Escondida no coração

Por Amanda Catarina

BLEACH e personagens pertencem a Tite Kubo.

Classificação etária recomendada: Para maiores de 18 anos.

Capítulo 3

Ela piscou algumas vezes antes de firmar os olhos no teto de madeira sob o qual se achava, deitada sobre um futon. Sentia-se péssima, moída, como quem tivesse levado uma surra. Ao tentar raciocinar, a cabeça doeu a ponto de querer explodir.

– Ah finalmente acordou - ouviu uma voz feminina dizer e, desviando os olhos, encontrou uma mulher de rosto alvo, olhos verdes e cabelos escuros, lisos. Reclinada sobre si, essa mesma lhe falou: – Que susto você nos deu...

– Senhorita Suzumi? - indagou incerta.

– Sim... por quê? Esperava outra pessoa, Rukiazinha?

Ela moveu levemente a cabeça em negação e logo se ergueu, ficando sentada no futon.

– O que aconteceu? - perguntou num tom vacilante.

– É, faz sentido que não se lembre. Estávamos numa cerimônia de chá quando, de repente, você desmaiou.

– Eu desmaiei? - devolveu incrédula.

– Foi. E bem quando o capitão Kuchiki falava... ele ficou tão preocupado.

Forçando uma mão na têmpora, Rukia repetiu:

– Capitão Kuchiki? - e estranhou que este nome pareceu ecoar em sua memória. Tentava entender o porque disso, mas, ao notar o modo piedoso com que Suzumi a encarava, se desconcentrou e logo enrubesceu.

– Vejo que não se recuperou de todo ainda. Bem, tente descansar sim. Vou sair, mas volto hoje ainda - anunciou ela e se levantou.

Atenta à graciosidade de seus gestos, Rukia assentiu levemente, em seguida, voltou a deitar e fechou os olhos, sentindo que devia mesmo descansar.

xxx xxx xxx

Naquele mesmo dia, à tarde, Rukia caminhava pelo vistoso jardim daquela mansão, uma das muitas posses da família Shihouin. Pensava no ocorrido no dia anterior e, sobretudo, naquele homem, o capitão Kuchiki.

Suzumi insistiu que os acompanhasse no chá, mesmo que ela pouco entendesse dos assuntos que seriam discutidos. Foi a segunda vez que esteve na presença do capitão Kuchiki e, em ambas as ocasiões, ele não trocou mais que cumprimentos com ela. Era tão altivo e culto, bem bonito até, admitia, no entanto, algo nele a perturbava.

"Seu olhar é tão penetrante e intimidador." - rememorou ela.

Sentando-se à sombra de uma árvore alta, Rukia manteve o semblante pensativo, enquanto alisava seu belo kimono - uma veste típica da nobreza, constituída de três camadas de tecidos finos -, o qual exibia motivos de flores de ameixeira. Apoiando a cabeça no tronco da árvore, ela fechou os olhos, sem nem ter como imaginar que estivesse sendo observada.

Byakuya Kuchiki, um dos capitães da Treze Equipes de Proteção do Seireitei e atual líder da renomada família Kuchiki, escondido a uma meia distância, fitava a jovem Rukia, muito atento a cada um de seus gestos.

"Não parece debilitada como ontem." - observou ele consigo.

Porém naquele mesmo instante, ela se deitou na grama, encolhendo-se até ficar em posição fetal, com a cabeça sobre as mãos unidas. Alarmado com a possibilidade de que ela estivesse tendo outra crise, ele teve ímpetos de se aproximar, porém como já havia sido avisado de que a dona da casa se ausentara há pouco, se deteve.

"Não convém aparecer assim." - considerou, ainda com os olhos fixos na garota. Então, para seu alívio, percebeu que ela parecia apenas desfrutar da quietude do jardim e da cálida luz do sol, filtrada pelas folhas da árvore.

Ele permaneceu lá, a observá-la, por muito mais tempo do que seria apropriado, até finalmente se convencer de que precisava partir. Saiu então sorrateiramente, assim como havia aparecido.

xxx xxx xxx

Mundo Real, no anoitecer do mesmo dia.

– Mano, você viu meus patins? - perguntou Karin ao adentrar a cozinha.

– Claro que não.

– Ué... eu tinha certeza que tinha deixado eles aqui... - dizia a adolescente, mas se atentou a ao irmão, que puxava do bolso o dispositivo que ele usava para mudar para a forma shinigami. – Vai sair?

– Vou sim. Estou sentindo uma presença estranha.

– E desde quando você tem disso? - retrucou duvidosa e implicante.

– Pra você ver - devolveu tranquilo. – Deixa meu corpo aqui mesmo, não devo demorar.

Ela assentiu com a cabeça, vendo-o passar ao corpo espiritual e logo sair pela porta dos fundos.

– Ué, achei ter ouvido a voz do maninho - comentou Yuzu ao chegar ali.

– Ele estava aqui, mas saiu - Karin esclareceu, mordiscando uma bolacha. – A trabalho.

Hunf, sei... Pretexto pra vê se encontra a queridinha dele: a senhorita Kuchiki.

Reparando na expressão mal-humorada da irmã, Karin deu um risinho.

– Engraçado... quando você era mais nova era só Rukiazinha pra cá, Rukiazinha pra lá. Agora só chama ela de "senhorita Kuchiki". Por que tanto ciúme, hein? Sua boba.

– Você nunca me entendeu, Karin. Sempre foi assim... desencanada.

– É, sou mesmo. Mas você está se estressando a toa. Esses dois são mais devagar que tartaruga com sono. Nesse ritmo até eu me arranjo antes deles darem um beijo que seja.

– Em que mundo você vive? Será que não vê o maninho pelos cantos, suspirando pela senhorita Kuchiki, dia e noite, noite e dia - retrucou num tom melodramático.

– Ah fala sério... Por que ao invés de ficar tão preocupada com a lerdeza sentimental do seu irmão, você não vai trocar uma ideia com o Jinta, hein?

– O que?! louca, Karin! - esbravejou. – O Jinta é meu melhor amigo!

– Pode ser... mais é seu maior fã também - provocou travessa.

– Karin! - exclamou, vermelha de raiva.

– Ok, ok... indo nessa, não precisa se estressar comigo também.

xxx xxx xxx

Após derrotar um hollow e quase chegar à divisa da cidade com o distrito vizinho, Ichigo se achava um tanto intrigado. No terraço de um prédio, com os olhos fixos em seu rastreador, ele tentava interpretar os números que o mesmo exibia.

– Nenhum Arrankar esteve aqui, mas um hollow comum não teria deixado um rastro desse.

Desistindo de tentar encontrar uma explicação, após muito tentar, ele achou que devia contatar a Soul Society.

– Alô, aqui é o shinigami substituto, Ichigo Kurosaki.

"Ichigo Kurosaki?" - ele captou estranheza na voz do atendente. "Poderia repetir o nome, por favor."

– Ichigo Kurosaki - falou pausadamente –, shinigami substituto, do distrito de Karakura.

"Só um minuto que estou verificando, por favor..." - ele aguardou bem mais que um minuto. "É, não consta no banco de dados um... 'shinigami substituto' para o distrito de Karakura."

– Como é? - exclamou já meio zangado. – Olha, essa não é uma chamada que qualquer um poderia fazer, correto?

"Correto, senhor."

– Então... - rebateu impaciente.

"Então, peço que o senhor aguarde mais um minuto que..."

– Ih, sem essa - cortou tempestuoso. – Volto a chamar mais tarde. Até lá, cheque direito esse seu banco de dados.

"Sim, senhor." - ao ouvir a acuada confirmação, ele encerrou a chamada.

– É mesmo uma baderna essa Soul Society.

Logo saltava por sobre os prédios, seguindo de volta para a clínica, ainda mais intrigado que antes, foi então que um pensamento cruzou sua mente.

– Mas ter que ir até lá entregar esses dados, não é má ideia... - falou de si para si, pensando ser este um pretexto bem melhor para rever Rukia do que aquele frasquinho de gikongan do Chappy.

xxx xxx xxx

Assim que a serviçal saiu do recinto, após deixar uma bandeja com doces e chá, Suzumi sorriu comedida e anunciou:

– Capitão Kuchiki, que prazer revê-lo.

– Perdoe-me o inconveniente do horário, senhorita Suzumi.

– Ora não vos preocupeis, não é tão tarde assim.

– Estive aqui mais cedo, porém me avisaram de sua ausência.

– E acreditarias se vos dissestes que fui visitar o ilustríssimo Ginrei, vosso avô? Ou seja, viestes à mansão Shihouin justamente quando eu me encaminhava à mansão Kuchiki.

– Que infeliz desencontro.

– É verdade, mas o que vos trazeis aqui novamente, capitão?

– Senhorita Suzumi, a razão de minha vinda é saber sobre o estado de saúde da senhorita Rukia Shihouin. Estaria ela melhor?

– Ó, meu senhor, se vos destes ao trabalho de vires aqui apenas para saberdes dela, por certo ficastes muito preocupado.

– Muitíssimo.

Ela lhe sorriu em assentimento e contou:

– A aia dela me disse que ela esteve bem durante o dia, mas que agora pouco se queixou com tonturas. Tanto que já se recolheu, do contrário poderia estar aqui conosco.

– É um pesar saber disso.

Ele manteve uma expressão impassível, ponderando se devia levar a ideia que tinha em mente adiante, mas a nobre o interrompeu dizendo:

– Bem, penso em chamar um médico que a examine.

– Senhorita Suzumi, eu tenho uma suspeita acerca deste problema da senhorita Rukia.

– É mesmo, meu senhor? E qual seria?

– Talvez a alma da senhorita Rukia tenha reagido a meu poder espiritual, e isso tenha acarretado uma manifestação de seu próprio poder, pois, de outro modo, aqui na Soul Society, uma pessoa não é acometida desse tipo de fraqueza que ela apresentou.

Mais que surpresa, Suzumi aparentou espanto.

– Poder espiritual? Minha Rukiazinha? Não, não pode ser... como eu contei ao senhor, Rukia nasceu num dos distritos mais pobres de Rukongai. Se ela tivesse um poder espiritual latente, eu mesma teria detectado.

– Por certo, todavia, algum outro fator pode ter feito a habilidade dela ficar oculta até então. E o contato com meu poder espiritual, pode ter despertado o dela.

Ela o encarou por alguns instantes, visivelmente desconcertada, antes de responder:

– Bem... é verdade que foram raras as vezes que Rukia esteve na presença de um capitão.

– Sendo assim sinto-me inteiramente responsabilizado.

– Mas não deve vos sentir assim, meu senhor.

– Receio que seja tarde. Senhorita Suzumi, eu gostaria de saber se haveria algum problema se eu levasse a senhorita Rukia para ser examinada na Equipe Quatro?

Como a nobre não respondeu de imediato, ele acrescentou:

– Claro que a senhorita deve possuir médicos competentes aqui, porém em se tratando de poder espiritual, os peritos da Equipe Quatro poderão nos fornecer um parecer mais detalhado.

– Ah isso sem dúvidas.

– Posso inclusive solicitar que a própria capitã Unohana a examine.

– Ó, por favor, não vos incomodeis - pediu acanhada.

– Longe de ser um incomodo, é meu dever, em nome da boa amizade que nossas famílias compartilham.

– Então só posso ser imensamente grata por vossa preocupação, meu senhor - devolveu amena e ponderou um pouco. – Mas, capitão Kuchiki, se isso for verdade, Rukia terá que ser levada pra longe de mim. Estou certa?

Notou claramente a tristeza no tom dela.

– Bem, não há como ser de outra forma. Ainda que ela não trilhe pela carreira de shinigami, ao menos terá que ingressar na Academia para que possa aprender a controlar seu poder espiritual. E a senhorita deve saber que não faz bem nem a própria pessoa, nem as pessoas a seu redor, quando o nível de poder espiritual sai do controle.

– Sim, eu sei...

Vendo-a tão perturbada, ele resolveu apaziguar:

– Contudo, essas são meras suposições. É necessário que ela seja examinada primeiro.

Suzumi assentiu e, uns instantes depois, perguntou:

– Quando o senhor gostaria de levá-la à Equipe Quatro?

– Se a senhorita estiver de acordo, virei pessoalmente buscá-la dentro de dois dias.

A resposta demorou um pouco.

– Sim, tudo bem por mim. O quanto antes sabermos, melhor.

Satisfeito, ele assentiu com um gesto.

– Então, já vou indo. Com sua licença.

– Sim, tenha uma boa noite, capitão Kuchiki.

– A senhorita também - e levantando-se ele se virou, assim Suzumi não pôde ver o discreto sorriso que se desenhou em seus lábios.

xxx xxx xxx

Pouco mais tarde, na mansão Kuchiki, Byakuya conversava com o senhor Mitsunori, seu principal conselheiro.

– ...a senhorita Suzumi mostrou-se hesitante, mas concordou - contava ele.

O velho assentiu com a cabeça.

– E a história dessa garota é fascinante. A própria Suzumi quem me confidenciou. Há cerca de cinquenta anos, ela sofreu um atentado em Rukongai e por pouco não foi morta. Rukia, que era uma criança na época, a ajudou fazendo com se escondesse num velho casebre.

– São terras sem lei esses distritos de Rukongai - pontuou o ancião em seu tom arrastado.

– É verdade. Quando foi resgatada pelos ninjas do clã Shihouin, Suzumi fez questão de levar Rukia consigo, mas como era muito jovem não permitiram que adotasse a menina. Porém, ela não queria tê-la como uma serva, afinal lhe salvara a vida.

– A senhorita Suzumi sempre foi famosa por sua generosidade.

– De fato. Então Suzumi fez com que Rukia fosse instruída e educada de modo a se comportar como uma autêntica nobre, só então ela a trouxe para o clã. Assim, não tem nem dez anos que ela está morando com Suzumi.

– Meu caríssimo senhor Byakuya, é uma história realmente incomum.

– É sim - concordou, com um ar distante, então completou: – A senhorita Rukia é como uma flor rara - disse, sem esconder o fascínio que o dominava.

– Meu senhor parece bastante interessado.

– E estou. Diferente de Hisana, ainda que Rukia também tenha uma origem humilde, poucos sabem disso e ela já está inserida numa família nobre. E nada menos que uma das quatro grandes famílias.

– Sem dúvida isso facilitará as coisas para o meu senhor.

– Sim... e pretendo usar tudo que estiver em meu alcance para atingir meus objetivos.

A conversa seguiu um tanto ainda e mesmo depois que o idoso se foi, já em seu quarto, Byakuya continuou em suas maquinações. Há tempos não se sentia tão entusiasmado, tão vivo. Rukia despertara algo nele que há muito não sentia. Ela era tão encantadora, além de muito parecida com sua falecida Hisana, mas tinha seu próprio brilho. Ansiava por conhecê-la melhor, conquistar sua confiança, seu coração.

Apenas lamentava por Suzumi. Forçar situações nunca fora de seu feitio, mas as circunstâncias se apresentaram tão propícias a seu favor que não ousou desperdiçar a chance de se aproximar da moça que fez seu coração bater mais forte.

Ademais, não havia inverdade em sua história, oportunismo talvez, mas mentira não; Rukia podia possuir poder espiritual sim. Contudo, ser isso era um fato ou não, pouco importava. Se realmente viesse a desposá-la, e era isso que tinha em mente, dificilmente consentiria que ela tomasse parte em batalhas.

Saindo do aposento e vindo ao jardim, Byakuya mirou a lua alta no céu.

– Mal posso esperar pelo nosso próximo encontro, Rukia.

Continua...

xxx xxx xxx

Sim, ainda é a mesma história. Se pulei alguma parte? Não mesmo.

O que aconteceu então? Vai saber... ^_^

Gente, muito obrigada pelos comentários até aqui! Por favor, continuem comentando. ^_~