Escondida no coração

Por Amanda Catarina

BLEACH e personagens pertencem a Tite Kubo.

Classificação etária recomendada: Para maiores de 18 anos.

Capítulo 6

Ao ouvir Jinta soltar um gritinho rouco, Ichigo baixou os olhos a ele e o encontrou branco feito um fantasma.

– Ururu - ele balbuciou tremendo –, sua... cabeça de repolho podre! Larga esse taco! Agora!

O fato de a menina estar usando um certo taco de beisebol para amassar uma pilha de lixo orgânico num latão, não agradou nada o colérico Jinta.

– Leva isso, cabeça laranja - ele incumbiu urgentemente, lançando-lhe a sacola de remédios , eu tenho que esfolar alguém.

O ruivo agarrou a carga no ar e balançou a cabeça numa negação. Estava convencido: até o fim dos tempos, aqueles dois viveriam se digladiando. Ponderou um instante se deveria intervir em favor da meiga Ururu, mas certo de que quem iria acabar esfolado ali seria o próprio Jinta, simplesmente adentrou a loja.

– Olá! Urahara? Senhor Tessai? - chamou, descalçando seus tênis. – Estou entrando.

Mesmo sem obter resposta, ele seguiu adiante. Caminhava silencioso pelo corredor que sabia levava aos quartos e, ao se aproximar de um deles, acabou flagrando algo que o deixou um tanto surpreso e até meio desconcertado: Yoruichi, na forma humana e de olhos fechados, estava deitada num futon, vestida com o que parecia ser um yukata, cinza listrado, com uma colcha recobrindo parcialmente o corpo, Urahara se achava ajoelhado ao lado dela; eis então que viu o loiro se inclinar e depositar um beijo na testa dela.

O gesto foi tão terno e, aos olhos de Ichigo, pareceu tão íntimo que ele chegou a enrubescer. Pigarreou, para chamar a atenção do loiro, meio intrigado com o fato de ele ter permitido que presenciasse aquilo - sim, pois Urahara devia ter notado sua presença desde que pisara na propriedade.

– Boa tarde - saudou assim que o loiro ergueu o rosto em sua direção. – Jinta me pediu para entregar isso.

– Ah, obrigado - ele se levantou para pegar a sacola estendida. – Ela ainda está inconsciente. Mas assim que voltar a si, darei este remédio a ela.

– O que aconteceu? - indagou preocupado.

– Venha comigo...

Em poucos minutos, estavam assentados à mesa baixa do cômodo que por tantas vezes servira de sala de reuniões para as ações dos shinigami ali em Karakura.

– Jinta não soube me explicar direito o que tinha acontecido - comentou Ichigo.

– E mesmo eu não estou em condições de fazê-lo. Yoruichi chegou aqui extremamente fraca, mal conseguia se manter em pé. Falou muito pouco e logo perdeu os sentidos.

– Mas ela estava ferida?

– Não. Não havia qualquer ferimento físico ou sinal de que tivesse lutado contra alguém. Este é justamente o ponto mais intrigante. Só posso crer que foi um ataque psíquico, mas ainda não pude precisar seus efeitos, uma vez que ela não pôde relatar por si mesma o que aconteceu.

– Que absurdo.

– Sim.

Uma pequena pausa se seguiu, durante a qual cada um fazia suas próprias reflexões. O rapaz foi quem tornou a falar:

– Há uns cinco dias atrás, quando contactei a Soul Society me disseram que meu nome não constava no banco de dados. Tenho tentado falar com Rukia, mas isso também não tem dado certo.

– Mas que estranho... haveria alguma conexão disso e o que aconteceu à Yoruichi? - indagou-se o loiro.

– Já que tem tanta coisa esquisita acontecendo, não seria melhor eu dar um pulo na Soul Society? Posso ir amanhã, bem cedo.

– Não é amanhã que o senhor Shinji Hirako irá chegar de viagem?

Ichigo bateu na testa.

– Verdade, tinha me esquecido totalmente... - ele pensou um pouco – mas seja o que for que Hirako tenha pra me dizer, pode esperar um ou dois dias. A situação na Soul Society é prioridade agora.

– Você sabe que eu iria se eu pudesse.

– Não se preocupe com isso, deixe comigo. Mesmo porque você precisa cuidar dela - falou por impulso, mas então ficou meio sem jeito. Contudo, ao constatar que Urahara não se apercebeu disso, logo se sentiu mais aliviado.

Vendo o loiro cabisbaixo e notando seu abatimento, Ichigo lamentou por ele.

– ...ela é uma pessoa muito importante pra você, né, Urahara? - comentou, com o rosto virado de lado.

– É sim... não seria exagero dizer que é a mais.

Foi inevitável a identificação que Ichigo sentiu em relação a Kisuke Urahara naquele momento. Depois da confissão dele e daquilo que presenciara no quarto, não restava dúvidas do tipo de sentimento que existia entre os dois. Sabia como ele devia se sentir, pois semelhantemente a ele próprio, Urahara estava, literalmente, a um mundo de distância daquela que tinha um lugar especial em seu coração.

– Kurosaki, por que não passa a noite aqui? Yoruichi pode despertar a qualquer momento e penso que seria melhor você ouvir a versão dela do ocorrido antes de ir à Soul Society.

– Dormir aqui? Pode ser - ele se colocou em pé. – Estou na rua desde a aula, além disso, tive um problema com a moto. Volto mais à noite então.

– Problema com a moto? - estranhou Urahara, levantando a cabeça.

– Sim, mas depois eu te conto. Até...

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Ao mesmo tempo, na Soul Society, na sede da Equipe Quatro.

Em pé, de braços cruzados e escorado à parede de um corredor, ao lado da porta da sala em que Rukia vinha sendo examinada, Byakuya exibia um semblante tão sério e fechado que poucos dos muitos oficiais que por ali passavam ousavam cumprimentá-lo.

"Não achei que esses exames fossem ser tão demorados." - ele pensava consigo e precisou esperar ainda um bom tanto até que a vice-capitã, Isane Kotetsu, enfim viesse ter com ele.

– Capitão Kuchiki, por favor, me acompanhe - disse ela, ao sair da sala, indicando a porta no final daquele corredor.

– Antes eu não poderia ver a senhorita Shihouin? - objetou ele.

– Ela está sedada.

– Ah... - ele demonstrou certo desânimo. – Diga-me, vice-capitã, o caso dela é grave?

– Há muito que precisarei expor e questionar. Então, por favor, queira me acompanhar.

Assentindo com a cabeça, ele a seguiu. Minutos depois, achavam-se no gabinete da líder daquela Equipe e Isane discorria sobre a situação:

– ...uma pena a capitã Unohana não estar presente. Este é, sem dúvida, um caso que ela teria apreciado analisar.

– Se a senhorita Shihouin tiver que permanecer aqui por mais tempo, não há problema, vice-capitã.

– Isso não será necessário. Os dados recolhidos são suficientemente conclusivos. A senhorita Shihouin precisará sim de acompanhamento, mas de um outro tipo, capitão Kuchiki.

Ele apenas a encarou.

– O senhor suspeitava de que a senhorita possuísse poder espiritual, pois bem, o senhor estava certo. E o mais surpreendente é que a medição do poder espiritual da senhorita Shihouin aponta para um nível de digamos... um vice-capitão.

– O que? - exclamou totalmente incrédulo.

– Por isso falei que queria questioná-lo. Este é um caso incomum. Uma pessoa com tal nível de poder espiritual, enfrentaria problemas sem um treinamento adequado. O senhor saberia me dizer, se a senhorita Shihouin já foi submetida a algum tipo de treino?

– Com toda a certeza não. Além disso, a tutora dela, a senhorita Suzumi Shihouin, me assegurou que Rukia jamais dera indícios de possuir poder espiritual antes e até se mostrou muito surpresa quando levantei essa possibilidade.

– Bem, com certeza é tudo muito atípico. De todo modo, creio que só me resta fazer uma guia de encaminhamento à Academia de Shinigamis, lá a senhorita Shihouin poderá ser instruída de modo a aprender a controlar seu poder espiritual.

Byakuya estreitou os olhos e ponderou alguns instantes.

– Sim, vice-capitã Kotetsu, me prepare este documento.

Enquanto efetuava os procedimentos cabíveis, Isane forneceu ainda alguns outros dados ao capitão da Equipe Seis. Então, cerca de meia hora depois, Byakuya seguiu para o quarto em que Rukia estava, onde permaneceu até que ela acordasse.

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A primeira coisa que Rukia viu, ao abrir seus olhos graúdos, foi o número seis, nas costas de um homem, o qual olhava pela janela daquele lugar onde estavam.

– Capitão Kuchiki? - chamou ela num tom baixo, mas ainda assim, ele voltou imediatamente o rosto em sua direção e logo se aproximou.

– Que bom que acordou. Eu já começava a me preocupar.

O tom gentil e ameno dele fez as lembranças daquela viagem que fizeram a sós retornarem à sua memória e então ela corou levemente. Tomando a cadeira que estava ao lado de seu leito, ele a olhou bem dentro dos olhos antes de perguntar:

– Como a senhorita se sente?

– Bem... eu acho. Apenas uma pequena dormência no braço - explicou apontando o curativo sob o qual estava uma agulha que injetava um coquetel de remédios em sua veia.

– Assim que essa medicação terminar, a senhorita estará de alta. Não falta muito.

Ela ficou surpresa ao ouvir aquilo, mas preferiu se manter em silêncio.

– Rukia... - novamente ela se espantou com o modo informal com que ele proferiu seu nome – Você pode ficar tranquila. Seu problema de saúde é algo perfeitamente contornável.

– É mesmo? - devolveu curiosa e muito aliviada também. – Mas do que se trata?

– Conforme eu havia suposto, foi comprovado que você possui poder espiritual. E ainda num nível realmente elevado.

– Poder espiritual? Eu? Mas como isso é possível, capitão Kuchiki?

– A causa exata ainda precisará ser investigada, porém a prioridade agora é que você receba o treinamento apropriado para controlar este poder espiritual, sanando assim os desmaios.

Sem entender muito bem o que aquilo significava, ela apenas assentiu com os olhos.

– Eu cuidarei de tudo, não tem com o que se preocupar. A vice-capitã Kotetsu já me forneceu uma guia de encaminhamento para a Academia de Shinigamis, todavia, usarei a influência da família Kuchiki para que a senhorita receba um treinamento diferenciado.

– Diferenciado? Mas por quê?

– Bem... não é necessário que a senhorita trilhe os passos dos que aspiram pela carreira de shinigami, ou seja, que treine para purificar espíritos perdidos ou hollows, afinal de contas, a senhorita é uma nobre e se... - ele fez uma breve pausa – além disso, se a senhorita aceitar meu pedido de casamento, terá a mim e todo o clã Kuchiki para protegê-la.

Ela arregalou os olhos, aquele jeito direto dele era realmente desconcertante.

– Compreendo - respondeu inevitavelmente encabulada.

– A vice-capitã está preparando também um dossiê que será enviado à senhorita Suzumi hoje ainda. Portanto, se a senhorita não tiver objeções, proponho que retornemos à mansão Shihouin amanhã bem cedo.

– Não, eu não tenho nenhuma objeção, capitão Kuchiki.

Assim acertado, ele lhe pediu licença, alegando que precisava cuidar de alguns detalhes ainda antes de partirem.

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Era mais de nove da noite. Naquela mesma sala em que Ichigo e Kisuke estiveram pela tarde, os dois estavam conversando quando Ururu entrou ali, informando que Yoruichi acabara de acordar. Sem demora, os dois seguiram ao quarto e encontraram a ex-capitã da Equipe Dois, ainda deitada, com os braços ao lado do corpo e uma expressão abatida.

– Boa noite, minha cara - Kisuke saudou num tom suave e gentil.

Reconfortada com a presença dele, ela deu um leve sorriso em resposta, mas então se pôs a fitar o alto rapaz que estava ao lado dele.

– Que bom que está bem, senhorita Yoruichi - disse amistosamente Ichigo.

Ela se espantou ao ouvir o rapaz dizer seu nome, então se sentou vagarosamente, fitando-o com atenção redobrada.

Kisuke e Ichigo se entreolharam, em face ao silêncio dela, mas, de repente, foram surpreendidos quando ela exclamou:

– Ichigo!

– Eu?! - ele devolveu de pronto, meio atordoado.

– Sim, Ichigo... Kurosaki... o shinigami substituto. Eu ajudei ele quando fomos à Soul Society... - ela parecia falar consigo mesma – tinha uns outros guris também, eu ensinei ele a usar o Bankai...

Muitíssimo atento às palavras dela, Kisuke a tocou no ombro como quem quisesse de alguma forma ajudar, mas, alheia a isso, ela tornou a se dirigir ao rapaz:

– Por que fui contigo à Soul Society?

– Como assim? - rebateu confuso. – Daquela vez fomos lá impedir que executassem a Rukia.

– Rukia? - ela repetiu com estranhamento. – Quem é essa?

– Diga, Yoruichi - o loiro interveio –, está tendo dificuldades para se lembrar das coisas?

– Não sei... na hora em que vi este moço, não o reconheci, mas agora estou me lembrando dele, só que... - ela se calou e levando à mão a cabeça, resmungou afligida por uma dor dilacerante.

– Está doendo? - perguntou Kisuke, recebendo um balançar de cabeça dela em confirmação. Com pesar, ele fez então com que ela voltasse a se deitar.

Ichigo ficou apenas olhando, sem saber o que dizer.

– Rukia não é a protegida daquela minha prima? - ela falou num tom baixo e manteve uma mão ao lado da cabeça, buscando com isso amenizar a dor que parecia fender seu cérebro.

– A Rukia tem parentesco com você? - espantou-se Ichigo.

– Não... ela foi adotada por Byakuya, não é? - devolveu confusa e o esforço que empregava para alinhar as ideias fez com que começasse a transpirar e até ofegar.

Compreendendo que ela estava à beira de outro colapso, Urahara tentou acalmá-la:

– Você não se recuperou de todo ainda, minha cara. Procure... - dizia ele, mas ela o interrompeu, se erguendo num ímpeto e exclamando a plenos pulmões:

– Alguém mexeu na minha cabeça, Kisuke! - seu timbre era desesperado. – Alguém mexeu na minha cabeça! - e apertou as vestes dele com força.

Os dois se olharam nos olhos, ela em aflição, ele em absoluta complacência.

– Eu vou resolver isso - assegurou, fechando os dedos na mão dela, num gesto encorajador.

Ela o encarava, com os olhos dourados muito vidrados, mas então suas pálpebras começaram a se fechar. Assim, Kisuke pôde apenas observar, angustiado, o corpo dela amolecer e, em seguida, tombar inerte em seus braços.

– Yoruichi! - exclamou Ichigo.

Se o rapaz não estivesse ali, talvez o ex-capitão da Equipe Doze tivesse mantido Yoruichi entre os braços um pouco mais de tempo, mas, naquela situação, ele tão somente a acomodou no futon outra vez.

– Vou pra Soul Society agora! - decidiu-se Ichigo.

Kisuke só lhe respondeu depois de alguns instantes.

– Precisamos agir com cautela. Alguém que tenha sido capaz de "mexer na cabeça dela", não é uma pessoa a quem podemos subestimar.

– Mas, Urahara, e se a Rukia também estiver em perigo? - rebateu desesperado.

– Imagino o quanto deve estar preocupado, mas insisto que espere mais um pouco, pode ser que Yoruichi esteja melhor amanhã.

Inconformado, Ichigo chegou a mover a cabeça numa negativa nervosa, mas sendo que apenas Kisuke podia abrir o portal que o levaria à Soul Society, estava de mãos atadas.

Continua...

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Será que os mistérios começam a ser desvendados ou mais dúvidas estão sendo lançadas?

Agradeço sinceramente todos os comentários! Obrigada! ^_~