Capítulo 10: Cannons e Ovos

Por Marmalade Fever

A tarefa extra que Amorell inventou acabou sendo estranhamente normal. Tudo que Hermione tinha de fazer era ficar um dia a mais na escola durante as férias de inverno para uma sessão substituta de terapia de angústia, e como ela ainda não planejara o que faria no Natal, já que os pais dela iam visitar parentes distantes no território Yukon, ela imaginou que fosse melhor ficar as férias inteiras na escola. Além disso, ela nunca gostara de voar – tanto numa vassoura quanto num avião – e teria sido infernal, isso é, se um lugar tão gelado pudesse ser infernal.


"Só me ajude a colocar um feitiço de amortecimento!" Ron implorou, puxando a mão dela.

"Não, Ron."

"Por favor? Eu vou te dar um apelido bonitinho! Her-my-girl?" Ele tentou, lançando-lhe um sorriso desesperado.

Ela levou a mão à testa e balançou a cabeça. "Primeiro, nunca mais me chame disso a menos que você queira que eu te azare. Segundo... Ron, esse ovo é pra ser equivalente a uma criança, e você não vai poder simplesmente colocar um feitiço de amortecimento numa criança durante a sua vida toda. Então, não, eu não vou ajudá-lo." Ela amoleceu com o olhar desapontado de garoto e lhe deu um beijo na bochecha.

"Mas August está sendo irracional," ele disse, fazendo careta. "Ela disse que já que a culpa é minha, eu tenho que ficar com o ovo de dia, e ela fica com ele de noite, quando ela pode simplesmente colocá-lo dentro do malão do lado dela e esquecer que ele existe."

"Na verdade, o malão fica aos pés dela," Hermione corrigiu. "E, ontem à noite, ela o colocou num montinho de toalhas entre o travesseiro e a parede."

"Mas mesmo assim," ele protestou. "É fácil pra ela. Ela só precisa cuidar dele quando ela está dormindo."

"E foi você quem quebrou o ovo na aula. Não é sério que você estava jogando ele pra cima, é?"

Ron não respondeu, ao invés disso, ele a puxou para o Salão Principal, onde Harry e Ginny já estavam juntinhos sobre um prato de melão.

"Não acredito!" Isso veio de Dean, que estava sentado ao lado da amiga de Ginny, Mordrana.

"No quê?" Ron perguntou, colocando o ovo cuidadosamente num recipiente.

Dean fez um barulho de alegria e jogou uma cópia do Profeta pra ele. Quase instantaneamente, os olhos de Ron se arregalaram. "Não acredito!" Ele repetiu.

"No quê?" Hermione perguntou, tendo acabado de colocar café na sua xícara.

Ron estava mais alegre do que ela jamais o vira. "Testes!" Ele falou atropeladamente. "Na sexta! Aberto a todos! Os Cannons!" ele acrescentou, fazendo um tipo de dança de vitória no banco. "E eu vou participar!"

"Ron, vai ser no horário da aula!" Hermione repreendeu, arrancando o jornal das mãos dele para examiná-lo.

"Mas por que avisaram tão em cima da hora?" Harry perguntou, sorrindo pelo óbvio entusiasmo de Ron.

"O goleiro –"

"Oscar Gibbs!" Ron proveu.

"Declarou sua aposentadoria. Diz que ele está cansado de ser atingido por balaços," Hermione recitou. "Ron, parece um pouco perigoso."

"Ridículo," ele disse, desconsiderando-a. "Joey Jenkins melhorou muito como batedor desde quando ele fez teste de visão. E, olha –" ele apontou para uma passagem, "Galvin Gudgeon foi demitido junto. Harry, você poderia vir comigo e tentar a posição de apanhador!"

"Mas é durante a aula!" Hermione os lembrou. "E, além do mais, mesmo que você consiga uma posição no time, você ainda tem todo o resto do ano letivo pra terminar. O que você vai fazer depois de ter levado tantos balaços na cabeça quanto esse tal de Gibbs e nem tiver feito os seus N.I.E.M.'s?"

Ron deu de ombros. "Trabalhar para o George. Mas, olha, nós poderíamos conhecer o Ragmar Dorkins pessoalmente! O que você acha, Harry?"

"Eu tenho que te lembrar do seu ovo?" Hermione choramingou, sentindo o mundo todo desmoronar como talco pelos seus dedo.

"Ora, vamos!" Ron protestou. "Hermione, uma chance dessas não aparece todo dia! E... tenho certeza de que August…" Ele não terminou a frase, olhando sem esperança para a mesa da Lufa-lufa.

"A August não odeia os Cannons?" Dean perguntou. "E você, no momento?"

Ron franziu a testa. "Sim, mas... Eu vou pensar em alguma coisa." Ele cutucou o ovo. "Harry? Vamos treinar mais tarde?"

Harry concordou, embora olhasse para Hermione com apreensão. Como eles conseguiriam algum dia ter uma família se – ela congelou. Algo na sua linha de pensamento acabara de deixá-la extremamente desconfortável, exatamente da mesma forma que se sentira no trem quando Padma anunciou o casamento de Parvati e quando ela pensou que Ron fosse pedi-la em casamento.

Havia algo de errado com ela? Por que a ideia de algum dia se casar com Ron, seu namorado e melhor amigo, a faziam se sentir tão desconfortável? Ela o amava... não?

Não estava mais com fome.


Harry gemeu. "Estou tão confuso," ele disse, quando os dois subiam para a sala comunal da grifinória para encontrar com Ginny depois da aula de Transfiguração. Eles haviam deixado Ron falando com McGonagall, que não ficara muito feliz com a tartaruga que ele transformara numa fuinha ao invés de num rato-almiscarado.

"Sobre o quê?" Hermione perguntou.

"Carreiras," ele gemeu. "A vida daqui em diante." Ele olhou para ela. "Sabe, eu não estava, er, planejando o que ia acontecer depois do Voldermort. E agora..."

"Você está perdido," ela terminou a frase por ele.

"Exatamente." Ele suspirou. "E eu realmente não sei. McGonagall está decidia em me tornar o professor de Defesa Contra a Arte das Trevas no ano que vem. Ron acha que eu deveria tentar ser apanhador dos Cannons, e como eu conheço a minha sorte," ele revirou os olhos. "Eu provavelmente vou conseguir, ele não vai conseguir ser goleiro e vai me fazer sentir culpado pelo resto das nossas vidas. E tem a Ginny também." Ele lançou um olhar desesperado para a amiga.

"Que que tem ela?"

"Eu acho," ele engoliu em seco. "que talvez ela queira, er, ficar noiva enquanto ainda estamos na escola."

Hermione parou. "Como você..."

"Ela me disse o tamanho do dedo dela. Quer dizer, ela tentou parecer casual, mas... ugh. Eu a amo, eu quero passar o resto da minha vida com ela, mas–"

"É cedo demais." Algo nessa conversa cm Harry estava tanto diminuindo quanto aumentando as preocupações anteriores de Hermione. Por um lado, era bom saber que Harry não estava pronto para o próximo passo. Por outro... Ginny estava. E Ginny era um ano mais nova que ela, quase dois.

"Isso," ele concordou. "O que você acha?"

"Bem," ela começou, esquecendo dos próprios problemas por um instante, "eu acho que a pergunta que você deveria estar perguntando a si mesmo é: o que você quer?"

"O que eu quero?" Harry riu. "Quem dera fosse tão simples." Ele sorriu. "Obrigado de qualquer forma. Não é todo dia que me perguntam o que eu quero."

Ela sorriu de volta, e uma pergunta lhe veio à mente.

O que ela queria?


Ron e Harry planejaram sair logo depois do almoço na sexta e perderiam todas as aulas da tarde, que incluíam Feitiços e Poções. Eles iam ter um teste sobre os contra-feitiços da Síndrome de Wila Newt naquele dia também.

Quando Hermione acordou naquela manhã, ela se vestiu e deixou o dormitório, grogue porque Padma e Hannah discutiram sobre uma meia colocada no lugar errado até de madrugada. A pequena alcova onde ficavam as portas dos dormitórios masculino e feminino e a escada em espiral estava escuro, e ela acabara de subir três degraus quando parou abruptamente, quase batendo nas costas de Draco Malfoy. "O que– oomph!" Seus olhos se arregalaram quando ela sentiu a mão dele contra o seu nariz e seus dedos contra seus lábios.

"Shh," ele sussurrou sem tirar a mão, completamente parado. As vozes de Ron e August podiam ser ouvidas.

"Não, escuta!" August grunhiu. "Esse ovo é sua culpa e você vai se responsabilizar por ele! Isso significa que você ou fica aqui e esquece a porcaria dos Chudley Cannons ou leva o ovo com você!"

"Eu não posso levá-lo comigo! Tá maluca? E se eu for atingido por um balaço, hein?"

"Mais motivo pra você esquecer a porcaria dos Chudley Cannons! Eles são o time mais inapto, incapaz, mal treinado que eu já tive o desprazer de assistir jogar!"

"Você já os assistiu?"

"Claro que eu já os assisti! Meu tiu Fonso estava no time cinco anos atrás–"

"Fonso, o Pára-choque é seu tio!" Ron parecia à beira de um ataque. "Isso é... isso é... meu bom Merlim!"

"Afonso Moon, seu idiota. O nome não pareceu nem um pouco familiar?"

"Bem, eu–"

August grunhiu. "Ugh! Sabe, para um fã de carteirinha, você não sabe de nada!"

"Ei!"

"Aposto que você nem ao menos joga bem. Pior, acho que eles vão te dispensar antes do final do teste."

Houve um barulho conhecido de Ron batendo o pé. "Olha aqui, anãzinha!"

"Ah, você não acabou de zombar da minha altura!"

Ron balbuciou. "É, acho que zombei. Mas olha aqui, Moon. Eu aposto… eu aposto que eu não só vou conseguir entrar no time, aposto que também vou conseguir levar o ovo e não deixá-lo quebrar!"

August riu zombeteiramente. "E o que você vai apostar?"

"Eu..." Ron não terminou. "O perdedor tem que carregar os livros do vencedor por um mês."

"Quê? De jeito nenhum. Você é tão gigante que não ia fazer nenhuma diferença pra você, ter alguns quilos a mais pra carregar ou não. Não... hmm..."

Hermione trocou o peso de pé, de repente se lembrando que os dedos de Malfoy ainda estavam pressionados contra seus lábios, e ele pareceu lembrar disso também e tirou a mão. Por um longo momento, os lábios dela pareceram formigar… contaminados, talvez.

Os dedos dele eram quentes de calejados e cheiravam a sabonete de mel. Isso era surpreendente.

O som de outros dedos estalando fizeram Hermione voltar à realidade. "Já sei," August disse. "O vencedor ganha um favor. Qualquer coisa que dê pra fazer."

"Um favor?" A voz de Ron estava cheia de ceticismo.

"O quê? Com medo do meu pequenino ser?"

"Pequenino mesmo… Fechado, Moon."

"Mas olha aqui, Weasley." Ron deixou escapar um barulho estrangulado, e Hermione presumiu que August o puxara pela gravata para trazer o rosto dele pra perto do dela. "Se esse ovo quebrar, eu vou contar para Hermione o que você fez."

Hermione pestanejou. Fez? O que Ron fizera? Malfoy fez um som esquisito, algo entre um riso e uma fungada... mas não um ronco. Seria um barulho muito indigno para o a majestosa família da Má-fé.

Ron gaguejou. "Não faça nada sem pensar!"

E, é claro, esse tinha que ser o exato momento que Harry saía do dormitório masculino e cutucava Hermione nas costas. "Qual é o problema?"

"Nenhum, nenhum," Hermione sibilou, se sentindo constrangida por estar espionando e um pouco chateada por não ter descoberto o que Ron estava escondendo.

Pelo jeito, ele provavelmente quebrara uma regra da escola ou fizera algo de ruim para um elfo doméstico.

O som da voz de Harry fez Ron e August se calarem imediatamente, e Hermione empurrou Malfoy sem força para fazê-lo subir as escadas. Só Merlim sabia o que o fizera se interessar tanto pela conversa.


Draco mal podia acreditar. Ele tinha agora a melhor informação para chantagear o Weasley. Nos poucos minutos antes de Granger aparecer, ele ouvira a coisa mais interessante.

Weasleu beijara Moon "acidentalmente" no começo da semana.

Ele não conseguiu entender como podia ser acidental. O Weasel teria que diminuir pela metade para pelo menos chegar à altura dela. A história envolvia uma fuinha em fuga e o Weasley tropeçando nos próprios pés enormes e pousando bem em cima da 'Enina Moon.

A boca dele pousando na dela.

A situação inteira era de roncar de rir, e Draco não roncava.

E a melhor parte da situação, a parte mais doce da coisa toda, era que o Weasley não queria que Granger descobrisse, apesar da inocência do caso, o que sugeria que talvez não tivesse sido tão inocente assim. Talvez pensamentos indecentes estivessem passando pela cabeça do ruivo sobre os quais a traça-de-livro não deveria saber.

Era bastante engraçado. Moon não era exatamente a garota mais bonita da escola. Ela era sem graça – bem mais sem graça que a Granger. O cabelo dela era castanho escorrido de um corte sem graça que batia nos ombros e o nariz dela o lembrava de um cubo. Ela era totalmente esquecível, motivo pelo qual ele nem prestara atenção nela antes daquele ano... além de ser uma lufa-lufa.

Os lábios de Moon também não eram beijáveis.

Os lábios da Granger, por outro lado– Draco literalmente parou enquanto caminhava para o Salão Principal.

Três minutos antes, ele estivera sendo beijado na mão por Hermione Granger.

Os seus dedos tocaram os lábios de Hermione Granger.

E a ideia de entrar no banheiro mais próximo e lavar as mãos nem lhe passara pela cabeça. Só agora, flexionando os dedos que tinham um pouco de brilho labial refletido pelo luz do castiçal mais próximo, que Draco parou para considerar se era necessário fazer uma parada para lavar as mãos ou não.

Se ele pudesse usar sua varinha, ele sem dúvida limparia os dedos e pronto. Mas como não podia... lavar ou não lavar? Ele se importava? Não se sentia sujo, pelo menos, não como ele deveria se sentir.

Ele se sentia, se atrevia a dizer, quase fascinado? Que ideia! Fascinado pela concepção dos lábios de Hermione Granger. E daí se eles eram macios? E daí se a respiração dela parecera gentil e úmida contra a palma da mão dele?

Era só que ela era uma garota, e ele estava sendo guiado por hormônios adolescentes.

Não tinha nada a ver com mãos contra lábios e beijos santos, ou aquela coisa que a professora de Estudos Trouxas recitara muito alto nas masmorras da Mansão Malfoy antes de morrer.

Ele fez uma careta continuando andar e passando pelo banheiro masculino. Aquelas eram memórias que ele preferia destruir.


Hermione passou a tarde inteira mal humorada enquanto esperava Ron e Harry voltarem, e o fato de August e Malfoy ficarem lançando olhares esquisitos para ela não estava ajudando. Ela presumiu que o motivo de August era está mantendo um segredo. O que Malfoy estava pensando era um enigma que ela não tinha energia suficiente para resolver.

Eram oito e meia da noite quando a porta da sala comunal dos oitavanistas abriu, e Ron e Harry entraram, ambos enlameados e parecendo irritados. A princípio, Hermione imaginou que aquilo significava que nenhums dos dois conseguira entrar no time, mas então ela percebeu que eles estavam sendo seguidos pela Murta.

"Não é justo," a fantasma gemeu. "Por que vocês todos estão aqui? Esse foi o meu leito de morte. Meu!"

"Ora, pare de amolar, ok?" Ron disse. Ele afundou na poltrona, resmungando. "Tô acabado."

"Desrespeito! Mas por que alguém me respeitaria? Ninguém nunca respeitou. Ninguém…" E então a Murta rompeu em lágrimas antes de dar duas voltas em torno da sala e desaparecer pelo quadro do diabinho.

Inabalável, August se virou para Ron. "Então, como foi?" Ela tinha uma sobrancelha levantada.

Ron deu de ombros, e Harry se deixou cair perto da lareira. "Fui chamado para mais teste." Isso veio de Harry.

Hermione não tinha certeza se deveria ficar aliviada, feliz ou consolar Ron. Ela se decidiu por um pequeno sorriso de apoio.

"E você?" August perguntou.

Ron deu de ombros de novo, esfregando os olhos. "Eles apenas disseram que eu era o melhor goleiro que eles tinham visto num teste em cinqüenta e quatro anos. Só isso." E, de repente, a expressão cansada no seu rosto fez uma volta de trezentos e sessenta graus e virou uma de absoluto triunfo.

"Então…" Hermione disse, confuse pela sua própria calma. "você foi chamado pra outro teste?"

Ron gargalhou. "Eu fui chamado para outro teste, Harry?"

Harry balançou a cabeça, se afundando ainda mais no tapete no chão. "Não."

"Eu consegui!" Ron gritou sorrindo maniacamente. "Você deveria ter visto! Eu pensei que eu fosse ficar nervosa, mas não fiquei nem um pouco. Até fiz um movimento incrível que eu saí cortando pelos aros e dei uma cabeçada na goles, e eles disseram que queriam nomeá-lo de Weasley Wiggle! Eu estava pegando fogo! Teve uma hora que eu rebati a goles com rabo da vassoura e ela fez um gol do outro lado do campo!"

Hermione o assistiu e ouviu pacientemente durante uma hora enquanto Ron continuava a sua história, gesticulando largamente para ilustrar seus movimentos.

Ela ainda não tinha certeza se ele percebera o que aquilo significava exatamente. Ele perderia muitas aulas até o final do ano por causa de treinos e jogos. Ela duvidava que ele fosse capaz de acompanhar. E mais cedo ou mais tarde ele provavelmente acabaria caído depois de um balaço espancá-lo.

Quando a história de Ron finalmente terminou, ele se levantou, espreguiçou-se e se dirigiu para as escadas.

Seu bolso traseiro tinha uma mancha de ovo amarela como um girassol no adubo.


n/t:

Olá! Eu tenho duas notícias, uma boa e outra ruim. A ruim é que essa, provavelmente, vai ser a última atualização por um bom tempo. Acho que vou demorar pelo menos um mês para atualizar de novo. Eu já estou me desculpando por antecedência =D É que eu vou viajar na semana que vem e quando voltar as aulas da faculdade já vão ter começado. Ah! E essa é a notícia boa que eu tinha esquecido de dar antes, eu passei no vestibular e não vou precisar fazer cursinho =P O que teria sido ruim, porque eu não ia ter tempo nenhum pra traduzir. Outra coisa! Obrigada por todas as reviews e encorajamento ^^