Capítulo III

Marlene sorria enquanto Lily ajeitava seu vestido, as mãos trêmulas de ansiedade diante do desafio daquela noite. O cômodo de luxo, exclusividade da cantora principal, havia sido preparado para ela, e enquanto mirava seu próprio rosto no espelho decorado, a garota mal conseguia acreditar que tinha chegado àquele ponto.

- Vamos? – Madame Potter apareceu, empurrada por James. Ao olhar a velha amiga pronta para cantar, o jovem piscou.

- Está estonteante. Todos vão amar.

Sorrindo de nervoso e ajudada por Lily, Marlene subiu as escadas até o palco, onde apenas uma cortina de veludo a dividia do público em massa que fora assistir. Engoliu em seco, e as amigas trocaram um olhar.

- Eu sei que vai se sair bem.

- Sou só uma bailarina. – choramingou Marlene, mas James apareceu e riu.

- Se fosse só uma bailarina não estaria aqui. Vamos, você parece uma fada. É só cantar.

- Meu anjo está assistindo. – comentou, mas os assistentes já abriam a cortina. Só teve tempo de dar um passo para frente, e assim que abriu a boca, a música fluiu, assim como ele havia dito que iria.

Enquanto Marlene cantava, a agitação se instaurava na cabine dois, onde o Conde estava. Nunca tinha reparado naquela mulher, quem era ela?

- Armand! – chamou com os dedos, e um jovem magricelo e pálido apareceu como mágica ao seu lado. – Descubra quem ela é.

- Oui, Monsieur.

Lestrange voltou seu olhar ao palco novamente. Marlene era uma musa, uma diva. Ela vai se sentir honrada, pensou com orgulho, por ter chamado a atenção de um homem como eu. É uma raridade achar alguém assim no teatro, riu com desdém.

- Monsieur, ela era bailarina. Donna Emmeline sofreu um pequeno acidente, e ela foi chamada.

- Vai estar na sala principal, então?

- Sim. Já mandei comprarem um buquê para ela.

- O maior, eu suponho. Conde Lestrange não economiza para agradar uma mulher.

- Claro, Monsieur.

- Assim espero.

XXX

As cortinas se fecharam, e Marlene saiu como se flutuasse, num sonho muito bom para ser verdade. Não desafinara, não tropeçara. Tudo dera tão certo que parecia impossível. Enquanto voltava para o camarim não conseguia refrear um sorriso, e se assustou quando, esperando dentro de seus aposentos, estava Conde Lestrange.

- Monsieur! – se sobressaltou enquanto fazia uma mesura ao nobre, que sorriu satisfeito.

- Srta. Mckinnon, sim?

- Sim.

- Estava estonteante. – o homem se ergueu da poltrona fofa, sorrindo maliciosamente. Marlene sorriu de volta por educação, mas não estava entendendo como aquele homem fora parar ali.

- Obrigada, Monsieur. Se me permite, algo em especial o traz aqui ou só veio para dar-me os parabéns?

- Você me traz aqui, Senhorita.

- Eu?

- Claro.

- Oh, Monsieur...

- Não fale nada, Mademoiselle. – Conde Lestrange sorriu, tirando um buquê imenso de flores vermelhas e brancas detrás da poltrona. Marlene arregalou os olhos, e logo as flores estavam em seus braços.

- Espero que considere um convite para jantar comigo, minha cara. – ofereceu, e Marlene se sentiu obrigada a aceitar. Afinal, era o patrono da ópera que estava convidando, não um estranho qualquer. Diante da afirmativa sem palavras da moça, o conde se retirou. Sentindo-se perdida e confusa, Marlene colocou as flores sobre a penteadeira, para depois se olhar no espelho. Como mágica, sua imagem se tornou a figura encapuzada que ela conhecia bem. Entretanto, não era o homem gentil e misterioso que a aguardava. Era uma fera.

- Quem ele pensa que é? – vociferou o Anjo, passando por dentro do espelho como se este fosse vapor. – Homem insensível à arte, cego de riqueza! Quem ele pensa que é, como ousa se aproximar de você!

- Anjo... – murmurou Marlene, a cabeça baixa. Diante do arrombo de raiva dele, sentiu-se culpada por ter aceitado as flores. – Anjo...

- Você é minha. – completou o homem, a cabeça muito baixa para que a garota discernisse uma expressão. – Você é minha. MINHA!

Num impulso, Marlene sentiu ele se aproximar, e quando estavam a centímetros de distancia, o capuz caiu. Para sua surpresa, a visão de seu "anjo" fez com que a imagem pura que tinha dele se dissipasse. Era um homem bonito, os cabelos quase nos ombros tão negros quanto os seus, e os olhos penetrantes e frios cor de gelo a encarando, um deles por trás de uma máscara. Quando ergueu a mão para tirá-la, o aperto forte dele a reprimiu. Marlene sorriu e começou a cantar:

- Em meu sono cantou para mim, em sonhos veio até mim... Essa voz que chama por mim, e fala meu nome...

O fantasma sorriu, beijando as costas de sua mão e a puxando para si.

- E se eu sonho novamente, agora eu sei... O fantasma da ópera está... Em minha mente.

- Cante só mais uma vez comigo, nosso estranho dueto. – sussurrou o fantasma em seu ouvido, causando um arrepio em sua espinha. Quando viu, estava sendo tragada para dentro do espelho, que tornou a se dissolver como água enquanto passava. A moça não via mais nada além do rosto dele, aqueles olhos hipnotizantes que tinha... – Meu poder sobre você, mais forte fica... E se você se volta de mim, para olhar ao longe... O fantasma da ópera está lá, dentro de sua mente.

O chão se tornou úmido, e depois molhado.

- Aqueles que viram seu rosto, afastaram-se em terror. Eu sou sua máscara... – suspirou, sequer notando que tinha embarcado num barco.

- Sou eu a quem escutam. – o hálito quente dele perfurou seus ouvidos como uma lâmina, e Marlene sentiu suas vozes se tornarem apenas uma. – Meu espírito e sua voz, a combinar... O fantasma da ópera está lá, em sua mente.

- Está lá, o fantasma da ópera. – Marlene sentiu as pálpebras pesadas, e só voltou a cantar quando a ordem veio:

- Cante, meu anjo da música, cante para mim...

Marlene parecia ter acordado de um sonho, e se viu numa espécie de ilhota transformada em aposentos distintos, sendo a figura principal um grande órgão antigo. O fantasma a aguardava na divisória de água e terra, e a moça não teve outro pensamento senão segurar a mão que ele lhe estendia. Subitamente notou que estava ali, só com ele e a água dos lençóis subterrâneos da ópera.

- Lindo, não? – sugeriu ele, olhando em volta de seu santuário.

Marlene colocou a mão em seu rosto, não acreditando que aquele que estivera treinando suas notas era apenas alguns anos mais velho que ele, e tão bonito que se sentia uma pecadora apenas por olhar a figura imponente que ele fazia.

- Deve estar cansada. – o fantasma disse, como se a lucidez o tivesse acometido naquele exato instante. Marlene apenas assentiu com a cabeça, e sentiu-se atraída para uma cama de dossel.

- Pode descansar, ainda vou tocar um pouco. Ah! Tomei a liberdade de comprar um vestido de dormir para a senhorita. Procure no baú.

Sonolenta demais para perguntar como ele sabia que ela dormiria ali, Marlene trocou de roupa atrás de um biombo ao lado da cama, deitando debaixo das macias cobertas, mas não dormindo imediatamente. Do outro lado da ilhota viu o "fantasma" tirar a camisa, revelando um peito com cicatrizes, mas definido o suficiente para fazê-la sentir que precisava dele. Logo em seguida, o homem se jogou no sofá com descaso, se cobrindo com um lençol próximo. Antes de dormir, Marlene sentiu-se mais em casa do que jamais estivera em lugar nenhum, inclusive naquele camarote cheio de luxo que teria a aguardado no teatro.