A Intriga da Rainha

Autora: Bárbara Cartland

Adaptadora: Hithi

Esse livro não é de minha autoria assim como os personagens nele presentes. Somente faço a adaptação de uma historia fantástica para vocês.

CAPÍTULO IV

Na manhã seguinte aconteceu a visita diplomática à Câmara do Parlamento.

Viajaram em carruagens abertas e conduzidas por cavalos puros-sangues.

O rei e o grão-duque seguiram na primeira carruagem ao lado de dois aides-de-camp.

Rosalie seguiu com o secretário de Estado e sua esposa, senhora de quem ela aprendera a gostar.

Ela se surpreendeu ao perceber que a multidão não demonstrou o mesmo entusiasmo do dia anterior ao vê-los passar.

Várias pessoas nem mesmo acenaram-lhes as mãos.

Limitavam-se a assistir à passagem da comitiva e a seguir se retiravam para cuidar de seus afazeres.

A impressão que o povo despertou em Rosalie foi tão óbvia que, quando já se aproximava da Câmara do Parlamento, ela perguntou a madame Botzaris:

Por que as pessoas não parecem tão entusiasmadas hoje? A recepção de ontem me comoveu tanto!

Fez-se uma pequena pausa e o secretário pareceu curioso em descobrir o que a esposa responderia.

Madame Botzaris olhou para ele como que para obter consentimento e então disse:

Acho que Vossa Alteza devia saber a verdade. É que no momento nosso rei não goza de muita popularidade.

E por quê?

Há muitas pessoas aqui incitando desavenças — o secretário apressou-se a dizer. — Sua Majestade, sinto muito dizer, não dá ao povo a atenção devida, ou melhor, não o compreende.

Rosalie nada respondeu e, após um momento, ele acrescentou:

Sou franco com Vossa Alteza, pois contamos com sua ajuda.

Sabe que farei o que puder — prometeu Rosalie.

Enquanto falava, ela pensou que Jessica não demonstraria qualquer interesse por pessoas comuns.

A irmã, por seu lado, apoiaria a resolução do rei em não desperdiçar seu tempo com audiências que ele julgasse enfadonhas.

Quando chegaram à Câmara do Parlamento, que era quase uma réplica do Parlamento de Londres, houve um número considerável de discursos.

O primeiro deles foi proferido pelo primeiro-ministro; a seguir discursaram também outros membros do gabinete e dois da oposição.

Rosalie percebeu que o pai ouvia tudo com a mesma atenção que devotava aos políticos de seu país.

O rei, porém, mostrou-se entediado.

Não tentou esconder o alívio que sentiu quando os discursos terminaram.

O grão-duque desejou reunir-se aos membros do Parlamento para uma conversa.

O rei, no entanto, continuou afirmando que já era hora de retornarem ao palácio.

Quando então fizeram a viagem de volta, as pessoas nas ruas pareceram ignorá-los.

De fato, só as crianças se preocupavam em acenar para o cortejo.

Pareciam também interessadas nos cavalos que conduziam o coche do rei e as outras carruagens da comitiva.

Quando Rosalie chegou ao palácio, foi com o pai para um dos aposentos de estar.

Os criados ofereceram-lhes taças de champanhe.

Foi então que o rei se manifestou:

Graças a Deus que tudo acabou! Sinto muito que algo tão enfadonho lhes tenha estragado a noite.

Para ser sincero, achei os discursos bastante esclarecedores — replicou o grão-duque. — Estou sempre preparado para ouvir os pontos de vista de outros países. As opiniões do primeiro-ministro sobre de que forma seu país poderia se desenvolver foram bastante inteligentes.

Muita conversa! — tornou o rei. — Acredito que nada será realizado, afinal.

Foi de fato Sua Alteza — comentou o secretário de Estado, que se encontrava na companhia deles — quem sugeriu que procurássemos ouro e pedras preciosas nas montanhas.

Ouro? Pedras preciosas? — exclamou o rei atônito. — Jamais pensei que pudéssemos encontrar coisas desse tipo por lá!

E como pode ter tanta certeza? — indagou Rosalie. — Se quiser, papai poderá dizer que acabaram de descobrir uma grande mina de ouro na Rússia. Na verdade, há tanto ouro ainda a ser garimpado que o país se tornou um dos maiores exploradores do metal.

E é pura verdade — confirmou o grão-duque. — Vos- se Majestade poderá não encontrar ouro em sua montanhas, mas estou, convencido de que deve haver outros minerais dignos de serem descobertos em seu país.

Isso me surpreende — respondeu o rei com voz seca.

Ele não parecia muito excitado com a idéia.

Rosalie pensou que o rei talvez estivesse sendo cético demais.

Seu pai comentara com ela sobre a surpreendente quantidade de ouro descoberta na Rússia. Sabia que seus vizinhos, a Romênia e a Sérvia, tentavam por todos os meios aumentar o volume de suas exportações.

A Hungria criava cavalos magníficos que eram comprados por outros países.

O rei, no entanto, não mais ouvia o que lhe diziam. Deu ordens em voz baixa para um de seus aides-de-camp e desapareceu em seguida.

Um pouco depois, antes que o almoço fosse anunciado, a mesma francesa que se sentara próximo ao rei, na noite anterior durante o jantar, entrou no aposento.

Parecia ainda mais fascinante.

O vestido que usava, era óbvio, viera direto de Paris.

Suas jóias, pomposas demais para serem usadas durante o dia, eram deslumbrantes.

Ela não usava chapéu.

Rosalie notou que seus cabelos muito negros tinham reflexos azulados, o que lhe dava um toque romântico.

Ela fez uma reverência ao rei, que lhe beijou a mão.

Sabia que me mandaria chamar — comentou ela.

E como não mandaria? — indagou o rei com voz melosa. — Preciso de você aqui comigo.

Ele a apresentou ao grão-duque.

Enquanto a mulher conversava animadamente com o grão- duque, o secretário se voltou para Rosalie:

O conde de Rhiga — disse ele em voz baixa — é um dos maiores proprietários do país. Ele, porém, não gosta da vida social, preferindo permanecer em sua propriedade.

A condessa é francesa? —- indagou Rosalie.

Sim e, como Sua Majestade, ela acha Arramia um lugar tedioso.

Rosalie fitou o secretário com ar surpreso.

Naquele momento, porém, ele tinha o rosto voltado para o rei e a condessa.

Rosalie percebeu que o fato de a condessa reunir-se a eles durante o almoço desagradara ao secretário.

A refeição estava deliciosa e as conversas, apesar de triviais, foram agradáveis.

Ela sentou-se do lado direito do rei, como na noite anterior

No entanto, ele mal lhe dirigiu a palavra, preferindo dedicar toda sua atenção à condessa.

Rosalie se perguntou de que forma Jessica enfrentaria aquela situação e descobriu que a irmã ficaria de fato bastante irritada.

Mas tinha certeza de que Jessica conseguiria atrair o rei, o que ela própria não conseguira até então.

Após o almoço, o grão-duque e Rosalie foram levados para conhecer os pontos turísticos mais interessantes da cidade.

O rei se escusou a acompanhá-los, argumentando que tinha outros assuntos a tratar.

Logo após o almoço ele e a condessa deixaram a sala. Era óbvio que queriam ficar a sós.

Rosalie outra vez achou a atitude dele bastante grosseira. Sabia que tanto o pai como o secretário pensavam o mesmo.

Eles nada disseram, mas pareceram calorosos ao extremo com relação a Rosalie como se não quisessem vê-la ferida pela falta de atenção do rei.

A carruagem os aguardava na porta de entrada e eles foram até a cidade.

Visitaram a catedral em primeiro lugar, que era bastante antiga.

Ela se ajoelhou e rezou para que pudesse ajudar Jessica mais do que era capaz de fazer no momento.

Não podia deixar de imaginar que, se a visita diplomática resultasse em fracasso, a única prejudicada seria sua irmã gêmea.

Para compensar a atmosfera pesada que tivera de enfrentar no palácio, Rosalie foi bastante efusiva com as pessoas encarregadas de mostrar a ela e a seu pai o museu.

Não deixou de ser cordial também com aqueles que os conduziram até o pequeno zoológico, edificado pelo pai do rei e que, como o palácio, sobrevivera à revolução.

Não havia ali muitos animais, mas Rosalie adorou o elefante que comeu, com grande apetite, as uvas-passas que ela lhe ofereceu.

Os macacos estenderam as mãos compridas implorando por bananas.

Havia várias toninhas num grande lago.

Num canto Rosalie avistou um tigre com um ar tão grande de enfado que, ela pensou, tinha a mesma expressão do rei.

Pássaros exóticos e bonitos adornavam o aviário. O grão- duque demonstrou bastante interesse pelos répteis.

Quando saíram, Rosalie agradeceu aos proprietários dizendo-lhes o quanto adorara o passeio.

Espero que Vossa Alteza informe ao rei que estamos administrando este lugar da mesma forma que Sua Majestade, seu pai, o fazia — pediu o proprietário do zoológico.

Por acaso Sua Majestade não vem aqui visitá-los? — indagou.

O proprietário fez que não com um gesto de cabeça.

Jamais tivemos o prazer de receber aqui o rei desde que ele era garoto.

O grão-duque escutou o que o homem dizia.

Enquanto caminhavam na direção da carruagem, ele falou num tom de voz que apenas Rosalie pôde ouvir:

Aquele jovem está trocando os pés pelas mãos. Duvido que sua irmã poderá fazê-lo se comportar de maneira diferente.

Ela nada respondeu, pois naquele momento o secretário se reuniu a eles.

Porém sabia que seu pai tinha razão.

Ela se perguntou se alguém, com exceção da condessa, é claro, poderia fazê-lo agir com mais responsabilidade.

Na viagem de volta, as carruagens percorreram as ruas arborizadas da cidade.

Rosalie avistou o palácio a sua frente com os picos das montanhas cobertos de neve a lhe fazer pano de fundo.

Ela imaginou que ninguém desejaria um país melhor e mais belo para se viver do que Arramia.

Se o rei fosse de fato imprudente e perdesse seu reinado, poderia mesmo ser considerado um grande tolo, como dissera o grão-duque.

Quando retornaram ao palácio, Rosalie soube que haveria uma grande recepção naquela noite.

Madame Botzaris sugeriu que ela repousasse um pouco em seu boudoir.

Rosalie já tinha visto vários livros naquele aposento que gostaria de ler. Achou, portanto, bastante agradável poder ficar sozinha sem ninguém para distrair-lhe a atenção.

Havia numa estante vários livros que contavam a história de Arramia. Ela se acomodou no sofá e começou a lê-los.

Não demorou muito para que entrasse no aposento o conde Paul Maori.

Rosalie levantou a cabeça e sorriu ao vê-lo.

Alô — saudou ela. — Por onde andou o dia todo que não o vimos?

Vim pedir a Sua Majestade que desça imediatamente.

Ele falava de maneira séria e Rosalie, apreensiva, indagou:

Por quê? O que aconteceu?

Sua Alteza, o grão-duque e o primeiro-ministro desejam que você se reúna a eles.

Rosalie se levantou do sofá.

Pelo tom de voz do conde, ela percebeu que algo de importante acontecera e perguntou-se o que seria.

Era impossível terem descoberto que ela não era Jessica, pensou Rosalie cheia de temor.

Não podia, porém, imaginar outra razão para que mandassem chamá-la daquela forma tão urgente.

O conde adiantou-se e abriu-lhe a porta de um aposento no qual ela não havia entrado até então.

Lá dentro se encontravam o grão-duque, o primeiro- ministro e o secretário de Estado.

Havia um outro homem, de quem ela vagamente se lembrou. Fora-lhe apresentado como o ministro da Defesa.

Com exceção do grão-duque, todos se levantaram assim que ela entrou.

O conde, após entrar no aposento, ficou encostado na porta.

Parecia que agia daquela forma para impedir que alguém entrasse na sala e os perturbasse.

Rosalie encaminhou-se até onde o pai estava sentado.

Ele estendeu-lhe as mãos.

Quando ela as tocou, notou, pela pressão que os dedos dele exerceram sobre os seus, que algo de perturbador ocorrera.

Ela nada disse, limitando-se a se sentar ao lado do grão- duque. A seguir, os outros cavalheiros fizeram o mesmo.

Foi então que o primeiro-ministro falou:

Pedi a Sua Alteza que viesse até aqui pois fui incumbido de informar-lhe que há várias desordens na cidade que podem se converter em rebelião.

Rosalie prendeu a respiração, aflita.

Quer dizer que... O povo pode destronar o rei?

Exato — foi a resposta do primeiro-ministro. — Foi por isso que meus colegas e eu viemos aqui para implorar- lhe que nos salve casando-se com Sua Majestade imediatamente!

Por um segundo Rosalie mal pôde acreditar no que acabava de ouvir.

Então, quando sentiu a pressão dos dedos do pai aumentando sobre os seus,.percebeu que precisaria manter o autocontrole.

Não deveria recusar de imediato a proposta que o primeiro- ministro acabava de lhe fazer.

Numa voz que ela lutou para manter calma e baixa, Rosalie indagou:

As coisas estão assim tão más conforme teme Vossa Excelência?

Lamento dizer que sim — admitiu o primeiro-ministro.

É algo que os rebeldes planejam já há algum tempo. De fato, prevemos uma revolta que pode destruir todo o país.

Mas o povo não deseja ser governado por um monarca?

Seguiu-se um silêncio antes que o primeiro-ministro respondesse:

Serei franco com Vossa Alteza: o rei não goza de popularidade junto ao povo. Os revolucionários prometem que tudo poderá ser melhor se o governo do país for assumido por um presidente eleito pelo próprio povo.

Rosalie fitou o pai.

Outra vez os dedos dele apertaram os dela antes que ele dissesse:

Minha querida, discuti bastante o assunto com o primeiro-ministro e o ministro da Defesa. Todos são unânimes em afirmar que a única forma de salvar o país é distrair o povo oferecendo-lhe algo que possa diverti-los por algum tempo.

E que mulher não gosta de uma festa de casamento?Indagou o secretário com um sorriso.

É verdade — concordou o primeiro-ministro. — Todas as mulheres da cidade já comentam sobre sua rara beleza. Se for anunciado que se casará com Sua Majestade e que em seguida será coroada rainha, todos se alegrarão. Tenho certeza de que nada os fará se reunir aos revolucionários até que as festividades terminem, o que nos dará tempo para desdobrarmos nossas forças.

Entendo o que quer dizer — falou Rosalie com voz trêmula. — Todavia, já pensou que o anúncio do casamento pode também não satisfazê-los?

Rosalie esperava que seu argumento ganhasse a aprovação do primeiro-ministro.

Ele, porém, fez que não com um gesto de cabeça.

O ministro da Defesa argumenta que as coisas já foram longe demais para que tal fato aconteça — respondeu ele. — Foi algo que eu também sugeri. Agora, porém, precisamos agir com rapidez antes que tenha início a revolução, e não temos no momento tropas suficientes para detê-la.

Onde está o restante das tropas? — quis saber o grão-duque.

Como Vossa Alteza deve saber, nesta época do ano elas saem para executar manobras e, como Sua Majestade não quer atender aos soldados, eles estão amotinados do outro lado do país. — Percebeu que o grão-duque e Rosalie ouviam com atenção e então prosseguiu: — Eles se encontram acampados e, mesmo que mandemos chamá-los de imediato, levaria quase uma semana inteira para chegarem à capital.

Quer então que minha filha se case dentro de uma semana? — indagou o grão-duque.

Minha sugestão — replicou o primeiro-ministro —, que já tem a aprovação do gabinete, é que anunciemos o noivado ainda esta noite. Amanhã começarão os preparativos para a decoração das ruas, das casas e, é claro, da catedral.

Já temos algumas decorações feitas na cidade, mas insistimos em que haja muito mais — o secretário argumentou.

E então? — inquiriu o grão-duque.

Então, daqui a três dias — afirmou o primeiro-ministro —, o casamento será realizado.

Mas... É impossível! — foi a exclamação de Rosalie.

Falou sem refletir, movida pelo espanto do momento.

Sentiu a força da mão do pai na sua e percebeu que cometera um engano.

Ela então se apressou a acrescentar de forma desajeitada:

Eu... Nem mesmo tenho... Um vestido de noiva...Os cavalheiros riram todos ao mesmo tempo e o primeiro-ministro argumentou:

Percebo que o vestido é muito importante para Vossa Alteza, mas sei que, seja lá a roupa que use, sempre parecerá encantadora.

Rosalie gostou do elogio e sorriu para ele.

De qualquer forma tenho certeza de que, se nossas mo- distas trabalharem noite e dia — arrematou o primeiro- ministro — poderão fazer quaisquer alterações em algum vestido que Vossa Alteza já possua na bagagem.

Como se sentisse orgulho da sugestão que acabara de fazer, ele olhou para o secretário de Estado como que à procura de aprovação.

Minha esposa poderá também ajudar no que for necessário — ofereceu o secretário.

Foi então que Rosalie fez a pergunta mais importante de todas:

Por acaso Vossa Excelência já pediu a aprovação do rei para uma atitude tão precipitada?

O primeiro-ministro fitou o grão-duque.

Pedi ajuda primeiro a seu pai, já sabendo que casar-se de forma tão apressada iria mesmo perturbá-la. Sei que gostaria de ter presentes na cerimônia seus parentes e amigos. — Olhou para Rosalie em seguida, como que para se assegurar de que ela o compreendia. Então prosseguiu: — Sua Alteza, seu pai, foi bastante compreensivo. Não exagerei quando disse que essa não é uma rebelião comum. Não há dúvida de que, se os revolucionários tomarem o poder, vão assassinar inúmeras pessoas, inclusive Sua Majestade.

Rosalie não pôde reprimir um grito de horror, porém não havia nada que pudesse dizer.

O primeiro-ministro se levantou.

Não sei como agradecer a Vossa Alteza em meu nome e no de meus colegas por nos ter salvado a vida.

Ele fez uma reverência seguido pelos outros, primeiro para Rosalie e depois para o grão-duque.

Então deixaram o aposento sem dizer mais nada.

Rosalie então se voltou para o pai.

O que vamos fazer, papai? — indagou, ela. — Sabe que não posso me casar com o rei.

Receio dizer que precisará se casar, querida — respondeu o grão-duque.

Mas é Jessica quem deveria e eu, em particular, não quero me unir ao rei.

Eu sei, eu sei — concordou o grão-duque. — Mas acho que não podemos voltar as costas para esse povo e deixá-lo entregue a seu destino. Além disso, se o primeiro-ministro está certo, e não tenho razões para duvidar, quando diz que não podem escapar das mãos dos revolucionários, nós também não podemos!

Ela suspirou.

Então, eles poderiam nos... Matar?

Sem dúvida — respondeu o grão-duque. — Os revolucionários são contra a monarquia e você sabe, tanto quanto eu, quantos assassinatos já foram cometidos em toda a Europa.

Rosalie sabia que era verdade.

No entanto, não podia imaginar nada pior do que se casar com o rei Emmett.

Teria a seu lado, para sempre, um marido que a odiaria por ter sido obrigado a casar-se.

Teria também de enfrentar uma irmã gêmea que jamais a perdoaria por ter tomado seu lugar.

Não posso fazer isso, papai! — gritou ela.

Mas você deve querida — respondeu o grão-duque. — Sei como se comportam esses demônios quando têm sede de sangue: só conseguem ganhar poder por intermédio de assassinatos e saques.

Rosalie se encaminhou até a janela.

Lá fora o sol brilhava.

Os jatos de água que os chafarizes atiravam para o alto ganhavam uma coloração viva debaixo do sol e, quando caíam transformados em gotículas, refletiam todos os matizes do arco-íris.

Como era possível que houvesse homens lá fora desejando destruir tudo o que havia de belo no palácio?

Como pretendiam assassinar seu próprio rei e qualquer pessoa que estivesse de certa forma ligada à nobreza?

Ela achava difícil acreditar que a situação era tão perigosa como dissera o primeiro-ministro.

Perguntou-se em desespero se havia alguma maneira de escapar daquele casamento.

O grão-duque sabia o que se passava no coração da filha.

Ele se levantou e veio para junto dela, passando o braço ao redor de seu ombro.

Sinto muito, minha querida — murmurou ele. — E tudo aconteceu só porque eu tentei arranjar um rei para sua irmã.

Não é culpa sua, papai. Parece que, sem perceber, caímos numa armadilha.

O grão-duque também contemplou o jardim do lado de fora.

Naquele momento uma revoada de pombos sobrevoou a fonte e em seguida se dirigiu para a cidade.

Posso estar errado — comentou ele em voz baixa —, mas sua mãe me diz que isso é algo que devemos fazer e que, apesar de não percebermos agora, no futuro tudo se reverterá para melhor.

Sente mesmo isso, papai? — indagou ela. — Ou apenas me diz palavras de conforto?

Juro pelo que há de mais sagrado — replicou ele. — Sabe tanto quanto eu que sua mãe jamais disse uma mentira.

Então me casarei com o rei — murmurou Rosalie —, porém precisa rezar por mim, papai, porque vai ser muito difícil, como já deve saber.

É claro que sei — foi a resposta do grão-duque —, mas você é muito bonita, minha querida, e mulheres bonitas têm poderes que homem algum pode superar.

Sabia o que o pai queria dizer.

Lembrou-se dos olhos brilhantes da condessa Rhiga, de sua voz doce e melodiosa e de que forma ela atraíra o rei a ponto de ele não ter olhos para outra mulher.

O grão-duque tirou o braço do ombro da filha.

Creio que agora preciso falar com o rei em seu nome — comunicou ele. — Direi a ele que está bastante perturbada pelo que ocorre no momento e que preciso que ele seja gentil e compreensivo com você.

Rosalie de súbito descobriu que já não suportava ouvir mais nada.

Vou para meu quarto, papai — informou. — Se qualquer outro fato ocorrer, procure-me.

O grão-duque a beijou e ela saiu da sala dirigindo-se para seu boudoir.

O livro sobre a história de Arramia encontrava-se no mesmo lugar onde ela o deixou, porém Rosalie não o apanhou mais.

Em vez disso, sentou-se e cobriu o rosto com as mãos.

Sentia como se tudo o que planejara e sonhara a vida toda tivesse ido por água abaixo. Tivera certeza de que um dia encontraria um homem que a amasse e vice-versa. Não importava se ele fosse um rei ou um plebeu. Seria afinal o homem que ela escolhera para se casar e a quem pertenceria para sempre. No entanto, tudo dera errado.

Tomara o lugar de Jessica e agora estava prestes a se casar com o homem que fora escolhido para ser o esposo da irmã. Lágrimas de tristeza e desespero começaram a rolar-lhe pelas faces.

Ela perdera tudo.

Sua casa, sua irmã e, quando o pai retornasse a Kessell, ela se veria sozinha na companhia de um homem que a odiava.

Seria a rainha de um país estranho, com a ameaça de revolução pairando sobre sua cabeça.

E quem podia afirmar que depois do casamento os revolucionários desistiriam?

Então não haveria mais nenhum casamento real ou coroação que pudesse ocupar a mente do povo.

— O que farei, meu Deus? — indagava ela em voz alta.

Então, como acontecera com o pai, Rosalie sentiu a presença da mãe.

Era quase como se ela estivesse de pé a seu lado e lhe pousasse a mão sobre a cabeça.

Podia sentir a vibração do amor que emanava do coração materno, como acontecia quando a mãe era viva.

Sabia que se a mãe estava ali a seu lado era para pedir-lhe que tivesse coragem. Era, pois, seu dever, ajudar os arramianos e seu rei.

A presença da mãe era tão eloqüente que Rosalie sentiu que, se estendesse a mão, poderia tocá-la.

Uma nova força então começou a percorrer-lhe todo o ser, uma força que vinha de outro mundo.

Um mundo que não lhe oferecia apenas proteção, mas que lhe dava poder para ajudar os outros.