A Intriga da Rainha
Autora: Bárbara Cartland
Adaptadora: Hithi
Esse livro não é de minha autoria assim como os personagens nele presentes. Somente faço a adaptação de uma historia fantástica para vocês.
CAPÍTULO IIA semana seguinte foi exaustiva.
Todas as modistas da cidade trouxeram vários vestidos para Jessica provar e a maior parte deles foi rejeitada.
Jessica, no entanto, se lembrou dois dias depois de que Rosalie tinha exatamente o mesmo manequim que o dela.
A partir de então, foi Rosalie quem se encarregou de provar os vestidos, enquanto a irmã ia alterando-lhe os detalhes.
Rosalie percebeu que já não tinha tempo nem para si própria.
Ela disse a Jessica, após iniciarem a frenética escolha dos modelos:
Minha querida, acharia bastante sensato se você aprendesse arramiano. É uma língua bastante fácil, pois Arramia confronta com a Grécia, havendo nela inúmeros vocábulos gregos.
Não acredito que isso ajudaria em alguma coisa — contrapôs Jessica de mau humor.
Mas você precisará dominar a língua do povo sobre o qual vai reinar, não acha? — insistiu Rosalie. — E, se você quiser, posso ajudá-la.
Ela então indagou se havia alguém nas redondezas que conhecesse a língua arramiana.
Logo se descobriu um velho professor, que concordou em vir todas as manhãs ao palácio para ensinar o novo idioma a Rosalie.
Esperava que Jessica se reunisse a ela nas lições, mas a irmã se recusou.
— Se vou me tornar rainha, a única coisa de que preciso é ser bonita — foi a desculpa.
— E por isso preciso dormir bastante. Acordar cedo para as aulas só vai me deixar exausta.
Rosalie achou a língua arramiana bastante simples, mais do que de fato esperava.
As duas irmãs dominavam naturalmente o russo e o romeno, possuindo também um vasto conhecimento das línguas eslavas. Além disso, seu pai insistira para que aprendessem também o grego.
No final de três dias de aula, Rosalie já conseguia falar arramiano de forma mais ou menos fluente.
Por essa razão ela insistiu em falar arramiano com a irmã, sempre que estavam a sós.
Não, não é assim que se pronuncia — corrigia Rosalie.
Diga a palavra como se estivesse falando grego.
Essa língua não me interessa — queixava-se Jessica. — Não entendo por que papai não me arranjou um marido que pelo menos dominasse uma das línguas que falamos:
Não seja injusta! Você sabe que ele tentou — indignou- se Rosalie. 'Iodos eram casados. Não se pode contrair núpcias nem mesmo fugir com homem casado.
— Nem sempre é necessário fugir — replicou Jessica de maneira enigmática.
Rosalie fitou Jessica com expressão consternada.
Sabia que a irmã estava interessada por um dos homens de gabinete do pai.
O conde era, admitiu Rosalie, um homem bastante atraente e fora escolhido por possuir sangue russo.
O pai delas gostava de conversar com o conde em sua língua nativa.
Mas Nicolas Ersatz era casado e pai de três filhos. Rosalie várias vezes testemunhara troca de olhares entre o conde e a irmã e isso a preocupara bastante. Temia que Jessica iniciasse um novo flerte.
Após a morte da mãe, Jessica se entregara a várias conquistas, pois já não havia um controle tão rígido sobre a educação e o comportamento das garotas.
Jessica tinha por hábito desaparecer no jardim. Sempre que os jardineiros se recolhiam no final da tarde, não ficava ninguém na casa de verão.
A casa era bastante atraente, circundada por árvores e arbustos. Um lugar ideal para amantes, como Jessica mesmo dissera num momento de descuido.
Como é que sabe disso? — indagara Rosalie com inocência.
Jessica nada respondera.
No entanto, há três meses que ela parecia bastante estranha, como se guardasse um segredo.
Rosalie não podia deixar de pensar que o casamento de Jessica com o rei e sua partida para outro país era o que havia de mais sensato.
As lições de arramiano chegaram ao fim para Rosalie.
O professor informou que nada mais havia que pudesse ensinar-lhe e que achava bastante cansativo chegar ao palácio tão cedo.
Rosalie agradeceu pelas horas despendidas e pediu ao pai que desse um presente ao bondoso professor, que ficou bastante agradecido.
E sua irmã, já sabe falar a língua? — indagou o grão-duque.
Ela sabe um pouco, papai. Tenho certeza de que durante a viagem para Arramia alguém poderá ensinar-lhe um pouco mais. Afinal, não haverá muito que fazer enquanto estivermos a bordo.
O grão-duque se decidira pela viagem marítima.
O território de Kessell incluía uma extensão litorânea junto ao mar Negro, o que significava que poderiam viajar de navio pelo Bósforo, atravessando em seguida o mar Marmara, até chegarem ao mar Egeu.
Depois, circundariam a Grécia navegando pelo mar Jônio, entrariam no mar Adriático e só então chegariam a Arramia.
Era uma viagem longa, porém Rosalie sabia quanto o pai apreciava jornadas marítimas.
Sempre que tinha tempo, o grão-duque saía a velejar acompanhado por Rosalie.
Mas não fazia idéia dos planos do pai de levá-la na viagem até que, no terceiro dia após o grão-duque ter aceitado o convite do rei de Arramia, ela comentou com a irmã:
Estive me perguntando, Jessica, se você levará consigo uma dama de companhia ou se os representantes do rei trarão uma até aqui, quando vierem.
Uma dama de companhia? — indagou Jessica. — Oh, pelo amor de Deus, não quero nenhuma velha cansativa e enfadonha a meu lado dizendo-me o que devo ou não lazer. Quando eu me tornar rainha, escolherei quem eu quiser.
Você não precisará de uma dama de companhia durante a viagem diplomática — informou o grão-duque. — E, depois, Rosalie estará conosco e poderá comparecer às ocasiões mais importantes.
Rosalie, conosco? - inquiriu Jessica. — Papai, o senhor não está sugerindo que ela nos acompanhe na viagem diplomática, está?
É claro que sim! — foi a resposta do pai. — É mais do que natural que Rosalie visite Arramia também e conheça seu futuro cunhado.
Não concordo! — gritou Jessica. — Papai, se pensa que vou para Arramia com Rosalie, está muito enganado!
O grão-duque encarou a filha com total perplexidade.
O que está dizendo? — indagou ele. — É claro que sua irmã irá conosco!
Não, não irá! — declarou Jessica com fúria na voz.— Por toda minha vida fui torturada com as perguntas "Quem é você?" e "Como poderemos distinguir uma da outra?" Não quero mais saber disso!
Tanto o grão-duque como Rosalie ficaram consternados.
Ambos não faziam a mínima idéia de que Jessica se sentia tão amargurada por possuir uma irmã gêmea.
Se insistir em levar Rosalie, ficarei em casa — decidiu Jessica. — É humilhante saber que todos vão rir em silêncio ao comentar que o noivo não saberá com quem vai se casar.
Não imaginava que pensasse isso de mim — interveio Rosalie, com angústia na voz.
Pois é o que penso! — foi a resposta categórica de Jessica. — E saiba que nada direi a respeito de sermos gêmeas, a menos que o chanceler já tenha mexericado o fato com alguém.
Ela ainda falava com ar de desafio, fitando às vezes o pai como se temesse ser contrariada.
Por odiar intrigas, Rosalie tratou de apaziguar a situação:
Se é assim que se sente, então acho melhor não acompanhá-los. Sei o quanto é irritante ouvir as pessoas comentarem a nosso respeito.
Ela falou as últimas palavras imprimindo-lhes uma nota de bom humor, a fim de aliviar a tensão que pairava no ar, e por sorte obteve sucesso.
Fico contente por saber que você é sensata — comentou Jessica em voz baixa.
No entanto, olhava de soslaio para o pai, como se esperasse uma repreensão.
O grão-duque, porém, nada argumentou.
Mais tarde, ao se ver sozinho com Rosalie, ele confessou:
Sinto muito, querida, por sua irmã não deixá-la ir para Arramia conosco. Desejei tanto que viajássemos juntos pelo mar novamente...
Eu também, papai — tornou Rosalie —, mas assim que vocês voltarem sairemos para velejar, o que me agradará muito.
O grão-duque pousou a mão sobre o ombro da filha.
Você é uma garota muito gentil — elogiou ele. — Sinto muito que sua irmã seja tão difícil...
Não sabia que o fato de ser gêmea a desagradasse tanto — comentou Rosalie em voz baixa. — Sempre achei divertido ter uma irmã com quem pudesse compartilhar tudo o que tenho.
O grão-duque suspirou.
Mulheres são mulheres, minha querida, como poderá constatar quando ficar mais adulta e enfrentar o mundo. Uma mulher sempre sente ciúme das outras e, é claro, cada uma quer ser a mais bela de todas.
Rosalie beijou o pai no rosto.
Nenhuma de nós jamais será tão bela quanto mamãe comentou ela. — Mas garanto que Jessica tirará o máximo proveito de ser uma linda rainha.
O próximo passo será decidir o que faremos a seu respeito — observou o grão-duque.
Estou bastante feliz com o que tenho e sou — replicou Rosalie. — Não quero me casar por enquanto, pois acho que não há homem no mundo que possa ser comparado a você.
O grão-duque deu uma risada.
Agora você está me lisonjeando e eu gosto disso! Mas faremos uma viagem para a Geórgia assim que eu voltar. Tenho alguns amigos lá que gostarão muito de conhecê-la.
Adorarei conhecê-los — respondeu Rosalie.
Os dias transcorreram depressa, cada detalhe assumindo um ar de urgência à medida que as horas passavam.
As modistas chegavam com pilhas e pilhas de vestidos. Jessica sempre conseguia localizar a mínima falha neles.
Uma das mulheres irrompeu em lágrimas e outra comentou com Rosalie, assim que Jessica saiu:
Nada parece agradar Sua Alteza Real. Será que precisaremos trazer-lhe o paraíso para que fique satisfeita?
Rosalie pensou que aquela observação era bastante divertida e, quando comentou com Jessica a respeito, a irmã vociferou:
Mulher estúpida! Vou tentar persuadir o rei, assim que nos casarmos, de que me deixe fazer compras em Paris. Aí, sim, minha aparência será fascinante e todo mundo ficará arrebatado por minha beleza.
Acho que isso acontecerá de qualquer maneira, não importa que roupas você use — tornou Rosalie.
Importa, sim! — retorquiu Jessica.
O professor me disse que Arramia está longe de ser considerado um país rico — comunicou Rosalie —, mas que tem possibilidades para tanto.
Então acho melhor que se apressem em descobrir onde estão tais possibilidades — falou Jessica de forma brusca. — Não pretendo ser uma mulher pobre e ter de dar satisfações de cada pêni que gastar.
O que importa — arrematou Rosalie — é que o povo a ame. Precisará ser amável com eles, Jessica, tratar com diplomacia as delegações que trarão até você problemas e aflições do país.
Se elas forem formadas por pessoas lamurientas como as que vêm até aqui — retorquiu Jessica —, então que o rei se encarregue de atendê-las. Pretendo me divertir e fazer de meu palácio o lugar mais alegre e excitante de todo o continente.
Rosalie suspirou.
Partindo do que aprendera, Arramia nada tinha de moderno. Não se podia compará-la, em nenhum aspecto, com Paris ou Viena.
Sabia, no entanto, que cometeria um erro se dissesse isso a Jessica.
Então se limitou a continuar tentando que Jessica falasse arramiano, mas a irmã não parecia nem um pouco interessada, o que tornou a tarefa ainda mais árdua.
Quando Rosalie se recolhia à noite, sentia-se tão exausta que lhe bastava encostar a cabeça no travesseiro para que mergulhasse no mesmo instante num sono profundo.
O que mais a magoava era que não conseguia cavalgar, já que passava a maior parte do tempo entretida com os vestidos de Jessica. Por sorte, os dias transcorreram tão rápidos que, quando Rosalie deu por si, restavam apenas mais dois dias para que o grão-duque e Jessica iniciassem a viagem.
Eles não embarcariam no navio da família, como Rosalie supusera, mas em um encouraçado vindo de Arramia especialmente para conduzi-los até lá.
Foi um gesto bastante diplomático da parte do rei Emmett, c que muito agradou o grão-duque.
O que o desapontava era não ter a seu lado, em viagem (ao longa, seus próprios oficiais e marinheiros.
De qualquer forma, papai, você poderá descobrir se eles possuem mecanismos novos em seus vasos de guerra que não possuímos nos nossos — tentou confortá-lo Rosalie.
—Concordo com você — replicou ele. — Acho que o rei está mandando também um estadista acompanhado da esposa, que atuará como dama de companhia de Jessica: um aide-de-camp; e, o que é o cúmulo da impertinência, um intérprete!
Rosalie riu.
Acho isso um insulto, papai. Deve mostrar a eles como você domina o arramiano e que Jessica também pode se arranjar melhor do que aparenta.
O grão-duque não pôde conter o riso. Foi então que comentou, com voz desolada:
Gostaria que nos acompanhasse, minha querida. Tenho um pressentimento de que a viagem será muito monótona sem você e de que ninguém vai rir de minhas piadas!
É lógico que vão rir! — assegurou-lhe Rosalie. — Pelo menos os arramianos as ouvirão pela primeira vez.
Isso é traição sua! — exclamou o grão-duque de bom humor.
O grão-duque e Jessica deviam partir na quarta-feira.
No entanto, um dia antes, a criada puxou as cortinas do quarto de Rosalie de forma bastante ruidosa.
Rosalie espreguiçou-se sonolenta.
Fora se deitar bem tarde na noite anterior, pois ocupara- se em embalar as jóias de sua mãe, que Jessica resolvera levar consigo na viagem.
Não é correto que você use as jóias maiores até que esteja casada — advertira Rosalie.
Como já estou quase casada, não pretendo sair por aí apenas com um humilde colar de pérolas no pescoço — redargüira Jessica. — Quero brilhar, portanto embale as melhores e mais preciosas jóias de mamãe.
Acho melhor falarmos com papai — Rosalie ainda tentara argumentar.
Jessica então se enfurecera de tal forma que ela resolvera fazer exatamente como a irmã queria, sem mais delongas.
Sabia que a mãe não aprovaria se visse uma das filhas com a aparência de uma árvore de Natal.
Após ter puxado as cortinas, a criada se aproximou da cama de Rosalie e informou:
Acho que Sua Alteza precisa saber que a princesa Jessica está indisposta.
Indisposta? — repetiu Rosalie. — O que houve com ela?
Eu não sei — foi a resposta —, mas Sua Alteza está bastante agitada.
Rosalie saiu da cama.
Colocou em seguida seu chambre e correu até o quarto da irmã, que se localizava no extremo oposto do corredor.
Era um aposento espaçoso e bem mobiliado.
Quando Rosalie entrou no quarto, percebeu que as persianas estavam parcialmente abaixadas.
O que houve querida? — indagou ela. — Soube que não se sente bem.
Sinto-me horrível e meus olhos doem — replicou Jessica. — A cabeça parece que vai explodir e minha boca está seca.
Rosalie ficou preocupada.
Com freqüência havia surtos de febre em Kessell, que aconteciam apenas no final do verão, quando então eram mais perigosos.
Vou mandar chamar o médico — informou Rosalie. — Quer beber ou comer alguma coisa?
Sinto muita sede — foi a resposta de Jessica.
Rosalie saiu correndo do quarto.
Pediu que a criada mandasse alguém até a cidade para trazer o médico.
Começou então a se vestir rapidamente para que tivesse tempo de tomar o café da manhã com o pai.
Esperava que os sintomas de Jessica fossem coisa passageira ou que a irmã estivesse com alguma doença imaginária, como sempre acontecia quando estava insegura ou com medo.
Se ela não se sentisse bem na manhã seguinte, teriam de adiar a viagem.
Estava previsto que o encouraçado chegaria naquele dia pela manhã.
O grão-duque providenciara um comitê para recepcionar a tripulação.
Após se vestir, Rosalie desceu as escadas correndo na direção da sala onde era servido o breakfast.
Quando entrou no aposento, encontrou-o vazio.
Alguns minutos se passaram antes que o grão-duque aparecesse.
Sinto muito se me atrasei, Rosalie, mas acabei de saber que o conde Nicolas Ersatz, que desejava que me acompanhasse na viagem até Arramia, está com sarampo. Mal posso acreditar que um homem daquela idade tenha contraído uma doença tão ridícula. Deve tê-la apanhado de algum de seus filhos.
É uma sorte que o senhor já tenha tido sarampo e eu também — foi a resposta de Rosalie. — Acho que tive essa doença com cinco anos, não foi?
Enquanto falava, uma idéia horrível lhe acudiu.
Quando ela teve sarampo, o mesmo não aconteceu com Jessica.
A grã-duquesa achara sensato que as duas meninas tivessem todas as doenças comuns da infância, como caxumba e catapora.
Por isso ela não isolara Rosalie, deixando-a brincar ao lado de Jessica durante o dia e dormirem no mesmo quarto à noite.
Porém Jessica mostrou-se imune ao sarampo, não contraindo a moléstia.
Rosalie prendeu a respiração.
Se o conde Nicolas Ersatz estava com sarampo, então havia a possibilidade, apesar de Rosalie não querer pensar nisso, de Jessica estar sofrendo da mesma moléstia.
Decidiu nada dizer ao grão-duque antes que o médico chegasse.
Rosalie aguardava do lado de fora do quarto de Jessica, quando o médico saiu.
Sinto muito informar, mas Sua Alteza contraiu sarampo — informou o médico. — Não é o do tipo denominado "germânico", mas o do comum. A erupção que ela tem no corpo logo atingirá todo seu rosto, o que a deixará bastante irritada.
Com certeza! — concordou Rosalie. — Precisa comunicar isso a meu pai.
Receio que o grão-duque não ficará muito satisfeito com a notícia — arrematou o médico.
Rosalie sabia que o pai ficaria furioso, mas nada comentou.
Em vez disso, acompanhou o médico até o estúdio.
Quando o grão-duque soube que tipo de doença acometera a filha, ficou consternado.
Sarampo? — vociferou ele. — Como ela pôde contrair sarampo numa época dessas? Ontem você me disse que Nicolas Ersatz estava com a mesma doença, não?
Sinto muito, mas é verdade — confessou o médico. — Talvez seja uma epidemia. Tudo o que podemos fazer é deixar que a moléstia siga seu curso.
Seguir seu curso? — repetiu o grão-duque. — E quanto tempo acha que vai demorar?
Considerando-se que a princesa não é mais criança, é sempre prudente que se tomem precauções especiais quando se trata de sarampo — advertiu o médico. — Como a doença é contagiosa, deverá levar cerca de quinze dias até que a princesa Jessica possa viajar.
O médico, não querendo ser acusado como responsável por doenças como o sarampo se desenvolverem dentro do palácio, tratou de ir embora correndo.
Quando ele saiu, Rosalie disse em tom de voz suave:
Sinto muito, papai, mas sei que essa doença vai transtornar seus planos. Precisará pedir ao rei Emmett que adie as cerimônias que deve estar preparando para recebê-lo.
O grão-duque se levantou da mesa suspirando.
Então, ao fitar Rosalie, perguntou:
Adiar os preparativos? Por que ele deveria adiá-los?
Não poderá ir sem Jessica — lembrou-lhe Rosalie.
Posso levar você no lugar dela — replicou o grão-duque devagar.
Rosalie fitou o pai com os olhos arregalados.
O que está dizendo, papai? Que será um grande erro cancelar essa visita diplomática que levou tanto tempo para acontecer. O encouraçado já chegou e, pelo que me disseram, os preparativos em Arramia para nos receber são grandiosos. O primeiro-ministro está muito feliz por ter convencido o rei a se casar.
Sei que ele ficará desapontado, mas... — começou Rosalie.
Não é questão de desapontamento — interrompeu-a o grão-duque. — Para ser bem claro, minha querida, o rei pode se aproveitar da oportunidade para desistir do acordo feito.
Quer dizer que ele pode se recusar a levar avante o casamento com Jessica?
Isso é mais do que provável — respondeu o grão-duque.
Arramia ficará sem rainha e continuaremos ouvindo dia e noite as lamúrias de Jessica.
Rosalie nada disse e após alguns segundos o grão-duque prosseguiu:
Você irá no lugar dela. Ninguém saberá, a não ser nós mesmos e nosso pessoal. — Ele deu uma olhada no relógio antes de informar: — Dentro de uma hora, os representantes do rei estarão aqui para saudar sua irmã.
E... Você quer que eu a... Substitua? — indagou Rosalie.
Não há outra alternativa! — concluiu o grão-duque.
Se ficarmos esperando até que Jessica se recupere, o rei com certeza escapará de nossas mãos e não haverá forma de convencê-lo a voltar atrás.
Rosalie deixou escapar um grito.
Oh, papai, você faz com que tudo pareça tão terrível!
Estou sendo sensato — replicou ele. — Todos nós sabemos que o homem foi pressionado a se casar e que agora, quando tudo parece ir bem, seria uma pena ver os planos fracassarem.
É errado... Sei que é errado — murmurou Rosalie.
Não há opção — insistiu o grão-duque. — Agora, suba e conte a notícia para sua irmã.
Apesar de experimentar uma agitação íntima, Rosalie achava engraçada a forma como o pai tentava se esquivar de Jessica, não lhe dizendo pessoalmente o que planejara.
Sabia como Jessica ficaria zangada.
Rosalie compreendia que, se a visita diplomática tivesse de ser adiada, seria difícil recolocar a situação no mesmo plano cm que estava.
E a respeito das pessoas daqui? — indagou ela. — Vão saber que eu irei no lugar de Jessica para Arramia.
Vou conversar com todos — prometeu o grão-duque.
Deixe isso por minha conta. Agora vá e fale com sua irmã.
Rosalie ainda fez um gesto nervoso com as mãos, antes de se encaminhar para a porta.
No momento em que lá chegou, voltou-se e indagou:
— Tem certeza, papai, que não temos outra opção?
Tenho, querida - garantiu ele com voz firme. — Por outro lado, quem em Arramia saberá se é a princesa Rosalie ou a princesa Jessica quem chegará como a esperada noiva do rei?
Rosalie teve de admitir que a observação do pai procedia.
Se o rei era um homem tão relutante nas questões de matrimônio, então não prestaria a menor atenção em sua futura esposa.
—E depois, essa é uma visita diplomática — ele disse em voz alta enquanto subia as escadas.
Pelo menos um mês se passaria antes que o casamento acontecesse.
"O que me dará tempo para contar a Jessica cada detalhe do que vi enquanto estive em Arramia, substituindo-a!", pensou Rosalie.
No entanto, não lhe parecia muito agradável a conversa que teria pela frente. Rogou aos céus para que a irmã não ficasse muito furiosa com as notícias.
Rosalie entrou no quarto.
As persianas achavam-se ainda mais abaixadas, pois, segundo o que Rosalie sabia, o sarampo causava fotofobia.
Ela se encaminhou até a cama da irmã e Jessica, em tom de voz queixoso, disse:
Estou com sarampo! Oh, Rosalie, como pude contrair uma moléstia tão terrível?
Após uma breve pausa, Rosalie informou em voz baixa:
Nicolas Ersatz também está com a doença!
Jessica ofegou.
Nicolas! Eu não acredito!
Ele apanhou sarampo de um de seus filhos.
E ele então me contagiou: jamais o perdoarei, jamais!
Não é culpa dele — observou Rosalie. — O azar é que você não contraiu sarampo quando eu o apanhei em criança.
Na época achei que eu era uma pessoa privilegiada — murmurou Jessica.
Após uma breve pausa, Rosalie comunicou:
Tenho algo a lhe dizer, mas não quero vê-la zangada.
O que é? — quis saber Jessica.
Papai insiste para que eu assuma seu lugar na visita diplomática.
Jessica deixou escapar uma exclamação.
Não, não! Como ousa tomar meu lugar? Não tem o direito!
Eu não quero fazer uma coisa dessas — assegurou Rosalie. — Mas papai acha que, se adiarmos a visita, o rei terá oportunidade de mudar de idéia.
Jessica proferiu uma horrível blasfêmia, que chocou bastante a irmã.
Rosalie se sentou na cadeira próxima à cama.
Sinto muito, querida — disse ela. — Mas, afinal, nem tudo está perdido. Quando papai e eu retornarmos, você ainda terá algumas semanas para se recuperar antes do casamento.
Mas você não tem o direito de assumir meu lugar — vociferou Jessica. — Não quero ninguém fingindo ser eu.
Ninguém saberá que eu não sou você — assegurou Rosalie. — Farei o melhor que puder para que todos desejem vê-la novamente na segunda e definitiva visita.
Sei que você vai tirar o máximo proveito de cada momento — apressou-se a dizer Jessica. — E, é claro, vai usar minhas roupas, minhas jóias... Não é justo!
Jamais ocorrera a Rosalie que deveria usar as roupas de Jessica.
Entretanto, sabia que, como assumiria o lugar da irmã, era algo que precisaria fazer.
—Sinto muito, sinto muito — ela continuou dizendo.
Jessica se limitava a fitar a irmã e a maldizer o destino, Nicolas, seu filho e tudo o que a impedia de partir para Arramia.
Rosalie lembrou-se de que a irmã não demonstrara entusiasmo de início, quando soube que iria para Arramia.
Agora, quando a viagem lhe fora negada por força do destino, o fato de ter sido passada para trás a desesperava.
— Não vejo por que não deveria ir — contestou Jessica com ar pensativo. — Quando chegarmos a Arramia, sei que estarei me sentindo ótima.
— Não fique tão certa disso — contrapôs Rosalie. — Saiba que sarampo pode tornar-se uma moléstia perigosa se não for tratado com cuidado. Seus olhos poderão sair prejudicados e a erupção que cobrirá seu corpo precisará ser bem tratada para que não deixe cicatrizes.
Jessica deu um grito.
Meu rosto! Não quero que nada me desfigure!
É lógico que não, querida, e por isso é melhor que você fique aqui e não faça coisa alguma que possa prejudicá-la no futuro.
Rosalie se pôs de pé e apanhou alguns comprimidos deixados pelo médico ao lado da cama.
O médico disse que você deveria tomar esse remédio caso estivesse nervosa. Fará com que durma bem, o que ajudará em sua recuperação.
Eu não quero dormir! Quero ir pára Arramia! — gritava Jessica.
Ela continuou gritando até ficar rouca.
Finalmente Rosalie convenceu-a a tomar o medicamento que o médico deixara por antever tal reação.
Rosalie permaneceu na companhia da irmã até esta mergulhar em sono profundo.
Quando Rosalie saiu do quarto, descobriu que as duas enfermeiras haviam chegado. Elas lhe informaram que o médico viria à tarde.
Havia também um aide-de-camp perambulando no fundo do corredor e Rosalie percebeu que ele devia ter algum recado.
O que houve? — indagou ela.
Sua Alteza, o grão-duque, pediu-me para informar-lhe que os convidados de Arramia chegaram e vão ficar para o almoço que será oferecido na sala de jantar privativa. Todos nós já fomos informados sobre a troca de identidades, Alteza.
Rosalie suspirou fundo.
Contar mentiras num país estranho já era por si só uma atitude vergonhosa. E, em se tratando de seu próprio lar, Rosalie achava ainda mais consternador conviver com falsidades.
Ela se perguntou o que sua mãe faria naquelas circunstâncias. Foi então que descobriu que não havia mesmo outra alternativa.
Precisaria tomar o lugar de Jessica apesar de a irmã odiá-la por isso.
Rosalie colocou o luxuoso vestido que Jessica escolhera para a ocasião e então examinou-se no espelho.
Parecia-se consigo mesma, mas também tinha a mesma aparência de Jessica, quando esta não estava com sarampo.
Sabia que seria um erro fatal entrar no quarto da irmã usando um de seus vestidos.
Por isso limitou-se a perguntar como a irmã estava para uma das enfermeiras que acabava de sair do quarto.
Ainda adormecida, Nossa Alteza — respondeu a enfermeira. — O médico nos pediu que continuássemos administrando os comprimidos para dormir. Ela não pode ficar nervosa. A erupção se espalhou pelo corpo todo e já há alguns sinais em seu rosto.
Ela vai odiar quando souber! — avaliou Rosalie com voz, aflita.
É sorte que Vossa Alteza não tenha também contraído a moléstia — replicou a enfermeira. — Isso a impediria de ir para Arramia.
Por um momento Rosalie olhou fixamente para a mulher.
Foi então que percebeu que o pai já pusera em ação seus planos.
As enfermeiras acreditavam que a doente era ela, Rosalie. Todas as pessoas estreitamente ligadas a eles no palácio foram instruídas para dizer o mesmo.
Por ser astuta, Rosalie sabia que após o almoço deveria se encerrar no quarto pelo resto do dia.
Na manhã seguinte, como princesa Jessica, ela embarcaria no encouraçado que os aguardava no porto.
Quando desceu para se reunir aos convidados, proferiu uma fervorosa prece a fim de não cometer enganos.
O secretário de Estado de Arramia era charmoso, assim como sua esposa.
Pensamos que seria enfadonho para Vossa Alteza — comentou a esposa do secretário — receber um grande número de pessoas de nosso país. Por isso só trouxemos o conde Paul. Quando meu esposo soube que poderíamos conversar em arramiano sem a ajuda de terceiros, o intérprete foi enviado de volta em outro navio.
Rosalie percebeu que o conde era um homem bastante atraente.
Não pôde reprimir o pensamento de que Jessica adoraria conhecê-lo.
Quando ela tomou lugar ao lado do conde à mesa do almoço, percebeu que ele era erudito ao extremo no que dizia respeito aos assuntos de seu país.
Contou a Rosalie um pouco da história de Arramia, porém ela percebeu que havia muito mais a dizer.
Seu país é progressista? — quis saber ela.
Não tanto como gostaríamos — replicou o conde. — Há ainda muito a ser realizado e espero que saiba que recentemente tivemos de enfrentar um pequeno problema.
Um pequeno problema? — indagou Rosalie.
Como bem sabe, há pessoas tentando incitar revoluções em quase todos os países. E não há segredo de que nosso país figura na lista das vítimas.
E é sério? — indagou Rosalie.
Esperamos que não — replicou o conde—, mas é claro que Sua Majestade já tomou todas as precauções.
Ela percebeu que o conde não desejava responder àquela pergunta.
Rosalie fez uma anotação mental de que deveria fazer a mesma pergunta para ele várias vezes sem conta, até saber a verdade.
A atmosfera durante o almoço foi bastante agradável, com todos rindo e parecendo bastante à vontade.
O grão-duque estava de bom humor, saindo-se muito bem numa situação tão difícil.
Após o almoço os convidados foram até o jardim e fizeram um pequeno passeio nos arredores do palácio, antes de retornarem ao navio.
Perguntaram-lhes se gostariam de jantar no palácio, ao que responderam de forma bastante diplomática:
Sabemos que querem passar esta última noite antes da viagem en famille. Por outro lado, nosso capitão deseja partir o mais rápido possível.
Muito bem — concordou o grão-duque. — Embarcaremos às nove horas então. Minha filha e eu estamos ansiosos por essa viagem, não é, Jessica?
Realmente estamos, papai — respondeu Rosalie. — Adoro navegar.
Os convidados continuaram comentando a respeito de como o rei apreciava velejar. Esse era um dos divertimentos do grão-duque também, que ficou bastante satisfeito com a notícia.
Somente quando a comitiva deixou o palácio é que Sola- na se lembrou de que a irmã detestava o mar.
Jessica sentia enjôos apenas de ver as ondas se encapelando e por isso sempre se recusava a ir velejar com o pai.
"Não devia ter dito que navegar era algo que eu apreciava", Ela pensou "Como pude ser tão tola? Preciso me lembrar de que falo como Jessica e não como Rosalie."
O grão-duque, após se despedir dos convidados, voltou para a sala onde Rosalie se encontrava:
Eles já partiram — informou ele. — Todos me deram os parabéns pela linda filha que tenho, dizendo que tanto o rei como o povo de Arramia ficarão arrebatados por sua beleza.
Acho que cometi um engano, papai — confessou ela. — Disse que adorava o mar e também apreciava velejar. Você bem sabe que Jessica odeia tudo isso.
O grão-duque ficou calado por alguns momentos e então tranqüilizou-a:
Ora, não se importe com isso! Se continuar se preocupando em como agir, não será nem charmosa nem divertida. Portanto, seja você mesma e deixe Jessica enfrentar seus problemas quando tiver de partir para Arramia como a noiva do rei.
Ela ficou furiosa por eu estar tomando seu lugar — comentou Rosalie em voz baixa.
Eu já esperava por isso — comunicou o grão-duque. — Mas nada podemos fazer. Se ela apanhou sarampo, foi por obra do destino. Talvez seu anjo da guarda, Rosalie, esteja lhe oferecendo uma chance de se divertir.
Rosalie riu.
Só mesmo você para pensar uma coisa dessas, papai! Mas precisa me ajudar, tenho tanto medo de fazer algo errado!
Em minha opinião, você jamais cometeu algum engano — confidenciou-lhe o pai com um sorriso.
Oh, papai, às vezes você fica tão zangado comigo!
Somente quando sua irmã faz com que você participe de alguma travessura — replicou o grão-duque. Ele fez uma pausa antes de prosseguir, dessa vez em tom de voz diferente: — Se sarampo for um tipo de punição, Jessica bem que mereceu contraí-lo!
Rosalie olhou fixamente para o pai.
Sabia exatamente o que ele queria insinuar.
Ela jamais supusera que o pai tivesse alguma idéia acerca do envolvimento de Jessica com Nicolas Ersatz.
Mas agora obtinha a confirmação. Fora tolice de sua parte imaginar que o pai não tomava conhecimento do que ocorria dentro do palácio.
Talvez fosse o sangue russo que fazia do grão-duque um homem tão perceptivo.
Rosalie sempre imaginou que o pai era capaz de ler seus pensamentos ou de suspeitar de travessuras antes mesmo de as filhas se envolverem nelas.
O grão-duque se encaminhou até a janela.
Quanto antes Jessica se casar, melhor! — comentou ele como se estivesse sozinho na sala.
Mas é o que ela mais deseja, papai!
Sei disso muito bem — respondeu o grão-duque. — É necessário que Jessica entenda que qualquer homem, por pior que se comporte, não tolera traições de sua esposa.
Tenho certeza de que Jessica se comportará muito bem quando se tornar rainha — ponderou Rosalie.
É o que eu espero — replicou o grão-duque. — Mas, quanto antes ela deixar este palácio, melhor!
Rosalie fitou o pai com o rosto consternado.
Por que diz isso, papai?
Se quer saber a verdade — confessou o grão-duque —, madame Ersatz queixou-se do comportamento de Jessica e nada pude fazer senão pedir-lhe desculpas. E então, graças a Deus, recebemos a carta de Arramia, com a resposta que eu esperava.
Rosalie cobriu o rosto com as mãos.
Não suportava imaginar a desgraça que se abateria sobre o castelo, se a irmã fosse acusada de se relacionar com um homem casado.
Sabia, também, quanto o grão-duque se sentiria humilhado, caso tal fato viesse a ocorrer.
Após um momento, Rosalie se dirigiu ao pai, encostando o rosto contra o ombro dele.
—Eu o amo tanto, papai... — confessou ela. — Acho bastante inteligente a forma como você lida com as situações por mais difíceis que pareçam.
É o que sempre tento fazer — murmurou o grão-duque.
Mas, no que diz respeito a Arramia, preciso de sua ajuda. Na realidade, é algo que não posso fazer sem você.
Rosalie levantou o rosto para o pai.
Então, de súbito, ela sorriu.
Nós venceremos papai. Será uma batalha difícil, mas sairemos vitoriosos!
Os olhos do grão-duque se iluminaram e ele riu.
É claro que venceremos — repetiu ele. — Não posso imaginar outra pessoa capaz de enfrentar uma batalha comigo que não você. — Ele tocou-a de leve na fronte antes de finalizar: — Há muita inteligência e perspicácia nessa sua linda cabecinha e lançaremos mão dessas qualidades para vencer!
— É o que faremos papai. E então, ao voltarmos para casa, sairemos para velejar.
Quando o grão-duque beijou a filha, o sorriso ainda não tinha se desvanecido de seus lábios.
