Escondida no coração
Por Amanda Catarina
BLEACH e personagens pertencem a Tite Kubo.
Classificação etária recomendada: Para maiores de 18 anos.
Capítulo 2
Era um começo de noite chuvoso. Assentado sobre os joelhos diante de um dos anciões do clã Kuchiki, Byakuya relatava ao idoso alguns pormenores do último evento social das famílias nobres do qual ele havia participado, uns doze dias atrás.
– ...foi então que a senhorita Suzumi Shihouin fez-me uma proposta de casamento.
– Suzumi - repetiu o ancião, com um ar pensativo – eu me lembro, uma bela jovem, sim - completou e fez uma demorada pausa antes de falar: – Meu caríssimo senhor Byakuya, com certeza compreende que vossa união com uma mulher da prestigiada família Shihouin seria do agrado de nosso clã e totalmente apoiada.
– Sim, eu compreendo. E só posso crer que foi visando os interesses de ambas as famílias que essa mulher chegou à ousadia, ou melhor dizendo, à inconveniência de fazer ela mesma tal proposta.
– Por certo, meu senhor - intercedeu o ancião, pois havia se alegrado muito com a notícia.
– Não obstante, recusei.
Após um longo momento fitando o jovem, o ancião assentiu com um menear de cabeça.
– Respeito absolutamente vossa decisão, meu caríssimo senhor, porém convém que eu o rememore da imensa alegria que nosso líder daria ao clã se desposasse, o quanto antes, uma mulher de seu agrado.
– Sim, estou ciente disso - devolveu ríspido. – Senhor Mitsunori, há mais uma razão pela qual eu o chamei aqui. Gostaria que enviasse, no maior sigilo possível, um presente à senhorita Shihouin, como uma forma de me desculpar pela recusa, pois pressinto que ela poderá vir a difamar nosso clã.
– Sim, meu senhor. Todas as providências para que isso não se suceda serão tomadas.
Após uma apropriada reverência e uma breve despedida o ancião se retirou. Um tanto depois, Byakuya se encaminhou para seu aposento.
Sentado ao chão, recostado à parede, ele se pôs a pensar na delicada situação em que se encontrava com relação a sua vida afetiva.
– Como conciliar minha vontade com os interesses do clã?
Ele bem sabia que não havia como, pois a família o pressionava no sentido de prover um herdeiro, ao passo que ele não desejava desposar mulher alguma. Esquivara-se de Suzumi daquela vez, porém cedo ou tarde seria realmente obrigado a tomar uma mulher, e de preferência uma nobre.
– Hisana... em tudo sua morte nublou minha vida.
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Rukia despertou mais cedo que seu costume. Após uns instantes pensando, decidiu-se levantar de vez e aproveitar o tempo extra - quase uma hora - para fazer uma caminhada e pensou que talvez pudesse ir visitar seu irmão e até tomar o desjejum com ele.
Ela caminhava pelo perímetro de sua equipe, tranquilamente, observando as pessoas que já começavam suas atividades, naquele início de dia que, ao que tudo indicava, seria ensolarado. Chegava à praça, já fora dos limites da equipe treze, quando avistou alguns rostos conhecidos mais adiante - Ikkaku Madarame e Renji Abarai.
Madarame, sempre espalhafatoso, falava tão alto que mesmo a certa distância, Rukia pode ouvi-lo perfeitamente:
– ...naquele tempo Icihgo me derrotou fácil, mas se eu lutasse com ele hoje, as coisas seriam diferentes!
– Claro, claro... - desdenhou Renji – como se só você tivesse ficado mais forte desde então. Ah sim, se antes ele precisou de um minuto pra te derrotar, agora deve precisar de que? Um segundo?
– Como é?! - vociferou o calvo. – Repita isso seu cabeça de abacaxi!
Rukia acenou aos dois, recebendo um largo sorriso do ruivo, o qual ela retribuiu do mesmo modo e depois seguiu adiante. Naturalmente, aquele pouco que ouviu da conversa dos dois a fez pensar em Ichigo.
Os planos de Souzuke Aizen, de criar a Chave do Rei na cidade de Karakura, tinham sido frustrados, porém não havia provas incontestáveis de que o terrível inimigo, ex-capitão da equipe cinco, estivesse morto. Apesar disso, tanto a Soul Society quanto o Mundo Real gozavam de relativa paz. Por essa razão, já fazia um certo tempo que Rukia não via Ichigo, afinal não havia pretexto para se encontrarem.
– O que ele estará fazendo agora? - murmurou consigo e, sem que pudesse evitar, uma imagem dele lhe sorrindo tomou sua mente.
Diminuindo as passadas, suspirou saudosa.
O conflito contra Aizen os mantinha sempre em estado de alerta, mas nas raras calmarias, ela chegava a desejar pertencer ao Mundo Real também. Assim poderia viver toda uma outra vida e próxima a Ichigo. Moraria na clínica com a família dele, seria realmente sua colega de classe, iriam a lugares divertidos depois das aulas, como casas de jogos, docerias, parques, lojas...
Ao se acercar disso tudo em que pensava, Rukia riu de si mesma e apertou o passo. Entretanto, se viu obrigada a reconhecer que estava com muita saudade de Ichigo. Em mais algum tempo, ela chegou à mansão Kuchiki.
– Mas já posso até imaginar o que ele diria se eu fosse lá: "Você encolheu ou eu cresci mais ainda?" - fantasiou sozinha, abaixando a cabeça, de punhos e olhos cerrados, eis então que acabou dando um encontrão com um senhor corpulento, um dos serviçais da mansão.
– Ó, minhas sinceras desculpas! - adiantou-se ela de pronto.
– Senhorita Kuchiki! - exclamou o homem, amistoso. – Ora, não se preocupe comigo, eu que estava distraído. Mas que prazer vê-la por aqui.
Depois de um singelo sorriso, ela anunciou:
– Vim ver o capitão Kuchiki. Ele ainda está aqui?
– Está sim. Ali perto do lago.
– Ah obrigada.
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Duas jovens, andando vagarosas, rumo ao colégio, detiveram-se próximas ao muro de uma clínica médica ao avistarem pela janela do andar de cima, um jovem musculoso, sem camisa, se espreguiçando.
– Ui, gatinho! - gracejou uma.
– É o enfermeiro? Porque até passei mal! - brincou a outra.
Ichigo deu apenas um riso de canto antes de se afastar da janela.
– Se eu tivesse um corpo como o seu também acordaria recebendo cantadas - bronqueou Kon.
Sem dar resposta, Ichigo veio buscar seu uniforme. Logo com a muda de roupas no ombro, se aproximou das gavetas do armário e abriu uma delas, em busca de um par de meias, foi então que avistou, ali perdido entre suas coisas, um frasco de gikongan cuja tampa era uma cabeça de coelho.
– Mas como isso veio parar aqui? - perguntou-se e riu, fitando o objeto.
– O que é? - quis saber Kon.
O jovem agitou o frasco na direção do leãozinho de pelúcia.
– Só pode ser da Rukia lindinha.
– Isso eu sei, mas por que estava ali?
Kon deu de ombros, enquanto o rapaz deixava o objeto sob a escrivaninha para, em seguida, sair do quarto.
Faz tanto tempo que não vejo ela. pensou Ichigo, já sob o chuveiro. Aquele frasquinho é desculpa pra eu aparecer na Soul Society? Bem que podiam me deixar ir lá só por ir... Será que não deixam?"
Ao mesmo tempo em que enxaguava o xampu, ele se repreendeu por essas indagações, mas logo admitia que o esforço de tentar não pensar em Rukia era em vão. Por vezes, até se pegava desejando que Aizen voltasse a dar as caras, apenas para que pudesse encontrá-la.
Queria muito ver Rukia, contudo, estar na presença dela já não era como antes. Três anos atrás, ele não se inquietava com o fato de ter dividido seu quarto com ela por meses, não ligava que seus colegas de classe pensassem que eles dois fossem namorados e nem ficava desconcertado quando ela cismava de montar em suas costas. Claro, era apenas um adolescente.
Mas agora tinha dezoito anos. A maioria de seus amigos já estava namorando, enquanto ele, que recebia inúmeras declarações de amor, por cartas e pessoalmente, além de chocolates e presentes, ele que ouvia flertes dos mais singelos aos descarados, justo ele - o cobiçado do colégio -, simplesmente não se interessava por ninguém. Contudo, não era tão simples se manter indiferente a todo esse assédio, ainda mais com seu próprio corpo lutando para seguir na direção oposta a sua vontade.
Entretanto, o que de fato fazia Ichigo perder o sono, era não saber se Rukia percebia que ele a olhava de um modo diferente agora e se ela fingia ou realmente não notava que ele reparava em cada um de seus gestos, em seu corpo, em seus lábios...
Encostando a cabeça no azulejo, ele inspirou fundo, buscando normalizar a pulsação que já começava a acelerar.
– Depravado! - xingou-se baixo, desligando o chuveiro em seguida.
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– Rukia? - ela ouviu Byakuya dizer de repente e olhou em sua direção. – Teu semblante me parece contristado - comentou ele, no tom impassível de sempre.
Meio desconcertada, ela pensou, por uma fração de segundo, que nunca iria se acostumar com aquele tom gélido dele.
– É impressão sua, senhor meu irmão.
– Algo a perturba? - insistiu ele.
– De modo algum.
– Muito bem... então fale-me de sua evolução na equipe treze - pediu sem alterar a voz, mudando totalmente o assunto.
– Desde a batalha contra Aizen, meu nível chegou ao de um terceiro posto e é onde me posiciono até o presente momento.
– Uma boa evolução, mas para que seu capitão lhe promova a vice-capitã, falta muito.
– Sim, eu sei... - assentiu com um ar melancólico, pois a menção do cargo de vice-capitão lhe trouxe à memória o falecido Kaien Shiba, o último vice-capitão de sua equipe.
– Continue te empenhando - retomou Byakuya.
– Sim, senhor meu irmão.
Olhando-o de canto, Rukia buscou encontrar um rastro de emoção no semblante dele, mas ele parecia uma estátua de mármore. Porém, mesmo assim, ela apreciava estar na presença de Byakuya. De modo inexplicável ele lhe transmitia uma sensação de conforto e segurança única.
– Já está no meu horário - disse comedida, levantando-se da mesa baixa.
– Foi bom você ter vindo.
– É uma satisfação poder passar algum tempo com o senhor - devolveu sincera e sorriu a ele, sendo em seguida correspondida com um ligeiro menear de cabeça.
Seguia em direção a saída do salão, mas se voltou ao ouvi-lo falar:
– Necessito que um oficial pouco abaixo do nível de capitão vá ao Mundo Real para uma investigação e possível coleta de dados.
Num primeiro momento, ela estranhou a colocação, mas então ficou abismada ao pensar que ele houvesse descoberto, só de olhá-la, que estava sentindo falta de Ichigo - em que não parou de pensar durante quase toda a silenciosa refeição que ali fizera.
– Por coincidência - continuou Byakuya –, meu terceiro posto sairá hoje mesmo com o vice-capitão Renji numa outra missão.
Se ela não estivesse na presença dele, teria saltitado de alegria. Era a oportunidade que vinha esperando, não podia desperdiçar.
– Penso que o capitão Ukitake não irá se opor se eu for.
– Pois que assim seja. Volte mais tarde para que eu lhe passe todas as informações.
– Sim! - exclamou contente.
Byakuya quase lhe sorriu em vista de sua notória satisfação, mas logo se colocou em pé também, então acabou deixando o salão antes mesmo de sua visitante.
Enlevada e indecisa se ele era muito sensitivo ou estava apenas buscando auxiliá-la em sua carreira de shinigami, em pouco tempo, Rukia deixou a mansão.
Extremamente alegre, ela retornava a sua equipe, buscando manter a mente focada na missão, porém sem conseguir desviar o pensamento da possibilidade de ver Ichigo muito em breve.
Mas Rukia jamais saberia os detalhes referentes àquela missão porque, no momento em que seus pés alcançaram a via que conduzia à praça, ela teve os olhos ofuscados por um imenso vulto e depois disso não viu mais nada.
Continua...
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Vocabulário:
Gikongan: é um frasco similar aos de doces que contém, dentro de uma pílula, uma alma que entra no lugar do corpo de um shinigami quando este sai do seu corpo material - a gigai.
Estão acompanhando? Então, por favor, deixem comentários! ^_~
