A Intriga da Rainha

Autora: Bárbara Cartland

Adaptadora: Hithi

Esse livro não é de minha autoria assim como os personagens nele presentes. Somente faço a adaptação de uma historia fantástica para vocês.

CAPÍTULO V

O rei deu desculpas para não comparecer ao jantar daquela noite.

Rosalie subiu para o quarto, sentindo vontade de ficar sozinha. O grão-duque nem mesmo tentou persuadi-la a ficar.

Ela imaginou que conciliar o sono naquela noite seria um martírio, porém dormiu bem.

Quando desceu para o breakfast na manhã seguinte, o grão- duque era a única pessoa presente à mesa.

Me alegra estarmos a sós, papai — comentou ela. — O que vamos fazer, hoje?

Estou aguardando instruções — foi a resposta do grão- duque. — Imagino que você tenha hora marcada com as modistas, não?

Ela sentiu um calafrio percorrer-lhe a espinha.

Seu vestido de casamento parecia envolto numa nuvem negra que a ameaçava ao se aproximar cada vez mais.

Finalizado o breakfast, Rosalie foi informada de que as mo- distas a aguardavam no andar superior.

As mulheres eram bastante charmosas.

Ao avistarem um vestido de noite branco que Jessica escolhera, deixaram escapar uma exclamação.

Era a roupa mais elaborada que Rosalie trouxera consigo na viagem.

Precisará acrescentar poucos acessórios a esse vestido, Alteza — a chefe das modistas informou: —- Se minhas funcionárias trabalharem noite e dia, entregarei o vestido muito em breve.

Mas não se esgotem — advertiu-as Rosalie. — Sei que é impossível conseguir muita coisa em tão pouco tempo.

Nada pode ser mais importante que seu vestido de noiva, Alteza — replicou a modista. — E o fato de eu ter participado da confecção dele me dará bastante prestígio na cidade.

Rosalie sentiu vontade de dizer que, se os revolucionários ganhassem, com certeza eles não apreciariam o trabalho dela.

No entanto, sabia que deveria ser prudente não dizendo a ninguém por que o casamento tinha de ser realizado com tanta pressa.

Quando as modistas foram embora, Rosalie desceu.

Para sua surpresa, encontrou o pai sozinho na sala de visitas que ocupavam desde sua chegada ao palácio.

O que aconteceu? — indagou Rosalie.

Nada— respondeu o grão-duque.

Então tenho agora uma chance de fazer-lhe uma pergunta muito importante — comentou ela, buscando assento ao lado do pai.

E do que se trata? — inquiriu ele.

Como posso me casar em nome de Jessica? — indagou ela. — Seria um ato ilegal.

O grão-duque sorriu.

Pois saiba que já pensei nisso!

Já? — perguntou Rosalie.

Você tem outro nome, conforme já expliquei à Sua Majestade.

Rosalie não pôde conter um grito.

Eu havia me esquecido. Você nos batizou com o nome de Elizabeth porque era o nome de mamãe!

O nome, porém, jamais fora usado por ambas, já que era difícil de ser pronunciado pelo povo de Kessell.

Você se casará — explicou o grão-duque — como princesa Elizabeth. Já disse ao rei que você usará esse nome quando se tornar rainha.

Ela deu um suspiro de alívio.

Não me agradaria usar o nome de Jessica — informou em voz baixa. — Obrigado papai, por ajudar-me a vencer mais esta barreira.

Antes que o grão-duque pudesse responder, a porta se abriu para dar passagem ao rei.

Bom dia! — saudou ele. — Perdoem-me pelo atraso, mas não consegui dormir a noite toda. Só conciliei o sono às cinco da manhã.

O grão-duque e a filha fitaram-no. Se aquilo era verdade, pensou ela, o rei parecia bastante alerta.

Podia ser imaginação sua, mas ele parecia ainda mais vivaz e viril do que no dia anterior.

Por que dormiu tão tarde? — o grão-duque indagou.

Quando Rosalie fitou-o, o rei se voltou para encará-la nos olhos e, com uma pequena reverência, ele comentou:

Antes que eu explique por que, quero expressar meus agradecimentos a vocês por terem concordado em me auxiliar nesse problema. — Após uma pausa, explicou: — Fui até a cidade verificar se as coisas eram tão más quanto descreveu o primeiro-ministro.

Vossa Majestade foi até a cidade? — exclamou o grão- duque — E como?

Disfarçado — replicou o rei —, mas foi bastante esclarecedora essa visita.

O que houve? — indagou Rosalie.

Ouvi os revolucionários falando com o povo, que me pareceu volúvel ao extremo — comentou o rei. — lhes explicavam o que fariam depois que tivessem dado cabo de mim e, é claro, do primeiro-ministro e de seu gabinete.

E acaso disseram o que fariam? — indagou Rosalie com voz amedrontada.

Foram bastante francos acerca disso — respondeu o rei —, mas antes quero agradecer-lhes por tudo; as mulheres não tomarão parte na revolução até que a festa de nosso casamento termine. — Fez uma pausa antes de prosseguir: — O primeiro-ministro tinha razão acerca desse detalhe, mas errou no que dizia respeito ao resto.

O que quer dizer com "resto"? — indagou o grão-duque.

O rei se encaminhou até a janela como se refletisse antes de responder:

Percebi que tenho sido um completo tolo desde que assumi o trono.

Rosalie fitou-o, mas nada disse; ele então prosseguiu:

Deixei-me manipular por aqueles velhos tolos, que queriam que tudo fosse feito da mesma forma que no tempo de meu pai e meu avô.

Deve ter sido irritante receber tais conselhos — comentou o grão-duque em tom de voz complacente.

Sim, mas por que lhes dei ouvidos? — perguntou o rei ao grão-duque. — Eles sempre diziam "não" a tudo o que eu sugeria e, apesar de eu ser um rei, obedeci cegamente em vez de agir de acordo com meus próprios instintos que me diziam que eu estava certo.

Havia uma nota de auto-reprovação na voz dele que fez Rosalie perceber o quanto tudo aquilo representava para o rei.

Veja a situação agora — continuou ele. — O exército encontra-se a muitas milhas daqui a momento e, mesmo se as tropas estivessem aqui, não seriam tão eficientes como deveriam ser. Se eu tivesse dado um treinamento especial para o exército, preparando-o para casos de emergência como esse, tudo seria bem diferente.

Mas Vossa Majestade teve a intenção de agir assim alguma vez? — indagou o grão-duque.

—É lógico que sim — replicou o rei —, porém me disseram que era impossível executar meus planos e eu me contentei com um exército mal treinado que me saudava numa plataforma, enquanto eu o revistava.

O rei Emmett ficou em silêncio por alguns instantes, o olhar triste, e então acrescentou:

Tudo o que eu tencionava fazer me diziam que era impraticável ou que não havia dinheiro suficiente e tive de aceitar a idiota condição de marionete nas mãos de outros!

Sua voz furiosa pareceu ecoar em todo o aposento.

Foi então que o grão-duque comentou em voz baixa:

Nunca é tarde demais.

Se nunca é tarde — replicou o rei —, devo isso a sua filha. A festa de casamento atrairá pelo menos a metade da população. A idéia de revolução será esquecida por algum tempo e, até que a cerimônia aconteça, estaremos seguros.

O que fará enquanto isso? — indagou o grão-duque.

Preparar-me da melhor forma para a batalha que temos pela frente e para governar depois este país como eu já devia ter feito desde que assumi o trono.

O grão-duque bateu palmas.

Excelente! — aprovou ele. — Tenho certeza de que se agir assim descobrirá que as coisas não são tão más como parecem.

Espero que tenha razão — disse o rei em tom de voz mais baixo. — Mas a revolução é possível. Os revolucionários conseguiram reunir os desempregados e os mendigos da cidade para lutarem contra a monarquia.

É bom que esteja preparado — advertiu o grão-duque. — Mas quais são seus planos?

Já enviei dois oficiais que trarão boa parte do exército para cá. Porém temos pouca munição, pois o ministro do Exército se recusou a adquiri-las na certeza de que não haveria guerra.

Quando acha que suas tropas estarão aqui? — indagou o grão-duque.

Se fizerem exatamente como ordenei, deverão chegar um dia depois do casamento. É impossível empreender essa viagem em prazo menor.

O grão-duque assentiu.

E que outras providências tomou?

Acho que é importante não entrarmos em pânico, por isso pretendo falar, em poucos minutos, com todos os empregados do palácio. A maior parte deles trabalha aqui há algum tempo e sei que estarão a postos para protegê-los e, é claro, o palácio.

Rosalie desejou perguntar se tal proteção também se estenderia à condessa de Rhiga.

Como se o rei lesse seus pensamentos, informou:

Todas as outras pessoas que se encontram neste palácio mas que vivem na cidade partirão imediatamente. Perderão o casamento, mas também ficarão incólumes do que acontecerá logo após.

É muito sensato de sua parte — aprovou o grão-duque.

Suponho, porém, que seria mais justo mandar vocês de volta para Kessell. Mas sabe o quanto necessito da presença da princesa e também do encouraçado.

O grão-duque riu.

Dá-me grande alívio saber que o navio está aqui e que podemos embarcar nele no momento mais crítico, se necessário.

É exatamente nisso que pensei — comunicou o rei.

Para surpresa de Rosalie, o rei Emmett atravessou a sala e, aproximando-se, tomou as mãos dela entre as suas.

Obrigado por ser tão valente e ajudar-me — agradeceu. — Tenha certeza de que você é essencial para a salvação de meu trono.

Ela sentiu a suavidade dos lábios do rei em sua mão. Então, antes mesmo que Rosalie pudesse dizer qualquer coisa, ele deixou a sala.

Ela fitou o pai, que comentou de súbito:

O rei amadureceu da noite para o dia e se tornou um homem. Jamais vi uma transformação tão rápida em toda a minha vida.

Rosalie sabia que o argumento do pai era verdadeiro.

O rei mostrava agora que possuía uma autoridade e força que jamais deixara entrever antes.

Nos dias que se seguiram, o rei Emmett surgiu em intervalos variados, mas tanto Rosalie quanto o grão-duque não sabiam quando deviam esperá-lo.

Ela soube, por intermédio do conde Maori, que o rei saía todas as noites. Ocupava-se em recrutar vários cidadãos comuns que jamais conhecera antes.

Acompanhei-o na noite passada — informou o conde a Rosalie. — Fiquei bastante surpreso ao perceber quantos defensores Sua Majestade reuniu em tão pouco tempo. Estão todos prontos para lutar por ele, dizendo que Emmett é o rei que sempre quiseram ter no trono.

No entanto, Rosalie sentia-se apreensiva.

Na noite que acontecia o casamento, ela percebeu à mesa do jantar que o rei parecia bastante cansado.

Perdera peso, mas havia um brilho estranho em seus olhos. A forma como se comportava era bem diversa do ar de enfado que Rosalie vira nele assim que o conhecera.

O rei agora falava tanto com ela como o grão-duque, num tom de voz que expressava não somente gratidão, mas também confiança.

Não havia sinal do primeiro-ministro e, quando Rosalie perguntou ao conde a respeito, ele respondeu:

Tanto ele quanto seu gabinete encontram-se escondidos nos edifícios do Parlamento. Com certeza acreditam que a revolução terá sucesso?

Não viram o rei após a transformação! — exclamou Rosalie.

Foi por culpa deles, especialmente do primeiro-ministro — comentou o conde —, que Sua Majestade se sentiu aborrecido por não ter autoridade, precisando sempre ouvir que seus projetos e inovações eram impossíveis de serem realizados.

E o rei aceitava todas as decisões deles?

É muito difícil para um rei, exceto em casos de emergência, agir sem o apoio do gabinete e especialmente do chanceler.

E o que faz o chanceler nesse momento? — indagou Rosalie.

Conta seus sacos de dinheiro e diz que não é suficiente — respondeu o conde.

Ambos riram.

No entanto, quando Rosalie se viu sozinha, percebeu que a situação era bastante séria.

Tinha certeza de que, se Jessica se encontrasse ali, estaria histérica diante da idéia de ficar à mercê dos revolucionários.

Sem dúvida insistiria em partir para seu país de imediato.

Papai tem razão. Não podemos abandonar o rei a seu destino — disse Rosalie em voz alta.

Ela rezou, como fazia todas as noites, para que o rei vencesse a batalha e os revolucionários fossem derrotados para sempre.

No momento em que acordou na manhã de seu casamento é que Rosalie percebeu que não pudera estar a sós com o rei em nenhum momento desde que o problema começara.

Sempre que ele aparecia à mesa das refeições o pai dela estava presente.

O conde dissera-lhe que o rei ocupava-se em treinar todos os criados para que aprendessem a atirar.

Eu também sei atirar — comentou Rosalie.

Já ouvi dizer — respondeu o conde —, mas saiba que seria considerado deselegante se Vossa Alteza tentasse carregar uma arma debaixo de seu buquê de noiva.

Rosalie riu.

Tem razão. Vejo que esse casamento será bastante estranho. Tem mesmo certeza de que os revolucionários não se manifestarão durante nosso trajeto até a catedral?

O conde fez que não com a cabeça.

As mulheres não permitirão que tal fato aconteça. A conversa na cidade no momento é totalmente feminina. As mulheres se perguntam como será o vestido de noiva, o que Vossa Alteza usará sobre o véu e como será o cortejo que acompanhará o carro nupcial.

Ele sorriu antes de acrescentar:

Esse assunto é mais importante para elas do que a preocupação em tirar o rei do trono ou aniquilar os membros da Câmara dos Comuns.

O conde esperou que Rosalie fosse achar graça, mas ela se limitou a dizer:

Rezo para que nada disso aconteça no país.

Significa tanto assim para você que haja paz aqui? — indagou o conde.

É claro que sim!

Um silêncio se seguiu, após o que o conde comentou:

Você deve ter consciência do quanto é maravilhosa. Saiba que serei seu criado enquanto viver.

Havia comoção na voz do conde.

Quando então ele deixou a sala sem olhar para trás, Rosalie percebeu que o rapaz se apaixonara por ela.

Era algo que ela não esperava que fosse acontecer.

Se o rei viesse a sentir o mesmo, pensava ela, tudo seria mais fácil.

Rosalie se encontrava a sós com o pai na véspera do casamento, quando então perguntou-lhe:

Não seria possível Jessica vir até aqui mais tarde e assumir meu lugar?

O grão-duque fitou a filha com os olhos arregalados.

Assumir seu lugar após o casamento? — indagou ele. — É claro que não! Que idéia absurda! Além disso, a presença de Jessica seria inútil numa situação tão crítica como essa e depois, quer você goste ou não, o rei tornou-se responsabilidade sua.

Tem... Certeza? — indagou Rosalie em voz bem baixa.

A cada dia que passa eu a admiro mais — comentou o grão-duque. — E acredito minha querida, que algum tempo depois do casamento você se sentirá bem diferente na presença dele.

Rosalie, no entanto, sentia que algo de muito sutil se operava a cada dia em seu coração.

O grão-duque pareceu compreender os sentimentos da filha e, após beijá-la, disse:

Agora vá para a cama. Se o dia de amanhã transcorrer sem problemas, então poderemos planejar o futuro.

Ela beijou o pai e subiu para o quarto.

Rezou por um longo tempo e mais uma vez sentiu a presença amiga da mãe.

Ao deitar-se afinal, já não se sentia agitada e conseguiu dormir profundamente.

Quando Rosalie acordou na manhã seguinte, o sol brilhava.

Tarsia entrou no quarto e informou que havia uma multidão se aglomerando à beira da estrada que conduzia à catedral. Disse ainda que jamais vira manifestação tão bela em toda sua vida.

Já é hora de Vossa Alteza se levantar — concluiu ela...

O vestido que fora reformado e no qual adaptaram uma longa cauda chegara bem tarde na noite anterior.

Quando Rosalie afinal o vestiu percebeu que as mulheres trabalharam realmente noite e dia para obter tanta perfeição em tão pouco tempo.

Havia diamantes nas mangas e na pala do vestido.

A cauda terminava toda orlada por minúsculas flores bordadas e diamantes também, que cintilavam como gotículas de sereno.

Você parece a rainha de um conto de fadas — comentou Tarsia. — Sua Majestade pediu-me para que não deixasse o véu cair sobre seu rosto, de maneira que todos possam ver o quanto é bonita.

Sua Majestade disse mesmo isso? — indagou Rosalie.

É claro que disse! — foi a resposta convicta de Tarsia. — E pediu-me com tanta humildade que até me assustei.

Rosalie não pôde deixar de rir.

Sabia que era assim que o rei vinha se comportando nos últimos dias.

Era realmente um progresso imenso para um homem que dias antes agia com tanto cinismo e enfado.

O diadema que Rosalie devia usar até que chegasse à catedral era bonito e bem pequeno.

Disseram-lhe que, no final da cerimônia, ele seria retirado para dar lugar à coroa.

O secretário dera-lhe todos os detalhes a respeito.

O arcebispo de fato deveria vir até o palácio — informara ele. — Porém, como ele é bem velho, pediu-me que a levasse até a catedral para um ensaio, mas o rei me proibiu de tirá-la daqui.

Rosalie percebera que o rei a protegia até o último momento.

De súbito sentira-se bastante comovida, pois tal atitude significava que o rei se importava com ela.

Quando afinal se aprontou para sair para a catedral, Rosalie tinha uma aparência encantadora.

Nos olhos do conde havia tanta admiração que ele mal pôde disfarçar.

Acompanhou-a até o andar térreo, onde o grão-duque a aguardava.

Como aquele era o dia de seu casamento, Rosalie tomara o breakfast em seu próprio quarto.

Quando se aproximou do pai, portanto, deu-lhe bom dia.

Bom dia, minha querida — replicou ele. — Saiba que está tão encantadora quanto sua mãe no dia de nosso casamento.

Obrigada, papai — respondeu ela sorrindo.

O conde foi verificar se a carruagem já se encontrava à porta de entrada.

Então disse:

Sua Majestade já saiu para a catedral e esse é o momento de Suas Altezas partirem também.

Estamos prontos — informou o grão-duque.

Ele deu o braço a Rosalie e ambos desceram pelos degraus cobertos pelo tapete vermelho.

No dia anterior, discutiram com o rei a respeito de partirem numa carruagem aberta ou fechada até a catedral.

Eu acho — o rei Emmett dissera ao grão-duque — que seria mais seguro partirem em carruagem fechada.

Seria um erro — respondeu Rosalie antes que seu pai se manifestasse. — Vocês dizem que o povo da cidade quer 1 me ver, por isso seguirei numa carruagem aberta ao lado de papai. Tenho certeza de que ninguém me atacará antes que eu chegue à catedral.

Muito bem — concordou o grão-duque. — Aconteça o que acontecer, pelo menos as pessoas que aguardam esse momento não se sentirão desapontadas.

A carruagem em que seguiram era, portanto, aberta com a capota coberta de flores brancas.

Os cavalos brancos que a puxavam também estavam enfeitados com rosas e lírios.

Rosalie sentou-se ao lado do pai no banco traseiro com o conde do lado oposto.

Antes de deixarem o palácio, o conde colocou um revólver nas mãos do grão-duque.

A multidão que se aglomerava ao lado da entrada começou a saudá-los assim que a carruagem surgiu.

Das árvores que se enfileiravam dos dois lados pendiam bandeiras que cintilavam ao sol.

Havia grandes arranjos de rosas e lírios por toda a parte, o que, como Rosalie imaginou, devia ter sido idéia do rei.

O rei também sabia que a multidão em frente à catedral seria enorme e, quando de lá se aproximaram, ela percebeu a presença de soldados espalhados de forma estratégica para impedir que o povo se aproximasse da carruagem.

A carruagem começou a se movimentar mais devagar até que a guarda de cavalaria que seguia na frente parasse.

Foi então que uma criança de cerca de quatro anos de idade conseguiu atravessar a barreira.

Ela correu até a carruagem estendendo para Rosalie um pequeno buquê de flores silvestres.

Foi naquele momento que um homem surgiu e golpeou a criança com tamanha crueldade que ela rolou para o chão, soltando um grito.

Rosalie, então, com voz aflita, gritou para o cocheiro:

Pare! Pare a carruagem!

Surpreso, porém obediente, o cocheiro freou os cavalos.

Rosalie abriu a porta da carruagem, antes mesmo que o conde se desse conta do que ocorria.

Segure a cauda de meu vestido, por favor! — pediu ela assim que saltou.

Tanto o grão-duque quanto o conde pareciam perplexos. Contudo, o conde apanhou a cauda do vestido para que não se arrastasse no pó.

Ela então se encaminhou até a criança, que ainda estava caída ao chão.

Rosalie fitou o homem que golpeara a criança e que ainda se encontrava bem próximo.

Como pôde ferir uma criança tão pequena? — indagou com voz furiosa.

É isso que eu queria fazer com toda a nobreza — o homem retorquiu com voz rude.

Rosalie nada respondeu, limitando-se a levantar a criança do chão.

Então outro homem, que se encontrava ao lado do tumultuador, respondeu:

É isso o que farei com você, seu estúpido!

O homem deu-lhe um violento soco no rosto que o fez rolar para o chão.

Houve gritos de horror por parte das mulheres que se encontravam ao redor e exclamações de "bem feito".

Rosalie voltou-se para a criança que carregava nos braços e tentou acalmá-la:

Querida, não chore mais. Pode me dar as flores agora e saiba que fico muito contente em recebê-las.

A criança, que já havia parado de chorar, brincava com o colar de diamantes que Rosalie trazia no pescoço e dizia em tom de voz meigo:

Que bonitinho...

Rosalie olhou em direção da barreira de soldados.

De quem é esta criança? — perguntou às mulheres que a fitavam.

É minha! — veio a resposta assim que uma das mulheres abriu caminho na multidão.

Qual é o nome dela? — quis saber Rosalie.

É Metti, Alteza, Metti!

Rosalie tornou a olhar para a criança, que ainda manuseava seu colar de diamantes, e então voltou-se para a mãe.

Pode ir até a catedral? — perguntou.

Sim, sim — replicou a mulher.

Então apresse-se — tornou Rosalie. — Vou levar Metti comigo. É a melhor forma para que ela esqueça que foi atacada por um bruto.

Ouviram-se gritos de aprovação diante daquela atitude.

Rosalie voltou para a carruagem, segurando Metti nos braços.

O conde seguia atrás, carregando a cauda do vestido e as flores que a criança tentara oferecer a Rosalie.

Houve aclamações e aplausos e as vozes femininas se elevavam mais e mais a cada instante.

Rosalie acenou para a multidão enquanto a carruagem seguia e Metti também acenou.

Depois voltou-se para fitar o pai, que lhe deu um sorriso de aprovação.

Foi muito inteligente de sua parte tomar essa atitude, querida — comentou ele. — Tenho certeza de que essa história será contada inúmeras vezes antes que esse dia acabe.

Naquele momento minha única preocupação foi a criança e não o rei — confessou Rosalie —, mas espero que isso o ajude.

Tenho certeza de que sim — respondeu o conde. — Se antes o povo não tinha certeza de que Vossa Alteza era a rainha ideal para eles, pode acreditar que agora é o que eles pensam.

Ficou bem claro que a multidão, aglomerando-se ainda mais na porta da catedral, parecia maravilhada quando Rosalie chegou carregando Metti no colo.

A mãe da criança se encontrava no começo dos degraus. Ela tentava abrir caminho entre os soldados que ali faziam barreira.

Rosalie então entregou a criança para o conde, que a levou até a mãe.

Seguindo as instruções de Rosalie, o conde disse à mulher:

Sua Alteza informou que, se você quiser assistir à cerimônia, posso tomar todas as providências para que isso aconteça.

A mulher mal pôde esconder a excitação diante daquela idéia fantástica.

O conde conduziu-a até a carruagem e pediu-lhe que seguisse Rosalie e o grão-duque quando estes entrassem pela majestosa porta da catedral.

Naquele momento o conde percebeu que a multidão logo abaixo parecia perplexa diante daquela atitude.

Quando Rosalie entrou na igreja, percebeu que, apesar dos rumores que percorriam toda a cidade, havia muitas pessoas aguardando a cerimônia.

A nobreza e os aristocratas de Arramia estavam todos presentes.

Rosalie sabia que, enquanto ela e o pai caminhavam a passos lentos pelo corredor da catedral, todos os presentes deviam comentar a respeito de que tipo de rainha ela seria.

Deviam se perguntar também por que o casamento acontecera com tanta pressa.

Porém, com pressa ou não, havia muita beleza na cerimônia para que todos admitissem.

O rei insistira em que a catedral fosse decorada com todas as flores possíveis.

Lírios e rosas espalhavam-se por toda parte.

Dois meninos, vestindo trajes do século XVII, receberam a incumbência de segurar a cauda do vestido de Rosalie.

Ao fundo, no coro, havia músicos acompanhando um coral e todos pareciam felizes por participar de ocasião tão auspiciosa.

Enquanto caminhava pela nave da igreja, ela avistou o rei Emmett, que a aguardava de pé no altar-mor.

Ele parecia magnífico.

Rosalie achou impossível que qualquer outro rei pudesse ser tão belo.

Ele sorriu para ela no momento em que se aproximaram, dizendo num sussurro que só ela pôde ouvir:

Seu atraso quase me matou do coração!

Aconteceram alguns imprevistos — informou ela também num sussurro.

Postaram-se à frente do arcebispo paramentado em trajes magníficos.

Teve início a cerimônia de casamento.

Quando o rei colocou a aliança no dedo de Rosalie, ela se perguntou se aquela jóia simbolizava a eternidade, em seu caso.

O casamento deles seria tão perfeito assim, já que se casavam em circunstâncias tão estranhas? Ambos se ajoelharam para receber a bênção nupcial e o rei tomou a mão de Rosalie entre as suas.

Quando ela sentiu a força dos dedos dele nos seus, percebeu que Deus acabara de uni-los.

Nada do que acontecesse no futuro poderia separá-los. Finalizada a cerimônia de casamento, teve início a de coroação.

Emmett colocou a coroa de Arramia sobre a cabeça de Rosalie.

Naquele momento, ela pediu a Deus que tivesse condições de auxiliar o rei e seu povo.

Quando Emmett a ajudou a se levantar, ouviu-se um belo toque de clarins que ressoou por toda a catedral.

E a música persistiu até que eles alcançassem a porta de saída.

Lá embaixo na praça, uma multidão enorme se aglomerava acenando com lenços brancos.

Quando a multidão os avistou, fez-se silêncio absoluto. Todos olhavam admirados para o casal.

Então, aclamações irromperam de todos os pontos da praça. A passos lentos, o rei desceu as escadas ao lado da nova rainha. Havia uma carruagem aberta aguardando-os.

Quando entraram no veículo, o conde os acompanhou, sentando-se do lado oposto. Rosalie achou aquilo incomum.

Ele se encontrava ali por causa da ameaça de revolução.

Não havia sinal dos revolucionários, mas o conde achava- se de prontidão para protegê-los em caso de ataque.

No entanto, houve apenas aclamações, mãos que acenavam e crianças carregando bandeiras e flores em todo o trajeto de volta ao palácio.

Nenhum cidadão presente à cerimônia fazia idéia de que havia o perigo pairando sobre tudo como uma bomba prestes a explodir a qualquer momento.

Chegaram afinal ao palácio.

Quando saíram da carruagem, os soldados não conseguiram refrear a multidão.

As pessoas aproximavam-se, aclamando e gritando à medida que o rei e a rainha subiam as escadarias.

Quando chegaram ao último degrau, o casal se voltou para acenar para o povo.

A manifestação foi tão calorosa que eles permaneceram no mesmo lugar por vários minutos.

Quando afinal entraram no palácio, o rei indagou:

Tem certeza de que nada do que aconteceu a assustou?

Tenho. Foi apenas a atitude brutal de um dos revolucionários que me chocou. Ele não me ameaçou, mas atacou uma criança indefesa! — foi a resposta de Rosalie.

Ela contou ao rei o que aconteceu com Metti.

Como pôde ser tão corajosa e inteligente, saindo da carruagem e apanhando a criança do chão? — indagou Emmett, perplexo.

Apenas senti-me indignada ao ver uma criança ser ferida por um homem tão estúpido — respondeu ela.

Magnífico! — exclamou o rei, fitando-a com olhos admirados.

O grão-duque, que acabara de se reunir a eles, riu.

Acho que estamos seguros pelo menos por enquanto — informou. — Devo confessar que preciso de uma bebida.

Havia champanhe, e o almoço foi bastante leve.

O rei explicou que fora forçado a convidar várias pessoas para o jantar.

Muitos convidados haviam chegado de longe para assistir à cerimônia.

Esperavam uma festa durante o breakfast — informou- os Emmett —, mas achei melhor que a reunião se desse na hora do jantar, pois sem dúvida sairemos muitas vezes na sacada do palácio durante o dia para responder às aclamações da multidão.

Como para confirmar a argumentação do rei, o conde Paul Maori entrou na sala e disse:

Acho que Vossas Majestades precisarão aparecer outra vez na sacada. Clamam por vossas presenças.

Não deve desapontá-los — comentou Rosalie.

Ela estendeu a mão para o rei, que a tomou entre as suas.

O sucesso deste dia se deve todo a você, que é a estrela da festa — argumentou o rei enquanto caminhavam na direção da porta.

Não me deixe embaraçada — protestou Rosalie.

Seja lá o que você faça — replicou o rei com voz suave — será sempre perfeito.

Quando ambos apareceram, o alarido se tornou ensurdecedor.

Rosalie reparou que os degraus da escadaria do palácio estavam cobertos de flores que eram atiradas pela multidão através da barreira que a guarda palaciana levantara ali para impedir que as pessoas subissem as escadas.

Quando ambos, após descerem as escadas, chegaram até onde se encontravam as flores, Emmett apanhou um punhado delas e as colocou nas mão de Rosalie.

Ela acenou para a multidão, dizendo:

Muito obrigada! Muito obrigada!

O rumor se tornou ainda mais intenso.

O rei e a rainha permaneceram por algum tempo de pé nos degraus antes de voltarem para o palácio.

Tal atitude se repetiu por mais duas vezes ainda nas horas que se seguiram, até que finalmente Emmett disse: '

Basta! Agora essa multidão precisa se dispersar e se divertir a seu modo. Há muitas coisas para serem vistas na cidade e várias mercadorias para se comprar.

E você providenciou também isso? — quis saber Rosalie.

Falei aos comerciantes — respondeu ele — que essa era a oportunidade pela qual esperavam há tanto tempo. Tenho certeza de que tirarão o melhor proveito de tudo.

Há no mercado mais guloseimas, frios e bebidas como jamais vi em toda minha vida! — foi o comentário do conde.

Não há motivo para que alguém sinta fome ou sede neste casamento — refletiu Rosalie.

Espero apenas que não haja vinho em excesso — foi a observação do rei.

Rosalie sabia que os revolucionários se tornariam ainda mais violentos se bebessem demais, mas nada comentou, pois sabia que todos pensavam da mesma forma.

Às quatro horas da tarde Emmett insistiu para que ela subisse ao quarto a fim de descansar.

Pedi que o jantar fosse servido às sete — informou ele. — E tenha certeza de que a refeição não terminará tão cedo.

Sem dúvida, alguns de meus parentes e amigos insistirão nos discursos.

Então se prepare para proferir um também — respondeu Rosalie, sorrindo.

Tenho proferido mais discursos nesses últimos três dias que em minha vida toda. Acho que agora tenho direito a um descanso merecido.

Não tenha tanta certeza disso — advertiu Rosalie.

Quando subiu para o quarto, Rosalie sentiu-se satisfeita ao retirar de sua cabeça a coroa tão pesada.

Tarsia insistiu para que fosse logo para a cama.

Deve estar muito cansada — comentou a criada de maneira preocupada. — Precisa descansar agora, Majestade, enquanto tem tempo.

Era a primeira vez que a criada se referia a ela como "Majestade" e Rosalie sorriu para Tarsia quando disse:

— Parece estranho vê-la me chamando desse jeito! Mal posso acreditar que agora sou rainha!

E a mais bonita que esse povo já viu — replicou Tarsia.

Rosalie riu.

Aquele era mesmo o tipo de observação que só mesmo Tarsia faria.

Rosalie fechou os olhos.

Pensando em tudo o que acontecera naquele dia, descobriu que Deus a protegera todo o tempo e que sua mãe não a abandonara um só instante.

— Obrigada, muito obrigada — agradeceu ela antes de mergulhar num sono profundo.