A Intriga da Rainha

Autora: Bárbara Cartland

Adaptadora: Hithi

Esse livro não é de minha autoria assim como os personagens nele presentes. Somente faço a adaptação de uma historia fantástica para vocês.

CAPÍTULO III

O grão-duque sempre foi pontual.

Ele deixou o palácio meia hora antes do horário previsto para o embarque. Por essa razão, Rosalie teve muito tempo para dizer adeus a Jessica.

De qualquer forma, sabia que a irmã ainda estava bastante ressentida por ter tomado seu lugar.

No entanto, quando afinal Rosalie se dirigiu ao quarto de Jessica, foi para constatar que as enfermeiras já lhe haviam administrado a pílula tranqüilizante que o médico receitara.

Por favor, diga a minha irmã que eu vim até seu quarto para dizei adeus pediu às enfermeiras.

—É claro que diremos, Alteza — foi a resposta delas. — é mesmo muito bom que sua irmã durma o tanto quanto puder, já que só fica irritada quando acorda.

Ela soube que aquilo era a pura verdade após olhar para o rosto de Jessica já totalmente coberto pelas manchas do sarampo.

Quando ela desceu, o grão-duque indagou em voz baixa:

E como está ela?

Não muito bem — respondeu Rosalie —, mas adormecida.

Enquanto falava, Rosalie percebeu o alívio refletido no rosto do pai por Jessica não ter feito uma cena antes de partirem.

Dirigiram-se ao porto acompanhados por um séquito da cavalaria.

Já era de conhecimento de todos que o grão-duque e a princesa Jessica partiriam para uma visita diplomática a Arramia.

Portanto, não foi de surpreender que houvesse uma multidão para saudá-los antes da partida.

Quando o grão-duque desceu para o cais, houve aclamações e gritos de "boa sorte".

Rosalie sabia que o pai ficou bastante satisfeito com a recepção tão amistosa e também com o encouraçado, bastante imponente.

O navio estava decorado para a ocasião e eles foram admitidos a bordo e saudados pelo capitão e seus oficiais.

O secretário de Estado bem como sua esposa, madame Botzaris, aguardavam-nos na cabine que fora arranjada para servir de sala de estar.

Na companhia deles estava o conde Paul Maori.

Foram levados para um tour pelo vaso de guerra, com o grão-duque inspecionando tudo o que via e conversando com os marinheiros.

Enquanto caminhavam, Rosalie disse para o conde:

Quando chegarmos a Arramia, desejo estar dominando seu idioma: por isso, espero que me corrija caso cometa algum erro.

Mas você já fala com fluência e, se me permite dizer, se expressa de forma tão bela como é bela sua aparência — replicou o conde.

Rosalie fez uma mesura com a cabeça diante do elogio, mas teve o cuidado de nada responder.

Temia, já que mexericos viajavam com o vento, que tivessem dito ao conde o quanto Jessica gostava de flertar.

Era, no entanto, uma impressão que Rosalie queria eliminar, se possível, antes que Jessica chegasse a Arramia.

O encouraçado era bem construído e bastante moderno.

Rosalie ficou satisfeita ao constatar que não havia em seu interior nem armas nem instrumentos que não fizessem parte dos navios de guerra de seu país.

Sabia que o grão-duque ficaria contrariado se soubesse que um país pequeno como Arramia estava mais adiantado que o seu no que dizia respeito à navegação.

Assim que se viram a bordo, o navio começou a se deslocar do porto.

Rosalie insistiu em ir até o convés para dizer adeus à multidão que se aglomerava no cais e que aumentara de maneira considerável.

Eles parecem gostar de você — comentou o conde, que a acompanhou até lá.

Espero que sim — replicou Rosalie. — O povo adorava minha mãe e é muito difícil que alguém venha a tomar o lugar dela.

Mas seria impossível que eles não a amassem — tornou o conde.

Mais uma vez ela pensou que o conde estava sendo galanteador e então ficou tensa.

Paul Maori era um homem atraente e Rosalie tinha a sensação de que ele não pretendia comportar-se de maneira formal.

Ficou satisfeita por Jessica não ter vindo.

Desceram para a sala de estar, onde ficaram até a hora do almoço.

Serviremos refeições à moda grega — informou o capitão. — Temos um cozinheiro grego entre nós que foi treinado na França. Esperamos que não se desapontem com o que temos para oferecer.

Tenho certeza de que o almoço será delicioso — respondeu Rosalie. — Adoro as refeições típicas de todos os países, já que, de certa forma, elas representam o próprio povo.

Sei o que quer dizer — retrucou o capitão. — É uma maneira sensata de se ver as coisas. A cozinha arramiana é uma mistura da cozinha grega, montenegrina e albanesa, se bem que mais elaborada. No entanto, começamos a desenvolver nossos próprios vinhos.

E por quê? — perguntou Rosalie ao secretário.

A importação de vinhos, até mesmo dos países vizinhos, é muito cara para nós. Portanto, começamos a cultivar vinhedos em nossos vales para ver em que resultam.

É uma idéia brilhante — ponderou Rosalie. — Tenho certeza de que possuem outros projetos também, como garimpar ouro e pedras preciosas nas montanhas.

O secretário fitou-a com uma expressão de surpresa.

Por que pensa assim? — quis saber ele.

Porque tais tesouros são encontrados em países onde há muitas montanhas. Sempre pensei que devem existir muitas "caixas de Pandora" no mundo à espera de serem abertas.

É, com certeza, uma ótima idéia — comentou o secretário, como se falasse consigo mesmo.

Rosalie desejou fazer mais perguntas, mas concluiu que não seria muito educado de sua parte proceder assim logo no início da viagem.

Contudo, descobriu que o conde parecia disposto a responder-lhe o que quer que perguntasse.

Ao mesmo tempo, ele dirigia-lhe elogios e era óbvio que desejava vê-la falando sobre si própria.

Era a única coisa que Rosalie temia, pois poderia cair em contradição e dizer que tinha uma irmã gêmea.

Parecia mesmo extraordinário que tal fato não tivesse sido mencionado quando da visita do chanceler a Arramia.

O grão-duque disse a Rosalie, quando se viram sozinhos, que perguntara ao chanceler sobre o que dissera a respeito de suas filhas serem gêmeas.

Pode parecer estranho — dissera o chanceler —, mas concluí que tal fato poderia transtornar nossos planos. Caso o rei viesse a saber, talvez quisesse ter a opção de escolha entre duas moças tão belas e... Terminasse não conseguindo optar.

O grão-duque rira.

Entendo seu raciocínio — comentara ele. — Coincidência ou não, o que aconteceu foi uma bênção pela qual devemos ficar gratos.

Concordo com Vossa Alteza — replicara o chanceler.

É essencial que corra tudo bem nessa visita. — Fizera uma pausa antes de acrescentar: — Acho que seria conveniente, Alteza, que sugerisse ao rei Emmett que o casamento aconteça dentro de um mês, o que dará tempo a Sua Majestade de tomar as providências quanto às formalidades do evento que também será uma cerimônia de coroação. Isso sem que se perca o impacto da visita diplomática da qual Vossa Alteza tomará parte.

O grão-duque achara o argumento do chanceler bastante razoável.

Percebera, porém, que o único objetivo do chanceler era levar o rei depressa para o altar.

Então, durante uma conversa com o secretário de Estado de Arramia, o grão-duque descobrira que o homem compartilhava das mesmas idéias do chanceler.

A maioria dos noivados dura pelo menos seis meses — observara o grão-duque.

O secretário de Relações Exteriores levantou as duas mãos para o alto, em atitude de horror.

É tempo demais! — exclamou ele. — Rogo a Vossa Alteza que convença o rei da necessidade de o casamento acontecer após o anúncio do noivado.

O grão-duque concordara sem mais delongas.

Sua irmã — comentou então o grão-duque — até o casamento já terá recuperado seu velho egoísmo, reclamará bastante, antes que empreendamos essa viagem outra vez.

Tenho certeza de que isso não o aborrecerá, papai — afirmou Rosalie sorrindo. — Vejo como está adorando a viagem.

E estou mesmo — concordou o grão-duque. — Devo dizer que também aprecio nossos anfitriões. Se todos os arramianos forem assim, Jessica é uma garota de sorte.

É o que também penso — tornou Rosalie.

Ela conversava com os marinheiros em seu próprio idioma e o fato de Rosalie ter-lhes dado atenção deixou-os comovidos e satisfeitos.

Todas as noites, antes de se recolher para dormir, Rosalie rezava para que pudesse criar uma ótima impressão para Jessica.

Esperava que a irmã não estragasse tudo sendo petulante e indiferente às necessidades do povo.

Rosalie sentia um ligeiro nervosismo diante da expectativa de encontrar o rei. E se ele fosse diferente do que lhe haviam descrito?

Temia, também, que quando Jessica e ele se encontrassem houvesse desavenças.

Cada vez mais se convencia de que casamentos arranjados eram arriscados. Os participantes tinham mesmo sorte se tudo ocorresse de maneira certa.

"Como é possível que uma mulher ame um homem nessas condições?", indagava-se ela. "E, o que é mais intrigante, como pode um homem unir-se a uma mulher apenas porque ela representa um patrimônio para seu país?"

Tais pensamentos fizeram-na perceber o quanto seus pais tinham sido felizes.

Não se lembrava de uma única vez em que os dois tivessem discutido ou brigado.

Ao recordar a infância que tivera, Rosalie só conseguia lembrar-se de um ambiente onde imperava amor e felicidade contínua.

À medida que se aproximava mais e mais de Arramia, ela continuava imaginando o quanto tal situação seria difícil para Jessica.

Perguntava-se de que forma poderia tornar os caminhos da irmã menos pedregosos para que alcançasse seus objetivos depois.

Fale-me sobre o rei — pediu ela ao conde afinal.

Um silêncio se seguiu até que ele respondeu:

O que quer saber?

Quero que me fale sobre ele como homem e não como rei — foi a resposta de Rosalie.

Tenho certeza de que o achará charmoso — comentou o conde aos poucos como se visualizasse o rei Emmett. — Ele é bastante inteligente, mas não tem paciência com a pessoa que julga estúpida. — O conde então sorriu antes de continuar: — Mas, é claro, o mesmo não aconteceria se todas as pessoas fossem tão lindas quanto você.

Quero falar sobre o rei — ordenou Rosalie de maneira peremptória.

Ele domina várias línguas e, tenho certeza, não encontrará dificuldade em aprender a sua.

Fez-se uma pausa em que o conde parou para refletir sobre o que diria a seguir.

Rosalie então teve certeza de que podia ler os pensamentos dele.

Ele se perguntava se seria adequado informá-la sobre as muitas mulheres que haviam conquistado o rei no passado, algumas das quais o entediaram.

Como o conde nada dissesse, Rosalie adiantou-se:

O que afinal o rei tenciona? Apaixonar-se de verdade, talvez, já que isso nunca lhe aconteceu na vida?

Rosalie não soube dizer por que fizera aquela pergunta. As palavras brotaram-lhe dos lábios de forma natural.

O conde olhou fixamente para ela, a expressão atônita.

O que a fez perguntar isso? — indagou ele.

Acho... Acho que adivinhei o que lhe ia nos pensamentos — foi a resposta titubeante dela.

Eu a proíbo de ler meus pensamentos! — admoestou- a o conde.

Rosalie desviou o rosto e ficou contemplando uma das ilhas gregas por onde passavam naquele momento.

Era um lugar magnífico e, ela pensou, perfeito para os deuses e deusas que no passado foram ali venerados.

Percebo — começou ela depois de uma pausa — que o rei deve ter conhecido muitas mulheres bonitas e charmosas. Mas eu me pergunto se no futuro ele sentirá tanto a falta delas como sentiu no passado.

Rosalie pensava em Jessica enquanto falava.

Será que a irmã teria capacidade de conquistar um homem que parecia tão insatisfeito quanto ela?

Havia também a possibilidade de ele encarar com desprezo uma mulher que vinha de um país pequeno e sem importância.

Todas essas apreensões preenchiam os pensamentos de Rosalie.

Após uma pausa um tanto longa, o conde exclamou com voz firme:

Você é linda... Linda demais! Duvido que exista no mundo algum homem capaz de olhá-la e não se apaixonar. Mas você quer a verdade. Acredito que um homem, para ser feliz, precisa amar não apenas com a razão, mas também com a alma.

Rosalie fitou-o com expressão de surpresa.

Tais conceitos ela já conhecia, pois eram os mesmos que sua mãe lhe ensinara, mas jamais esperara ouvi-los de um homem tão jovem quanto o conde.

Pois saiba que já me deu a resposta — comunicou ela com voz gentil. — Muito obrigada!

Na manhã seguinte o navio atracou no porto de Arramia, que não era muito grande, mas as montanhas que o circundavam e as árvores frondosas que adornavam as docas tornavam o lugar encantador.

O encouraçado moveu-se devagar na direção dos cais.

Rosalie, de pé ao lado do pai no tombadilho, avistou uma multidão de pessoas aguardando a chegada deles.

Havia uma orquestra tocando e vários dignitários usando capas e condecorações de toda espécie sobre o peitilho.

O oficial comandante chamava a atenção de sua guarda de honra no momento em que o passadiço do navio foi abaixado.

Entre estrondosos gritos de viva, o grão-duque e Rosalie acenaram para a multidão.

A banda então irrompeu com o hino nacional e todos se colocaram em posição de respeito.

A seguir, tocou-se o hino nacional de Kessell.

Então, afinal, eles desceram o passadiço devagar e foram recebidos pelo primeiro-ministro, os membros do gabinete, o prefeito e membros do conselho da cidade.

Houve os inevitáveis discursos de boas-vindas.

Rosalie recebeu um enorme ramalhete de uma criança que parecia relutante em se desfazer das flores.

O grão-duque então inspecionou a guarda de honra.

Entraram afinal nas carruagens abertas, que os aguardavam para levá-los até o palácio.

Rosalie tomou assento ao lado do pai.

O primeiro-ministro sentou-se do lado oposto, ao lado do secretário do Estado, que os acompanhara na viagem.

Rosalie espantou-se por o rei não ter vindo saudá-los como mandava o protocolo.

Sempre que qualquer pessoa de importância chegava em Kessell, seu pai sempre ia recebê-la no cais ou, se ela viesse de trem, na estação.

Rosalie, no entanto, não desejou criticar tal atitude, pois, se o rei pareceu indiferente, pelo menos seu povo excedera- se em boas maneiras.

Havia multidões se aglomerando à margem de todo o caminho que conduzia ao palácio.

O palácio, uma edificação construída em terreno elevado, debruçava-se sobre toda a cidade que se estendia a seus pés.

Todo branco, era muito bonito a distância, com árvores verdes de todos os matizes como pano de fundo.

Mais adiante, via-se uma cadeia de montanhas, cujos picos estavam cobertos de neve.

As ruas foram decoradas e das árvores que perfilavam a estrada principal pendiam lanternas chinesas.

Rosalie imaginou que elas seriam acesas à noite.

As pessoas riam e faziam aclamações, dando-lhes boas- vindas.

Os quatro cavalos brancos que puxavam a carruagem começaram a subir a ladeira.

Pararam afinal diante de uma longa escadaria de pedras que os conduziria à porta da frente do palácio.

Havia chafarizes no jardim que atiravam jatos de água para o céu. Rosalie achou tudo aquilo uma página retirada de um conto de fadas.

Chegara afinal o momento de conhecerem o rei Emmett.

Por se sentir nervosa, Rosalie tomou a mão do pai, que a apertou confiante.

Ela sabia que o grão-duque lhe transmitia coragem por meio daquele contato, pedindo-lhe que nada temesse.

Lacaios com libré escarlate abriram as portas da carruagem e o grão-duque saiu.

Ele ajudou Rosalie a descer e ambos, lado a lado, começaram á galgar os degraus cobertos por um tapete vermelho.

Não havia sinal do rei.

Somente quando chegaram ao último degrau é que ele surgiu por uma das portas abertas, correndo como se estivesse atrasado.

Vestia um uniforme juntamente com uma túnica branca repleta de condecorações.

O rei Emmett era o que Rosalie sempre imaginara de um rei: imponente e bonito.

Na verdade, ele era muito mais bonito do que ela esperava.

Ao saudá-los, Rosalie percebeu que o rei não parecia sincero ao dar-lhes as boas-vindas, apesar das aclamações da multidão ainda estarem ressoando em seus ouvidos.

Ele proferiu as palavras certas e formais que, com certeza, acostumara-se a dizer a todos os visitantes ilustres.

Porém, como Rosalie pôde constatar, não havia qualquer sinal de satisfação nos olhos dele, que na realidade eram duros e desafiantes.

"Ele está odiando nos ter aqui", pensou ela.

Rosalie conseguia entender o que ele sentia.

Quero que Vossa Majestade conheça minha filha — irrompeu o grão-duque.

O rei voltou-se para Rosalie e ela percebeu que até aquele momento ele nem sequer a havia notado.

Por se sentir tímida ela não teve coragem de encará-lo.

Quando então ele tomou-lhe a mão, Rosalie fez-lhe uma reverência.

Muito me alegra receber Vossa Alteza em meu país — declarou ele.

Para tristeza de Rosalie, ele repetiu novamente palavras que não lhe saíam do íntimo.

Quando ela afinal levantou a cabeça, os olhos de ambos se encontraram.

De súbito, a frieza dos olhos dele foi substituída por uma expressão de surpresa.

Rosalie sabia que o rei não esperava que ela fosse tão bela.

Espero que tenham feito boa viagem — suas palavras ainda dessa vez soaram automáticas.

Foi encantador estar a bordo de um navio tão magnífico — respondeu-lhe Rosalie — e na companhia de pessoas tão agradáveis, inclusive o capitão e aqueles que o servem.

Rosalie percebeu que o rei ficara perplexo pela maneira como ela falava.

Ele se voltou para o grão-duque e propôs:

Vossa Alteza não apreciaria um drinque? Uma garrafa de champanhe francês o aguarda.

Ótima notícia, Majestade — respondeu o grão-duque sorrindo.

Sempre sinto muita sede — comentou o rei — após os longos discursos de recepção que sempre ouvimos quando chegamos em país estrangeiro.

O grão-duque riu.

Oh, não foram tão longos assim!

Então Vossa Alteza teve sorte — foi a observação do rei. — Sempre que possível tento evitar discursos.

Ao entrarem, Rosalie se pôs a contemplar a parte interna do palácio.

Tudo era muito belo e majestoso e ela teve certeza de que Jessica ficaria bastante impressionada.

Havia uma escadaria magnífica no hall, cujo corrimão era marchetado em ouro e cristal.

Os candelabros eram imensos e, com certeza, procedentes de Veneza.

Os quadros, que esperava ter oportunidade de examinar com atenção mais tarde, eram assinados pelos grandes mestres da pintura.

Estivera tão ocupada em pensar no rei, e em Jessica, que nem teve tempo de imaginar como poderia ser o palácio.

Naquele momento, enquanto caminhavam pelo corredor mobiliado de forma magnífica, Rosalie pensou que, por mais exigente que a irmã pudesse ser, parecia-lhe difícil que ela fosse achar algum defeito em toda a decoração.

O rei conduziu-os até uma sala de estar também ricamente mobiliada, onde as pinturas que pendiam das paredes eram em sua maior parte da França.

Enormes candelabros pendiam do teto, enquanto no chão se estendia um magnífico tapete que Rosalie imaginou ser da Pérsia.

Poupei-os de mais discursos — tornou o rei. — Pedi aos dignitários locais que os discursos fossem proferidos apenas no cais. Vocês terão oportunidade de conhecer os dignitários amanhã, na Câmara do Parlamento.

Fico-lhe grato — declarou o grão-duque — e posso dizer que estamos bastante satisfeitos em sua companhia neste palácio magnífico.

Meu pai redecorou este palácio quando assumiu o trono — explicou o rei. — Então, quando houve a rebelião e o país ficou destituído de seu monarca por alguns anos, houve um mestre de artes que por sorte não deixou ninguém invadir nosso palácio, para isso colocando barras nas portas.

Foi mesmo muita sorte — refletiu o grão-duque.

Também acho — concordou o rei. — Porém, como Vossa Alteza bem sabe, pessoas comuns quando entram no palácio não apreciam seu conteúdo. Basta que esteja coberto de ouro e tapetes vermelhos para saberem que seu dinheiro foi bem empregado.

O rei falava de maneira sarcástica.

Ao ouvi-lo, Rosalie pensou que tal atitude não era correta da parte de um soberano.

Apressou-se, porém, a dizer para si própria que não devia criticá-lo.

Depois ocorreu-lhe que Jessica exaltaria o palácio.

Então Rosalie se lembrou de que deveria agir como Jessica e, olhando para as pinturas, exclamou:

Que excitante que Vossa Majestade tenha aqui um exemplar de Fragonard e outro de Boucher! Achei que só pudesse vê-los em Paris.

O rei, que estava dizendo algo ao grão-duque, parou e respondeu:

Muito me admira que Vossa Alteza saiba reconhecer obras de arte. Talvez lhe interesse saber que um de meus ancestrais conseguiu comprar essas pinturas durante a Revolução juntamente com vários móveis ao estilo francês, que poderão ser encontrados em vários outros aposentos.

Que interessante! — exclamou Rosalie. — Sempre achei que foi George IV da Inglaterra, quando era príncipe de Gales, quem tivesse adquirido os melhores móveis de Versalhes, que no momento se encontram no palácio de Buckingham.

O rei nada respondeu e Rosalie acrescentou:

E é claro que mais tarde o visconde de Yarmouth levou de volta à Inglaterra um iate cheio de móveis quando o príncipe era regente.

Já ouvi falar sobre os móveis franceses existentes na Inglaterra e também a respeito de esboços e quadros da coleção de George IV — comunicou o rei.

Eu nunca tive a oportunidade de ver tal coleção — admitiu Rosalie —, mas minha mãe teve. Ela costumava falar bastante a respeito e eu também li vários livros que contavam sobre os tesouros estrangeiros da Inglaterra.

Pensei que jovens como você só gostassem de ler romances — foi a observação um tanto sarcástica do rei.

O grão-duque riu.

Minha filha é ávida leitora e eu receio que ela criticará o conteúdo de sua biblioteca, caso não esteja completa, e o fará gastar uma grande soma em livros que acabaram de ser publicados em meia dúzia de países.

Rosalie percebeu que o rei parecia cético quando à veracidade daquela afirmação.

Então, como se ele achasse mais interessante dirigir a palavra ao grão-duque, começaram a discutir equitação.

O soberano parecia bastante interessado no assunto.

Não ficaram muito na companhia do rei Emmett, uma vez que o tempo passara depressa e já era hora de se arrumarem para o jantar.

Rosalie subiu e foi conduzida para um quarto de luxo, bem mobiliado.

A mobília do palácio surpreendeu-a, já que era de muito bom gosto.

Sabia que a mãe também se encantaria com tudo, especialmente com os quadros dos grandes mestres que pendiam das paredes.

Carpetes e tapetes bastante luxuosos cobriam os assoalhos.

Rosalie trouxera consigo sua própria dama de companhia.

Pedira-lhe vezes sem conta que se lembrasse a todo momento de que ela era a princesa Jessica.

Pode confiar em mim, Alteza — assegurara Tarsia com ar ofendido na última vez em que Rosalie a advertira. — Afinal tomo conta de Vossa Alteza há dez anos.

Aquilo era verdade e Rosalie exclamou:

Não seja tão melindrosa, Tarsia! Sabe que confio em você, mas seria terrível se em algum momento alguém suspeitasse que tomei o lugar de minha irmã.

— Se quer saber — tornou Tarsia com a franqueza e ousadia que só os velhos criados tinham —, Vossa Alteza seria muito mais feliz aqui, neste país tão pequeno, do que sua irmã Jessica...

Rosalie nada respondeu.

Pensava que a maior dificuldade que a irmã teria de enfrentar em Arramia dizia respeito ao rei.

Apesar de ele fazer um grande esforço para parecer agradável, Rosalie sabia que não apreciava a presença dela e de seu pai?

Ele receava ter de se casar após vários anos de uma vida livre de solteiro.

"Tenho certeza de que, quando ele conhecer Jessica, ela o atrairá como atraiu o conde Nicolas Ersatz", Rosalie tentava se confortar.

Após o banho, Tarsia ajudou-a a colocar o vestido mais caro e mais belo que haviam comprado.

Pensou se deveria usar uma das jóias da mãe.

Concluiu então que não desejaria brilhar naquela noite, queria ser ela mesma.

Ajeitou então ao redor do pescoço um colar de pérolas perfeitas e, no pulso, um bracelete fino de diamantes.

Quando o grão-duque apareceu para acompanhá-la até a sala de jantar, fitou com olhar apreciativo.

No momento em que a criada se retirou ele disse em voz baixa:

Até agora tudo correu bem! Que achou do rei?

Ele não gosta de nossa presença aqui. Já deve ter notado, não?

É claro que sim — foi a resposta do grão-duque. — Mas depende de você, minha querida, cativá-lo.

Rosalie fez um pequeno gesto com as mãos, como que se sentindo incapaz de conseguir o que o pai lhe propunha.

Como posso? — indagou ela. — Bem sabe papai, que jamais tive muito contato com jovens, exceto com seus aides- de-camp.

O grão-duque atravessou o quarto com ar preocupado e então se voltou:

Faça o melhor que puder, querida — pediu ele. — Se quer saber, acho que Jessica ficará tão encantada em ser rainha neste palácio magnífico que não a preocupará o que o rei faça ou deixe de fazer.

Rosalie lançou para o pai um olhar inquiridor.

Quero dizer — continuou o grão-duque — que foi bastante grosseiro da parte do rei não nos ter recebido no cais nem ter nos acompanhado até seu palácio. Pressinto que esta noite ele apressará o jantar de forma que possa retornar logo,para os braços da mulher que o esteja divertindo no momento.

O grão duque falou sem pensar.

Quando viu a expressão refletida nos olhos da filha percebeu que acabara de cometer um engano.

— Agora, apresse-se — pediu ele com urgência na voz. — Não nos atrasemos para o jantar. Seja lá o que nosso anfitrião faça, nós nos comportaremos de forma correta.

Ele se encaminhou até a porta e Rosalie o seguiu.

Do lado de fora um lacaio os aguardava e os conduziu pelas escadarias até uma luxuosa sala de estar, onde já havia muitas pessoas.

Quando eles foram apresentados, Rosalie percebeu que eram os aristocratas de Arramia que ali vieram para ver, aprovar ou criticar a mulher escolhida para tornar-se a rainha de seu país.

As ladies achavam-se bem trajadas, conforme Rosalie pôde perceber, e usavam uma grande quantidade de jóias.

Os homens ostentavam medalhas e insígnias em abundância e a inevitável cruz pendente de uma fita ao redor do pescoço.

Havia generais de uniforme, porém poucos homens eram jovens.

Todos fizeram reverência a Rosalie, quando apresentados, e a fitaram com óbvia admiração.

Ela sabia que aquela era a espécie de recepção da qual Jessica adoraria participar.

A irmã seria então a pessoa mais importante ali presente.

Rosalie, portanto, lançou mão de todas as armas para mostrar-se tão charmosa quanto possível, conversando com os convidados em sua própria língua, para deleite de todos.

Ela falava arramiano de maneira tão fluente que os interlocutores não precisavam recorrer nem ao grego nem ao francês para se fazerem entender.

O jantar na luxuosa sala foi excelente, tendo sido servidos vinhos das melhores procedências.

Rosalie percebeu que todas as bebidas eram importadas.

Lembrou-se do que dissera o capitão do encouraçado a respeito de Arramia estar desenvolvendo seus próprios vinhos.

Portanto, quando o rei se voltou para falar-lhe, Rosalie argumentou:

Acho muito sensato da parte de Vossa Majestade que pensem produzir seu próprio vinho. Tenho certeza de que será delicioso, podendo se tornar uma exportação lucrativa para Arramia.

Quem foi que lhe disse que estamos desenvolvendo nossos próprios vinhos? — indagou o rei com surpresa na voz.

Foi o capitão do navio no qual viemos — replicou Rosalie. — Sempre achei tolice que outros países não se interessassem em fabricar seu próprio vinho, em vez de importá-lo. Afinal, por que a França precisa ter o monopólio? Há uma demanda mundial para o champanhe francês, e os alemães também obtêm muitos lucros em seu país, com o vinho branco da região do Reino.

— Você tem razão — concordou o rei. — Mas tenho a impressão de que não poderemos produzir nosso próprio champanhe apesar de termos condições de fabricar vinho branco ou rosé.

Serão os primeiros passos — argumentou ela. — Que outras possibilidades de progresso está explorando no momento?

E por que deveria eu explorar alguma coisa? — indagou o rei de forma truculenta.

Ora, porque estamos numa nova era onde todos fazem descobertas úteis e trazem à luz novas idéias — foi a resposta de Rosalie. Pense apenas nas melhorias que as estradas de ferro trouxeram para as viagens. Ninguém mais precisa passar longas semanas sacudindo-se em estradas poeirentas, com bandidos à espreita para assaltá-los a qualquer momento!

O rei não pôde deixar de rir.

É verdade — concordou ele. — Jamais vi as coisas sob esse ângulo e suponho que todos os países tentam produzir algo de novo e original, não é?

Kessell, por exemplo, se interessa por bicicletas — informou Rosalie. — Apesar de papai sempre dizer que elas jamais tomarão o lugar dos cavalos que ele adora.

E que eu também aprecio — tornou o rei. — Pois saiba que não pretendo jamais montar numa bicicleta.

Tenho certeza de que acharia difícil — comentou Rosalie. — Eu mesma já montei numa e achei muito doloroso quando sofri uma queda.

O rei fitou-a com olhar surpreso e então riu.

Acho difícil imaginá-la sentada sobre qualquer outra coisa que não seja uma almofada de seda enquanto ouve música suave.

Pois saiba que errou! — respondeu Rosalie. — Posso manobrar um iate tão bem quanto papai. Saio para praticar tiro todas as vezes que meu irmão vem passear em casa e já viajei duas vezes num balão!

O rei atirou a cabeça para trás e riu a valer.

Não acredito numa palavra do que me diz! Mas me intrigou saber que pode conduzir iates.

Rosalie se lembrou, tarde demais, de que Jessica detestava o mar.

No entanto, despertara o interesse do rei.

Notou que a expressão ressentida e dura que havia nos olhos dele, quando os recebeu, havia desaparecido.

Ambos começaram a falar sobre o mar.

Rosalie ficou satisfeita ao saber que o iate de seu pai, que ela própria tivera a oportunidade de manobrar, era mais moderno do que o modelo que o rei possuía.

Conversaram então sobre balonismo e ele comentou: Seria engraçado se pudéssemos experimentar um balão aqui, mas tenho certeza de que os ventos nos soprariam para cima das montanhas e acabaríamos sentados nos cumes.

O único inconveniente seria descer a pé e não vejo problema algum nisso — brincou Rosalie.

Não me diga que escala montanhas também, pois não acreditarei em você!

Escalei a maior parte das montanhas de meu país, mas não creio que elas sejam tão altas quanto às do seu, apesar de muito traiçoeiras em certos trechos.

Tudo que tenho a dizer — arrematou o rei afinal — é que você é uma jovem moderna, que na Inglaterra costumam chamar de "sabichona".

Rosalie balançou a cabeça.

O que acabei de dizer não implica ser "sabichona" como Vossa Majestade diz. Tal termo significa ser a pessoa muito erudita e interessada em literatura.

O que suponho você também seja — tornou o rei. — Nesse caso, eu desisto! Mulheres devem ser criaturas doces, meigas, não se intrometendo em assuntos que só devem interessar aos homens!

E por acaso essas mulheres doces e meigas não se tornam enfadonhas depois de algum tempo? — indagou Rosalie com um sorriso de satisfação nos lábios. — Um bom livro traz muita alegria e cultura e podemos discutir assuntos variados com qualquer pessoa erudita. Meu irmão, Alexander, está prestes a obter grau máximo em história e literatura na Universidade de Oxford.

Você me surpreende e me assusta! — o rei exclamou.

A lady que estava à esquerda do rei olhava para Rosalie com ar petulante.

Rosalie até então não havia notado sua presença, mas a mulher intrometeu-se na conversa.

Quando foram apresentadas, Rosalie soube que a lady em questão era a condessa de Rhiga, de origem francesa.

A condessa não era bonita, mas tinha charme e vivacidade, o que atraía os homens.

Tinha cabelos negros e olhos verdes e brilhantes.

Era a mulher mais elegante e, por que não dizer, mais atraente de toda a festa.

O soberano falava com ela usando um tom de voz bem diferente daquele que usara com Rosalie.

A condessa respondia numa voz sedutora que, às vezes, soava íntima.

"Se é disso que ele de fato gosta", perguntava-se Rosalie, "com que armas Jessica poderá competir?"