Escondida no coração

Por Amanda Catarina

BLEACH e personagens pertencem a Tite Kubo.

Classificação etária recomendada: Para maiores de 18 anos.

Capítulo 5

Byakuya tinha uma expressão contente em face ao modo com que Rukia observava o espaço ao redor da mansão Kuchiki. Ela parecia deslumbrada com o gramado verdejante, com as flores e árvores e com as figuras ornamentais; tudo no melhor estilo nipônico.

Ao alcançarem a ponte em arco que conduzia a casa, a jovem se deteve um pouco, admirando os muitos peixes do lago - grandes e vistosas karpas. A graciosidade de seus gestos enchia de ternura o coração do belo nobre.

– Vossa morada é simplesmente impressionante, capitão Kuchiki - elogiou sincera.

– É uma satisfação saber que apreciastes. E me sentiria honrado em tê-la como minha convidada aqui por um ou dois dias, tão logo os exames na Equipe Quatro sejam feitos.

Ela demonstrou espanto e ponderou uns instantes antes de responder:

– ...claro, desde que a senhorita Suzumi seja avisada e não se oponha.

– Sim, isso não será problema.

Dentro de alguns minutos, os dois adentraram a luxuosa mansão, acompanhados da senhorita Enri. Empregados previamente avisados já tinham chá e doces à espera da visitante. Após uma refeição rápida, uma serviçal se aproximou dizendo:

– Senhorita Shihouin, já temos um aposento a vossa disposição.

Confusa, ela desviou o olhar para seu anfitrião que, antes de ser questionado, explicou:

– A viagem até aqui foi longa e até a Equipe Quatro precisaremos seguir outro bom tanto, por isso, se a senhorita quiser descansar por algumas horas, esteja à vontade.

– Mas isso não atrasará ainda mais nossa chegada? - contestou preocupada.

– Isso não será problema, pois a capitã Unohana está a nossa espera hoje a qualquer hora do dia.

Surpresa, Rukia concordou com um gesto apenas.

– A senhorita Enri irá acompanhá-la até o quarto então - anunciou ele.

Enri meneou a cabeça em resposta e sorriu para Rukia. Assim que as duas saíram, Byakuya se dirigiu a uma outra sala.

Sozinho, ele se pôs a pensar em qual seria seu próximo passo. Até então, tudo transcorria bem e conforme o planejado, porém a ida até a Equipe Quatro era a parte mais delicada. Ele próprio não sabia o que esperar dos exames e por mais que quisesse, ignorar isso estava sendo difícil.

Ao pensar nos exames, ele se atentou ao fato de que desde o começo do dia, Rukia não demonstrara o menor sinal de fraqueza ou indisposição, ao contrário exibia um aspecto muito saudável. Era curioso que alguns dias atrás ela tivesse se mostrado tão debilitada. Isso o deixou realmente intrigado, mas decidiu pensar neste assunto outra hora.

Ajoelhado num futon, ainda muito pensativo, ele fechou os olhos. A presença de Rukia sob seu teto fez aflorar uma ansiedade indomável nele. Era verdade que toda sua interação com ela fosse ainda bastante recente, mas, mesmo assim, reconhecia que estava verdadeiramente apaixonado. E essa paixão se avultava avassaladora como um vendaval, lançando para longe seu bom senso e paciência - e essa última nem era uma de suas maiores virtudes.

"Basta de pretextos. É melhor que ela saiba logo dos meus sentimentos."

Abriu os olhos e a um mero gesto seu um subordinado se aproximou.

– Pois não, senhor Kuchiki?

– A senhorita Enri deverá ser trazida à minha presença, tão logo a senhorita Rukia esteja acomodada.

– Sim, senhor.

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A primeira coisa que Rukia reparou ao adentrar o espaçoso quarto foi em sua maleta, postada ao lado de um bonito futon, no centro do cômodo.

– Minhas coisas já estão aqui? - abismou-se ela. – Mas nem estavam nos esperando.

– Os empregados da mansão Kuchiki são extremamente eficientes, agem como sombras.

– Impressionante.

– É sim. Posso lhe sugerir um banho, senhorita Shihouin?

– Ah, seria ótimo.

Enri veio até um canto do quarto e, conforme imaginara, encontrou atrás de um biombo uma tina e dois jarros com água fresca.

– Viu? O banho também já está pronto.

Passado um bom tempo, reclinada à borda da tina, deliciando-se com a brisa suave que arejava o quarto, vinda pela porta que dava à varanda, Rukia estava quase caindo no sono.

– Senhorita Shihouin - Enri a despertou –, terei que deixá-la pois estão me chamando. Deve ser as recomendações para a próxima etapa da viagem.

– Esteja à vontade, senhorita Enri.

– Tente dormir um pouco, sim. Voltarei para acompanhá-la em breve.

Rukia assentiu sorridente, mas logo a ideia de ficar sozinha ali a deixou meio desanimada. Um pouco depois de Enri ter saído, ela deixou a água, secou-se displicentemente, e em seguida vestiu um outro hadajuban - o kimono branco que se usa por baixo das vestes formais. Contudo, ao pensar que o dia estava muito quente para um furisode, tornou a se despir, trocando o hadajuban por um yukata - um kimono sem forro, próprio para ser usado nos dias de verão. Gastou algum tempo se aprontando e isso acabou por espantar o sono. Nada mais natural, afinal sentia-se agitada com tudo que vinha acontecendo naquele dia.

Já trocada, com seu yukata amarelo e um obbi cor-de-rosa, ela veio até a varanda e se sentou ali, aguardando o retorno de sua mais nova amiga. Ao menos, era assim que considerava Enri, uma vez que ela estava sendo tão gentil e atenciosa consigo. Mas, quando deu por si, era no capitão Kuchiki que estava pensando:

"Ainda não me sinto à vontade na presença dele, mas devo admitir que ele é muito mais gentil do que eu havia imaginado, além disso, tem se mostrado bastante empenhado em solucionar meu problema. Ao menos, não venho tendo mais aqueles desmaios."

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Ao ver Enri se aproximando, Byakuya veio de encontro a ela.

– Agradeço por toda sua ajuda, senhorita Enri.

Ela assentiu com um gesto.

– Sua tarefa está terminada. Tenha uma boa tarde.

Evidente surpresa ficou esboçada na expressão da moça, mas Byakuya não se importou com isso. Passando ao lado dela, em sua postura muito austera, ele deixou o local sem dar a mínima satisfação.

Dentro de alguns minutos, ele se aproximava sorrateiramente do quarto em que Rukia estava, mas cuidou de usar um kidou para ocultar sua presença completamente.

Com extrema satisfação, se deparou com uma pequena abertura deixada na porta do quarto, acidentalmente por certo. Espiando o interior, encontrou a jovem beldade assentada na varanda, com o rosto levemente elevado ao céu. Foi inevitável que o quadro o fizesse lembrar de Hisana, a quem ele normalmente encontrava exatamente daquele jeito, porém não naquele quarto. Afastando essa lembrança, num baixo sussurro ele invocou uma outra técnica:

Hakufuku.

Uma energia semelhante ao pólen de flores, foi disseminada e invadiu o recinto, então, em instantes, ele viu o corpo de Rukia tombando para o lado. Aguardou ainda um pouco, para só então adentrar o quarto. Aproximando-se da jovem - desacordada devido àquela técnica, que embaralhava a consciência de sua vítima e, eventualmente, a fazia perder os sentidos -, Byakuya a ajeitou delicadamente em seu braço.

"Tão bela e tão frágil." - ele pensou, aspirando o perfume suave que dela exalava.

Aquilo ultrapassava e muito os limites do aceitável, mas sua ansiedade atingira um nível tal que estar próximo a ela já não bastava, precisava senti-la, conhecer a textura daquela pele nívea, de aspecto sedoso e aveludado através do toque. E ele não hesitou. Numa vagarosa carícia, deslizou os dedos pelo rosto de Rukia, fascinado.

Seus olhos ávidos se fixaram então na fresta do kimono e na pequena região exposta do colo. Sabia que nada além daquele tecido fino revestia o corpo dela e que bastaria desatar o obbi que a teria totalmente exposta a sua visão. Assim, como quem estivesse hipnotizado, ele levou a mão até a fita que cingia o obbi, mas ao tocar a mesma, sua razão conseguiu resgatar a sensatez, antes que cometesse uma loucura.

Elevando os olhos ao rosto dela, estreitou a vista nos lábios entreabertos. A parca umidade naquela boca delicada pareceu atraí-lo como a um sedento que avista um oásis no deserto. Lutou contra o ímpeto de beijar aqueles lábios, pois sabia que não pararia por aí. Sua mente e seu corpo travaram um feroz duelo, mas no fim a razão venceu.

"Essa mulher está me deixando alucinado." ele se repreendeu.

Porém, contrariando à própria repreensão, logo inclinou o corpo para frente e pousou os lábios na franja do cabelo de Rukia, num beijo singelo. Mas ainda sim um beijo e, apesar de ter sido verdadeiramente desprovido de malícia, fez cada célula do corpo dele se agitar e o coração acelerar desgovernado.

Tomando Rukia nos braços, Byakuya se levantou e veio em direção ao futon no centro do quarto, e a sensação de senti-la aninhada em seu peito foi sublime. Acomodou-a com todo cuidado e ficou ajoelhado ao lado dela, desfrutando o quanto pôde daquele momento tão especial. A energia atordoante que ainda pairava no ar, começava a perder o efeito. Assim, não demorou para Rukia se mexer um pouco e logo voltar a si.

– Capitão... Kuchiki? - gaguejou ela, confusa e até meio assustada com a proximidade dele.

– Perdoe-me aparecer assim - o tom dele era o comedido de sempre, como se nada demais houvesse acontecido. – Precisei vir eu mesmo chamá-la, pois a senhorita Enri foi acometida de um mal estar - ele mentiu sem o menor receio.

– É mesmo? - ela devolveu visivelmente preocupada e mais que depressa se assentou no futon. – Mas como ela está agora?

– Creio que esteja melhor, deve ter sido apenas uma indisposição devido ao calor... De todo modo, senhorita Shihouin, é realmente necessário que partamos o quanto antes.

– Sim - ela respondeu na típica firmeza e prontidão.

– Estarei aguardando no pátio. Há uma pessoa esperando aqui na porta que irá lhe indicar o caminho - informou ele e em seguida se levantou.

– Sim, senhor.

E de costas a ela, ele disse ainda:

– Espero que não se importe de viajar em minha companhia apenas.

Após alguns instantes de silêncio, ele a escutou dizer:

– Não. De modo algum - o tom dela não foi tão firme dessa vez.

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Quando seu anfitrião comentou se ela se importaria de viajar com ele apenas, ela respondeu que não, mas o fato era que se importava sim.

– Por que a senhorita Enri teve que passar mal? - Rukia resmungou, já assentada ao canto da cabine da carruagem, com o cotovelo sobre o batente da janelinha e o rosto apoiado na mão.

Foi então que o capitão Kuchiki chegou e, para sua surpresa, ao invés de ocupar o mesmo lugar de antes, ele se sentou a seu lado. Ela ficou meio desconcertada, pois não esperava por isso.

O veículo entrou em movimento dentro em pouco, e bem quando ela pensava que a atitude dele iria contribuir para amenizar seu desconforto, acreditando também que o capitão se manteria em silêncio, ele contrariou sua expectativa ao dizer:

– Senhorita Shihouin, talvez eu venha a constrangendo com o modo com qual a tenho olhado, mas gostaria de me justificar dizendo que vossa beleza é toda a razão disso.

Atônita, Rukia sentiu o coração disparar no peito na mesma hora, as orelhas esquentarem e a garganta secar. Ele acabara de dizer que ela era bonita? Ou teria entendido errado?

– O que... o senhor está me dizendo? - precisou realmente confirmar, mas quase se arrependeu disso, ao vê-lo virar o rosto em sua direção e ainda com um sorriso indecifrável nos lábios.

– Quis dizer que a perfeição de vossos traços tem me deixado sobremaneira enlevado.

Ela achou que tivesse um surto. Nunca teria se imaginado numa situação daquela.

"Mas ele não é o homem mais cobiçado pelas mulheres do Seireitei? Por que raios alguém como ele se interessaria por uma qualquer como eu, que vive sob o favor da família Shihouin?"

– Capitão Kuchiki... - balbuciou perdida, buscando desesperadamente as palavras, mas não conseguia mais juntar coisa com coisa de tão desconcertada.

Virou o rosto a janela e por um instante pensou mesmo em saltar dali. Não sabia o que fazer e até inepta para continuar respirando ela se achou. Disse então a coisa mais óbvia que poderia ter dito:

– ...eu não sei o que dizer - e abaixou a cabeça, totalmente envergonhada.

– Responda-me apenas uma coisa: A senhorita me aceitaria como seu consorte?

Ela ergueu imediatamente o rosto, espantada com o modo fulminante com que ele fez a pergunta. Ele não era sério demais para falar de coisas daquele tipo com tamanha naturalidade? E notava que não havia nem sombra de embaraço em seu rosto. Como não conseguiu fazer nada além de encará-lo petrificada, ele continuou:

– Eu juro pela minha honra e pelo meu orgulho, que se me aceitar a seu lado, Rukia - ela estremeceu ao ouvi-lo pronunciar seu nome -, irei protegê-la ao custo até de minha própria vida e que irei amá-la de todo meu coração.

Tal qual uma gatinha indefesa diante de um tigre, ela se retraiu toda. Seria ótimo descobrir que aquilo tudo não passava de um delírio e que iria acordar em sua casa de onde nunca quis ter saído.

– Por favor... capitão Kuchiki... peço que... - enquanto ela não concluiu a frase ele não disse nada. – Peço que me dê um tempo para pensar no assunto - conseguiu dizer enfim.

– Sim, todo o tempo de que precisar. E prometo não retomar a este assunto até que a senhorita assim o queira.

– Sou-lhe imensamente grata então.

Ele cumpriu com a palavra, mas seria impossível que após uma revelação daquela o clima de normalidade - que sequer houvera estado por ali - se instalasse. Aquela foi, sem dúvida, a meia hora mais longa da vida de Rukia.

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Deixando a delegacia, acompanhado de Uryuu e Orihime, Ichigo olhou rapidamente as horas em seu relógio de pulso; eram quase quatro da tarde e fazia muito calor.

– Quer uma carona até sua casa, Kurosaki? - ofereceu o quincy.

– Nem... Prefiro ir andando - devolveu, reparando que o casal desvencilhava as mãos dadas neste momento, para em seguida entrar no carro.

A visão dos dois juntos, fez Ichigo sentir uma ponta de inveja do amigo, por ele poder estar ao lado da pessoa que tanto amava. Não fazia nem um ano que aqueles dois estavam namorando, mas ele sabia que Ishida gostava de Inoue há muito mais tempo.

Acenando a ele, a ruiva se despediu:

– Até amanhã, jovem Kurosaki!

– Até... - respondeu ranzinza.

Um pouco depois, ele se pôs a caminhar. Seguia vagaroso, um tanto inconformado ainda com o que tinha acontecido, mas bem mais calmo e, ao passar por uma casa de jogos, avistou um jovenzinho que muito detestava andando por ali.

– Ei, Jinta... De estudar tu não quer saber, mas game é contigo mesmo, né safado!

– E aí, cabeça laranja - saudou com um riso travesso. – Se não vier me tirando não é você. E quando a gente for cunhado, hein?

– Moleque, você não me provoca. Já da pá virada hoje - ameaçava em tom de advertência, mas então reparou na sacola que o garoto tinha consigo. – Remédio? Quem está doente?

– He, nem te conto... hoje cedo, a senhorita Yoruichi chegou lá na loja, na forma de gatinho, parecendo que tinha sido atropelada.

– E ela foi? - assustou-se o ruivo.

– Não, mas parecia. O chefe ficou doido e está todo esse tempo cuidando dela, daí me pediu pra vim comprar este remédio.

Ichigo ficou espantado com a calma com que o garoto relatava o caso.

– Mas o que ela tem oras? - questionou indignado.

– Eu é que sei? - berrou de volta.

– Fala sério... Vou com você. Quero saber dessa história direito.

– Que seja.

Os dois seguiram então a caminho da Loja Urahara.

Continua...

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Vocabulário:

kidou: Este termo abrange o conjunto de técnicas mágicas que os shinigami usam com a finalidade de atacar (os hadou), se defender ou realizar curas (os bakudou).

Hakufuku: É um tipo de kidou. Ele foi usado por Hinamori quando ela fugiu da prisão na fase da Soul Society.

Byakuya dissimulado! Vocês sabiam desse lado dele? Nem eu!

Bom, agradeço a todos que tem mandado comentários. Estou impressionada com a quantidade de gente que está acompanhando. ^_^

É isso aí, gente! Até a próxima!

Ah, a numeração dos capítulos foi editada já que o site contava o prólogo como um capítulo.