Escondida no coração
Por Amanda Catarina
BLEACH e personagens pertencem a Tite Kubo.
Classificação etária recomendada: Para maiores de 18 anos.
Capítulo 20
Depois de um curto inspirar, Suzumi largou seu monitor sobre o caixote e, cabisbaixa, falou:
– Novamente nos encontramos, Yoruichi. Será que não se cansa de ser um transtorno à família?
Antes que a prima respondesse, a outra mulher presente ali, que era bem mais baixa e usava uma capa branca por cima de um shihakusho, se e adiantou, soprando-lhe entre dentes:
– Meça suas palavras, senhorita nobre.
Após gesticular à aliada, como quem dissesse "acalme-se", Yoruichi lhe intimou:
– Não nos faça perder tempo, Suzumi! Explique-se!
Erguendo o rosto às duas, ela retrucou, num tom bastante arrastado:
– Ora, mas por que toda essa agressividade?
– Acaso lhe parece pouco - rebateu Yoruichi - ter sido encontrada nessa região restrita, em um galpão condenado e, sobretudo, mantendo um hollow cativo?
Permaneceu em silêncio, ponderando. Apesar de ter sido pega de surpresa, não estava de todo despreparada para lidar com esse tipo de situação. Mantinha aquele hollow há muitos anos e sabia perfeitamente dos riscos que corria, que se fosse pega seria irremediavelmente condenada à morte. Tinha, portanto, duas alternativas em mente para escapar da tal circunstância. A primeira era de execução mais simples e consistia em tentar driblar o adversário, valendo-se de um tom hipnótico e então fugir. A segunda, porém, era bem mais drástica e lhe traria certas complicações, por isso buscava evitá-la.
Lendo impaciência na expressão da prima e na da mulher ao lado desta, disse qualquer coisa, apenas para ganhar mais tempo:
– Sei que deve lhe parecer estranho, Yoruichi, mas, posso garantir que se trata apenas de um... inofensivo experimento.
A afirmação foi contestada de imediato pela prima.
– Experimento? Sob ordem de quem? Porque você deve saber que experimentos com hollows são sumamente proibidos na Soul Society.
Abatida com a prontidão da resposta, devolveu, sem firmeza alguma na voz:
– Não posso dizer, é algo sigiloso.
– Se houvesse qualquer tipo de experiência sendo conduzida aqui - intrometeu-se a mulher mais baixa - nós da Onmitsukidou saberíamos. E até mesmo se estivesse relacionada com o Centro de Pesquisas e Desenvolvimento do capitão Kurotsuchi.
A menção da renomada Onmitsukidou fez o coração de Suzumi se sobressaltar. Pelo tanto que sabia da referida organização, deduziu que não seria nada fácil ludibriar aquelas duas; por certo deviam ter grande experiência com interrogatórios e investigações. E a apreensão que já a afligia aumentou ainda, ao considerar a possibilidade de vir a ser submetida a algum tipo de tortura.
– Eu sou inocente - balbuciou nervosa, ante a expressão austera da prima.
Dando alguns passos adiante, Yoruichi começou:
– Bem, eu acho meio difícil acreditar nisso, Suzumi. Estávamos a sua procura e rodeando sua mansão, encontrei alguns fragmentos de alma condensada. Só tive certeza de que se tratava disso agora que vi esse hollow, pois li a respeito de uma toxina capaz de fragmentar uma alma e que esses fragmentos eram usados para alimentar hollows.
– Então foi isso que a senhora achou naquela hora - comentou a mulher de capa, recebendo da outra um gesto em concordância.
Suzumi se inquietou ainda mais, com essa amostra da capacidade investigativa da prima.
– E isso não é tudo - prosseguiu Yoruichi. – Desconfio que você hipnotizou Byakuya Kuchiki e que modificou a memória dele e de várias outras pessoas. Ou melhor, de todas as pessoas ligadas a ele e à Rukia Kuchiki, fazendo-os acreditar que Rukia nunca fora uma shinigami.
– Como é que é? - interpôs a mais baixa. – Mas por que a irmã do capitão Kuchiki?
Na mesma hora, Yoruichi se voltou à aliada e indagou:
– Você se lembra da verdadeira Rukia agora, Soifon?
– Como assim? Fala da irmã de criação do capitão Kuchiki, certo? - a morena assentiu com a cabeça. – Mas quando foi que me esqueci dela?
– Bem, na verdade, isso não faz muita diferença agora - respondeu e voltou a encarar Suzumi, à espera das explicações. Soifon logo fez o mesmo.
Arfando, Suzumi recuou uns dois passos, preocupadíssima. Para seu infortúnio, aquelas duas estavam sabendo demais.
– Até quando vai nos fazer esperar, Suzumi? - cutucou Yoruichi.
– Ora, se você já sabe de tudo isso, então eu não preciso dizer mais nada - rebateu com petulância, recebendo um olhar muito hostil da mais baixa.
– Não, falta muita coisa ainda. Permita-me auxiliá-la, sim. Pode começar explicando como conseguiu mexer nas memórias de pessoas com as quais certamente nunca esteve.
Vidrou os olhos, sentindo-se totalmente encurralada, não achava o que dizer.
– Mas, minha senhora Yoruichi - começou a mais baixa –, mesmo que essa mulher seja uma nobre, ter sido pega em flagrante mantendo um hollow aprisionado já é razão suficiente para que seja tomada como um indivíduo perigoso.
– Onde quer chegar, Soifon? - questionou a morena.
– Vamos fazê-la falar usando um soro da verdade.
Alarmada, Suzumi remexeu a cabeça em negativa. Para ambas as tentativas de fuga que tinha em mente, não poderia estar dopada ou sedada, mas sim consciente e em plenas condições mentais.
– Isso não será necessário - falou gaguejando e, tentando dar um tom mais firme a voz, ajuntou: – Eu contarei tudo. Por favor, minha prima, rogo que honre sua palavra de que isso seja levado em conta quando meu caso for levado à corte marcial.
A morena cruzou os braços, assentindo com os olhos.
– Sim, eu hipnotizei o capitão Kuchiki. Tudo por causa de um desentendimento que tivemos. Agi cegada pelo impulso da vingança, mas estou muito arrependida do que fiz - anunciou com certa dramaticidade, buscando se fazer de vítima.
Mas ante a expressão impassível da prima, soube que falhara miseravelmente na tentativa. Muito séria, Yoruichi contestou:
– Como alguém como você conseguiu hipnotizar um capitão do nível dele?
Suzumi ofegou, seu nervosismo e apreensão aumentavam a cada instante. Custava a acreditar que estivesse passando por tudo aquilo. Sempre se gabara de sua astúcia, pois jamais alguém havia suspeitado de suas atividades ilícitas. Não conseguia parar de tremer e a ideia de que poderia realmente vir a ser executada por causa de Byakuya Kuchiki, fez seu ódio por ele crescer ainda mais. Brandiu os punhos, amaldiçoando o dia em que o encontrou. Sim, desde que seus caminhos se cruzaram, só obteve desgosto e agora se via à beira da ruína.
– Isso é perda de tempo, minha senhora Yoruichi. Ela não vai falar.
Suzumi permaneceu em silêncio, com um ar perdido.
– Acho que tem razão, Soifon.
Este comentário da prima, somado àqueles pensamentos revoltosos, deixaram Suzumi ainda mais acuada, mas logo todo seu medo começou a se converter em puro ódio. Fremindo, ela soprou entre dentes então:
– Pois está muito enganada se acha que uma mulher como eu não seria capaz de hipnotizar um homem da alçada dele - havia muito desdém no tom dela.
Alheia à fúria que nela crescia, a mais baixa se impacientou e, num tom alto, exigiu:
– Diga o que fez de uma vez!
Ultrajada com a ousadia daquela mulher, Suzumi explodiu então:
– Sim, eu hipnotizei aquele desgraçado!
Ambas se sobressaltaram com a confissão, mas logo Yoruichi retrucou:
– Como? E por que?
– Para fazê-lo sofrer! - vociferou ela. – Para que ele sentisse na pele a dor de uma rejeição!
– O que isso tem a ver, raios? - devolveu Yoruichi, em tom exaltado também. – E esse hollow? Onde ele se encaixa nisso?
Muito perturbada, talvez até perto de um acesso de loucura, Suzumi acabou revelando todo o ardil:
– Onde o hollow se encaixa? - seu tom era debochado. – Eu explico. Graças a ele tudo ficou muito mais melodramático! Minha hipnose serviu para manipular os irmãozinhos, conforme meu propósito, mas o grande show ficou por conta desse meu hollow - deu as costas às duas e fitando a jaula, falou num tom mais contido: – Este hollow pode alterar a história da vida de uma pessoa. E eu usei esse poder para mudar a história da vida de Rukia Kuchiki.
Um silêncio profundo se estendeu por um bom tempo, até que Yoruichi tornou a cobrar:
– Por que, Suzumi? Por que todo esse circo? Eu ainda não entendo!
Voltando-se a ela, devagar, a nobre encarou a prima, seu semblante parecia até desfigurado, então respondeu:
– Tendo alterado a história dos dois, armei para que se envolvessem afetivamente. E quando estavam prestes a se tornarem noivos, eu difamei a imagem de Byakuya para Rukia e a hipnotizei para que passasse a sentir aversão dele. Depois, hipnotizei ele para que ficasse obcecado por ela.
O assombro das duas era proporcional à baixeza das confissões, e a nobre continuou:
– Nunca imaginei que ela fosse fugir pro Mundo Real. Isso foi um contratempo, mas no fim, deu tudo certo.
– O que? O que deu certo? - exclamou Yoruichi.
O tom evidentemente preocupado da prima, fez Suzumi rememorar o sabor de sua vitória e, muito perversamente, ela fez questão de contar o que havia presenciado há pouco.
– Ele acabou de estuprar a idiota da irmãzinha - ela transpirava sadismo –, e com isso a carreia de que tanto se orgulha com toda certeza será arruinada. Posso apostar que ele acabará se suicidando.
Soifon levou a mão à boca, em choque, e o corpo de Yoruichi até deu um solavanco pelo susto que a revelação lhe causou.
– Mas a troco de que tudo isso? O que ele lhe fez afinal? - exasperou-se Yoruichi.
Estreitando os olhos, Suzumi respondeu, num tom contido, solene e muito frio:
– Ele me submeteu a maior humilhação que uma mulher pode passar. Por ter me rejeitado, recusando-se a me desposar, Byakuya Kuchiki mereceu tudo isso.
Diante do nítido assombro impresso nas expressões das duas e tendo extravasado todo seu ódio ao expressar tudo aquilo, Suzumi sentiu o coração se acalmando, tal qual o mar depois de uma terrível tempestade.
– Você é louca - sentenciou Soifon.
Ela franziu o cenho, porém nada disse. O natural seria que estivesse apreensiva quanto a seu futuro - afinal confessara seus atos criminosos a duas mulheres que certamente não podia enfrentar - no entanto, este não era seu estado, pois se decidira quanto ao que fazer então.
Entreabriu os lábios, mas antes que dissesse qualquer coisa, viu a mulher de capa espalmar a mão em sua direção. Deduzindo que ela intentava disparar um kidou, ameaçou-a com extrema altivez:
– Se não quiser por em risco também a sua carreira de shinigami, é melhor abaixar esse braço, garota. Você não vai me querer como sua inimiga, não se esqueça que eu sou uma Shihouin.
Suzumi nunca saberia que fora o último trecho de sua ameaça que fez Soifon se deter de fato. Ajeitando então uma mecha do cabelo atrás da orelha e retesando a postura, ela falou:
– Eu não sei como você conseguiu não ser afetada pelo poder do meu monstrinho, Yoruichi. Não entendo o que deu errado, mas uma coisa posso garantir: não vai acontecer de novo.
A antiga e a atual líder da Equipe Dois, nada entenderam, e eis que Suzumi decretou:
– Mudoh, reescreva a minha história, agora. Você sabe como deve fazer.
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Ele observou em silêncio o rapaz se achegar à sua irmã e a envolver pelos ombros, abraçando-a. O corpo pequeno de Rukia estava agitado pelo choro e Ichigo também chorava amargamente. Angustiado, notou Rukia apertando o shihakusho do rapaz, enquanto ele comprimia a cabeça dela contra o peito.
Reunindo o que lhe restava de forças, Byakuya colocou todo seu ser no firme propósito de não permitir que nem mesmo uma única lágrima escorresse por seu rosto, marcado pela vergonha e pela dor - ele não se julgava no direito desse refrigério.
– Leve-a daqui, por favor - ele pediu ao rapaz.
No instante seguinte, os dois já não estavam lá.
Sozinho então, ele cerrou os punhos e os bateu contra a parede próxima. A aflição que o assolava era similar a estar esmagado sob o peso de uma montanha. Pensamentos, imagens, previsões nefastas, deduções precipitadas, tudo isso se revolvia convulsivamente em sua cabeça, levando-o ao limite da sanidade e da exaustão.
Sabia que precisava sair dali e enfrentar as consequências de sua fraqueza, mas a mera ideia de encarar os empregados da mansão já o deixava a ponto de desvanecer. O que seria então se defrontar com os anciões do clã, com seu avô, com os subalternos ou com os outros capitães? Pensava que uma mancha inexpugnável havia sido impressa a fogo em seu peito e que qualquer um, simplesmente de olhá-lo, poderia enxergar seu pecado.
Tal aflição já o atormentava de modo atroz, quando ele ainda se lembrou de Hisana. O nó em sua garganta então quase o asfixiou de vez. Sem mal conseguir respirar, rijo como pedra e com os olhos muito vidrados, titubeou por um instante, resgatando aquele pensamento de que a morte era sua única saída.
Mas não. Chorar, morrer, nada disso lhe era permitido. Eis a conclusão que chegou quando o juramento que fizera a pouco ecoou em seu íntimo. Sim, só isso e por isso teria que continuar vivendo. Lembrar de Hisana fez seus olhos aderem demais, como se em brasas, porém mesmo assim, se obrigou a não ceder ao pranto, ainda que ninguém mais estivesse ali.
– Não importa se eu nunca mais puder erguer minha cabeça... - falou de si para si, num fio de voz – basta que a honra de nossa Rukia seja lavada, só isso basta... Que eu tenha forças para conseguir ao menos isso.
Tendo assim rogado a si mesmo, ele se dirigiu à saída do casebre, convicto de que estaria completamente sozinho nessa horrível senda que o destino o forçava a trilhar.
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Puxando uma corrente comprida, perfazendo o mesmo percurso que Rukia fizera há alguns dias, por entre o arvoredo da mata que separava sua mansão do vilarejo próximo, Suzumi seguia, com Mudoh sob uma capa, a qual camuflava a presença e o poder espiritual dele.
Ela trazia uma expressão apreensiva no rosto e, a despeito do relevo acidentado, dos galhos caídos e pedregulhos, caminhava realmente muito depressa. Estava confusa e perdida, mas tinha uma ligeira ideia do que devia ter acontecido.
– Não sei como aquelas duas shinigami acharam aquele lugar. E essa desorientação que estou sentindo só pode significar que devo ter mandado você usar seu poder em mim.
– Eu só segui suas ordens, mestra... - lamuriou o hollow sob a capa.
– Eu sei seu imbecil! - vociferou ela e empurrou grosseiramente o acorrentado contra uma árvore. – Por acaso eu te dei permissão pra falar, heim?
Trêmulo, o hollow em sua cega devoção, não ousou encará-la.
Depois de dar um safanão na cabeça dele, Suzumi se pôs a pensar no ocorrido.
– Uma delas usava capa e tive a impressão de já conhecer a outra - meditava, enquanto repuxava a corrente. – Aqueles olhos dourados não me eram estranhos...
Desistindo de continuar tentando entender, ela retomou as passadas, arrastando o hollow consigo.
– Isso não importa agora. Mesmo que o efeito da hipnose passe, aquelas duas não terão como saber o que faziam lá e muito menos como suspeitar de mim. Claro, nem devem se lembrar de mim. Com toda certeza eu já devia ter tudo isso planejado.
Apertou mais o passo.
– Sim, quando eu chegar em casa entenderei tudo.
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Cerca de uma hora depois...
Já era madrugada, mas Kisuke não conseguia pregar os olhos. Estava em seu quarto, cabisbaixo e ajoelhado num futon, quando sentiu o poder espiritual de Yoruichi. Ergueu bruscamente a cabeça, ao mesmo tempo em que ela, na forma de gato, saltava da janela para o meio do quarto.
– Já voltou? - exclamou, bem surpreso com a repentina chegada.
Erguendo a cabeçinha em sua direção, o gato preto fitou-o, porém não disse nada.
– O que descobriu? - ele perguntou, totalmente ansioso.
– Como assim?
– Encontrou a Suzumi? O Ichigo, a Rukia? O que aconteceu, oras?
– Suzumi? - devolveu com estranhamento o bichano. – Qual Suzumi?
O loiro vidrou os olhos, sua mente sagaz precisou de poucos segundos para apreender o significado daquelas inoportunas indagações.
Socando o chão de madeira, ele praguejou:
– Mas que droga!
Continua...
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Mais de dois meses sem atualizar, caramba! E no dia 17 de janeiro *Escondida no coração* completou 1 ano desde sua primeira postagem! Bom, cabe aqui uma breve justificativa. A razão desse grande atraso, não é que eu desisti da fic (não, de modo algum!), foi a correria do final de ano e os outros projetos que tenho em paralelo. E também esse foi um capítulo de revelações e por isso exigiu um pouco mais de mim.
Então àqueles que ainda estiverem com pique de continuar acompanhando, digo que talvez as postagens continuem espaçadas, porque esse ano vou voltar a estudar, mas garanto que vou concluir a fic!
Bem... qualquer semelhança da Suzumi com o Light Yagami (Death Note) foi mera coincidência. Agora, as semelhanças com o movie *Fade to Black* não foram meras coincidências. Enfim, espero que tenham gostado desse capítulo em que nossa despeitada antagonista foi desmascarada, mas conseguiu se safar! Aguardo comentários, por favor ^_~
Grande abraço e um bom começo de ano a todos!
