Capítulo 7: Quem Você É e Quem Você Não É?

Por Marmalade Fever

Hermione tinha a sensação de que seus olhos estavam prestes a cair. Desde a aula de Aritmância, todas as aulas que tivera com Draco Malfoy resultaram, essencialmente, em batalhas de inteligência, com Hermione fazendo tudo que podia para não permitir que ele a ultrapassasse. O que era a razão de ela estar na sala comunal dos oitavanistas, estudando tanto quanto um ser humano era capaz, com olhos secos, as costas doloridas e o traseiro, bem, dormente.

A porta abriu, e Hannah entrou, a testa franzida. "Acho que a Padma está prestes a me enlouquecer," ela anunciou, colocando sua mochila no chão em frente à lareira. "Você viu o recado que ela deixou no espelho hoje de manhã?"

"Não," Hermione respondeu, colocando seu marca-página em seu livro de Feitiços, o qual ela já tinha estudado setenta e cinco por cento. Nada mal, para duas horas de trabalho. "Eu saí antes de vocês levantarem."

Hannah gemeu. "Dizia assim, e coloque aspas, 'As toalhas devem ser dobradas organizadamente e colocadas novamente na barra de toalhas; vamos lembrar disso, certo?'"

Hermione franziu um pouco a testa, que já estava latejando de ler o livro. "Acho que ela exagerou um pouco," concordou.

"E depois tinha mais um recado no próprio chuveiro," Hannah continuou. "Que dizia, 'Por favor, mantenham os shampoos no lugar deles. ' A Parvati era tão neurótica assim?"

"Bem, não... Parvati era meio desleixada."

Hannah soltou um ronco de riso. "Acho que sei o motivo." Ela, então, colocou a mão no bolso e tirou outro bilhete, entregando-o à Hermione.

"'Sinto-me desrespeitada quando encontro cabelo no ralo. Por favor, seja educada e tire-os de lá depois do banho. Obrigada," Hermione leu, franzindo o nariz.

"Esse estava no meu travesseiro!" Hannah guinchou.

"O que estava no seu travesseiro?" As duas se voltaram para ver a cabeça loura de Malfoy emergir da escada em espiral no canto da sala.

Hannah não respondeu, ao invés disso se voltando para Hermione. "Estou usando cada grama de decoro que eu tenho pra não escrever uma resposta mal-educada pra ela."

"Lufa-lufas têm decoro? Eu não sabia que vocês sequer tinham essa palavra no seu vocabulário," ele comentou, cruzando a sala para se sentar no sofá. Ele pegou seu próprio livro de Feitiços, e Hermione ficou feliz ao ver que ele ainda estava na metade. É verdade que os outros alunos ainda deviam estar no primeiro capítulo.

Hannah se virou para ele e lançou-lhe um sorriso de desprezo. "Malfoy, eu já estou mal-humorada o suficiente. Não me faça amaldiçoar você."

Ele riu incredulamente. "Na presença da Monitora Chefe Suplente? Ou qualquer que seja seu título, Granger," acrescentou.

Hannah pausou, lançando a Hermione um olhar alerta. "Você não tiraria pontos, tiraria?" perguntou.

Hermione abaixou o livro e olhou cautelosamente para Hannah, que já parecia muito irritada, e Malfoy, que parecia tão arrogante quanto sempre. "Bem," disse lentamente, "dependeria do que você fizesse e da provocação dele."

Hannah ficou lá, dissecando a resposta de Hermione. "Então, isso quer dizer que você ficaria no lugar dele ao invés do meu?", ela grunhiu.

"Bem, não," Hermione se retratou rapidamente, "é só que o meu trabalho é ser justa e..."

"E você ficaria no lugar dele ao invés do meu!" Hannah repetiu. A loira estava ficando vermelha. "Ele, o Comensal da Morte! Você viu o negócio de metal no braço dele! Ele deveria estar em Azkaban, pelo amor de Deus!"

Hermione se levantou, seu livro caindo do seu colo para o chão. "E aquele 'negócio de metal' é parte da pena dele! Você sabe muito bem que não é justo atacá-lo quando ele está indefeso desse jeito!"

"Indefeso?" Malfoy bradou, também se levantando. "Granger, é verdade que eu não posso usar mágica fora da sala de aula, mas indefeso o caramba. Se eu quisesse revidar, eu o faria! Eu não preciso que você me defenda."

"Você acabou de me usar pra te defender, seu covarde idiota!" Hermione cuspiu. "Agora, todo mundo, acalmem-se! Eu vou voltar a ler e eu espero que vocês me deixem em paz!"

Hannah arrancou o recado de Padma da mão de Hermione antes de bater o pé até as escadas, e Hermione e Malfoy foram forçados a pular quando a garota bateu a porta do dormitório.

"Eu não estou indefeso," Malfoy repetiu como um rugido. "E o seu livro está de cabeça pra baixo," acrescentou.

Hermione rangiu os dentes antes de arrumar o livro de Feitiços, voltando ao capítulo de encantamentos. De rabo de olho, ela o viu observá-la, mas então ele balançou a cabeça e voltou a sua leitura.


Hermione olhou para o relógio. Quinze minutos. Já fazia quinze minutos desde a hora marcada, e a Professora Amorell ainda não aparecera. Ela traduzira algumas runas, terminara o capítulo sete do livro de Transfigurações e agora estava batendo o pé rapidamente contra o chão de pedra. Mais dez minutos se passaram, e Hermione começou a entrar em pânico.

Pontualidade era muito importante pra ela, e parecia que a Professora Amorell provavelmente esquecera que tinha uma sessão de terapia de angústia. Olhando o relógio novamente, Hermione finalmente pegou um pedaço de pergaminho da mochila, escreveu um bilhete explicando o que tinha acontecido e foi para a biblioteca.


O final de semana passou num turbilhão de livros didáticos para Hermione. Ron tentara, em vão, convencê-la a ir a Hogsmeade. Ele até se oferecera para ir "Naquela casa de chá infernal, Puddifoot's." Harry e Dean finalmente o levaram para jogar uma partida dois-contra-dois de quadribol com Ginny, rindo dos hábitos de estudo de Hermione.

E agora, finalmente chegara a segunda-feira, e Hermione, pela segunda vez, estava sentada na sala da Tolerância Zero, como Ginny sugerira que chamar a aula afinal.

"Boa tarde, pessoal," Amorell cumprimentou. Suas unhas do pé estavam pintadas de um tom vivo de fúcsia, e ela usava uma tornozeleira de cânhamo. Os oito membros da aula murmuraram um "boa tarde" infeliz para ela, enquanto se sentava de pernas cruzadas na mesa. "Eu tenho uma atividade nova preparada para vocês."

Hermione gemeu. A palavra atividade, nessa aula, não era algo que ela gostava de ouvir.

"Todos se dividam em duplas. Muito bom. Agora, o que eu quero que vocês façam é o seguinte, tenham uma pequena conversa. Diálogo é a chave da comunicação." Ela sorriu alegremente. "Eu quero que vocês contem aos seus parceiros como vocês se identificam. Quem são vocês? Artistas? Que rótulos você colocaria em vocês mesmos?

"Depois, e essa parte é um pouco mais difícil, eu quero que vocês digam o que vocês não são. Com quem você não se identifica? Por exemplo, eu posso dizer que não sou covarde. Todos entenderam? Muito bom." Ela bateu as mãos juntas.

Com toda a relutância, Hermione se virou para Malfoy. Os dois franziram a testa um para o outro. "Bem, isso é idiota," ele disse, sua voz baixa o suficiente para que Amorell não ouvisse.

"Tenho de concordar," Hermione respondeu. "Bem, vamos começar com o óbvio. Eu sou uma grifinória. Como se você não soubesse disso."

"Sério? Estou tão surpreso," ele falou num tom entediado. "Eu sou um sonserino e um puro-sangue. Eu não sou um grifinório nem um nascido-trouxa." Ele fez uma leve mesura falsa, parecendo irritado.

"Eu sou nascida-trouxa, mas não sou uma sonserina, uma puro-sangue ou –" ela se interrompeu, corando furiosamente com as duas coisas que pensou.

"Ou?" ele insistiu.

Hermione abriu a boca, pausou. "Você disse nascido-trouxa."

"E nós estamos em sala de aula. Eu não sou um completo idiota, sabe." Ele olhou para ela por um momento, deixando a cabeça cair ligeiramente para o lado. "Mas não foi por isso que você parou. O que você não é, hein, Granger?" Ele juntou os dedos, algo em sua voz e na sua postura gritavam perigo para ela.

Hermione balançou a cabeça, nervosa de repente. "Vamos em frente..."

"Não!" Ele bateu as duas mãos na mesa que os separava. "Responda."

Ela respirou fundo. "Certo. Se você vai ser petulante desse jeito, eu digo. Mas você não vai gostar. Eu sei disso."

"Desembucha, Granger."

"Eu ia dizer que não sou uma Comensal da Morte. Feliz?"

Malfoy apertou seus punhos um contra o outro tanto que eles ficaram com uma cor rosa forte antes de ficarem absurdamente brancos. Mas então relaxou.

"Eu disse que você não ia gostar," ela disse baixinho.

Ele respirou fundo pra se acalmar, fechando os olhos por um instante, suas pestanas em destaque nas bochechas. Quando seus olhos finalmente se abriram... ele não parecia tão nervoso. Ao invés disso, e foi o que a apavorou, ele parecia triste. Seus olhos pareciam vidrados, pequenas linhas vermelhas aparecendo no branco. "Diga outra coisa," ele ordenou, amargo.

"Outra coisa?"

"Outra coisa que você é ou não é."

Hermione mordeu o lábio inferior, inquieta na cadeira. "Eu sou uma amante de livros."

Ele assentiu com a cabeça. "Certo, eu também. Mais um."

"Eu sou uma intelectual."

Ele soltou um ronco de riso. "Idem." Ele fechou os olhos por um momento, mas os abriu novamente. "À propósito, se divertindo com a nossa pequena batalha de inteligência?"

Hermione achou que nunca se sentira não aliviada com a arrogância dele. "Não particularmente. Qual é o seu jogo, afinal?"

Ele sorriu presunçosamente. "Não sei se eu chamaria de jogo. Mas se fosse, você diria que eu estou ganhando?"

Hermione apertou os lábios. "Eu diria que você chegou aos meus pés."

Ele riu. "Justo. Suponho que você não desistiria do seu título tão facilmente, não é?"

"Então, vamos colocar os pingos nos i's. Você está tentando me derrotar intelectualmente. Mas o que eu não sei é o porquê. Não deve ser muito divertido ter de fazer todo esse esforço desnecessário."

Seu sorriso presunçoso aumentou. "Não, mas a recompensa é muito boa."

"Recompensa?" ela interrogou.

"Bem, a satisfação de te derrotar e, heh, poder ver a sua cara enquanto isso."

Hermione colocou o queixo na mão, olhando para ele pensativamente. Seus olhos não pareciam mais vidrados e a cor do seu rosto parecia normal. Seu cabelo estava penteado pra trás como de costume, o que, por motivos que ela preferia não pensar, a desapontou um pouco. "Nós estamos perdendo o foco. Quem você é e quem não é?"

"Eu sou podre de rico e não imploro migalhas, como algumas pessoas."

Hermione seguiu o olhar dele até o outro lado da sala onde Ron estava sentado. Ele e August estavam discutindo em voz baixa. Olhos castanhos se voltaram para cinzentos. "Eu sou da classe média alta, mas não sou uma esnobe."

"Classe média alta?"

Ela deu de ombros. "Nós, trouxas, temos um sistema de classes também, sabe. E cultura."

"Mas alta? O que, em nome de Merlim, os seus pais fazem?"

"Eles limpam, consertam e endireitam dentes. É um tipo de curandeirismo, muito bem pago."

"É por isso que você tinha aquelas coisas no dente?" ele perguntou.

"Meu aparelho. Era para endireitá-los." Ela sorriu brevemente para mostrar os dentes.


Draco não sabia por que, mas no momento em que Granger sorriu para ele, algo na sua barriga deu cambalhotas de forma muito perturbadora. Ele sabia que os dentes da frente dela não eram mais protuberantes, mas ainda assim o contraste o deixou boquiaberto. Além do fato de ela estar sorrindo para ele... e sem nenhum desprezo.

Ela estava, ele ousou pensar, bonita. Bem, bonita o suficiente para entender o motivo de Weasley, que geralmente não tinha nenhum bom gosto, ter corrido atrás dela.

Mas o sorriso desapareceu novamente em meio segundo. "Era como se chamavam aqueles pedacinhos de metal?" ele perguntou. "Nada a ver. Perdemos o foco de novo."

"E de quem é a culpa?" Ela balançou a cabeça, seus cachos bagunçados pulando.

"Certamente não é minha. Vamos, Granger, mais uma coisa que você é ou que não é."

Ela franziu a testa. "Eu sou..." ela pausou, pensando. "Eu sou... Ah, não sei, você pensa em alguma coisa."

"Nunca pensei que você ouvir as palavras 'não sei' saírem da sua boca."

"Certo," ela soltou, parando para pensar de novo. "Eu sou uma amante de gatos."

"Ah, então aquele saco de pulgas que eu vivo pisando na sala comunal é seu."

Ela baixou as sobrancelhas. "Bichento não é um saco de pulgas, muito obrigada."

"Bem, eu não sei se ele tem pulgas, Granger, mas vocês dois poderiam se pentear de vez em quando."

Ela se levantou. "Ei!"

Foi aí que Amorell se aproximou deles, sorrindo como sempre. "Algum problema?" Rapidamente, ela mudou de tática. "Ah, srta. Granger, eu precisava falar com você sobre o novo horário da sua sessão de terapia. Parece que eu não tenho mais horários livres, mas acho que eu posso colocar você numa sessão dupla."

Draco, curioso, observou o semblante de Granger escurecer. "Uma sessão dupla?" ela perguntou.

"Ah, sim," Amorell confirmou. "É bem simples, na verdade. Você e outro aluno terão terapia ao mesmo tempo."

"Ao mesmo...?" Granger começou, mas a professora louca já saíra para pegar sua tabela. Independentemente da infantilidade do ato, Draco deu língua e Granger franziu a testa, torcendo o nariz.

Amorell voltou e correu o dedo pela lista de datas de sessões de terapia. "Vamos ver... ahá, perfeito." Ela olhou para os dois. "Sr. Malfoy está marcado para o dia dezenove. Vai ser ótimo colocar vocês dois juntos, já que vocês já são parceiros na aula. O que vocês acham?"

Nenhum dos dois gostou da ideia, e suas vozes se sobressaíram com seus protestos. "Não! Quer dizer, não acho que seja uma boa ideia. Nós não nos damos bem e, bem –"

"Você é louca se acha que nós vamos ter terapia juntos! O que é? Acho que nós somos uma droga de casal?"

"Seria um constrangimento para nós dois. Isso não é violação de privacidade?"

"Eu preferia ter detenção com o Filch e seu alicate de dedos do que –"

"Por favor, não nos obrigue! Por favor! Qualquer outra pessoa! O Ron, por exemplo! Não, espera, o Ron não. Uhm... a Ginny! Sim, Ginny Weasley!"

"Eu nem queria fazer terapia!"

"E dia dezenove é meu aniversário, de qualquer forma. Você não me faria ir para terapia no meu aniversário, faria?"

"Seu aniversário? Pensando bem, estou dentro. Vai ser divertido arruinar o seu dia."

Amorell colocou os dedos na boca e assobiou. "Shh! Meu Deus, acho que vocês dois realmente precisam fazer terapia juntos!" Ela colocou as mãos nos quadris sinuosos, parecendo mais agitada que qualquer um em Hogwarts já a vira. "Vocês vão para a sessão juntos e, não, não violação da sua privacidade de acordo com as regras da escola. Vocês dois devem estar no meu escritório às quatro no dia dezenove. E porque é seu aniversário, srta. Granger, talvez eu leve bolos de fada para vocês dois. Certo? Certo."

Ela bateu as mãos e se virou para os outros alunos. "Leiam o capítulo três do livro e escrevam um rolo de pergaminho sobre as suas descobertas a partir dessa atividade. Estão liberados."

n/t: Viu como eu sou boazinha? Menos de uma semana pra atualizar =D Ok, tudo bem, é só pra me desculpa pelo tempo que eu geralmente demoro pra postar u.u