Escondida no coração
Por Amanda Catarina
BLEACH e personagens pertencem a Tite Kubo.
Classificação etária recomendada: Para maiores de 18 anos.
Capítulo 21
Carregando Rukia aninhada em seu peito, Ichigo saltava pelas construções da imponente Seireitei. Seguia sem rumo, sob o aleatório brilho dos trovões que iluminavam a noite momentaneamente. Rukia se mantinha muito quieta e ele não achava coragem de lhe dizer ou perguntar qualquer coisa. Contudo, precisava decidir seu destino, e logo, pois, a qualquer instante, a chuva poderia despencar. Eis então que ele pensou na capitã Unohana e rapidamente se convenceu de que ela poderia acolhê-los e, certamente, saberia como ajudá-los. Sentindo-se mais animado, acelerou o ritmo dos saltos.
Chegando aos arredores da Equipe Quatro, julgava que Rukia estivesse adormecida, porém ela o surpreendeu, ao levantar o rosto a ele e dizer:
– Não precisava ter me trazido aqui... eu me curei usando kidou.
Ele achou a voz dela rouca, apesar de já trazer o timbre sério de sempre.
– Tudo bem - respondeu, após uns instantes. – Mas, de todo modo, precisamos de um lugar para passar a noite. Seria bom se você conseguisse dormir um pouco.
Apesar de não ter contestado, ela não se declarou satisfeita também. Tendo-a ainda nos braços, ele adentrou a sede. Conforme imaginara, foi recebido com certo espanto, devido ao horário avançado, mas amistosamente também, tanto pelos oficiais de baixa patente, como pela vice-capitã Isane e o amigo Hanatarou. Constatou com isso que, fosse o que fosse aquilo que havia feito todos se esquecerem dele, definitivamente, havia sido anulado.
Pouco depois, a própria Unohana examinava Rukia. Nesse ínterim, embora Unohana tenha tentado sondar a jovem nobre para saber o que teria acontecido - pois sendo tão perspicaz, deduzira que algo no mínimo sério devia ter acontecido -, não foi capaz de arrancar mais que monossílabos dela. Ichigo também se manteve bem quieto a maior parte do tempo; o pouco que ele falou foi para pedir que a médica aplicasse um sedativo na amiga.
Assim, só coube à capitã respeitar o desejo de ambos de não revelarem nada naquele momento. Então, ela acomodou Rukia num quarto isolado e disse que mandaria um serviçal trazer uma refeição a Ichigo. Ele recusou, dizendo que não se incomodasse, mas como ela insistiu, concordou sob a condição de poder permanecer ao lado de Rukia pelo resto da noite; Unohana consentiu sem ressalvas.
Por certo, nem o mais poderoso dos sedativos o teria derrubado, porque o temor que algo ruim tornasse a acontecer com Rukia, o deixou em estado de alerta pela noite inteira.
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Ela abriu os olhos, deparando-se com um teto estranho. Reparou que o ambiente não estava muito escuro, apesar das luzes apagadas. Virou o rosto para o lado, encontrando a silhueta de alguém defronte da janela entreaberta do recinto, silhueta essa recortada por um brilho pálido; provavelmente o brilho da alvorada. Estava ciente de quem era, porém os últimos eventos lhe escapuliram da mente. Continuou a olhar para aquele lado, enquanto as lembranças tomavam lugar em sua memória, mas antes que atingisse o pleno entendimento da situação, a pessoa se virou em sua direção e, ao vê-la desperta, comentou com surpresa:
– Já acordou?
Ouvindo a voz sempre tão agradável dele, Rukia voltou à realidade, reconhecendo então o lugar e o porquê de estar ali. Entreabriu os lábios, mas antes que dissesse algo, Ichigo ocupou a cadeira deixada ao lado de seu leito, e falou:
– Logo vai amanhecer. Espero que esteja se sentindo melhor.
O tom dele, notoriamente preocupado, a deixou tensa e uma tremenda vontade de chorar a invadiu. Seus olhos arderam como se em fogo e um nó lhe apertou a garganta. Num ímpeto, virou a cabeça de lado e cerrou as pálpebras, mas logo se assustou ao sentir um toque de Ichigo em seu ombro.
– Rukia...
Ele não disse nada além, mas a angustia em sua voz, reforçou a evidência do quanto devia estar preocupado. Envergonhada de si mesma, se voltou a ele, lentamente. Encararam-se, lendo sofreguidão um nos olhos do outro. Por fim, Rukia se ergueu do leito, buscando os braços dele, os quais, em perfeita sincronia, se abriram para recebê-la.
– Por que, Ichigo? - murmurou, esforçando-se para não cair no pranto.
Ele moveu a cabeça numa negativa e, depois de uns instantes, respondeu serenamente:
– O motivo eu não sei, mas sei que vou atrás do culpado nem que seja no inferno.
– ...e meu irmão? - a voz dela ainda era baixa. – Como ele vai conseguir lidar...
– Não pensa nisso agora - ele a cortou, mansamente.
Exaltando-se, Rukia bradou em resposta:
– Como não vou pensar? - desvencilhou-se do enlace, para fitá-lo nos olhos, e emendou: – Não vê que me usaram pra atingir ele? Será que não entende que eu não passo de uma fraca?
– Deixa disso - ele pediu, na mesma mansidão.
Indiferente, ela cerrou um dos punhos e prosseguiu, com voz rancorosa:
– Uma fraca! Um fardo, uma imprestável...
Ichigo tomou-lhe o punho cerrado, abriu-o e depois apertou levemente sua mão entre os dedos. Ainda assim, ela continuou, na mesma revolta:
– Foi tudo minha culpa, Ichigo. Minha culpa... - a voz voltou a abaixar.
– Pára... - ele insistia.
– O meu irmão... - pestanejou – não merecia uma coisa dessas...
Foi então que Ichigo deu-lhe uns chacoalhões pelos ombros e esbravejou:
– Pára! Não fica se culpando desse jeito! Um monte de coisa estranha tem acontecido por aqui. A gente tem que investigar isso e achar o culpado!
Alarmado, talvez, com a própria explosão, ele soltou os ombros dela, um tanto sem jeito. Rukia o encarou, atônita e boquiaberta, e, um pouco depois, respondeu:
– Tem razão...
Apesar de ter lhe sorrido em sinal de concordância, Ichigo se afastou, voltando para perto da janela. Algum tempo se passou. Rukia tentava conter a torrente de pensamentos que a açoitava, mas então algo se sobressaiu a todo o resto, como uma fagulha de luz em meio às trevas. Fitou novamente as costas do ruivo e, aparentemente, sem qualquer razão, enrubesceu.
– Ichigo? - chamou, mas ele só resmungou em resposta e não se virou. – Foi um sonho - ela prosseguiu, hesitante - ou estivemos juntos no Mundo Real, naquela casa?
Tendo os olhos fixos nele, o viu estremecer inteiro com a pergunta e, em função disso, seu rubor aumentou. Pouco depois, ele respondeu:
– Não foi um sonho... ao menos, não literalmente. Mas, pra mim, essa parece ser uma boa maneira de definir aquela noite.
Rukia levou à mão aos lábios com a surpresa. Ficou realmente desconcertada, não esperava por tal resposta, muito embora, em outros tempos, tivesse sido algo que teria adorado ouvir.
Ichigo continuou:
– ...mas, se for ver bem, eu também me perdi na situação, igual seu irmão, me aproveitei da circunstância...
Ela não gostou nada do raciocínio, sobretudo, quando as lembranças da noite em questão começaram a passar em sua mente como um filme; cada carícia, cada toque, cada beijo... Após um leve suspirar, emocionada, ela retrucou:
– Então você também gostava de mim, seu bobo? - e escondeu o rosto na palma da mão. – Por que não falou antes?
Estando com o rosto abaixado, ela não pode ver ele se voltando em sua direção, lívido de espanto, mas com um pequeno sorriso de satisfação também. Mais que depressa, ele veio para junto dela novamente e, dessa vez, não se assentou na cadeira, mas a seu lado no leito.
Olharam-se fixamente.
– Por que não falei antes? E em que momento eu poderia ter dito? Quando a confusão não era aqui, era em Karakura. Sem contar que - ele hesitou um momento - eu também tinha medo da sua reação.
Surpresa e um pouco desconcertada com a proximidade, ela desviou o olhar, virando a cabeça de lado. Mas não ficou muito tempo assim, pois passou a fitá-lo, com os olhos muito vidrados, quando ele acrescentou:
– Quem mais poderia ser a dona do meu coração, senão você? Rukia...
A ternura, a placidez e, principalmente, a simplicidade daquelas palavras, deixaram-na ainda mais emocionada. Num gesto mutuo, eles se abraçaram fortemente. Pelo tempo desse abraço, Rukia deixou de lado tudo que lhe afligia, para desfrutar da sensação de abrigo e paz que os braços de Ichigo lhe transmitiam.
– Estou contigo - ele falou, com a determinação que ela conhecia tão bem, capaz de mudar a realidade. – Sempre. Sempre. Vai ficar tudo bem.
Abraçando-o com mais força ainda, ela implorou:
– Esteja mesmo comigo, Ichigo. E me ajude. Por favor!
– Isso nem precisava pedir, sua boba...
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Horas atrás.
A desordem no espaçoso aposento era completa: papéis, livros e objetos espalhados pelo chão, além de cobertores e mudas de roupas. Em pé, no meio do cômodo, cabisbaixa e de punho cerrado, Suzumi tentava obstinadamente pensar em algum outro lugar para vasculhar.
De repente, ela ergueu o rosto e fitou um ponto acima do espelho redondo de sua penteadeira. Aproximou-se hesitante, com a mão estendida, e eis que seus dedos desvendaram uma pequena abertura, esmeradamente camuflada. Um singelo sorriso desabrochou em seus lábios rosados, enquanto sua mão adentrava a cavidade para, logo em seguida, alcançar o tão procurado item.
Tirou dali, então, uma caderneta. Após um expirar de alívio, apertando a caderneta junto ao peito, tornou ao centro do quarto e sentou-se sobre as pernas. Abriu as páginas e, por algum tempo, apenas contemplou as linhas verticais de uma caligrafia perfeita - a sua caligrafia. Logo, lia o conteúdo com a mesma voracidade de um faminto diante de um banquete.
Com uma surpreendente riqueza de detalhes, ela havia relatado, naquele pequeno caderno, toda a trajetória de eventos pelos quais passara no último mês. Assim, soube que, há algumas semanas, havia encontrado um homem num evento da elite nobre; o herdeiro do clã Kuchiki e capitão de uma das Equipes de Proteção dos Shinigami: Byakuya Kuchiki. Propôs-lhe matrimônio, mas ele a rejeitou. Buscou se vingar, usando seu escravo hollow para reescrever a história de um ente querido de Byakuya - a irmã de criação dele, Rukia. A história reescrita para essa jovem ditava que ela não seria mais irmã do capitão e sim uma agregada dela própria. Armou para que os dois se encontrassem e os induziu a um envolvimento amoroso. Hipnotizou Byakuya para que cobiçasse a jovem desenfreadamente e depois hipnotizou a jovem também, para que sentisse repulsa dele. A trama culminaria com a tal Rukia sendo violentada pelo nobre; essa iria ser a condição para que as hipnoses fossem desfeitas e, também, a partir desse evento, tudo deveria voltar à normalidade, com os dois se lembrando de seu real parentesco.
Por ter ordenado a seu hollow que reescrevesse sua história, naquele momento, Suzumi não tinha qualquer lembrança de tudo aquilo, mas, mesmo após tamanha descoberta, ela pouco se espantou. O fato era que, ainda que estivessem relatados ali os mais vis e abjetos crimes, nada disso lhe espantaria; ela se conhecia. Ademais, não era a primeira vez que recorria ao poder de seu escravo hollow. Entrementes, o que realmente queria saber - e, evidentemente, estaria escrito ali - era os detalhes da história reescrita para si mesma.
Avançando mais um pouco, encontrou o que buscava.
Tendo terminado a leitura, pousou lentamente a caderneta à sua frente no chão e ficou a mirá-la com olhos arregalados. Estava absolutamente admirada, ou melhor, maravilhada, com a própria maquinação.
– Mas é claro - começou com um ar pertinaz –, agora tudo faz sentido. Para me livrar de suspeitas, bastaria eu ter escolhido nunca ter conhecido o miserável do Byakuya. Mas, se tivesse feito isso, ia ser como se o abuso nunca tivesse acontecido, já que nenhum deles iria se lembrar, e todo o propósito do meu plano ficaria fadado ao esquecimento.
Endireitando a postura, ela sorriu consigo mesma, gabando-se em pensamento de sua astúcia. Deveras tinha razão de se gabar, pois até um formidável detetive teria tido trabalho para compreender seu sinuoso ardil.
De antemão, havia elaborado o roteiro de sua nova história, caso precisasse recorrer a essa medida tão extrema. Essa história então, entre outros detalhes, ditava que tudo aquilo que ela tivesse causado a Byakuya deveria ser transferido a outrem, de modo que sua identidade fosse removida do cenário, mas a trama toda se mantivesse intacta, apenas com outra pessoa protagonizando seu papel. E mais, essa pessoa não seria um bode expiatório, em quem a culpa recairia e em quem os afetados poderiam se vingar, mas deveria ser uma falsa existência.
Portanto, no instante em que Mudoh reescreveu sua história, sua face, na mente de cada um dos envolvidos, foi trocada pela de outra mulher, cujo aspecto em nada remetia ao seu. Um rosto imaginário que só iria existir na cabeça das pessoas que interagiram com ela naquele período de quase um mês. Ao cabo de tudo, o preço que precisou pagar - a perda das próprias memórias - foi relativamente baixo em vista do fato de estar então totalmente desligada da trama e, consequentemente, fora de qualquer suspeita.
Com um riso largo, decretou vitoriosa:
– Simplesmente magnífico. Digno de mim.
Então começou a rir, a princípio contida, mas logo gargalhava eufórica e só se recompôs quando mais um detalhe relampejou em seu pensar.
– E o melhor - pontuou a si mesma –, Byakuya jamais poderá encontrar alguém que não existe. Só lhe caberá viver assombrado por esse fantasma pelo resto de seus dias!
Pegando a caderneta, ela se colocou de pé. Aproximando-se novamente da penteadeira, tornou a guardar a caderneta na cavidade secreta. Depois ajeitou as mangas do quimono - o mesmo com o qual fugira do armazém - e rumou à porta que dava para o jardim adjunto ao quarto, onde ficou postada, observando um vulto largado no meio do gramado.
– Muito bem, preciso encontrar um novo cativeiro pra esse meu bichinho. Pelos próximos dias, não seria nada sensato correr o risco de me pegarem com ele. Ficar uns seis meses sem comida não vai matá-lo.
Sorridente e em uma genuína leveza de espírito, ela continuou olhando Mudoh, encoberto pela capa que ocultava sua presença e sob a forte chuva.
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Ao mesmo tempo, no mundo real...
Yoruichi despertou num susto, deparando-se com o rosto de Urahara a menos de um palmo de distância do seu.
– Como se sente? - ele quis saber.
– Péssima! - esbravejou, notando que se achava estirada numa mesa cirúrgica, munida de uma veste similar a um avental hospitalar. – O que se passa?
Rindo levemente da resposta dela, o loiro alcançou uma seringa, numa mesa metálica ao lado, e respondeu:
– Precisei me certificar de que não tivesse sido dopada ou coisa do tipo.
– E? - retrucou de pronto, sentando-se rapidamente e de modo a escapar da eminente picada.
– Felizmente não. Contudo, não precisei examinar muito a fundo para constatar que está sob efeito de uma hipnose - ele esclareceu e tomou seu braço, querendo prosseguir com a aplicação da injeção.
Esquivando-se, ela reclamou:
– Eu? Hipnotizada? Sem essa, Kisuke!
– Pois pode acreditar. Mas, não se preocupe, é fácil reverter isso. E já irei fazê-lo, se, por favor, parar de se mexer, sim.
Antes que tivesse tempo de fazer mais perguntas, ele aplicou a doída injeção em seu braço. Então, em questão de segundos, ela sentiu as vistas nublarem e logo perdeu os sentidos.
Urahara a aparou delicadamente e a deitou ali outra vez.
– Muito bem, minha cara, amanhã estará plenamente restabelecida e então iremos desvendar esse caso custe o que custar.
Continua...
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Suzumi para Byakuya: Não contava com minha astúcia!
Urahara para Suzumi: Idem.
Piadinhas à parte, é... pessoal, demorou quase 2 meses de novo. Mas, não desistam de acompanhar, porque eu não vou desistir de terminar essa fic, e ainda esse ano! ^_^
Agradeço a todos que tem acompanhado e os lindos comentários. Valeu mesmo, pessoal! Até a próxima!
