Escondida no coração

Por Amanda Catarina

BLEACH e personagens pertencem a Tite Kubo.

Notas: sentenças entre aspas indicam pensamentos, classificação recomendada: 18 anos.

Capítulo 8

Após ter acendido um incenso ao lado da fotografia de Hisana, Byakuya se ajoelhou diante do altar, juntou as mãos e fez uma breve prece à alma dela. Logo em seguida, ele se retirou para seu aposento, onde permaneceu confinado até por volta do meio-dia.

Cinco dias haviam se passado desde sua conversa com Suzumi. Naquele dia, ele voltaria à mansão Shihouin, acompanhado dos anciões de sua família, para a oficialização de seu noivado com Rukia.

Ele enviara em segredo, no dia anterior, alguns presentes a sua pretendida, dentre os quais três impecáveis trajes cerimoniais e contava que ela optasse usar algum deles na ocasião. Não que duvidasse de seu bom gosto, foi apenas um modo que encontrou de assegurar que ela impressionasse os anciões de ambas as famílias inclusive com as vestes - sim, pois quanto aos bons modos e refinamento, estava convicto de que ela não falharia.

Não obstante, sentia-se nervoso, mas não por causa deste mero detalhe. Sua engendrada conquista amorosa já havia transposto momentos bem mais delicados até então, contudo, naquele momento, ele se achava inquieto, como se um mau pressentimento o afligisse.

– Amanhã, há esta hora, ela será minha noiva e, em pouco tempo, minha esposa - afirmou a si mesmo de modo a se convencer de que detinha tudo sob controle. Mas foi em vão. Suspirou fundo e resolveu deixar o confinamento.

Um tanto depois, andava vagaroso e pensativo pelo jardim. Já tinha feito uma boa caminhada, quando avistou a comitiva dos anciões chegando à mansão.

– Está na hora - disse e rumou para dentro, ciente de que logo mais estariam todos de partida.

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Deslumbrada com os presentes que o homem que estava para se tornar seu noivo havia lhe mandado, Rukia sorria contente, ao lado de sua aia e outras duas empregadas.

– Veja só que kimonos maravilhosos! - exclamou uma delas.

– Realmente, maravilhosos! - ajuntou a outra.

– Antes mesmo de serem declarados noivos, o capitão Kuchiki já lhe manda presentes assim - observou a aia. – Ele deve estar mesmo ansioso pelo casamento.

Rukia ponderou uns instantes nessa colocação.

– ...será que ele quer que eu use algum desses hoje à noite? - indagou ela.

– Certamente, senhorita Shihouin! E qualquer um destes que escolher, ficará ótimo na senhorita! - incentivou aquela primeira.

A jovem riu levemente em resposta e ficou olhando os kimonos, espalhados pelo chão de madeira, porém sua atenta contemplação das ricas estampas foi interrompida pela a voz de Suzumi.

– Rukia! - a nobre gritou num tom alarmado.

– O que foi, senhorita Suzumi? - devolveu meio espantada.

– Uma tragédia! Saiam, saiam todas! Eu tenho que falar com ela.

Assustadas, as moças saíram bem depressa.

– O que aconteceu? - perguntou Rukia de pronto.

Agitada, Suzumi se ajoelhou no chão e logo a puxou também, então fixou os olhos muito verdes nos seus em nítida aflição.

– Rukia, eu nem sei como te dizer isso...

Ela aguardou em silêncio.

– ...sabe, desde que você foi à Equipe Quatro com o capitão Kuchiki, eu já tinha um mau pressentimento. Depois, veio essa história de casamento que, a meu ver, foi muito repentina...

Rukia reparou que ela tremia muito enquanto falava.

– ...meu sexto sentido me alertava que havia algo estranho. Então, acabei colocando alguns dos meus homens para investigar o capitão Kuchiki e...

– E o que? - impacientou-se a pequena.

– Eu descobri uma coisa horrível, Rukia. Horrível! - exclamou alto, apertando-a pelos braços. – Você não pode se casar com este homem! Não pode!

– Mas por quê não?

– Porque ele é um assassino! - ela gritou, fazendo-a arregalar os olhos.

– O que?! - balbuciou fracamente, sem acreditar no que ouvia.

No mesmo tom exaltado, Suzumi lhe respondeu:

– Hisana Kuchiki não morreu vítima de uma doença incurável, ela foi morta. Por ele!

Um forte amortecimento se espalhou por todo o corpo de Rukia, roubando-lhe o calor e as forças. Ela achou que fosse desmaiar, porém seus lábios se articularam num questionamento:

– Morta?

– Sim! Morta por Byakuya Kuchiki!

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Ichigo tomou um bom gole d'água e jogou o tanto que restava no recipiente no alto da cabeça e na nuca. Era uma tarde realmente quente. Há cerca de um dia, ele viajava por uma das mais nobres regiões da Soul Society.

– Que calor desgraçado! - exclamou batendo nos cabelos.

Durante a pequena jornada, ele se encontrou com alguns de seus amigos e foi lamentável constatar que nenhum deles se lembrava dele. E, diferente do que acontecera com Yoruichi, sua presença ali não bastou para que o reconhecessem.

Na área da Equipe Treze, ele até conseguiu conversar pessoalmente com o capitão Ukitake, porém foi uma conversa desastrosa, porque ao mencionar que a Rukia que procurava teria tido um treinamento especial com o falecido Kaien Shiba, Ukitake se mostrou um tanto zangado e só não lhe tratou com aspereza por ser extremamente educado.

Saindo de lá, Ichigo encontrou Hanatarou Yamada por pura sorte - pois nem cogitava ir até a Equipe Quatro - e foi justamente de quem obteve uma importante pista. Assim como com os outros, Hanatarou não o reconheceu, porém sendo mais prestativo, lhe deu maior atenção e lhe contou que há alguns dias uma nobre Shihouin tinha estado em sua equipe, acompanhada do capitão Kuchiki. Ichigo estranhou este último detalhe, porém limitou-se a questionar se o nome dessa nobre era Rukia. Hanatarou hesitou para confirmar, mas acabou concordando que o nome fosse esse mesmo.

Sua maior desdita foi na equipe de Byakuya. Além de não conseguir audiência com ele, foi muito mal recebido por Renji. O temperamento forte dos dois entrou em atrito e ele quase foi enxotado de lá sem nem ter tido tempo de perguntar sobre Rukia. Engolindo o orgulho, tratou de se controlar e então expôs a situação. Conforme esperado, Renji negou conhecer Rukia. Ichigo custou a acreditar que ele, que tinha crescido com ela, não esboçasse a mínima reação ao ouvi-lo dizer seu nome. Mas Renji não só não se lembrava da verdadeira Rukia, como não fez o menor caso da falsa. E mesmo depois de Ichigo ter comentado sobre a história de Hanatarou, ele disse simplesmente que nada daquilo lhe dizia respeito. Com isso, Ichigo deixou de insistir, afinal mais do que convencer Renji, precisava encontrar Rukia.

Por fim, foi com o descuidado Omaeda, nos arredores da Equipe Dois, que ele conseguiu a localização da mansão de Suzumi e era para lá que seguia. Mesmo após tantos percalços e decepções, naquele dia, Ichigo se sentia bem mais esperançoso.

– Estou chegando, Rukia.

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Ela ainda se achava em estado catatônico, pálida e mortificada.

– Rukia! - Suzumi lhe chacoalhava os ombros. – Você me ouviu?

Tendo muita dificuldade em articular as palavras, ela gaguejou em defesa de Byakuya:

– Mas... ele... só cuidou de mim enquanto estive lá... - e sentiu as vistas embaçarem pelo choro contido.

– Claro! Ele fez isso para ganhar sua confiança! - e alcançando um dos kimonos ali no chão, ela acrescentou: – Vê? Ele está claramente tentando te comprar!

Ela balançou a cabeça em negação.

– Não se deixe iludir, Rukia! Não caia na sedução dele!

– Mas, senhorita Suzumi...

– Céus! Ele já deve estar a caminho! - abaixando o rosto, a nobre cerrou os punhos, apreensiva, então disse. – É isso: ele vai inventar alguma outra desculpa pra te levar, Rukia! Eu tenho certeza!

– Me levar?

– Sim! Mas eu não vou permitir. Vou tentar despistá-lo... E você tem que fugir.

A aflição que já a envolvia tal qual uma serpente, redobrou o aperto.

– Fugir?

– É, não temos tempo a perder! A qualquer minuto ele estará aqui!

– Mas, senhorita Suzumi, pra onde eu vou?

– Pra qualquer lugar! É só pelo tempo de eu reunir as provas contra ele.

Rukia assentiu meio chorosa, então Suzumi se colocou em pé e depois a puxou pelas mãos.

– Aqui, pelos fundos... - afastando-se dela, a nobre escancarou a porta de correr que conduzia ao jardim do quarto. – Fuja, Rukia! Fuja!

Angustiada e sem outra alternativa, a jovem girou nos calcanhares e rumou vacilante até àquela porta. As últimas palavras de Suzumi pareciam ressoar em sua cabeça e, assim, ao som de um ecoado "Fuja", Rukia, munida de nada além de um kimono amarelo, saiu correndo pelos fundos da mansão Shihouin.

Suzumi permaneceu na saída do cômodo, com uma mão apoiada no batente da porta, olhando na direção em que a pequena se foi, com uma expressão indecifrável.

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Os nobres do clã Kuchiki já transpareciam impaciência, pois a cerca de uma hora haviam sido anunciados e, até então, ninguém veio os receber. Mas, enfim, um serviçal dos Shihouin adentrou o salão.

– Senhor Kuchiki, a senhorita Shihouin deseja falar com o senhor em particular.

– Em particular? - estranhou ele e, após trocar um olhar de desconfiança com seu conselheiro, seguiu com o empregado.

Dentro em pouco, adentrava uma sala similar a que antes estava, mas além de Suzumi não havia ninguém ali. Ela estava ajoelhada sobre uma almofada e havia outra a sua frente.

– Pois não, senhorita Suzumi?

Ela ergueu o rosto em sua direção e ele imediatamente notou que ela exibia uma expressão tensa.

– Eu... eu... nem sei como lhe dizer isso, capitão Kuchiki... - começou num tom condizente com a aparente perturbação – ...eu não sei como explicar...

– Aconteceu alguma coisa com a senhorita Rukia? - ele se adiantou, um tanto alarmado.

– Sim...

Atônito, ele se ajoelhou, tomando o lugar à frente dela.

– Como assim? Não me esconda nada, senhorita Suzumi.

– Eu jamais pude esperar algo assim da Rukia. Ela... desistiu de se casar com o senhor.

– O quê? - exclamou, compreendendo, numa fração de segundo, o porque de sua intuição o estar incomodando desde cedo. – Explique-se, senhorita - exigiu autoritário.

– Rukia fugiu - ela anunciou num tom baixo.

– Como assim fugiu?

– ...hoje de manhã, quando eu entrei no quarto dela, não a encontrei. Procurei em todos os cantos da casa e conversei com os empregados, mas ninguém sabe dela!

– Mas como isso é possível? - o tom dele já soava exaltado.

– Eu não sei explicar... - disse aflita. – Ela... ela... tem a liberdade de sair quando bem entende, mas estava ciente de que o senhor viria hoje.

Ele ponderou alguns instantes.

– Mas se ela pode ir e vir da mansão, a senhorita pode estar se precipitando em dizer que ela fugiu. Talvez tenha acontecido de ela ter passado mal. Talvez tenha desmaiado e esteja perdida nas redondezas. Temos que começar as buscas agora mesmo - ele já se erguia, mas se deteve quando a nobre voltou a falar:

– ...mas tem um detalhe muito estranho, capitão Kuchiki...

– Qual?

– O senhor enviou alguns presentes para ela ontem, não foi?

– E o que tem isso? - devolveu um tanto ríspido.

– Bem, é que... Não, é melhor o senhor ver por si mesmo. Queira me acompanhar, por favor...

Os dois rumaram então ao quarto que pertencia a Rukia. Ao entrar, Byakuya logo reconheceu os trajes que ele próprio havia encomendado; a maioria deles estava rasgada.

– O que significa isso? - indagou abismado.

– Eu não sei, capitão Kuchiki. Ontem à noite, Rukia os mostrava a mim, sorridente, feliz... então hoje chego aqui e está tudo desse jeito e ela não está...

Ele já pensava na possibilidade de um sequestro, mas antevendo que Suzumi pudesse interpretá-lo mal se dissesse isso, buscou sondá-la um pouco mais.

– O que a faz pensar que Rukia tenha fugido?

Suzumi o olhou com uma expressão perdida e diante disso ele deduziu que nem ela própria estivesse cogitando uma invasão.

– É que... a segurança é reforçada e eu estou certa que ninguém entrou aqui. As meninas disseram que colocaram Rukia para dormir no horário de costume... Não havia mais ninguém aqui... e eu vi isso logo cedo...

Ela parecia muito nervosa, mas ele mal se importava com seu estado, já tinha a própria preocupação para lidar. Concentrou-se então para ver se conseguia captar algum rastro de poder espiritual. Deu alguns passos adiante, até chegar a soleira da porta que conduzia ao jardim.

Era ínfimo, mas parecia poder sentir algo naquela direção sim. Ele ia dar um passo à frente, mas então percebeu que Suzumi estava logo atrás dele. Virou parcialmente o rosto na direção dela, intentando perguntar algo, mas ela falou antes:

– Pode ser que ela fugiu com outro homem - o tom dela foi abafado. – Talvez não tenha se agradado do senhor...

Virou bruscamente o rosto e, por um mero instante, sua visão pareceu embaralhada. Piscou os olhos, de modo a restabelecer o foco.

– O que? - perguntou então.

– Ela é um tanto mais jovem que o senhor... talvez já estivesse apaixonada por outro alguém - de novo a voz dela lhe pareceu distante como um sussurro. – Quem ela pensa que é para recusá-lo? Mas não é tarde, capitão Kuchiki, ela não deve estar muito longe.

– ...o que a senhorita sugere que eu faça? - indagou meio incerto do que dizia.

– Não é óbvio? Capture-a!

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Desesperadamente, ela corria. Corria numa tal velocidade que nem em sonho julgava que pudesse alcançar. Sabia que estava sendo seguida, mesmo sem ter visto os perseguidores, sabia que estavam lá. A área verde era extensa e enquanto não chegasse ao povoado seria uma presa fácil, por isso precisava correr.

Um farfalhar de folhas a fez se escorar rapidamente numa árvore. Ofegava e seu peito parecia comprimido sob o peso de uma montanha, os pés machucados ardiam, pois fugira descalça. Mas apesar dessas dores todas, o medo era ainda maior.

"O que eu faço agora?" - se perguntou em aflição.

Ouviu vozes. Homens. Quantos seriam? Quatro, cinco, um bando? Rukia não sabia. E podia ser apenas um que estaria num grande apuro. Era tão difícil aceitar o fato de estar sendo perseguida, como se fosse uma criminosa. Abaixou a cabeça e as lágrimas tomaram seus olhos, sentindo-se açoitada pela desesperança. Mas isso durou só um instante. Ergueu o rosto ao alto e em seu íntimo afirmou que não podia desistir. Então, sem pensar em mais nada, voltou a correr.

– Lá está ela!

– Peguem-na!

Notou que a fala dos homens era abafada, porém não ousou olhar para trás para descobrir o porquê disso, apenas continuou correndo, correndo. Algo lhe dizia que se chegasse a cidade estaria a salvo, por isso correu com tudo que tinha. O tempo parecia se arrastar, transcorrendo em câmera lenta. Então, ela sentiu que uma mão estava a ponto de alcançá-la. Impulsionou-se aterrorizada para frente e enfim alcançou uma estrada de terra.

Mas foi tarde... Gritou de susto, ao sentir um apertão no ombro.

– Você não vai escapar - ouviu a voz abafada dizer, mas então, movida por puro instinto, ela se virou, espalmou a mão na direção do homem e aconteceu de uma luz azulada sair de sua mão e atingi-lo em cheio. Inerte ele tombou para trás, soltando-a.

Estática e confusa, ela ficou olhando o corpo caído, reparando que ele vestia um traje negro e um capuz que só deixava aparecer os olhos, mas então outros três saíram de entre as árvores. Como eles se detiveram ante o companheiro caído, igualmente confusos, ela aproveitou para fugir.

Não muito distante dali, um certo rapaz de cabelo laranja sentiu não só a manifestação de um kidou, como a emanação de um poder espiritual bem conhecido.

– Rukia! - ele exclamou e logo saiu correndo.

Continua...

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Ele vai encontrá-la! Vai encontrá-la! Estão tão contentes quanto eu? Mas viram que coisa horrível de que acusaram o Kuchiki? Eis a "revelação" da qual eu havia falado.

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Bem, agradeço muito todos os comentários, gente! Até o próximo! ^_~