Escondida no coração
Por Amanda Catarina
BLEACH e personagens pertencem a Tite Kubo.
Classificação etária recomendada: Para maiores de 18 anos.
Capítulo 19
Os roucos suspiros que até então ressoavam no empoeirado depósito de ferramentas, por fim cessaram. Instantes depois, tudo o que se ouvia ali eram duas respirações levemente entrecortadas.
Foi então que Byakuya ergueu-se, arqueando o corpo - o qual parecia agir involuntariamente nesse momento - e, de mãos apoiadas no chão, abriu os olhos lentamente, deparando-se com uma moça abaixo de si, seminua, estirada em um kimono estampado, este todo aberto e desfeito.
Piscou, perturbado, notando os olhos lacrimosos e inexpressivos dela. Havia também marcas de dentes no pescoço, ombros, além de alguns arranhões ao longo do corpo miúdo. Nada de sumamente agressivo, mas impossível de não ser notado também.
Desconcertado, ante essa visão tétrica, ele se perguntou o que estaria acontecendo, mas ao notar que o mesmo sêmen que ainda gotejava de si, também se achava entre as pernas dela, soube a resposta. Arfou, ainda mais perturbado, então a viu endireitar o rosto, antes virado de lado. Dilatando os olhos graúdos, ela passou a encará-lo fixamente. Não soube como interpretar esse olhar; indagava-se se seria de ódio ou medo, quando ela entreabriu os lábios.
Inexplicavelmente, ele soube que algo terrível estava por vir e, nessa partícula de segundo, sentiu-se como se transportado ao inóspito Hueco Mundo, tamanha a desolação que invadiu sua alma, mas, isso não foi nada comparado ao choque que sentiu quando ela finalmente falou:
– Irmão?
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Ichigo deteve sua veloz corrida de repente e, angustiado, ergueu os olhos ao céu sem estrelas, quando um trovão rasgou a noite. Achava-se nas dependências da mansão Kuchiki, e nenhum dos vigias tinha condição de suspeitar de sua presença, tamanha era a rapidez com que se movia.
Vinha seguindo o poder espiritual de Byakuya e podia captar o poder de Rukia também, fato este que o deixava tanto intrigado quanto esperançoso. Intrigado porque, nos dias passados, sentia a emanação do poder dela muito tênue, como se o mesmo estivesse ocultado; e esperançoso porque este poderia ser um indício de que ela houvesse recuperado a memória.
Endireitando-se, ainda mais angustiado, por conta do temporal que se insinuava, ele retomou a corrida.
Ao mesmo tempo, no depósito, Byakuya, ainda arqueado sobre Rukia - a quem reconhecia plenamente agora - remexia nervosamente a cabeça, balbuciando:
– Não, não, não... - então, apesar do entorpecimento que o afligia, ele se levantou num ímpeto, segurando no cós do hakama. Cingiu-se displicentemente com a amarra do mesmo e deu alguns passos de lado, evitando olhar para Rukia, em seguida, tratou de ajeitar no corpo o kimono negro, que antes lhe escorregava pelos ombros.
Rukia, por sua vez, puxou e uniu as bandas do kimono estampado, este em pior imundice agora, e sentou-se sobre os joelhos. Também não ousava olhar para Byakuya, toda sua concentração estava em achar a fita do traje.
Tanto um como outro, raciocinava atribuladamente tentando encontrar uma explicação para o que acontecia, mas eis que volveram seus rostos à porta do local, quando esta foi violentamente arrombada: Ichigo enfim os encontrara.
– Rukia? - ele gritou, mas, em seguida, emudeceu diante do quadro.
Um desconcerto ainda maior ficou impresso no semblante de Byakuya; pensava que o shinigami substituto era a última pessoa no mundo que poderia ter aparecido ali. Em completo assombro, só pôde sustentar o olhar interrogativo dele; ao passo que Rukia ficou boquiaberta.
Percebendo de imediato os trajes desalinhados dos dois, Ichigo se esforçou para perguntar:
– O que houve aqui? - ele engoliu em seco. – O que você fez, Byakuya? - esbravejou.
Baixando a fronte, o nobre permaneceu calado, e nada precisava ser dito, a resposta era evidente.
Um silêncio mortuário reinou entre eles enquanto Ichigo, a cada instante mais transtornado, examinava meticulosamente as marcas avermelhadas pelo corpo de Rukia, até que, balançando nervosamente a cabeça, ele se voltou ao nobre:
– Seu desgraçado! - vociferou.
Byakuya permaneceu paralisado pela vergonha; vergonha essa que já atingira um nível muito além do suportável quando apenas Rukia estava ali e que, com a chegada do jovem humano, definitivamente o petrificou.
Embora se recordasse de todo o ocorrido, Rukia ainda não entendia a razão pela qual se sucedera, mas algo em seu íntimo lhe dava plena convicção de que Byakuya não poderia ter culpa alguma e, sentindo que o poder espiritual de Ichigo crescia vertiginosamente, só uma coisa cruzou seu pensamento: precisava acalmá-lo.
Dos três, Ichigo era o que mais tinha conhecimento da situação, contudo o que se achava mais transtornado; e isso se manifestou no negror de seus olhos, os quais assumiram o tom âmbar. Estava tão raivoso, furioso e possesso, que Zangetsu passou da forma shikai para bankai, sem que ele sequer fizesse a invocação.
– Vou te matar - ele soprou com voz de hollow ao nobre e avançou.
A fúria lhe conferia uma velocidade superior a qualquer shunpo, sonido ou técnica similar, de modo que num intervalo muito mais curto do que um piscar de olhos, ele estava à frente de Byakuya, com a zanpakutou erguida, disposto - realmente disposto - a decapitá-lo.
Sendo tão habilidoso também, em termos de velocidade, Byakuya acompanhou a aproximação do jovem e sabia exatamente sua posição, mas escolheu não se esquivar. Pensava que merecia a morte e até a almejava. Ouvindo o zunido do ar, causado pelo deslocamento da espada, ele balbuciou um contido "cuide dela".
Gritando ferozmente, Ichigo desferiu o ataque, porém, na eminência da fatalidade, Rukia exclamou:
– Enkosen!
De olhos vidrados, Byakuya viu a mortífera lâmina negra se chocar com um escudo de kidou. Engoliu em seco, custando a acreditar que Rukia fora capaz de conjurar uma magia daquele nível, sem nem mesmo recitar seu respectivo encantamento.
Furioso, Ichigo girou o corpo na direção da pequena. Ia xingá-la por ter interferido, mas bastou que seus olhos saltados encontrassem o semblante rijo e destemido dela, para que o ímpeto lunático que o movia fosse completamente freado.
Voltando a si, ele deu uns passos para trás. Olhou para Byakuya e, em seguida, para o próprio punho. Assustando-se com Zangetsu naquela forma, soltou-a no chão, como se a guarda estivesse em brasa. Rukia até quis se aproximar dele, alguns poucos passos os separavam, no entanto, assim como seu irmão, ficou perplexa demais com o próprio feito para se mover; certamente, agira por instinto.
Aquele bakudou, além de ter salvado Byakuya, serviu para trazê-lo de volta à normalidade também. Então, ele se lembrou de sua procedência, de seu posto, do seu relacionamento com os dois ali, enfim de quem era verdadeiramente. Estava bastante perdido ainda, mas sua mente começou a trabalhar muito depressa.
Compreendeu que, num momento de descuido, mostrou-se vulnerável a ponto de alguém conseguir manipulá-lo inteiramente, e, o mais grave, que Rukia foi quem arcou com as consequências dessa sua vulnerabilidade. Cerrando o punho, convencido de que não poderia simplesmente morrer, ele começou:
– Ichigo Kurosaki - não apenas este, mas Rukia também o olhou –, é imperdoável o que eu fiz. Por isso aceitarei de bom grado a morte por suas mãos, mas, antes, eu te suplico que espere até que eu encontre o responsável por tudo isso. Juro pelo meu orgulho que irei aniquilar esse miserável seja quem for e assim lavarei a honra de Rukia Kuchiki.
Não houve uma mínima oscilação no tom dele, falou tudo com a placidez típica, como quem estivesse muito calmo e centrado, sendo um fato o extremo oposto disso. Ichigo piscou os olhos, atônito. Não sabia o que pensar, só conseguia insistir em negar a realidade e desejar que tudo aquilo fosse um hediondo delírio.
Ao passo que os dois se olhavam, Rukia começou a ofegar, perturbada. Um trecho daquela declaração do irmão martelando em sua cabeça: àquele em que ele afirmara ser imperdoável o que tinha feito.
Que o mais velho estivesse fora de si, ficou estampado na expressão confusa com que a encarara há pouco, razão pela qual ela deduziu que estivesse hipnotizado e, portanto, não mantinha qualquer lembrança do que se passara. Porém, tendo ele classificado seu ato como imperdoável, a crua realidade de que se lembrava tanto quanto ela do ocorrido, a engolfou como uma devastadora tsunami e a vergonha a revestiu como um manto.
Sem acercar-se do abalo da irmã de consideração e aflito com o silêncio do rapaz, Byakuya insistiu, num tom de urgência:
– O que me diz, Kurosaki?
Ichigo rangeu os dentes. Parte de si entendia que o nobre também era uma vítima das circunstâncias, mas àquela confissão teve um efeito devastador nele também e fez despertar sua fúria novamente. Porém, antes que esboçasse qualquer reação, ele notou, alarmado, Rukia quedando-se ao chão.
Totalmente inconsolável, ela deu vazão a um choro profundamente sentido.
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Um pouco antes...
Sentada em um caixote, com um aparelho semelhante a um notebook nas pernas, Suzumi tinha um riso lascivo nos lábios, e isso há algum tempo. Com os olhos claros fitos na tela do monitor, saboreava satisfeita sua praticamente consumada vitória.
– Mudoh, esteja preparado. Não demora e ele vai atingir o gozo, meu feitiço será quebrado nessa hora e nesse momento você deverá apagar a história que reescrevemos para Rukia Kuchiki.
O ser chamado Mudoh, que se achava encerrado numa jaula, diante da nobre, executou o ordenado com total presteza e exatidão. Assim, dentro de poucos instantes, Suzumi escutava, pelo monitor, Rukia chamando Byakuya de irmão.
Um sorriso perverso foi se alargando na boca dela e logo ela ria sozinha, porém antes que sua risada se tornasse uma gargalhada efusiva, a porta de aço do local em que se achava foi estourada por um hadou. Levantando-se sobressaltada, ficou pálida de susto ao se defrontar com sua prima e uma das capitãs das Treze Equipes de Proteção.
– Eu sabia que se ficasse na espreita ia te pegar, Suzumi - Yoruichi falou entre dentes.
A nobre se manteve muda, apertando o aparelho contra o corpo.
– Aquela coisa é um hollow? - questionou Soifon, apontando para a jaula.
– Com toda certeza - Yoruichi se adiantou. – E essa é a peça que faltava no meu quebra-cabeças.
A capitã deu alguns passos em direção à jaula, observando o cativo: um hollow do porte de um Vasto Lorde, muito esguio, de cabelos vermelhos e uma máscara melancólica; estava com cadeias nos tornozelos, algemas nos pulsos, essas ligadas à correntes presas ao chão, além de uma coleira de ferro no pescoço. Ele fitava-as silenciosamente. Soifon o encarava com perplexidade, se perguntando como algo de tal magnitude vinha estando encoberto, até que voltou a atenção à antiga líder da sua equipe, quando esta falou:
– Eu ainda não entendi como você conseguiu tudo isso, Suzumi, mas já que temos a noite toda pela frente, é bom que comece a explicar. Talvez assim amenize sua sentença.
Um olhar hostil foi o que Suzumi lançou à sua parente, mas tinha consciência de que se encontrava em um sério apuro.
Continua...
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Enkosen = Escudo de arco. É um bakudou (magia de defesa) e seu número é 39. Foi usado por Kira Izuru no capítulo 322 do mangá.
Agradecimento especial para Sereia-Lu e Hinalle pela ajuda no capítulo 18.
Não pensem que eu não levei em conta que a maioria dos leitores (que têm comentado) votou para que o capítulo fosse diferente e que o abuso não acontecesse. É que pensando antes no quanto seria difícil pra mim narrar essa cena, eu cogitava realmente em desistir dela, mas não consegui, porque foi precisamente dela que "Escondida no coração" nasceu.
Então quero compartilhar com vocês que me emocionei bastante escrevendo estes dois capítulos e, no fim, percebi que os subseqüentes não teriam o mesmo impacto de outro modo.
Bom, desde o início, venho alertando para a censura e, usando aquela interrupção brusca no capítulo 17, pretendi prepará-los para este momento. Por isso, torço para que não tenham ficado chocados demais. Além de entretê-los, tenho a intenção de deixar algumas mensagens para reflexão com essa história também, mensagens estas que acredito perceberão no final.
Encerrando a nota... agradeço muito mesmo quem tem acompanhado, todos os comentários, o apoio e o carinho de vocês! Mais do que nunca, fiquem na paz e um abraço enorme!
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