A Intriga da Rainha
Autora: Bárbara Cartland
Adaptadora: Hithi
Esse livro não é de minha autoria assim como os personagens nele presentes. Somente faço a adaptação de uma historia fantástica para vocês.
CAPÍTULO I1876Encontrei um rei para você — informou o grão-duque Halle à mesa do breakfast.
Sua filha, Jessica, fitou-o com olhar inquiridor.
E quem é ele? — indagou.
Não foi tarefa fácil — replicou o pai. — Como você bem sabe, reis disponíveis para casamento são raros nesta parte do mundo e eu já estava perdendo as esperanças.
Ele fez uma pausa, como se esperasse aplausos.
Então, como nenhuma de suas filhas se manifestou, o grão- duque prosseguiu:
Tenho comigo uma carta do primeiro-ministro de Arramia contando que o rei Emmett concordou em se casar para unificar os dois países.
O rei Emmett? — exclamou a princesa Jessica. — Por Deus, quem é ele?
Jessica era a filha mais velha do grão-duque por questão de cinco minutos. No ano anterior ela protestara sem cessar a respeito de contrair núpcias.
Sentada ao lado de sua irmã Rosalie à mesa do breakfast e de frente para o pai, qualquer observador que as olhasse acharia inacreditável que pudesse existir no mundo duas criaturas tão parecidas.
Era comum que pessoas gêmeas se parecessem, porém as duas princesas eram idênticas em todos os aspectos.
Mas isso só no que dizia respeito à aparência.
Quanto à personalidade, no entanto, as duas eram totalmente diferentes.
A princesa Jessica viera ao mundo primeiro, nunca deixando que seu pai e irmã se esquecessem desse detalhe.
Era ambiciosa, tendo a firme determinação de que um dia se tornaria rainha.
Jamais escondera de ninguém que se ressentia pelo fato de o país onde viviam ser tão pequeno, apesar de muito bonito.
Localizado entre as fronteiras da Romênia e Bessarabia, Kessell conquistara sua independência somente porque o grão- duque era russo.
Tio do primeiro czar, ele era um homem autocrático e refinado.
Sempre tomava suas próprias decisões, exceto quando diziam respeito à Jessica.
A família costumava afirmar que Jessica era a filha que mais se parecia com ele quanto ao caráter, enquanto Rosalie tinha todas as características da mãe, que fora inglesa.
A grã-duquesa morrera há dois anos.
A princípio, o grão-duque ficou bastante consternado com a perda da esposa.
Não demorou muito, porém, para que ele conhecesse ladies charmosas nos arredores do palácio onde vivia.
Ele governava o país com mãos de ferro, envoltas, contudo, em luvas de pelica.
A mesma autoridade ele exercia sobre o palácio, mas nunca sobre a filha Jessica.
Estou quase com vinte anos, papai — ela costumava dizer uma dúzia de vezes por dia —, e já é hora de você cumprir seu dever de me encontrar um esposo.
Não é tarefa fácil, já lhe disse! — argumentava o grão- duque, consternado.
Não posso permanecer neste palácio pelo resto de minha vida! — queixava-se ela. — Não há nada a fazer aqui e os homens que você convida em geral já estão com os pés na sepultura.
Não era justo, porém Jessica usava de todas as armas para demonstrar ao pai que não esqueceria aquele assunto.
O grão-duque lançou para Rosalie um olhar melancólico, indagando-se como duas irmãs gêmeas podiam ser tão diferentes.
Rosalie jamais se queixava e parecia bastante feliz montando puros-sangues procedentes da Hungria.
Parecia apreciar os passeios pela floresta e jardins e manter diálogos com os criados que lá trabalhavam.
Eles a adoravam, da mesma forma como adoravam a mãe dela, como bem sabia o grão-duque.
Acho que você se sente feliz neste país porque tem sangue inglês nas veias — costumava argumentar ele. — Sua irmã, no entanto, deseja viajar para outras cidades e países.
Eu adoro este lugar, papai — replicava Rosalie.
Ela também era obrigada a ouvir a irmã gêmea pedindo com insistência ao pai para irem até Viena ou visitar o rei da Romênia.
Por que teremos sempre de viver confinados neste buraco — vociferava Jessica — sem nada para fazer e sem ninguém que nos admire?
No entanto, havia muitas pessoas que admiravam as duas jovens.
Mas Rosalie sabia que a irmã desejava elogios de homens elegantes e corteses com quem pudesse dançar ou, no caso de serem ricos e donos de títulos, se casar.
A dificuldade residia no fato de que o grão-duque não gozava de muita importância entre os soberanos da Europa.
Os fidalgos interessavam-se apenas pelas filhas dos reis que viviam nos países circunvizinhos.
Também davam preferência por mulheres que tivessem certo grau de parentesco com a todo-poderosa e soberana rainha Vitória da Inglaterra.
A grã-duquesa era prima da rainha, porém bem distante. E foi por essa razão que o grão-duque pôde se casar com ela.
Ele se apaixonou perdidamente pela linda jovem e por isso resolveu desposá-la a todo custo, ainda que isso resultasse em um casamento morganático.
O casal foi bastante feliz no pequeno principado que, como Jessica dissera certa vez em tom de escárnio, não era maior do que a ilha de Wight.
No entanto, após tanta insistência, o grão-duque encontrou um rei para Jessica.
— Não me parece que ele seja assim tão importante! — comentou Jessica com o rosto entre as mãos e os cotovelos apoiados na mesa.
Ao fitá-la, o grão-duque concluiu que seria impossível que alguém não a achasse encantadora.
"O rei", pensava ele, "deverá se sentir bastante satisfeito, por ter Jessica como esposa."
O grão-duque tinha consciência, porém, de que o dote que oferecia à filha não era em nada semelhante àqueles concedidos pelos soberanos de países maiores e mais importantes.
Eu não conheço o rei Emmett — informou ele —, mas ouvi dizer que é um homem elegante e bastante inteligente. Seu reino é pequeno, porém importante, e situa-se entre a Albânia e a Grécia. Dizem também que ele ajudou na conquista da independência desses dois países.
Não acredito que o país dele seja assim tão importante — argumentou Jessica. — Jamais vi tal reino no mapa.
Quer que eu providencie um? — indagou Rosalie com voz calma.
Não há pressa — foi a resposta de Jessica. — Vamos ouvir o que mais papai tem a dizer a respeito do rei.
O grão-duque hesitou por um momento.
O chanceler — declarou ele então após uma pausa — encontrava-se em Arramia no ano passado. Foi ele quem discutiu com o primeiro-ministro a respeito de um casamento que pudesse unir nossos dois países.
No ano passado! — exclamou Jessica. — E levaram tanto tempo assim para se decidir?
Ao fitar o pai, Rosalie percebeu que ele omitira algo.
Para ajudá-lo, então, ela comentou:
Já li a respeito de Arramia. É um país bonito com montanhas e vales, como a Albânia, só que em menor proporção. Acredito que houve lá uma revolução que só foi sufocada quando o rei Emmett assumiu o trono.
O grão-duque sorriu para a filha.
Parece bem-informada, querida!
Como sabe, papai, sempre tive interesse pela história dos países que se localizam deste lado da Europa, temendo sempre que os menores fossem tomados tanto pelos russos como pelo Império Otomano.
Tem razão — concordou o grão-duque. — É muito inteligente de sua parte se interessar assim por história. Jessica, pode ficar segura de que Arramia já conquistou sua independência e de que o rei e a rainha daquele país podem assumir seus devidos lugares no trono, como o fazem todas as realezas da Europa.
E é exatamente isso o que desejo — foi a observação de Jessica. — Apesar de que eu preferiria um rei mais importante. — Ela deu um suspiro antes de prosseguir: — Por que, oh, por que o rei da Romênia já se casou e também o rei da Sérvia, de Montenegro, da Grécia?
A família já ouvira tais queixas inúmeras vezes e o grão- duque interveio:
Bem, agora que você já tem um rei, o próximo passo será conhecê-lo, não acha?
Jessica se acomodou bem ereta na cadeira.
Quer dizer com isso que ele não virá aqui?
— Disseram-me que será impossível para ele deixar o país nesse momento. Então iremos fazer-lhe uma visita diplomática, ao final da qual anunciaremos que vocês se apaixonaram um pelo outro e por isso vão se casar.
Como tudo parecia bastante fantástico, Jessica se limitou a ouvir calada.
A seguir, ela resolveu:
Já que vamos até lá, precisarei de roupas novas!
Sim, claro — concordou o grão-duque. — Pode mandar chamar as melhores modistas da cidade.
Da cidade? — Jessica parecia escandalizada. — Elas só sabem costurar enxovais para noivas? O que eu quero é ir até Viena; a menos que você decida me mandar para Paris.
Não tenho tempo para essas viagens — asseverou o grão-duque com certa satisfação na voz. — Partiremos para Arramia daqui a quinze dias.
Jessica deixou escapar um grito de horror.
Mas, papai, será impossível providenciar tudo até lá!
Então precisará dizer ao rei Emmett que mudou de idéia ou que lhe fizeram uma proposta melhor — admoestou o grão-duque com impaciência.
Ele se apressou a deixar a mesa do breakfast, como se as queixas da filha já o tivessem saturado.
Pousou então uma das mãos sobre o ombro de Rosalie e pediu:
Por favor, querida, venha me ajudar com as orquídeas. Acredito que aquela que trouxeram do Nepal já deve estar florescendo.
Oh, papai, que excitante! — respondeu Rosalie.
Ela deixou a mesa no mesmo instante e, quando já estava prestes a seguir o pai, Jessica investiu:
Preciso de sua ajuda, Rosalie. A menos que queiram que eu vá para Arramia nua!
Rosalie deu um sorriso.
Não acho que deva se preocupar tanto. Você já possui vestidos adoráveis e madame Blank é bastante habilidosa. As confecções dela sempre têm um toque dos modelos atuais de Paris.
Jessica pareceu satisfeita com o argumento.
Acho que tem razão. — disse ela. — Mamãe costumava dizer que madame Blank era careira, mas papai arcará com as despesas.
Tenho certeza de que ele quer vê-la bem bonita — arrematou Rosalie e já ia deixar a sala para ir ao encontro do pai quando Jessica comentou:
Bem, um rei é sempre um rei, seja ele importante ou não. Por isso, acho que devo me sentir grata por esse pequeno favor que papai me fez.
Nós ainda nem o conhecemos — tornou Rosalie. — Porém já ouvi dizer que ele é muito bonito.
Jessica, enquanto isso, lançava um olhar glamoroso para o espelho num dos cantos da sala.
Acha mesmo que seremos considerados o "casal real" mais elegante e belo que já se viu em todo o mundo? — quis saber ela.
É lógico que sim — afirmou Rosalie. — Você ficará linda vestida de noiva, usando a tiara de mamãe sobre o véu.
A tiara de mamãe só é adequada para festas. Como tenho certeza de que serei coroada no dia do casamento, precisarei usar algo mais valioso. Após um breve exame no espelho, ela prosseguiu: — Se o rei não possuir nenhuma jóia mais valiosa e melhor em seus cofres, devo me considerar uma mulher trapaceada.
Rosalie não desejou ouvir mais nada e saiu ao encontro do pai.
Sentiu uma grande excitação invadi-la diante da idéia de poder contemplar uma orquídea rara.
Ao mesmo tempo experimentava um grande alívio pelo fato de a irmã, após tantas queixas, ter encontrado um marido.
Jessica não falou em outro assunto desde que completou dezoito anos.
Quando ela decidiu, um ano antes, que o pai deveria achar- lhe um rei com quem pudesse se casar, foi um pesadelo para todos.
Rosalie encaminhou-se até a estufa de orquídeas que confinava com o laranjal. Encontrou o pai admirando, com os olhos cheios de prazer, o pequeno botão de orquídea que começava a desabrochar de entre as folhas tenras.
Amanhã — comentou ele ao ver a filha se aproximar
Saberemos que espécie de orquídea é esta e se seu nome consta de meu fichário.
É maravilhoso, papai — exclamou. — Ainda acho bastante curioso que tenha recebido a planta sem seu respectivo nome.
É bastante interessante, sim — concordou o grão- duque. — Bem, duas coisas já aconteceram hoje. Pergunto- me qual será a terceira.
Rosalie riu.
Foi muito inteligente de sua parte arranjar o rei Emmett para Jessica — comentou em tom de voz bem baixo.
Garanto que foi muito difícil — replicou ele. — Que fique entre nós, mas depois de uma conversa com o chanceler concluí que Sua Majestade não parece tão determinado a se casar e reluta diante da idéia de providenciar um herdeiro.
Rosalie fitou o pai com ar consternado.
Quer dizer que ele não deseja se casar com Jessica?
Pelo amor de Deus, não lhe diga isso — implorou o grão-duque. — Mas eu entendi que o primeiro-ministro e os membros do gabinete quase precisaram pedir de joelhos que Sua Majestade aceitasse a sugestão do chanceler.
Rosalie suspirou.
Oh, papai, como Jessica poderá ser feliz nessas circunstâncias? Não seria melhor se ela esperasse, até você conseguir-lhe outro marido?
Não tente colocar essas idéias na cabeça de sua irmã! — admoestou-a o grão-duque. — Gastei tempo demais procurando um rei para Jessica e esse foi o único que encontrei!
— A voz dele se tornou mais grave, quando acrescentou: — Se o rei Emmett ainda hesita em se casar, cumpre a Jessica fazê-lo mudar de idéia.
Rosalie nada respondeu. Sabia muito bem como a irmã reagia todas as vezes que seus planos não saíam a contento.
O grão-duque, como que adivinhando os pensamentos da filha, pousou a mão de leve nos sedosos cachos de seus cabelos, que eram uma réplica dos de sua mãe.
Você me conforta tanto, Rosalie... — confessou ele. — Não posso deixar de pensar que seremos muito mais felizes juntos, sem ter de ouvir as intermináveis queixas de sua irmã a respeito de morrer solteira.
Rosalie se voltou, depositando um beijo na mão do pai.
Eu o amo, papai! — exclamou ela. — Você tem sido muito bondoso com nós duas, desde a morte de mamãe.
O grão-duque desviou o rosto.
Sempre que olhava para as filhas, era-lhe impossível não pensar na adorada esposa.
Ela fora uma mulher admirável e bela. Comparavam-na comuma rosa cm botão.
Seus cabelos eram loiros e sedosos, fazendo uma bela moldura para os olhos de profundo azul e a tez clara.
O grão-duque estranhava o fato de nenhuma de suas filhas ter herdado suas características físicas.
Seu único filho, Alexander, porém, era um retrato vivo dele.
Apesar de ter todas as características físicas de um russo, Alexander era em muitos aspectos bastante inglês.
Fora para uma escola pública da Inglaterra ainda em tenra idade e, naquele momento, concluía seu segundo ano em Oxford.
O grão-duque tinha verdadeiro orgulho de Alex, e suas irmãs o adoravam.
Naquele ano, elas mal puderam ver o irmão, que, absorto nos estudos, não viera para casa durante as férias.
Deve escrever para Alexander contando o que aconteceu — sugeriu Rosalie.
É claro que escreverei — concordou o grão-duque. — Tenho certeza de que ele ficará feliz. Quando Alexander esteve em casa pela última vez, presenciou as lamúrias de Jessica.
Por que você precisa ir para Arramia assim tão depressa? — quis saber Rosalie.
O grão-duque hesitou por um momento antes de dizer a verdade.
—Acho que o primeiro-ministro e seu gabinete temem que o rei mude de idéia. Portanto, quanto antes ele se comprometer com Jessica, melhor!
Ao ouvir as palavras repletas de preocupação do pai, Rosalie exclamou, cheia de compaixão:
Oh, pobre Jessica! Tudo me parece tão artificial! Não quero me casar com alguém dessa maneira, papai, sem que esteja apaixonada.
O grão-duque pousou o braço no ombro da filha.
Talvez você tenha a mesma sorte que sua mãe e eu tivemos. Eu me apaixonei por ela durante um baile oferecido no palácio de Buckingham. No momento em que a vi, disse para mim mesmo: "Essa é a garota com quem quero me casar!"
Ele fez uma pausa, como que para saborear o êxtase daquele momento tão importante de sua vida.
E quando ela me conheceu — prosseguiu ele — soube também que eu era o homem de sua vida, mas teve medo de que eu voltasse para Kessell e a esquecesse.
Em vez disso — completou Rosalie, que já conhecia bem a história —, você correu até St. Petersburg para obter a permissão do czar.
Essa audiência foi de arrepiar os cabelos, se é que me explico bem — observou o grão-duque —; contudo, pelo fato de eu ter mencionado a ligação de parentesco que sua mãe tinha com a rainha Vitória, o czar consentiu na união.
— E vocês viveram muito felizes, não foi? — indagou Rosalie já sabendo a resposta. — Oh, papai, isso é o que também quero para mim! Por isso, não se preocupe em procurar-me um esposo. Se a sorte estiver do meu lado, sei que nos encontraremos de alguma forma, em algum lugar, sem que algum primeiro-ministro precise ser consultado.
Rosalie falava com a voz embargada de emoção, o que era comovente.
O grão-duque nada respondeu, limitando-se a conduzir a filha até a porta do orquidário.
— Tenho uma delegação me aguardando — informou ele. — Seria melhor que você fosse ajudar sua irmã.
Sim, claro, papai — respondeu Rosalie de imediato.
Ela atravessou o laranjal correndo e entrou no palácio.
Sabia que Jessica se encontrava em seu quarto, examinando as roupas.
Como era de esperar, quando Rosalie entrou no quarto, encontrou a irmã torcendo as mãos de forma dramática, enquanto argumentava que não tinha o que vestir.
— É bobagem sua, minha querida — Rosalie tentava consolá-la. Você não tem aquele vestido divino que comprou para o baile de Páscoa? Além disso, possui também dois vestidos de noite que madame Blank garantiu serem os últimos modelos de Paris. E você fica bem com qualquer um deles.
Jessica pareceu confortada com os argumentos da irmã.
— Acho que servem — admitiu Jessica. — De qualquer forma, não acredito que alguém em Arramia saiba distinguir modelos procedentes de Paris daqueles que vêm de Timbuctu!
Rosalie concluiu ser um erro grave da irmã começar a depreciar um povo sobre o qual deveria reinar por muito tempo.
—Tenho certeza de que os habitantes de Arramia vão admirá-la, vista você o que vestir — argumentou ela. — Mesmo assim, acho conveniente que você se apresente bem bonita para o rei.
Se quer mesmo saber, eu me sinto ludibriada — queixou-se Jessica. — Se Arramia for um país tão pequeno quanto este, não haverá o que governar.
Mas Arramia é bem maior que nosso país, além de ter mais importância. Depois, eu sempre ouvi dizer que o povo de lá é encantador e amigo — Rosalie tentou apaziguá-la.
Mas exagerou um pouco na argumentação, pois conhecia muito pouco sobre Arramia.
No entanto, sabia que era essencial para Jessica se sentir satisfeita no país sobre o qual deveria reinar.
Já sei o que farei, Jessica — tornou Rosalie —, vou dar uma busca nos livros da biblioteca. Enquanto você experimenta as roupas que madame Blank vai trazer, posso lê-los para você.
Jessica não pareceu tão animada com a idéia.
Está bem — concordou ela. — Mas tudo o que quero saber é se há grandes cidades naquele país, com teatros e locais que eu possa visitar como rainha. Verifique também se o palácio é luxuoso e bem mobiliado.
Acho que o chanceler pode lhe fornecer essas informações melhor do que eu — foi a resposta de Rosalie. — Afinal, ele já esteve lá.
Não acho que aquele estúpido tenha alguma idéia que sirva em sua cabeça calva — contrapôs Jessica. — Sei que levaria horas para me explicar qualquer coisa, fazendo com que até o paraíso parecesse um lugar desagradável.
Rosalie não pôde deixar de rir.
Oh, Jessica, você está sendo injusta — protestou. — Acho o chanceler bastante gentil e bondoso com todos.
Rosalie sabia, no entanto, que a irmã não a ouvia.
Jessica naquele momento ocupava-se em tirar do guarda- roupa seus vestidos de verão e atirá-los sobre a cama.
Este não serve... Este outro pode surtir algum efeito se for adaptada mais renda aqui... — dizia ela.
Jessica não queria falar sobre qualquer outro assunto que não roupas.
Rosalie então tentou ser útil, procurando artigos que pudessem ser colocados na bagagem de Jessica. Tinham muito pouco tempo para saírem à procura de qualquer coisa nova.
Qualquer pessoa que as visse ali, naquele momento, só conseguiria distingui-las pela voz.
Jessica proferia as palavras de maneira firme e um tanto aguda, como se tentasse impressionar seu interlocutor.
A voz de Rosalie, entretanto, era suave.
Era gentil com as pessoas idosas e até mesmo as crianças pareciam confiar nela.
Nenhuma das duas jovens, porém, fazia a mínima idéia de que certa vez a mãe delas comentou com o pai:
Não consigo entender, Halle, como nós dois pudemos trazer ao mundo duas filhas gêmeas tão diferentes no caráter. Parece até insensato que isso aconteça, já que elas são idênticas na aparência.
— O que quer dizer com "diferentes"? — quis saber o duque, apesar de já saber a resposta.
Jessica é como a maioria dos cidadãos de seu país: ambiciosa, impaciente e egoísta — respondeu a grão-duque.
Você não está sendo muito amável comigo — ralhou o grão-duque.
Eu não me refiro a você, querido. Sabe que o acho maravilhoso. Rosalie herdou suas melhores qualidades.
Ela é um retrato seu — contrapôs o grão-duque. — Possui sua compaixão e a mesma maneira de amar desde as flores do jardim até as estrelas do céu.
A grã-duquesa escondeu o rosto no ombro do esposo.
Só mesmo você poderia dizer palavras tão românticas — elogiou ela com voz meiga.
O grão-duque a beijou e então indagou:
Como pode um homem ser tão afortunado a ponto de viver na companhia de mulheres encantadoras que mais parecem anjos descidos do céu do que seres humanos?
Ele se referia à esposa e Rosalie; como a grã-duquesa nada respondesse, ele prosseguiu:
Jessica, por seu lado possui, lamento dizer, muita maldade no coração.
A grã-duquesa deu um longo suspiro.
Ela amava as filhas, porém Jessica, desde o momento em que viera ao mundo, fora sempre de caráter difícil, nunca se contentando com o que tinha.
A menina sempre queria ser a primeira em tudo, apesar de a mãe tratar as gêmeas com a mesma dose de doçura e amor.
No andar térreo do palácio, o grão-duque estava em audiência com o chanceler. —Sinto-me bastante aliviado — dizia o chanceler — por sua Alteza ter recebido a confirmação oficial sobre a visita a Arramia hoje. Tive medo de que, depois de todo o trabalho que tivemos, Sua Majestade decidisse continuar solteiro.
Por acaso sabe por que o rei relutou tanto em se casar? — quis saber o grão-duque. — Afinal de contas, o rei Emmett já tem trinta anos e é costume na maioria das famílias reais que um soberano se case assim que é coroado ou mesmo antes.
O chanceler ficou calado por alguns momentos e então respondeu:
Acho que é porque Sua Majestade aprecia a companhia de mulheres e, como ele mesmo diz, quanto mais beldades, melhor.
O grão-duque riu.
Muitos homens pensam dessa forma, mas não sabia que o rei Emmett era um deles.
É melhor que eu seja honesto com Sua Alteza — disse o chanceler. — Sua Majestade goza da reputação de conquistador em seu país. Espero que a princesa não se choque quando chegar ao palácio real.
Não acho que ela se chocará — foi a resposta convicta do grão-duque. — Imagino que o rei vá se comportar dignamente com sua esposa.
Ele percebeu que o chanceler hesitou antes de responder:
Eu, sinceramente, espero que sim.
O grão-duque ficou intrigado.
Quando o chanceler partiu, ele mandou chamar um jovem barão que se encontrava a serviço do gabinete diplomático e que tomou parte da delegação que esteve em Arramia. O grão-duque considerava-o um amigo íntimo.
O barão nascera em Kessell, onde sua família, de origem russa, era uma das mais importantes do país.
Quando entrou na sala, o barão fez uma reverência e o grão-duque estendeu-lhe a mão.
Preciso falar com você, Vaslav.
Posso imaginar sobre o que se trata — foi a resposta.
Quero saber a verdade sobre o rei Emmett — pediu o guio duque.
—Eu o achei bastante agradável — o barão revelou —, mas o que me surpreendeu foi que Sua Majestade ficou impaciente quando o chanceler apresentou-lhe nossa proposta.
Você por acaso falou com o rei em particular? — quis saber o grão-duque.
Saímos para cavalgar — respondeu o barão. — Foi então que ele pediu: "Pelo amor de Deus, me diga se essa princesa com quem estão me forçando a casar é de fato atraente ou se não passa de alguma parenta petulante da terrível rainha Vitória".
O grão-duque deu uma risada.
Foi bastante franco da parte dele, não posso negar, mas o que você respondeu?
Eu respondi que a princesa Jessica era uma mulher encantadora, sendo improvável que naquele país houvesse uma mulher que se comparasse a ela.
E qual foi a resposta dele?
O barão hesitou por um momento e o grão-duque pediu com urgência na voz:
Vamos, Vaslav, eu quero a verdade!
O que ele respondeu foi o que qualquer homem de sua posição responderia.
O barão fez uma pausa antes de dizer:
O rei disse que está se divertindo bastante nesta fase da vida e não sabe por que o forçam a se casar e a gerar filhos apenas para agradar ao ministério.
E o que você respondeu? — indagou o grão-duque.
Eu lhe respondi que me perdoasse por afirmar que o trono de soberano algum era seguro, pois havia sempre inimigos incitando o povo contra a monarquia, e que Arramia não era uma exceção.
Foi muito inteligente de sua parte — observou o grão- duque. — É claro que isso é verdade!
Sua Majestade é bastante inteligente — prosseguiu o barão. — Eu acredito que uma das coisas que ele mais teme é ter de trocar as mulheres sofisticadas e exóticas que o divertem por uma jovem tímida e infantil que nada conheça sobre Arramia.
Quando o barão parou de falar, fitou o grão-duque com expressão apreensiva.
Perguntava-se se falara demais ou se fora demasiado franco.
O grão-duque, no entanto, replicou:
Obrigado, Vaslav. Eu lhe perguntei como amigo e você me respondeu como amigo. Vou conversar com Rosalie e pedir-lhe que coloque algum juízo na cabeça da irmã. Você sabe, tanto quanto eu, que Jessica não aprecia leituras e que conta só com a beleza que possui para obter tudo o que deseja.
Ela é bela e encantadora como repeti várias vezes para o rei.
Esperemos que essas qualidades lhe bastem — o grão- duque augurou.
Ao mesmo tempo, sua voz soou insegura.
