Escondida no coração

Por Amanda Catarina

BLEACH e personagens pertencem a Tite Kubo.

Notas: sentenças entre aspas indicam pensamentos, classificação recomendada: 18 anos.

Capítulo 15

Diante da janela do quarto, com vista para a praia, Ichigo acompanhava a chegada do sol, num começo de dia que prometia ser quente. Atrás dele, Rukia ainda dormia, calma e tranquilamente.

Um vento repentino soprou, fazendo-o fitar, com mais afinco, a linha da junção imaginária entre céu e mar, e um calafrio percorrer sua espinha. Planejava deixar Rukia escondida ali e ir ter com Byakuya, porém começava a abandonar esse plano, pois algo dentro de si lhe dizia para não levar isso adiante.

Deu uma olhada por sobre o ombro. "Nada mal ficarmos aqui, oras.", pensou com certa malícia, mas logo riu de si mesmo.

Claro que tudo estaria perfeito se Rukia não estivesse desmemoriada. Imaginava mesmo que seria uma questão de tempo até que ela desconfiasse do passado entre eles, mas não esperava que acontecesse tão depressa; razão pela qual sentia-se pressionado a deixar de lado a paixão recém confessada e avançar para resolver aquele problema. Mas o que fazer?

Suspirando, afastou-se da janela. Veio até Rukia e sentou-se a seu lado. Contemplou-a dormindo uns instantes, então deu um beijo na testa dela, por cima da franja do cabelo.

Pelejando contra a vontade de permanecer velando seu sono tão tranquilo, ele tornou a se levantar, indo lavar o rosto e escovar os dentes. Logo depois, deixava o quarto, na intenção de preparar uma refeição para si, e também cogitando trazer algo para ela, ali na cama.

– Espero que a Yoruichi já esteja sabendo de alguma coisa.

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– Resquícios de um bakudou - constatou Byakuya, rente ao chão, em meio a um matão ao lado de uma estrada rodoviária.

– Então foi por isso que o senhor desviou pra esse lado - Renji comentou, sem desgrudar os olhos do novo rastreador, até que algo no chão chamou sua atenção. Abaixando-se, pegou o item, um tipo de capuz. – O que é isso?

Byakuya se endireitou, fitando o item, então respondeu:

– Parte de uma veste ninja.

– Ninjas? Mas não dos do clã Kuchiki, certo?

– Não. Os nossos usam vestes em tons de púrpura e roxo, vestes negras são típicas da Onmitsukidou - elucidou e logo ele próprio ficou intrigado com isso, porém não disse mais nada. Estava prestes a sumir dali, quando sentiu seu subordinado o segurar pelo braço.

– Espere, capitão! - Renji chamou num ímpeto, mas logo achava-se acuado com a expressão fechada exibida pelo outro, então cuidou de soltá-lo e foi se explicando: – Veja - exibiu a tela do rastreador –, nosso alvo não tem se afastado muito desse quadrante.

– Por isso mesmo devíamos nos apressar - retrucou, sem nem olhar o aparelho.

– Claro, mas ir chegando assim... não me parece muito sensato - após uma pequena hesitação, indagou: – Não acha que está sendo meio impulsivo, capitão? - Byakuya o fuzilou com o olhar, mas arranjando coragem, ele continuou: – É que já fomos surpreendidos antes. Não seria prudente traçarmos um plano mais eficaz dessa vez? - e para não ficar em maus lençóis, ajuntou: – Ao menos, é assim que o senhor tem me ensinado.

– O que sugere? - o capitão devolveu, objetivo.

Renji não contava ter que responder tão de pronto, mas precisou apenas de alguns instantes para se recompor e propor:

– Deixe o tal Kurosaki comigo e apenas leve a moça.

Impetuoso, Byakuya contestou friamente:

– Se você não deu conta de dois meros humanos, como espera conseguir deter aquele deliquente cheio de truques?

O ruivo rangeu os dentes com a dura reprimenda, mas contra-atacando depressa, respondeu tão friamente quanto seu líder:

– Não me subestime, capitão. E aqueles dois não eram "meros humanos". Eu apenas fui pego de surpresa, mas isso não se repetirá.

Byakuya ponderou, com um olhar impassível. Precisou reconhecer que, de fato, andava impulsivo por demais. Aquela chamada serviu para que percebesse o quanto Renji o estava ajudando. Sentiu-se até afortunado por ter alguém tão leal e esforçado quanto ele como seu vice-capitão e admitiu que, em função da avassaladora paixão pela jovem Rukia, não vinha tratando-o muito bem.

O mais moço já começava a se angustiar com o silêncio, quando o capitão falou enfim:

– Certo, faremos do seu jeito.

Satisfeito, Renji tomou a frente, por estar com o rastreador, e então seguiram usando shunpo.

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Ela se achava na varanda de um quarto amplo, olhando para um céu azul e límpido. Tinha um ar preocupado, quando percebeu, tarde demais, a aproximação de alguém. Este alguém pousou os lábios em seu pescoço, num beijinho rápido, porém carinhoso e, em seguida, a envolveu pelos braços.

– Desculpe-me fazê-la esperar.

A voz sussurrada e branda chegou agradavelmente aos ouvidos dela. Confortada pelo calor dos braços fortes, afastou as preocupações por breves instantes e apenas desfrutou da amistosa acolhida.

– Que mania você tem de se desculpar por tudo. Como se eu não soubesse como é a sua vida.

Sentiu ele estreitar mais o abraço e cheirar-lhe os cabelos.

– Fico feliz em vê-la sã e salva.

Com um riso desdenhoso, ela se desvencilhou do abraço e voltou-se a ele.

– Ha, Kisuke! Não me diga que achou que me derrubariam fácil como da outra vez?

– Evidente que não, minha cara.

Chegou a ficar indecisa se a resposta houvesse sido simplesmente irônica ou exageradamente preocupada; mas havia coisas mais urgentes para ocupar a cabeça. Afastando-se de lado, ela se sentou no chão, escorando-se à parede, e logo ele se sentou também, a sua frente, deixando os joelhos apoiados no chão.

– O que descobriu? - perguntou ansioso.

– Absolutamente nada - ela fez uma breve pausa. – A versão da história de Suzumi confere com a "inserida" na cabeça da Rukia, até nos mínimos detalhes.

– Pela sua expressão, imagino que esperava ter constatado algo diferente.

– Você realmente me lê como a um livro.

Ele lançou-lhe um sorriso lindo em resposta.

– Pois bem, foi justamente o fato de Suzumi não ter levantado qualquer suspeita que corroborou minha suspeita em relação a ela. E também já tínhamos descartado todas as outras possibilidades de um suspeito, ao menos na Soul Society.

Ele apenas a encarou, com um olhar de quem queria ouvir mais antes de se manifestar.

– Conversei com ela por horas e fiz muitas perguntas. A placidez com que ela me respondia, me deixava intrigada. A sensação que eu tinha era que ela sabia as duas versões da história e, exatamente por isso, não cometia deslizes, nem caia em contradição. Sem contar que a maneira como ela falava da Rukia era tão... emotiva, que até parecia ensaiada.

– Muito curioso. Mas você diz tudo isso com base apenas em sua intuição?

– Sim, mas lembre-se: minha intuição não costuma falhar.

– De fato e não iremos menosprezar isso. Essa sua prima sabe lutar? Ela pode ser vista como uma ameaça nesse sentido?

– Não sei dizer. Mas praticamente toda a família Shihouin conhece ou domina artes marciais e místicas. Nem todos usam isso em favor da Seireitei, mas possuem o conhecimento.

– Entendi. E se fosse para apontar alguma dessas artes, em qual você apostaria?

– Para alguém como Suzumi, coisas como encantamento ou hipnose caem como uma luva.

– Isso não. Nem Aizen com sua formidável Kyouka Suigetsu alcançou um efeito desse.

– Sim, mas e se a hipnose fosse apenas parte de algo maior? Isso teria possibilitado ao responsável usar algo mais sofisticado.

Ponderando uns instantes, o loiro meneou a cabeça.

– Faz sentido. Bem, vamos raciocinar melhor nessa hipótese. Mas antes disso, eu preciso contatar o Ichigo.

– Sim, faça isso e diga a ele que Byakuya continua por aqui. O Abarai esteve na Soul Society e pelo que eu soube, ele solicitou um rastreador de alta precisão à Equipe de Desenvolvimento.

Após um breve silêncio, Kisuke comentou:

– Estão empenhados... assim será só uma questão de tempo até que eles encontrem os dois.

– Sim, a não ser que possamos segurar o Byakuya - ela emendou, com um certo brilho no olhar.

– Como assim? - rebateu desconfiado.

– Por que não capturamos ele?

Kisuke deu um sobressalto.

– Capturá-lo? Mas pra quê?

– Para que você o examine, é claro!

– Não vejo necessidade disso. Já sabemos que nada foi injetado nas pessoas afetadas.

– Sim, mas minha intuição também me leva a crer que Byakuya seja o hipnotizado da história. E isso poderia estabelecer uma conexão com Suzumi, já que ele vinha mantendo contato com ela, por causa da Rukia.

Ele ponderou e Yoruichi notou que sua expressão não era de todo contente, porém ela julgava o plano bom.

– Se esse for o caso, minha cara, não imagino como libertá-lo disso, mas, de todo modo, aliviará as coisas para o Ichigo.

– Exato! Muito bem, eu posso capturá-lo facilmente.

– Não, não, não! - exaltou-se ele. – Deixe isso comigo.

– Qual é, Kisuke? - rebateu, risonha. – De novo me tomando por "papa-anjo"? Não fica bem em você bancar o ciumento. E também o guri do Byakuya está babando pela Rukia. Nem que eu ficasse nua na frente dele, ele não faria caso.

– Mas não convém arriscar - contestou de pronto –, em absoluto. Deixe que eu me encarrego do capitão Seis. Você, pode cuidar do jovem Abarai.

Ela virou o rosto de lado e continuou rindo; tanto pelo tom de insegurança demonstrado, como por ele nem ter contestado ser taxado de ciumento.

– OK! Você manda - concordou então e, no instante seguinte, se colocou em pé. – Até! - despediu-se e desapareceu num shunpo.

Porém, Yoruichi e Urahara não imaginavam que já fosse tarde para colocar tais medidas em prática.

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Rukia avançou depressa pelo quintal, sorrindo, contente. Ela e Ichigo voltavam de uma descontraída caminhada pela praia. Quando ele comentara que tinha um local para escondê-la, ela imaginou algo como um claustro abandonado; nunca teria pensado em uma mansão num local paradisíaco como aquele.

– Isso é um pega-pega? - ele comentou, caminhando mais atrás.

Matreira, mostrou-lhe a língua e depois voltou a andar rápido, rumo à entrada da casa, levando as sandálias na mão. Usava um vestido lilás, frente única e um chapéu branco, de abas compridas.

Quando Ichigo a alcançou, ela se virou em sua direção, esperando que ele destrancasse a porta, escorada à mesma; antes de fazer isso, ele prensou-a contra a madeira e inclinou o corpo, em busca de um beijo. Ela não lhe consentiu nada além de um selinho, então virou o rosto, rindo e se queixando de sede.

Assim que ele abriu a porta, Rukia se precipitou soleira à dentro, e foi então que se deparou com alguém no meio da sala e soltou um grito estridente. Logo atrás dela, Ichigo só teve tempo de arregalar os olhos, antes de ser acometido de uma dor lacerante nas costas.

Petrificada, Rukia observava Byakuya vindo até ela, quando escutou Ichigo balbuciar algo incompreensível. Voltou-se a ele na mesma hora. Achou-o com a boca entreaberta e os olhos arregalados; às costas dele, havia o vulto de um homem alto.

– Foge... - ele se esforçou para murmurar, então tombou de lado.

– Ichigo! - ela gritou a plenos pulmões e se esparramou no chão para ajudá-lo, mas, antes que o tocasse, foi erguida pela cintura. – Me larga! - gritou, se debatendo furiosamente, no entanto, era o mesmo que nada.

Tomando-a nos braços, o capitão shinigami passou pelo corpo caído e ensanguentado de Ichigo, e falou ao homem alto:

– Não precisa ter misericórdia, Renji.

Ela gritava desesperadamente para que o nobre fizesse alguma coisa, que não deixasse Ichigo naquele estado, mas ele a ignorou por completo. Caminhou consigo, pela trilha de pedra, deixou a propriedade e avançou só um pouco pela calçada, então soltou-a no chão.

Rukia tentou fugir, mas viu que estava paralisada. Observou o nobre vestindo uma luva vermelha, a qual ele logo pousou em sua testa e deu um leve empurrão para trás. Como resultado, seu corpo espiritual, recoberto por um kimono branco, se desprendeu da gigai. Percebendo que estava liberta da paralisia, tentou novamente escapar, porém ele a segurou pelo pulso, com muita força.

– Por quê, capitão Kuchiki? Por que ordenou aquilo? O Ichigo não é um inimigo!

– Cale-se!

Mais que autoritária a voz dele soou-lhe atordoante. Estremeceu inteira, aterrorizada.

– Não há com o que se preocupar, Rukia - a clara tentativa dele de ser um pouco mais cortês não foi das melhores; transpirava raiva e fúria. – Está segura agora.

Pois ela estava certa de nunca ter se sentido em tamanho perigo como naquele momento. Estava cativa pelo olhar intimidador dele, mas então pensou em Ichigo. Piscou, quebrando o contato, e exclamou:

– Por favor, eu lhe suplico, capitão Kuchiki, detenha aquele homem!

Estreitando os olhos, ele avançou em sua direção e a tomou nos braços novamente.

– Me larga! - ela tornou a se debater. – Eu exijo que me ponha no chão!

– Não está em condição de exigir qualquer coisa, senhorita Shihouin.

– Me solta! Me solta!

– Fique quieta. Não entendo por que está agindo assim. Parece até que está com medo de mim, que absurdo. Você é aquela que meu coração escolheu, dentre todas as beldades e nobres de nascença que tinha à disposição.

Apesar de ter falado tudo isso mais serenamente, a acidez das palavras a fez pensar que ele devia ter visto o beijo trocado há pouco e isso a deixou bem constrangida. Ainda assim, ela não hesitou em se humilhar e implorar:

– Se eu achei graça a seus olhos, meu prezado senhor, em nome disso, suplico que poupe a vida do Ichigo.

Ele franziu o cenho e abriu a boca como quem ia retrucar, mas permaneceu calado, fitando-a com estranhamento.

– Sinto como se isso já houvesse acontecido... - ele sussurrou. – Esqueça-o, Rukia - isso ele falou mais alto. – Eu sou seu destino.

Ela se angustiou com a convicção da declaração e antes que contestasse, Byakuya apertou seu rosto contra o peito. Imediatamente a escuridão tomou-lhe as vistas para, em seguida, roubar-lhe a consciência também.

Continua...