Escondida no coração

Por Amanda Catarina

BLEACH e personagens pertencem a Tite Kubo.

Notas: sentenças entre aspas indicam pensamentos, classificação recomendada: 18 anos.

Capítulo 16

Fora um ataque certeiro. Perfeito. Renji quis cortá-lo; realmente quis. Uma sorte seu lado hollow ter emanado energia suficiente para proteger o invólucro de sua alma.

– He, não deu nem pra suar - cantou vitória o vice-capitão, concedendo tempo suficiente para Ichigo desaparecer da vista dele e assumir a forma shinigami.

Sangue ainda escorria do corte, porém apenas por poucos instantes, pois a regeneração hollow acelerada entrou em ação. Muito mais que ferido, ele estava abismado com a desleal e violenta abordagem.

– Ho... é como o capitão falou: você é cheio de truques - Abarai comentou, passada sua estupefação com a surpreendente recuperação do outro.

– Por que isso, Renji? - perguntou entre dentes. – Não sou inimigo e você sabe!

– De que vale ser um "shinigami substituto" - disse com desdém -, a serviço da Soul Society, se não pode acatar as ordens dos titulares? Mas não perderei tempo listando as acusações contra você, garoto - declarou, preparando a katana. – Rosne, Zabimaru!

Moroso, Ichigo sacou Zangetsu. Como conhecia bem os ataques de Renji, julgava que seria simples evitá-los, e essa expectativa foi a razão pela qual ficou tão espantado quando se viu atingido outra vez, agora no abdômen.

"O que há? Por que ele está conseguindo me acertar? Não vai dizer que tem a ver com a perda da memória?", indagou-se em pensamento, tocando o corte transversal.

– Hum, esquivou-se antes de Zabimaru te rasgar ao meio. Mas na próxima será diferente! - exclamou com notório sadismo.

Ao mesmo tempo em que seu oponente avançava, Ichigo pensou em Rukia e no quanto ela devia estar assustada e perdida, à mercê de um Byakuya tão desmemoriado e enlouquecido quanto Renji. Esse pensamento fez um brilho prateado perpassar seus olhos amendoados. Erguendo a katana ele afirmou consigo: "Não posso continuar perdendo tempo aqui!"

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Byakuya adentrou seu espaçoso aposento, pela varanda que levava ao jardim do mesmo, e acomodou displicentemente a pequena Rukia no futon no centro do cômodo - futon este sobre o qual ele próprio costumava repousar. Usara essa rota dos fundos para não ter que se defrontar com os empregados da mansão.

Um tanto apressado, puxou a estola branca do pescoço e desatou da cintura a fita que prendia a bainha de Senbonzakura, guardando-a em seguida. Ajoelhando-se ao lado da desfalecida, expirou fundo e apertou a têmpora.

Estava sobremodo zangado, mesmo que tivesse a moça consigo, não conseguia se acalmar. Por mais que pensasse, não encontrava uma explicação para o que acontecia e nem se conformava com a ideia de Rukia ter querido trocá-lo por outro homem.

Cerrou os punhos. A lembrança, que o assombrara durante todo o trajeto até ali, daquele olhar cúmplice dos dois e do beijo, o fez socar o chão de madeira.

– Aquele miserável... eu mesmo devia ter me encarregado de decapitá-lo!

Após um tempo, olhou para Rukia. Ela estava inerte por causa do kidou atordoante e sua face carregava resquícios da aflição de quase uma hora atrás. Estendeu a mão e tocou-lhe o rosto, carinhosamente. Fitou os lábios avermelhados, fascinado, e tocou-os, bem de leve.

Uma voz parecia ecoar em sua cabeça, sussurrante e lascívia, incitando-o a possuí-la, ali mesmo - como se algo dessa alçada fosse seu direito -, em resposta, seu corpo começou a se curvar para frente, sua boca seguindo na direção da boca de Rukia.

A um milímetro do contato, ele se deteve e se afastou devagar. Uma sensação incômoda e inexplicável comprimiu seu coração. Sentiu-se horrível, como se estivesse para cometer um crime abominável. Mas expulsando esses sentimentos, tratou de raciocinar nas muitas pendências que tinha: precisava avisar Suzumi; inteirar-se das pautas das reuniões na corte; dar ordens aos empregados; aprisionar Rukia.

– Aprisioná-la? - murmurou de si para si, um tanto espantado. Tal sugestão também pareceu fruto daquela vozinha em sua mente.

"Sim, independente de ela aceitar de bom grado ou não se tornar minha esposa, não deixará mais a mansão Kuchiki.", ele se decidiu, sem se importar com quaisquer contestações.

Gastou ainda alguns instantes, contemplando o estado desfalecido de Rukia até, finalmente, encontrar ânimo para deixá-la.

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"Incrível. Se ele está atacando dentro do limite de contenção, por que seus ataques estão tão fortes? Ele evoluiu tanto assim desde aquela vez?"

Ichigo estava num impasse: usando seu poder shinigami também ficava limitado à contenção do poder espiritual dos shinigami no Mundo Real, porém se usasse seu poder hollow, além de causar desestabilidades para cidade, poderia ferir Renji além da conta, e não queria isso, mas precisava ser rápido.

– Até que você é resistente - comentou Renji –, mas se eu pudesse usar meu bankai, você já estaria morto.

Ichigo estreitou os olhos, indignado, já estava nervoso demais com o sequestro para suportar provocações. Moveu-se com velocidade muito superior a de um shunpo convencional e eis que encostou a ponta de Zangetsu na testa de Renji.

– Só pra constar - começou num tom intimidador –, se eu não estivesse me segurando, quem estaria morto aqui seria você.

Uma gotícula de sangue nasceu sob a ponta da lâmina, Renji engoliu em seco, mas, numa fração de segundo, desapareceu. Ichigo piscou desconcertado, por ter o perdido de vista e só percebeu ele a ponto de contra-atacar quando já era tarde.

Zabimaru e Zangetsu se chocaram com uma pressão impressionante, tão forte que rachou o piso da casa, na sequencia, os dois trocaram inúmeros golpes. A preocupação com o que estaria acontecendo a Rukia comprometia a concentração de Ichigo e Renji estava sabendo se aproveitar muito bem disso, galgando um e outro corte, ferindo-o a valer. Assim, Ichigo se viu sem alternativa.

Antes de partir para o golpe decisivo, ele tomou uma pequena distância e com a espada erguida, falou:

– Foi mal, Renji. Espero te fazer entender logo.

O vice-capitão demonstrou estranhamento, então um homem de kimono branco surgiu a sua frente. Numa fração de segundo, foi atingido e após sentir uma dor lacerante nas entranhas, tombou vencido.

Voltando à normalidade, e após ter fitado momentaneamente o amigo tombado, Ichigo atentou-se aos próprios danos. Definitivamente, Renji não era mais o mesmo, aquele confronto poderia ter tido um péssimo desfecho não fosse seu lado hollow. Era degradante ter que recorrer a isso, mas não havia tempo para se lamuriar. Suspirou fundo e foi atrás do celular; precisava contatar Urahara com urgência.

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Urahara estava a um passo de adentrar sua loja, quando captou a presença de Yoruichi, bem a seu lado. Sem nem cumprimentá-lo, ela foi anunciando:

– Byakuya levou a Rukia.

A primeira reação dele foi um arregalar de olhos.

– Como assim?

– Levou levando, oras. Ichigo vacilou. Eu chegava em Shonan quando senti a reiatsu do Byakuya desaparecer. Imaginei que ele havia voltado para a Soul Society e já ia seguindo atrás dele, mas então a Soifon apareceu na minha frente e me contou uma coisa muito importante.

Urahara fez um gesto para que ela se detivesse e indicou a entrada. Seguiram a uma das salas, onde a ex-líder da Equipe Dois pôde expor a situação com mais comodidade.

– Bom, a história é a seguinte: segundo a Soifon houve uma ação fora do comum de uma divisão ninja a serviço da família Shihouin. Ela não sabe ainda quem foi o mandante, mas o fato é que um grupo ninja esteve aqui no Mundo Real, na região de Shonan, ontem. Pra mim está claro que esse foi o grupo que perseguiu o Ichigo na rodovia.

– Mas Ichigo falou que eles disseram ser servos de Byakuya.

– É lógico que alguém está mentindo, meu caro.

Após ponderar cuidadosamente por um tempo, o loiro falou:

– Isso pode ser uma evidência contra sua prima.

– Exato! Eu não disse que ela estava envolvida?

Ele concordou com uma piscadela.

– OK, não devemos estar longe de desvendar esse mistério. Mas o que eu ainda não consegui conceber é: como o Ichigo permitiu que o capitão Seis levasse a pequena? Desde quando ele se tornou tão descuidado assim?

Yoruichi deu de ombros e, em seguida, se colocou de pé.

– Bom - começou ela –, eu vou pra Soul Society. Quero saber se a Soifon descobriu mais alguma coisa.

Urahara assentiu e acrescentou:

– Seja cautelosa com o que diz, Soifon também não deve se lembrar da verdadeira Rukia.

– Pode deixar.

Naquele momento, Jinta entrou na sala, com um aparelho telefônico na mão.

– O cabeça-laranja quer falar com você, chefe.

– Ah, já não era sem tempo.

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– Coma - ordenou Byakuya.

– Me recuso - Rukia respondeu, friamente.

– É impossível que não esteja faminta. Para pessoas destreinadas, a travessia dos mundos consome energia e já é tarde - ele argumentou, porém ela não esboçou nenhuma reação.

Estava assentada a sua frente, ambos a uma mesa baixa, sobre a qual uma abastada refeição jazia intocada. Seus servos tinham mudado os trajes dela, vestindo-a com um belo kimono. Ele a encarava insistentemente, com um olhar perscrutador, afiado como navalha, mas ela se mantinha impassível, tal qual uma estátua de mármore, e isso o deixava admirado e raivoso ao mesmo tempo.

– Coma - ele insistiu.

– Não.

– Duvido que prefira um coquetel de vitaminas e sais minerais, intravenoso. Não seria do meu agrado recorrer a algo extremo assim, mas não pense que irei assistir placidamente enquanto a senhorita coloca em risco sua saúde.

– Ah, eu estou certa de que não irá - devolveu sarcástica.

Byakuya virou o rosto de lado, começava a se impacientar.

– Agindo assim nem parece aquela moça tão amena que tive tanto prazer em conhecer - acusou ele.

– Pois posso dizer o mesmo em relação ao senhor - ela retrucou de pronto.

Estreitando os olhos, ultrajado, ele se esforçou bravamente para não revidar com rispidez. Claro, essa não seria a melhor maneira de reconquistar a estima e confiança dela, assim, um pesado silêncio se estendeu.

– Capitão Kuchiki - Rukia começou, hesitante –, se o senhor me assegura que os homens que têm me perseguido não estão sob suas ordens e se o senhor tem... real apresso pela minha pessoa...

– Muito mais que apresso, Rukia - entrecortou ele, num tom insinuante. – Você bem o sabe.

Enrubescida, ela continuou:

– Mas se é assim, então foi um erro aquilo que o senhor ordenou a seu oficial, em relação ao Ichigo - à menção do nome, ele franziu o cenho e ela se emendou: - digo, ao senhor Kurosaki.

– Erro nenhum. Aquele moço me deu motivos de sobra para encará-lo como uma ameaça.

– Mas se não fosse por ele eu poderia estar morta! Foi ele quem me salvou, por duas vezes!

Byakuya a encarou demoradamente, como quem considerasse. Em função do silêncio dele, Rukia insistiu ainda:

– Ele não me fez mal algum. Não há razão para taxá-lo de inimigo. Por favor, capitão Kuchiki, por tudo que lhe seja mais caro, eu imploro que interceda em favor dele.

– Não perca seu tempo. A essa altura ele já está morto - rebateu seco.

– Não - ela remexeu a cabeça em negativa – Não está! Eu sei!

– Como pode saber? - devolveu friamente.

– Eu apenas sei - disse e abaixou a cabeça, sua máscara de pedra se desfazendo, e uma lágrima furtiva refletiu a luz cálida do recinto.

Byakuya sentiu uma pontada no peito ao vê-la sofrendo daquele jeito, porem contestou:

– Senhorita Shihouin, como pode dizer que aquele sujeito não lhe fez mal algum? Acaso ele não a afastou de mim, seu noivo, sem qualquer motivo? Não a levou para lugares estranhos no Mundo Real? Não a obrigou se vestir de modo adverso a sua realidade? E quanto àquilo que presenciei...

– O senhor não é meu noivo ainda - ela o cortou, num tom baixo e muito sério.

– Pequeno detalhe que será remediado o mais rápido possível.

– E minha vontade? - retrucou altiva. – Não será levada em consideração?

Ele soltou uma muda exclamação, sem acreditar que ela estivesse cogitando desistir do casamento. Passou a encará-la ainda mais fixamente que antes e, por vários instantes, seus olhares ficaram cativos um no outro.

– Você estava bastante satisfeita antes desse tal Kurosaki vir transtornar sua cabeça e seu coração - pontuou amargo, mas tão logo disse isso, repreendeu a si mesmo: estava deixando o ciúme que o corroia transparecer por demais.

Raciocinando depressa, ele se convenceu que precisava dominar esse sentimento e retomar o controle da situação, então, perfeitamente impassível, perguntou:

– Diga-me, você já o conhecia?

Rukia deu um sobressalto e entreabriu os lábios, mas ficou indecisa quanto ao que responder.

– Claro que não - ele se adiantou. – Eu teria sabido se fosse assim.

Ela não deu resposta, compreendendo que o nobre devia ter investigado toda sua vida e também estranhando que a ideia de ele saber tudo a seu respeito não tivesse o sabor de uma descoberta.

– Mas muito bem, se a senhorita insiste tanto que ele não é um inimigo e que está em débito com ele, se ele ainda estiver vivo, eu irei retirar as acusações.

– Faria isso, capitão Kuchiki?

– Sim - confirmou com firmeza, porém mentia.

– Se fizer mesmo isso, capitão, serei eternamente grata ao senhor!

Num primeiro momento ele estranhou o tom dela que foi mais forte e firme ao que estava habituado, depois, diante de seu evidente contentamento, sentiu outra pontada no peito, afinal plantara um falso alento nela, mas logo afastou esse pensamento.

– Irei agora mesmo pedir que meu oficial reporte a situação. Por que não tenta descansar um pouco enquanto isso? talvez assim recobre seu apetite.

– Sim, senhor... - concordou, levemente corada.

Então Byakuya deixou o local. Logo ele dava ordens a um subordinado para que fosse em busca de Enri - a serva que já cuidara de Rukia na primeira estada dela na mansão Kuchiki -, e só então partiu para entrar em contato com Renji. Queria sim saber do tal Kurosaki, não para confortar a jovem, mas para ter a confirmação de que seu vice-capitão o livrara daquele infortúnio.

Rukia continuou no recinto, com um ar esperançoso, até ser conduzida de volta ao quarto, onde permaneceu aguardando por boas notícias que jamais chegariam, ao menos não dos lábios do capitão Kuchiki.

Continua...

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Está feia coisa pro lado da Rukia, não?

Fazia tempo que eu não atualizava, eu sei... está muito corrido, gente. E não tenho previsão para o próximo, mas espero que não desistam de acompanhar.

Como sempre, agradeço pelos comentários e a todos que estão acompanhando. Um mega abraço e até a próxima!