Capítulo 14: Falar É Fácil, Mãe
Por Marmalade Fever
Harry chegou no Salão Principal alguns dias depois parecendo irritado e desarrumado. "Ele ainda não saiu de lá," ele murmurou, sentando-se ao lado de Ron.
Ron deu de ombros. "Eu finalmente decidi ir a outro banheiro. Por que será que ele demora tanto?"
Dean bocejou. "Eu consegui tomar banho, mas tive que acordar quase de madrugada."
O cérebro ainda ligeiramente dormente de Hermione já fizera os cálculos necessários para deduzir que Malfoy estivera ocupando o banheiro por muito mais tempo do que qualquer um dos seus companheiros de quarto gostariam. Melhor assim. Ela realmente preferiria se ele ficasse longe dela por quanto tempo fosse possível.
O
Draco estava em crise. Tá, talvez "crise" fosse uma palavra forte.
Seu tubo de gel estava vazio. Ele nem podia culpar o Weasley dessa vez, porque o gel já estava acabando há dias e ele finalmente chegara ao fim. Geralmente, ele teria comprado mais em Hogsmeade ou teria pedido para sua mãe mandar mais gel por coruja, mas já que nem um dos dois podia sair em público, suas opções estavam bastante limitadas
Era final de semana de Hogsmeade para alunos do terceiro ao sétimo ano. Os oitavanistas, com exceção de Draco, é claro, poderiam ir para a a vila quando quisessem.
Então, a menos que ele quisesse desperdiçar energia fazendo pedido por catálogo, era melhor encontrar alguém trazer gel pra ele hoje.
Ele arrumou o cabelo da melhor forma possível antes de se lançar nos corredores. Ele passou por um corvinal do primeiro ano e uma grifinória do segundo antes de, finalmente, dar de cara com um sonserino do terceiro ano.
"Ei, você!"
O garoto tinham uma daquelas caras de galinha com acne. "Quê?"
"Tenho uma proposta pra você."
Cabeça-de-Galinha teve a indecência de parecer entediado. "O que é?"
Draco enfiou a mão na mochila e tirou um pedaço de pergaminho e uma pena para escrever um bilhete. "Vá para Hogsmeade e traga isso pra mim."
O garoto levantou uma sobrancelha—não muito bem, Draco notou—e deu as costas para ele.
"Ei!"
"Que é, Malfoy? Você vai me ameaçar? Sem nem ter uma varinha? Que idiotice. Eu tenho uma varinha bem aqui, então, vaza."
Draco piscou. "Perdão?"
O garoto mais novo sorriu com escárnio e fez um feitiço simples, mas irritante que amarrava os cadarços de Draco um no outro, e depois foi embora, girando sua varinha como se fosse um bastão.
Poderia ser pior. Bem pior. Pelo menos esse feitiço ele conseguia desfazer sem precisar de uma varinha. Ele se escorou na parede da forma mais suave possível—o que foi difícil, considerando sua situação—e se curvou para desamarrar o nó.
Então, aparentemente, ele não podia simplesmente obrigar um aluno mais novo a fazer o que ele queria. Suborno era uma possibilidade, mas gastar seus preciosos galeões não era a sua forma favorita de conseguir as coisas. Ele poderia precisar daqueles galeões mais tarde, especialmente considerando que ele não podia sair para ir a Gringotes tirar dinheiro.
O que ele precisava era de alguém em que ele pudesse confiar, mas ele estava com uma deficiência no departamento de amizades nos últimos tempos.
Havia a possibilidade de Astoria Greengrass ajudá-lo, mas o prospecto parecia duvidoso. Ela estivera muito sensível desde quando ele a rejeitara no último final de semana de Hogsmeade, e ele preferia que ela não começasse a espalhar a conclusão que ela chegara sobre ele e Granger.
Granger. Quando ele parava pra pensar, ela era a única que ele conseguia imaginar que poderia convencer a colocar mais um item na sua lista de compras sem a necessidade de suborno, chantagem ou ameaças.
Mas pedir resultaria em uma série de suposições da parte dela.
Ele a estivera evitando desde segunda-feira. Sua decisão idiota de fazer o que quer que ele tinha feito com seu dedão teve conseqüências nada agradáveis.
Não havia nenhuma possibilidade que ele gostasse dela, achasse que ela era bonita ou qualquer uma dessas coisas bregas e ridículas que significam "ruína" escrita em coraçõezinhos vermelhos e rosas.
Não havia nada de mais no fluir de hormônios que passava por ele quando ele olhava na direção da cabeça encaracolada dela.
Seria tolice pedir que ela comprasse gel pra ele, então ele não pediu.
O
Hermione se sentia incrivelmente desconfortável a caminho da sala de Amorell na segunda, e não ajudava o fato de Ron estar alguns passos a sua frente ou de Malfoy parecer ter abandonado seu gel de cabelo depois de oito anos de uso constante.
"Dança? A gente vai dançar?" Ron perguntou, olhando para Harry para confirmação.
Harry deu de ombros. "Você tem sorte de ter perdido a aula da semana passada. Hermione parecia que ia morrer." Ele se virou para dar uma piscadela para ela, mas ela se sentia muito enjoada para sorrir para ele.
Ron levantou as mão para colocá-las atrás da cabeça. "Por quê?"
"Nós estávamos fazendo a quadrilha bruxa tradicional, e Hermione", ele soltou uma risada, "teve que ficar de mãos dadas com o Malfoy."
Ron estourou em risadas, sem nenhuma simpatia pelo sofrimento de Hermione. "Tomara que você não tenha pegado nenhuma doença. A doninha deve ter te dado raiva."
Ela não se deu ao trabalho de informá-lo que raiva não poderia ser passada por ficar de mãos dadas. Mordidas, sim, e, em casos raros, beijos, mas eles não precisavam falar nisso, ela decidiu.
Ron parou de rir. "Isso quer dizer que eu vou ter que dançar com a August?" Ele franziu o nariz e desviou os olhos de Hermione, corando levemente.
O babaca.
Eles foram os primeiros a chegar, mas parecia que Amorell já tinha arrumado a sala. As carteiras estavam contra a parede e dois banners, um dourado e um azul, se cruzavam vindo de cantos opostos. Só faltava uma mesa com ponche e uma esfera de discoteca.
Dean apareceu em seguida, usando uma erva esquisita com uma enorme flor de pêssego no buraco do botão. "Luna me fez usar para 'repelir os avanços da Padma.'" Ele revirou os olhos. "Tem cheiro de leite azedo."
"Hm. Deve funcionar, então," Harry respondeu, sorrindo ligeiramente.
Hermione sentou para esperar, se sentindo cada vez mais enjoada, e tentar se concentrar em outras coisas, como os erros de Luna.
Malfoy foi o último a chegar, quase ficando pra fora. A professora psicótica estava usando roupas trouxas que consistiam em calça com boca de sino, saltos plataforma e um casaco natalino.
Pra variar, Amorell não falou nada, só foi para o canto da sala para ligar o fonógrafo. Uma música desconhecida de rock bruxo começou, e se a careta de Hannah fosse alguma indicação, não era uma música muito popular.
"Você transfigurou meu coração, sua bruxa astuta. Wilhemina, ele virou pedra! Ba-da-dum-bum-bum!" era seguido por uma série de sons de 'pop' estranho e um refrão tão rápido que não dava pra saber se tinha letra ou não.
"Bem, comecem," Amorel disse quando todos permaneceram parados.
Dean e Padma começaram a dançar, embora ela estivesse com uma expressão no rosto que sugeria que a erva estava funcionando, embora fosse completamente desnecessária. Padma, Hermione descobrira, desistira de garotos desde o casamento de Parvati.
Harry e Hannah estavam dançando atrapalhadamente com meio metro de distância entre eles, as pontas dos dedos encostados nos ombros um do outro enquanto conversavam educadamente.
Ron e August não estavam se tocando, mas também não estavam exatamente dançando.
O que deixava Hermione sentada mal-humorada no chão enquanto Malfoy ia em direção a ela com a velocidade de uma tartaruga. "Bem?" ele disse, quando finalmente chegou perto dela.
Ela gemeu. Não tinha jeito. Se a nota dela dependia que dançasse com ele, então que fosse. Ele não fez nenhum movimento para ajudá-la a se levantar, não que ela esperasse isso dele, então ela se levantou sozinha e tirou a poeira da saia antes de encarar sua destruição.
A música terminou com um som arranhado, tipo abelhas e grilos se esbarrando dentro de uma secadora, e outra música começou. Essa era um pouco melhor em relação a eufonia, mas pior em outro aspecto. Era uma música lenta—que requeria dança lenta.
Nenhum dos dois desviou os olhos.
Era estranho, o cabelo dele. Por muitos anos, o gel fora um paralelo com a atitude ele: rígido. E a forma que ele era antes, lambido pra trás e tão liso, mechas duras, enfatizava seu queixo pontudo, como ela notara antes quando Ron roubara seu gel.
A falta de gel fazia ele parecer mais suave, um pouco mais humano e menos como estátua de mármore.
Uma mão encostou em seu ombro.
O
Draco olhou para o rosto alegre da professora Amorell e desencostou seu ombro da mão dela. Granger estava com a cara de quem queria fazer a mesma coisa. "Algum problema? A música começou," ela checou o relógio, "há três minutos e meio, e vocês dois ainda não requebraram, rebolaram, rodopiaram ou imitaram algo semelhante a uma galinha. Algo de errado?"
Ele pagaria cem galeões na hora pra Granger fingir que tinha torcido tornozelo, ele desejou com todas as forças que ela o fizesse.
E, então, um milagre aconteceu.
"Eu… não me sinto muito bem, professora. Eu acho que eu vou sentar m pouco," Grange disse. Ele percebeu que ela estava procurando uma desculpa, mas ela realmente estava meio verde. Ele se perguntou se tinha algo a ver com aqueles doces dos gêmeos.
Ele se viu falando antes que pudesse pensar. "Eu poderia levá-la à enfermaria se você quiser, professora Amorell." Ele realmente tinha se oferecido para fazer aquilo? Ele tinha enlouquecido, com certeza.
O sorriso de Amorell se alargou perigosamente. "Muito bem. Vocês dois vão acabar tendo que dançar juntos de qualquer forma."
Draco parou e franziu a testa, e o rosto de Granger tomou uma expressão confusa—ou de náusea, uma das duas. "O que quer dizer com isso?" ele perguntou, nem tentando parecer educado.
"Ora, no seu casamento, é claro." Não havia nada na voz dela que indicasse que ela estava brincando.
Granger levantou a mão a boca, fosse em horror ou para não vomitar. "O quê?" ela gemeu, parecendo horrorizada.
"Onde você ouviu essa," ele usou uma palavra que em normalmente o teria mandado direto pra detenção.
Amorell pareceu confusa. "Quer dizer que vocês não estão prometidos?"
A risada que escapou seu lábios não tinha nada de alegre. "A minha família? Me fazer casar? Com ela? Você tá louca?" Bem, ele já sabia a resposta pra essa pergunta.
"Eu devo ter interpretado mal o que a Sybil disse, então."
"Espera!" A expressão no rosto da Granger havia mudado para algo que parecia raiva, e ela falou lentamente, como se para penetrar um crânio muito duro. "O que a professora Trelawney disse?"
Amorell sentou em uma das carteiras que estavam contra a parede. "Ela disse que vocês dois iam casar. E eu presumi que, porque vocês não se dão muito bem, a idéia não tivesse partido de vocês." Ela pausou. "Seus filhos seriam adoráveis, sabia."
Não, ele não sabia de nada disso. Esse ano estava completamente fora de controle, como se houvesse uma enorme trama para juntar os dois.
Ele estava prestes a perguntar sobre que ele vira no cristal antes, quando Granger vomitou.
Amorell pareceu alarmada. "Leve-a para a enfermaria logo, por favor, sr. Malfoy."
Bem, parecia uma opção melhor do que ficar do lado de uma poça de vômito, ouvindo música fora de moda. Eles saíram da sala, Granger ainda parecendo enjoada, e foram na direção da enfermaria. Passou pela cabeça dele que ele deveria fazer um comentário sobre ela ficar distante dele para não infectá-lo, mas ele não fez. Ao invés disso, algo bem diferente saiu da boca dele. "Você tá bem?"
"Provavelmente só estou nervosa e com nojo," ela murmurou. "Sem ofensa," ela acrescentou, olhando para ele rapidamente.
"Nenhuma." Um pequeno sorriso ameaçou aparecer no rosto dele, mas ele resistiu. Eles ficaram em silêncio por um longo momento.
Era estranho ficar em silêncio amigável, mas esse era o menor dos seus problemas.
A cor estava voltando para o rosto da garota, mas ela ainda estava mordendo o lábio. "Olha—Eu." Ela parou. "O que quer que tenha acontecido na semana passada não pode ser repetir, está claro?"
"Como cristal." O que era irônico já que bolas de cristal não eram muito claras, pra falar a verdade.
"Mas"— e para a surpresa dele, ela corou—"não é por sua causa, exatamente. Eu só não posso deixar aquela, aquela vaca ganhar."
"Entendido."
Madame Pomfrey fez suas perguntas de rotina enquanto Draco ficava perto da porta, fingindo não ter acompanhado Hermione Granger até lá, como um bom cidadão ou pior, um grifinório.
Granger desceu da cama e recebeu um pequeno vidro com poção. Ela agradeceu a enfermeira antes de se dirigir à porta, por onde Draco saiu rapidamente. "Ela disse que tem algo a ver com nervosismo e reação alérgica àquela erva fedorenta do Dean," ela explicou, se dirigindo para onde Draco ficou alarmado em perceber era a sala de aula.
"Não está carregando o filho do Weasley, então?"
Ela revirou olhos. "Não."
Isso o aliviou… bem, era mais do que só a sua objeção a existência de mais um Weasley no mundo.
Ele não se deu ao trabalho de falar que eles poderiam matar o resto da aula sem entrar em encrenca, pois ela não o escutaria de qualquer forma. Ela não parecia do tipo que mata aula a menos que o próprio Lorde das Trevas estivesse por perto. Ele talvez conseguisse convencê-la se ele a lembrasse que haveria outra música tocando quando eles voltassem, mas isso não parecia tão interessante.
Do lado de fora da sala, Granger pegou abriu o frasco e bebeu a poção, fazendo uma ligeira careta.
"Que delícia, hein?"
"Ha ha," ela respondeu e passou por ele antes de abrir a porta da sala e entrar.
Não faltava muito pra acabar a aula, mas ainda era demais para seu gosto.
O
A música que estava tocando estava no final, mas era trouxa e Hermione reconheceu quase imediatamente. "Love the One You're With" do Crosby, Stills, Nash & Young. Que ótimo, ela pensou, olhando para os três casais.
Ron não parecia ter notado que ela voltara, e ele e August haviam ido de não se tocar em parte alguma para colados um no outro. Dean e Padma estavam dançando um mistura de swing/tango. Harry e Hannah estavam mais ou menos na mesma posição de antes, ainda parecendo educados, amigáveis e calmos.
Desta vez, uma mão a segurou pelo cotovelo quando outra irreconhecível música bruxa lenta começou. E não era a mão da Amorell, dessa vez. Era a do Malfoy. "Vamos acabar logo com isso," ele murmurou.
Hermione deu uma olhada para Ron e August, que pareciam não notar nada que ela e Malfoy fizessem. Ela se voltou para o loiro e assentiu, colocando os braços em torno dos seus ombros, e as mãos dele ficaram na sua cintura.
O
Draco se sentiu rígido e constrangido no início, mas começou a relaxar com o passar do tempo. Eles não estava olhando um para o outro, mas isso era o que acontecia quando você dançava música lenta com quem quer que fosse.
Era agradável, ele admitiu para se mesmo. Era agradável tê-la em seus braços. Era agradável ter contato com outro ser humano, pra falar a verdade.
E conforme os efeitos colaterais da poção dela começaram a aparecer, a cabeça dela caiu no ombro dele e ela descansou, uma sensação quente passou por ele. Ele sorriu com arrogância para o Weasley, que finalmente se separara de August, que estava reclamando sobre mãos suadas.
Ele percebeu algo. De alguma forma estranha e bizarra que ele não conseguia explicar, Hermione Granger o fazia feliz.
O que era mais estranho ainda era que a mãe dele tinha até mesmo dado permissão para ele ir atrás da sua felicidade, se ele quisesse.
O que quer que você ache que vai te fazer feliz, não tenha receio em pegar.
É fácil falar, mãe.
N/T: Geeente, desculpa a demora, mas a faculdade está acabando comigo! Acabei de entrar de férias, mas vou viajar semana que vem. Provavelmente só postarei de novo no começo de agosto.
