigos!"

Hermione olhou pra ele ceticamente. "Tem certeza disso?" Ela, Ron e Harry todos se viraram para olhar a mesa da Sonserina, onde Malfoy estava comendo e evitando contato visual com as pessoas perto dele.

"Tudo bem", Ron concedeu. "Talvez eu entenda o que você quer dizer... um pouco. Mas ainda assim, não vou devolver pra ele!"

"E eu sei que não vai. É por isso que eu vou devolver por você." Ela estendeu a mãe, e depois de uma batalha de olhares, Ron finalmente se rendeu e entregou o pote para ela.


Astoria Greengrass o estava encarando, e ele não tinha certeza o que ele deveria concluir a partir disso. Ela começara quando ele estava comendo ovos, manteve enquanto ele tomava café e continuou enquanto ele usava o guardanapo, se virava e levantava a sobrancelha direita o máximo possível. "Alguém enfeitiçou seus olhos, Seem-grassa?", ele perguntou. (n/t: eu sei, horrível, mas eu tinha que fazer algum trocadilho com o nome dela, no original a autora escrevem "Arse-toria").

O lábio superior da garota se curvou. "Fez algo diferente no cabelo?" ela perguntou com um tom nada inocente.

"Perdi meu gel de cabelo."

"Hmm," ela comentou. "Gostei dele assim." E com isso, jogou o cabelo e se virou para a direita, a garota ao seu lado soltando risadinhas.

Draco franziu a testa ligeiramente. Se aquilo era flerte, ela tinha de praticar. Não era feia – tinha cabelo cor de trigo e feições ligeiramente arredondadas. Era um pouco nova, no entanto. Se ele fosse sair com alguém naquele ano, ele provavelmente escolheria uma setimanista, a menos que Padma Patil começasse a lhe parecer atraente.

Ele não conhecia Astoria muito bem. Ele fora do mesmo ano que sua irmã, Daphne – Daffodil ou Daphne-Down-Dilly Greengrass como sempre a chamava – mas ele nunca formara uma opinião sobre ela além de que ela era ótima em responder a todos chamados e fazer todas as vontades de Pansy, tipo uma versão mais bonita de Goyle.

Ou Crabbe.

Repentinamente, seu café-da-manhã não parecia mais apetitoso, o creme do café azedando em seu estômago.

A morte de Vincent Crabbe fora um choque para Draco, no mínimo. Ele nunca vira seu amigo tão... confiante? Ele estivera desobedecendo às ordens de Draco, tratando-o como um covarde, agindo de forma completamente descuidada, gritando maldições Imperdoáveis como se fossem balas. E, então, num acidente de sua própria criação, o idiota morrera.

Mas o que o incomodara, mais ou menos uma semana depois da fatalidade, foi que ele na verdade não se incomodava com a morte de Crabbe. No começo ele pensara na sua amizade de fachada, anos de leal guarda-costidão – se é que essa palavra existia – no garoto que ele vira crescer no dormitório úmido que eles dividiram durante seis anos. Ele lembrou até mesmo da vez no segundo ano que o cabelo de Crabbe inexplicavelmente começara a ficar vermelho.

Mas depois daquela primeira semana, ele percebeu algo de crucial importância. Ele só tivera uma amizade de fachada com o garoto. Eles nunca foram amigos de verdade. E a forma como Crabbe agira durante a batalha final, foi como se ele estivesse vendo um estranho e não um dos seus supostos melhores amigos.

Uma ansiedade passou por ele quando percebeu o quão sozinho ele estava naquele ano. Ele não tinha amigos. Não de verdade. Os outros sonserinos, a maioria, pelo menos, o estavam ignorando, como se o culpassem pelo resultado da Batalha Final. Eles pareciam saber que era o fim do seu reinado. Ele fora tirado do pedestal, como se dizia, e agora ele estava na lama com todo o resto.

Até então, a conversa mais longa que ele tivera desde quando deixara sua mãe no dia anterior fora com Hermione Granger - a mais lamacenta de todos.

Pensar nela fez seus olhos se voltarem para a mesa dos professores, onde a Professora Trelawney colocava um pouco de conhaque em seu café, a Professora McGonagall a encarava com severidade, como se fosse se opor.

Com certeza aquela mulher era uma completa fraude. Ela mal soara convincente quando fizera a profecia. Ela já ouvira a uma profecia de verdade uma vez. Sua avó Malfoy predissera uma crise dos trouxas envolvendo algo chamado Y2K Bug (n/t: pra quem não sabe, é o Bug do milênio). Mas, como ainda era 1998, ele ainda tinha de descobrir se o inseto atacaria ou não.

Casualmente, seus olhos se voltaram para a mesa Grifinória, onde a vítima da profecia falsa estava passando manteiga num pedaço de torrada. Ao seu lado, Weasley parecia chateado com algo.


Hermione pegou seu lugar de sempre na fila da frente na sala de Aritmância, tirou seus livros, pena e tinta, e então começou a ler As Viagens De Gulliver enquanto esperava. A Ilha de Lilliput estava sendo descrita quando a porta da sala abriu. Ao levantar os olhos, ela não ficou inteiramente surpresa ao ver seu parceiro de Terapia de Angústia, Unificação Entre as Casas e Tolerância. Hannah sugerira que eles chamassem a aula de TA-UECT, mas Hermione ainda estava indecisa.

Malfoy olhou para ela brevemente antes de se dirigir a um dos lugares no fundo.

Hermione limpou a garganta. "Er, Malfoy?" ela perguntou.

Ele se virou. "O que foi, agora?" Hermione enfiou a mão dentro da mochila, tirou o pote de gel e mostrou-o para o garoto antes de atirá-lo gentilmente em sua direção. Foi completamente torto, mas ele conseguiu apanhá-lo de qualquer forma.

"Eu imaginei que você fosse querer isso de volta", ela disse, simplesmente. Ela se virou novamente e voltou ao seu livro. Ficou tudo em silêncio por uns dois minutos.

"É isso, então?" ele perguntou. "Você vai simplesmente devolvê-lo? Sem explicações? Nenhuma desculpa pelo seu namorado cleptomaníaco? Nem mesmo um franzir da testa de piedade?"

Ela se virou para encará-lo. "Eu não devo nada a você. Eu consegui o seu produto de cabelo idiota de volta, então talvez você devesse se sentir agradecido."

"Ah, claro. Muito obrigado, Granger. A devolução de meio pote de uma meleca pra cabelo vai resolver todos os meus problemas. Estou eternamente endividado para com você."

"Bem, que bom que isso ficou esclarecido, então." Eles caíram num silêncio tenso enquanto esperavam a aula começar.

Professora Vector começou a aula como sempre, escrevendo uma tabela de números no quadro, dando a eles alguns minutos para trabalhar nela e perguntando se alguém sabia a solução. Hermione acabara da calcular e estava prestes a levantar a mão quando a Professora Vector disse algo que a fez deixar cair sua pena de choque. "Sim, sr. Malfoy?"

Hermione deu uma volta na cadeira. Ela nunca fora a segunda a terminar a tabela numérica. Nunca! "A propriedade do cinco em relação ao sistema de elementos é igual a quantidade de magidas presente em qualquer grama de asa seca de morcego."

Hermione olhou com intensidade para o próprio pergaminho. Pelo amor de Merlim, ele tava certo!

"Muito bem, Sr. Malfoy! 10 pontos para a Sonserina. Agora, eu quero que todos abram seus livros na página 327..."

Hermione estava distraída enquanto abria a sua cópia de Números e Propriedades: Um Guia Avançado para Aritmância. Não era o fim do mundo. Ela tinha conseguido chegar à resposta também. Mas alguém tinha conseguido antes dela, e esse alguém era Malfoy, dentre todas as pessoas. Geralmente, ele só respondia perguntas na aula de Aritmância se a professora pedisse, e mesmo quando era o caso, ele quase sempre deixava de fora da resposta alguma parte desimportante por pura preguiça.

Os outros nove alunos da sala estavam ocupados fazendo anotações, o único lufa-lufa escrevia furiosamente, parecendo meio maníaco.

Um estranho ímpeto de ver se Malfoy estava se esforçando com igual intensidade surgiu dentro dela, mas se forçou a ignorá-lo, se concentrando no diagrama da Professora Vector.

"Com licença, Professora?"

Vector parou no meio da frase, voltando o olhar para algo atrás de Hermione. "Sim?"

"Diz aqui que o X deveria ficar junto com o dois, não com o quatro."

Vector pareceu tão surpresa quanto Hermione se sentiu. "Ah, é, realmente. Mais cinco pontos para a Sonserina," Enquanto a professora apagava e reescrevia, Hermione lançou um olhar para trás. Malfoy levantou os olhos das suas anotações, que já estavam extensas, e sorriu arrogantemente para ela, com a sobrancelha esquerda levantada.

Ela não sabia o que pensar sobre esse novo acontecimento, mas na pergunta seguinte que Vector fez, ela levantou o braço tão rápido que o seu ombro estalou.

"Sim, srta. Granger?" A mulher pareceu surpresa, e Hermione soltou a resposta de uma vez, ganhando cinco pontos para a Grifinória.

Ao final da aula, Hermione estava uma bagunça. Ela guardou seus livros meio tonta, seu cabelo caindo no rosto. Malfoy teve que passar por ela ao sair, e parou ao seu lado. "Você deveria ter cuidado com isso, Granger. Você pode se machucar levantando o braço tão rápido. E talvez fosse bom alguém dar uma olhada no seu ombro – foi bem alto o estalo."

Ela não respondeu. Tudo que ela sabia era que teria ficar na defesa agora. Estudar seria uma prioridade. Derrotar Malfoy seria seu objetivo.

n/t: Bem, aí está o capítulo 6. Não me matem pela demora!