Escondida no coração
Por Amanda Catarina
BLEACH e personagens pertencem a Tite Kubo.
Classificação etária recomendada: Para maiores de 18 anos.
Capítulo 4
Nem rompera a aurora e Ichigo já estava acordado; a insônia fora sua companheira naquela noite. Deitado de barriga para cima, fitava o teto inconformado com o fato de um bando de hollows ter frustrado seu plano de ir à Soul Society no dia anterior. Mas hoje, nem que o próprio Aizen ressurgisse das cinzas, ele não ficaria em Karakura.
Levantou-se enfim, muito mal-humorado, mas logo a ideia de rever Rukia começou a modificar esse seu estado, substituindo-o por uma grande ansiedade. Desse modo, se manteve impassível durante o desjejum, respondendo o que as irmãs ou o pai lhe perguntavam com gestos e resmungos.
Ao comunicar que não iria ao colégio, Yuzu esquentou sua orelha em protestos. Ela ralhava dizendo que não podia relaxar agora que estava no último ano, que as faltas fariam seu desempenho cair, que iria perder o ano, que entraria para o hall dos alunos menos inteligentes e por aí afora.
– Então vou mandar Kon no meu lugar - propôs ele, mas a loirinha não aprovou também.
– Pior do que ficar faltando feito um louco, é mandar um louco propriamente dito no seu lugar! Maninho, estou falando isso pro seu bem. Se fosse sábado, vá lá... mas faltar em plena quarta-feira!? - retrucou inconformada.
Desviando o olhar momentaneamente, ele notou Karin escondendo um riso atrás da mão, mas nada disso o deixava aborrecido.
De volta ao quarto, gastou algum tempo fazendo algumas recomendações ao leãozinho de pelúcia, que ficou totalmente eufórico com a notícia de poder passar um dia inteiro como um aluno do ensino secundário. E não um aluno qualquer, mas o mega popular "Ichigo Kurosaki".
– Fica de gracinha com as garotas da minha sala que eu arranco seu enchimento - Ichigo ameaçou num tom brando e temível, que fez Kon suar de medo, mas nem de longe cogitar em atendê-lo.
Ele estava a um instante de acionar seu distintivo de shinigami substituto quando seu celular tocou. A raiva foi tamanha que atendeu sem nem olhar se era um número conhecido, então escutou uma voz feminina, embrulhada em gentileza, proferir seu nome num tom interrogativo.
– Inoue? - devolveu surpreso.
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Ao abrir a porta de correr de seu amplo quarto e se deparar com um dia ensolarado, Byakuya se sentiu muito bem-humorado.
– Um dia perfeito - ele falou com uma expressão confiante.
Naqueles dois dias, desde sua conversa com Suzumi Shihouin, ele se ocupou em solucionar toda e qualquer pendência que pudesse ter em seu ofício na Equipe Seis e delegou tudo que pôde a seu vice-capitão, Renji Abarai. Mesmo que fosse um dia comum, não queria ser incomodado.
Cerca de meia hora depois, ele chegou ao salão principal, com seu impecável traje de capitão, e foi abordado por um subordinado.
– Capitão Kuchiki, o transporte que solicitou já se encontra a vossa disposição.
– Muito bem.
Saindo ao pátio da mansão avistou uma esplêndida carruagem, puxada por dois garanhões negros impressionantes. Ele se aproximou com um ar pensativo e após alguns instantes de reflexão, falou ao cocheiro:
– Siga para a mansão Shihouin que eu irei até lá usando shunpo. Na volta é que usarei este veículo.
O homem assentiu com um gesto e, em seguida, Byakuya desapareceu de lá. Em pouco tempo, ele chegou à residência da nobre Suzumi, um tanto mais cedo daquilo que seria um horário apropriado, porém imaginava que tanto ela como Rukia já deviam estar acordadas e, felizmente, essa sua suposição se mostrou correta.
Suzumi exibia um kimono formal, na cor verde folha, com motivos de cerejeiras; mas foi apenas por causa dessa estampa que ele reparou no traje da anfitriã, porque logo toda sua atenção estava em Rukia, que exibia um traje mais simples, porém não menos requintado; um kimono típico de moças solteiras e caracterizado pelas mangas alongadas - o furisode –, na cor azul céu, com motivos de girassóis e um obbi rosa à cintura. Os cabelos estavam presos, mas ainda sim a costumeira mecha mais cumprida da franja caía-lhe entre os olhos.
Ele tomou parte na refeição matinal delas, no entanto, sentiu que ambas não pareciam tão à vontade como nas outras vezes. Rukia não lhe dirigiu mais a palavra depois que o cumprimentou e evitava olhá-lo. Temeu que Suzumi não tivesse contado a ela que ele estava ali para levá-la e, justamente quando pensava em inquirir a nobre sobre isso, ela se adiantou dizendo:
– Rukia, então você irá com o capitão Kuchiki.
– Sim, senhorita Suzumi.
Byakuya estreitou os olhos na jovem quando ela falou e permaneceu assim até Suzumi interromper sua contemplação.
– O senhor tem ideia de quanto tempo deve demorar esses exames? - o tom dela exprimia preocupação.
– Penso que dentro de no máximo três dias tudo estará terminado - esclareceu brando e assim que ela lhe assentiu, ele tornou a olhar para a mais nova, que desviou o rosto ao perceber isso e corou levemente.
Notando o acanhamento dela, Suzumi falou:
– Você pode confiar inteiramente no capitão Kuchiki, querida - e sorriu meiga.
– Sim! - Rukia falou de súbito, meio atrapalhada, ficando mais encabulada ainda.
Então foi a vez de Byakuya desviar o rosto para que as duas não notassem o raso sorriso que teimou em curvar seus lábios.
Findada a refeição, os três se encaminharam ao pátio. Lá, Rukia e Suzumi se surpreenderam ao se depararem com uma vistosa carruagem - quando o capitão lhes dissera que o transporte estava a caminho não imaginaram que se tratasse de um daquele tipo. Notando a expressão surpresa das duas, Byakuya teve a certeza de que conseguira impressioná-las.
Um empregado dos Shihouin segurava as rédeas dos cavalos e, quando os nobres se aproximaram do veículo, o cocheiro desceu do banco de condução, na óbvia intenção de auxiliar os que iriam partir a se acomodarem, mas Byakuya fez um gesto a ele para que ficasse onde estava. Assim, ele próprio não só abriu a portinha da cabine para Rukia, como estendeu sua mão a ela para ajudá-la a subir os dois estreitos degraus de acesso ao interior da mesma.
Um forte rubor recobriu a face alva de Rukia, que não teve alternativa senão aceitar o gesto. "Iremos apenas eu e ele?" - ela se indagou em pensamento, aflita. Mas, para seu alívio, ao adentrar a cabine encontrou ali uma moça de expressão simpática, a qual lhe indicou o assento a seu lado. Assim que ela se acomodou, o capitão Kuchiki tomou o assento a sua frente.
– Então, podemos ir, senhorita Shihouin? - perguntou ele ameno.
Ela assentiu com a cabeça e, em seguida, ele sinalizou ao cocheiro que aguardava do lado de fora. Momentos antes de partirem, Rukia acenou para Suzumi, pela janelinha da carruagem, recebendo em troca um sorriso encorajador.
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Imagine alguém furioso, este seria um bom modo de definir Ichigo naquele momento. Talvez duas ou três coisas no mundo o teriam segurado em Karakura mais um dia, e uma catástrofe daquela com a sua moto era uma delas.
– Seu quincy desgraçado duma figa! - esbravejou entre os dentes, tremendo de ódio.
As rodas traseiras do novíssimo conversível de Ishida tinham acabado de arruinar sua maravilhosa Suzuki, conquistada a custo de muito trabalho e suor.
– Não adianta usar óculos se já ficou cego! - acusou irado.
– Você viu que eu ia sair e largou a moto aí! - retrucou Uryuu igualmente.
Encaravam-se feito dois tigres prestes a atacar, mas então Orihime os afastou.
– Por favor, jovem Kurosaki, não fique tão bravo, ele não fez de propósito - ela interveio em defesa do namorado.
Fazendo um gesto para que ela se afastasse, Uryuu falou:
– Eu vou pagar, Kurosaki.
– Mas vai mesmo! Ou melhor, vai me comprar outra!
– Rapazes, eu posso resolver isso em dois tempos - cochichou a ruiva. – Basta levarem o que sobrou para...
– Todo mundo viu, Inoue! - cortou Ichigo. – Como vamos explicar que num minuto minha moto era um monte de sucata e no outro ficou novinha em folha?
– Ele tem razão, Orihime. Não podemos nos expor assim. Além disso, eu não sou do tipo que não aguenta arcar com as consequências dos próprios atos.
– Falou bonito, Ishida, mas vou preferir ver seu talão de cheque!
– Temos que fazer um boletim de ocorrência, só assim poderei acionar o seguro.
Ichigo rolou os olhos. Pronto, lá se iam seus planos por água abaixo de novo. Primeiro uma trupe de hollows, depois o odioso trabalho de geometria analítica que prometera a Inoue e agora sua moto! Definitivamente, o mundo estava contra ele.
As horas que se seguiram foram um enfado, entre papéis, assinaturas e muito falatório. Mas, depois que ele esfriou a cabeça, acabou por desistir da ideia de ir a Soul Society.
Estava louco para ver Rukia, era verdade, mas dentro de dez dias as férias de verão começariam, então poderia ir para lá passar não apenas um dia, mas uma semana inteira. Assim visitaria Renji, Ikkaku, Zaraki e claro, sua querida... amiga.
"Só espero que resolvam logo a pane no banco de dados, porque daí posso ao menos ligar pra ela." - pensou ele, enquanto aguardava nem sabia mais o que naquela delegacia.
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Horas mais cedo, na Soul Society.
Como a distância da mansão Shihouin até a sede da Equipe Quatro era realmente longa, o percurso da carruagem já contava com mais de meia hora de duração.
Rukia se sentia extremamente desconcertada com o olhar insistente do capitão Kuchiki em sua direção, ele parecia querer despi-la com os olhos. Não bastasse, fazia um calor insuportável e ela estava transpirando dentro daquele kimono apertado. Piorando seu desconforto, seguiam em absoluto silêncio.
"Estará muito longe este lugar pra onde estão me levando?" - pensava ela.
– Tem sede, senhorita Shihouin? - perguntou de repente a moça a seu lado.
– Tenho sim! - respondeu de pronto e alto.
Byakuya se atentou ao tom dela. Ele reparara antes que Rukia tinha um jeito de falar firme e sério, quase masculino, muito diferente do modo singelo com que Hisana falava.
– Quer que eu peça para o cocheiro parar, senhorita Enri? - perguntou ele, vendo a jovem retirar de uma cesta duas pequenas garrafas de água.
– Acho que não é necessário, capitão Kuchiki - respondeu amena, entregando uma das garrafas à nobre Shihouin e depois estendendo a outra a ele, mas como ele recusou com um gesto, ela tomou a mesma para si.
Byakuya se remexeu um pouco no assento, atravessando uma perna sobre a outra, com uma mão a apoiar o rosto. Então fitou a jovem Rukia com um certo ardor, ao vê-la se deliciar com a água fresca. Desviando o olhar para fora momentaneamente, ele se repreendeu pelo descuido. Estava tão compenetrado em admirá-la que nem se apercebera daquele calor; felizmente Enri estava ali.
A presença daquela serva foi necessária, pois um nobre e viúvo como ele, sozinho com uma bela jovem era algo que poderia dar margem a calúnias e difamações. Não se importava tanto com isso em relação a si mesmo, mas não suportaria ver Rukia difamada.
Voltou a olhá-la fixamente. Enquanto Enri passou a entretê-la com assuntos típicos de mulheres, seus olhos claros se deliciaram perfazendo o lindo contorno da boca pequena e rosada, depois se fixaram na delicadeza das mãos pequeninas e nos dedos finos, e então repousaram na exuberância dos olhos violeta, graúdos, lindos. De perto, Rukia era ainda mais bela do que seus sentidos haviam memorizado.
Não fosse um homem tão comedido, colocaria a serva para dormir e cederia ao desejo de fazer aquela jóia rara sua ali mesmo. Agitou levemente a cabeça, meio espantado com a indecência do próprio pensamento. Devia estar fora de si. Porém, achava intrigante como Rukia despertava tais ímpetos nele. Nunca se sentira assim antes.
– Esse calor está nos obrigando a fazer uma parada na mansão Kuchiki - ele falou de repente, ganhando a atenção das duas moças. – Não se importa, não é, senhorita Shihouin?
– De modo algum, capitão Kuchiki.
Ele reparou de novo no tom firme dela e meneou a cabeça em concordância, sem se importar em esconder o discreto sorriso dessa vez.
"Será uma estada inesquecível essa, minha cara. Inesquecível..."
Continua...
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Vocabulário:
Shunpo: Literalmente, passo rápido, é a técnica que os shinigamis usam para se moverem em alta velocidade.
Nota: O ensino no Japão é assim dividido:
Dos 06 aos 15 anos: Ensino fundamental, shōgakkō, obrigatório, 9 anos.
Dos 16 aos 18 anos: Ensino secundário, chūgakkō, fazem teste de aprovação para ingressar.
Dos 19 aos 21 anos: Ensino superior, kōtōgakkō, fazem teste de aprovação para ingressar.
Andréia, Paulinho e Daiane, obrigada pelos comentários! Amei cada um deles. Aos leitores cadastrados já respondi pelo sistema, mas torno a agradecer a todos!
Gente, por favor, não deixem de comentar! ^_^
