Escondida no coração

Por Amanda Catarina

BLEACH e personagens pertencem a Tite Kubo.

Capítulo 26

Pouco depois de Yoruichi e Soifon levarem Suzumi cativa e de Byakuya ter deixado a mansão, Rukia continuava sentada em um dos degraus da entrada, quando seus companheiros de equipe Kiyone Kotetsu e Sentarou Kotsubaki chegaram ali a sua procura, por ordem do capitão Ukitake. Ichigo temia que ela não fosse reagir, mas, contrariando essa expectativa dele, Rukia se levantou e disse aos dois que deveriam voltar à sede da Equipe Treze o quanto antes, pois ela tinha algo importante para relatar a seu capitão. O jovem ficou surpreso e até admirado com a firmeza que sentiu nela.

Seguiram todos então, porém Kiyone e Sentarou acompanharam os dois apenas até a entrada da residência de Juushirou e depois os deixaram, retornando cada qual ao seu respectivo posto. Face a face com seu capitão, e com Ichigo ao seu lado, Rukia contou sobre a investigação que Yoruichi coordenara contra Suzumi; ao passo que ela falava, Ichigo acrescentava um ou outro dado que julgava relevante. Mesmo já estando minimamente inteirado do assunto pela própria Yoruichi, somente após ter escutado atenciosamente os dois, Juushirou se pronunciou, dizendo:

– Bem, as provas contra essa mulher são irrefutáveis, por isso acredito que ela deverá ser julgada muito em breve. Na verdade, não estranharei se os capitães forem convocados para uma reunião extraordinária hoje ainda.

– Entendo... - rebateu a Kuchiki.

– Pode ter certeza que a justiça será feita, Rukia - assegurou o capitão.

Ela assentiu com um gesto e o silêncio pairou na sala por alguns instantes.

Ichigo não pôde deixar de reparar no olhar piedoso e preocupado que Juushirou lançava à Rukia e sentiu-se reconfortado com isso, pois embora soubesse que tinham valiosos amigos com quem contar, a aura fraterna e protetora que de Juushirou emanava era incomparavelmente acalentadora - um curioso paradoxo em face à fragilidade da saúde dele; o gentil veterano entre os capitães mais parecia carecer de proteção do que ser capaz de fornecê-la.

– Você parece muito abatida, Rukia. Tente descansar um pouco, sim. Surgindo qualquer novidade, irei lhe informar na mesma hora.

– Sim, capitão, irei descansar. E sou-lhe imensamente grata por tudo.

– Jovem Ichigo, você sabe onde fica a casa de hóspedes aqui da nossa sede, não é?

– Sei sim, capitão Ukitake. Já estive lá algumas vezes...

– Pois então acompanhe Rukia até lá e fique com ela.

– Não se preocupe conosco, capitão - retrucou Rukia. – Podemos ficar no alojamento.

– Claro que eu me preocupo. Faço questão que fiquem na casa de hospedagem; estarão melhor acomodados lá e mais próximos na eventualidade de uma convocação.

Acataram ao pedido e logo se foram. A caminhada não foi tão curta e Rukia não disse uma única palavra durante o trajeto, fato este que deixou Ichigo mais apreensivo do que já estava com o estado psicológico dela. Claro que já tinham enfrentado sérias crises, mas a atual era diferente, ele compreendia que o coração dela havia sido cruelmente maculado e por mais que se esforçasse para se convencer que o tempo restauraria tudo, era impossível não se sentir angustiado e até temeroso. Podia suportar a dor de qualquer um e mostrar-se um pilar de apoio para quem quer que fosse, mas em se tratando de Rukia não era tão simples. Normalmente, era ele quem encontrava refúgio nela; era ela que o encorajava, que o motivava, que o fazia ir além dos próprios limites. Não que se julgasse incapaz de atuar no outro papel, mas vê-la tão desanimada e abatida o deixava virtualmente sem rumo.

Ao chegarem à casa - modesta, mas muito aconchegante - foram amistosamente recepcionados por uma mulher de meia idade. Ela lhes falou a localização dos quartos e disse que cada qual poderia escolher o que mais lhe aprouvesse e que, se desejassem tratar de algum assunto reservadamente, poderiam usar o salão principal. Rukia agradeceu pela gentileza e avisou a Ichigo que iria tomar um banho e depois se deitar, recomendando ainda que ele fizesse o mesmo. Ele concordou sem ressalvas.

Cerca de uma hora depois, Ichigo - trajando então um quimono listrado - foi à procura de Rukia, não conseguia ficar longe dela. Encontrou-a no quarto logo à frente ao que ele escolhera; ela se achava deitada num futon, com uma colcha sobre as pernas e as mãos pousadas sobre o ventre, os olhos graúdos estavam fitos no teto; vestia um quimono lilás estampado e com motivos de orquídeas.

Yo! - disse ele, atraindo o olhar dela. – Se importa se eu ficar aqui?

– Claro que não...

Sorriu a ela e adentrou o cômodo que, diferente do outro, possuía uma porta que conduzia ao jardim na ala dos fundos da casa. Veio até essa porta e sentou-se ali naquela varanda, ficando de costas para a pequena.

– Tem alguma coisa que eu posso fazer pra você se sentir melhor, Rukia?

A resposta demorou um tempo para vir.

– Já está fazendo.

Incerto, ele se voltou a ela e retrucou:

– Como assim?

– Está comigo. Isso é o bastante.

Endireitando-se novamente, ele ficou um tempo a contemplar as flores do jardim; a tarde logo cederia lugar a uma noite cálida. Inquieto, tornou a girar o corpo na direção de Rukia. Ela permanecia na mesma posição, tal qual uma estátua de mármore. Suspirou profundamente, não gostava de vê-la daquele jeito.

Poucos minutos se passaram, então ele se colocou de pé e veio se assentar bem ao lado da pequena. Ela não esboçou qualquer reação e continuou com os olhos grudados no teto. Ichigo sentiu um ímpeto por acariciar seu rosto e antes que se questionasse se deveria ou não fazer isso, já estava pousando a mão naquela pele tão macia e acetinada. Rukia o encarou com um ar interrogativo. Ele não encontrava o que dizer, só conseguia olhá-la com um semblante aflito, por fim, acabou ficando sem jeito e afastou a mão do rosto dela. Abaixou a cabeça, mas só por alguns instantes, porque tornou a erguê-la quando Rukia falou:

– Sabe, eu já perdi a conta de quantas vezes desejei ser apenas uma humana comum e morar no Mundo Real com você e sua família. Então ajudá-los lá na clínica... frequentar o colégio... passear no shopping... iriam ser minhas maiores preocupações.

Ele ficou tão surpreso com a confissão que não soube o que dizer de imediato.

– Que irônico... e eu sempre quis poder largar tudo aquilo e viver aqui com você.

Ela lhe sorriu levemente. Um gesto simples, mas que o despertou por completo para o amor que por ela nutria. Não era um bom momento, ele sabia, mas seu jovem coração apaixonado, sem fazer caso disso, tomou as rédeas de suas emoções. Encaravam-se e ele só pensava em beijá-la. Sentiu um calor se espalhando pelo corpo e isso se intensificou quando Rukia buscou sua mão e entrelaçou os dedos aos dele, mas logo ela se desvencilhou e ergueu o corpo, ficando sentada no futon.

Ichigo engoliu em seco, parte de si queria agarrá-la, enquanto a outra o classificava como um desregrado por cogitar algo assim. Como que para agravar sua batalha interna, Rukia inclinou o corpo em sua direção, encostando a cabeça em seu ombro. Um tanto abobado, acolheu-a com um pequeno afago nos cabelos, mas não foi além disso, pois lembrar da porta entreaberta atrás de si e o fez pensar que a qualquer instante aquela bondosa senhora poderia aparecer ali e flagrá-los. Assim, mantinha-se paralisado, tentando não se deixar vencer pelos furores da mocidade, mas quando Rukia, sem qualquer aviso, puxou sua nuca para baixo, não pôde continuar inerte.

Com o coração disparado no peito, abaixou mais o rosto a ela, ao passo que ela ergueu o rosto a ele. Ante os lábios que quase tocavam os seus, lançou longe o senso de conveniência e puxou com ardor o corpo pequeno contra o seu. No instante em que suas bocas se uniram, ele compreendeu o que verdadeiramente o estava inibindo: já não havia confusão em suas memórias e aquele era o primeiro beijo que trocavam nessa nova condição. A compreensão o fez intensificar o beijo e Rukia o correspondeu da mesma forma.

Foi um beijo bem prolongado e quando teve fim, eles se abraçaram calorosamente. Ao som do canto de uma cigarra, ficaram agarrados por vários instantes, então Ichigo declarou - uma vez mais em tão pouco tempo - que a amava e, com alegria, escutou o mesmo dela.

– Vai ficar tudo bem, com a gente, com seu irmão, você vai ver... - ele falou num tom calmo.

– Se você está dizendo, acho que consigo acreditar.

– Isso, acredite e tenha esperança.

Então ele pegou Rukia no colo e a trouxe até a varanda. Ficou sentado lá, com as costas apoiadas no batente da porta de correr e com a pequena atravessada em suas pernas. Contentaram-se em apenas desfrutar da presença um do outro e, providencialmente, ninguém apareceu ali para incomodá-los pelo resto daquele dia.

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Embora estivesse se sentindo totalmente exausto - por conta da caçada ao hollow, da estada na Equipe de Desenvolvimento e de acompanhar a captura de Suzumi -, Byakuya resolveu voltar à sede de sua própria equipe, tão logo deixou a mansão Shihouin. Achava-se então sozinho em seu gabinete, assentado à mesa de trabalho. Sem que conseguisse evitar, sua mente se revolvia com as lembranças dos últimos dias; dias tão terríveis para ele.

– Se eu não tivesse sido tão egoísta, se tivesse concordado em me casar com aquela infeliz, essa desgraça não teria acontecido - ele se referia ao abuso que infligira à irmã adotiva. – Se eu já sabia que não entregaria meu coração a mais ninguém, ter aquela mulher ou qualquer outra como esposa, iria ser indiferente pra mim, mas teria agradado o clã e provido o herdeiro que tanto me cobram. Tudo tão simples... por que me esquivei? E de que valeu? Agora, o fardo que sou obrigado a carregar tornou-se muito mais pesado do que teria sido a infelicidade de me casar por conveniência.

Fechou os olhos e tombou a cabeça para frente. O remorso o corroia e a memória teimava em repassar em sua mente as cenas que mais lhe machucavam: as do medo nos olhos de Rukia. Sentia-se sufocado com a ideia de que se tornara uma fonte de medo a ela. Justo ela: a pessoa que mais queria ver feliz, aquela que mais almejava proteger e cuidar, aquela por quem lutava, por quem até morreria. Por certo, não poderia existir uma realidade mais dolorosamente insuportável a ele do que essa.

Apertou os olhos. Não podia ceder ao pranto. Sabia que se sentiria ainda pior com isso. Foi então que ouviu uma batida na porta.

– Entre - disse num tom cansado e, ao erguer a cabeça, se deparou com seu imediato. Aquele também era um rosto bem difícil de encarar. Pensava que jamais teria coragem para contar a Renji o que ele tinha causado à Rukia, mas sabia que, mais cedo ou mais tarde, ele ficaria sabendo e essa certeza o atormentava desde já.

– Capitão, solicitam sua presença na corte imediatamente, é uma emergência.

– Sim, eu já esperava por isso - disse se colocou em pé.

Estava convicto de que a razão da convocação era a captura da nobre Shihouin. Logicamente, ficou satisfeito que o processo estivesse se desenrolando tão depressa, mas, num instante, ficou horrivelmente angustiado ao pensar até que ponto seus colegas capitães ficariam sabendo de seu envolvimento no caso. Tal indagação fez com que se sentisse pior ainda, então, ele se encaminhou à sala de reuniões na sede da equipe um muito mais abatido.

Uma vez na presença do capitão-comandante e dos demais capitães, ele se manteve apático, apenas respondendo o que lhe perguntavam; totalmente assolado por uma vergonha inimaginável, e mesmo ao final da reunião - que durou cerca de uma hora -, e quando soube que o julgamento da mulher que lhe causara tanto mal aconteceria ainda naquela noite, ele não se sentiu tão reanimado quanto poderia.

Após serem dispensados, caridosa e prestativa, Unohana veio até ele, dizendo que poderia fornecer-lhe algo para a evidente fadiga, mas ele recusou, naturalmente. Também Juushiro se achegou a ele e lhe avisou que Rukia estava em sua equipe e que passava bem; agradeceu pela notícia, deveras estivera apreensivo com o estado dela, em virtude daquele acesso de fúria que ela tivera contra a nobre Shihouin, horas mais cedo.

Ele rumava à saída quando ouviu Soifon lhe chamar.

– Busque recobrar o ânimo - ela recomendou na típica seriedade. – Justiça será feita.

Num primeiro momento, ele teve ímpetos de revidar com aspereza - por ela julgar-se no direito de lhe dar conselhos -, mas acabou compreendendo que a capitã estava demonstrando uma compaixão sincera e isso o desarmou por completo. A vergonha ainda era o sentimento regente em sua alma, mas invadido por uma parca gratidão, seu senso de honra o levou a responder:

– Obrigado pela ajuda, capitã.

Um meneio de cabeça foi a resposta dela, então deu-lhe as costas, mas antes de se retirar, disse ainda:

– Precisando, conte comigo.

O tom muito sério dela o fez pensar que dissera aquilo por mera formalidade, porém, mesmo que minimamente, não pôde deixar de se surpreender. Logo depois, ele deixou a sede e, ao cair da noite, chegava à mansão Kuchiki. Foi um alívio saber que o velho Mitsunori não o aguardava para saber as novas, aquele já havia sido um dia longo demais.

Após um rápido banho, fez uma refeição moderada e avisou os empregados que iria se recolher. Não era tão tarde, a lua ainda era baixa no céu ponteado de estrelas, quando ele se confinou em seu quarto, rogando que as lembranças lhe dessem um minuto de paz. Deitou-se por fim, fechou os olhos e não demorou a adormecer, sob o alento de que a honra de Rukia seria lavada dentro em breve.

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De pé e com os braços ligados por uma algema de madeira e à frente do corpo, sem calçados e munida de nada além de um quimono branco, postada no espaço central dos octógonos formados pelos três níveis de mezaninos onde ficavam dispostas as mesas e as cadeiras dos juízes que decretariam sua sentença, Suzumi remexia o rosto para os lados, mirando as plaquetas que ocultavam, de seu olhar amedrontado, a face de cada um dos acusadores. Completando o cenário macabro, a sala - popularmente conhecida como a Sala Quarenta e Seis - se achava envolta em penumbra e apenas um facho de luz incidia sobre o local em que ela se achava, de modo que era impossível saber se era dia ou noite lá fora.

Num repente, um homem numa cadeira bem à frente de onde a algemada estava começou a falar, com uma voz austera e envelhecida:

– Suzumi Shihouin, por assassinatos, roubos e difamação, você foi julgada culpada. Por manter sob seu domínio um hollow da classe dos Vasto Lord e se beneficiar do poder dessa criatura, foi julgada culpada. E também por essa associação com tal criatura hedionda sua pena é ser atravessada pela Soukyoku.

– Não... - balbuciou, mortificada.

Trêmula e arfando, ela remexeu freneticamente a cabeça por alguns instantes, então se obrigou a pensar numa saída.

– Não podem me condenar - começou gaguejando –, foi aquele hollow.Eu juro, foi ele. Ele que me forçou a cometer essas atrocidades, ele me controlava... - com mais firmeza, exclamou alto: – Eu fui uma vítima! - e baixando novamente o tom, ajuntou: – Não tinha meios de me defender...

Ante ao indecifrável silêncio que se seguiu, ela continuou a desesperada argumentação:

– O que faziam vossos shinigami que não me protegeram? O que faziam eles? Fui uma vítima e agora pensam em me condenar? - sua voz soava como a de um doente terminal.

Como ninguém se pronunciasse, ela se sentiu invadida por uma débil esperança, mas que logo desvaneceu quando uma voz feminina se manifestou:

– Que ousadia tentar nos persuadir com essa justificativa tão patética. Com quem pensa que está lidando?

– Sim - emendou outra voz, a de um homem –, todos nós assistimos ao vídeo feito pelo capitão Kurotsuchi em que a criatura, sob o efeito de uma droga infalível, revelou todos os inomináveis crimes da senhorita.

Açoitada com a revelação, Suzumi emudeceu um tempo, mas, invocando todo seu autocontrole, tornou a insistir na defesa:

– Por favor, meus senhores, rogo-lhes que me ouçam: sou inocente. Juro-lhes que todo esse tempo vinha sendo controlada; e tinha total consciência disso para meu maior tormento.

– Cale-se! - exigiu aquele primeiro homem, aparentemente o líder do júri. – Já basta de tantas mentiras. Entre as famílias nobres jamais se encontrou um indivíduo tão inescrupuloso quanto você, Suzumi Shihouin. E agora ainda tem a audácia de colocar à prova a competência dos shinigami. Imperdoável

– Que desgraça ao nome dos Shihouin... - ajuntou outra mulher.

Acuada, suando frio e tomada por um imenso desespero, Suzumi continuou insistindo na própria inocência.

– Tudo foi uma armação. Não percebem o... erro que estão cometendo? Por que? Por que estão se deixando enganar assim? Eu sou inocente, precisam acreditar em mim...

– Este júri está absolutamente certo de sua sentença. Portanto, o caso está encerrado: amanhã, ao meio dia, você será atravessada pela Soukyoku! - decretou o líder e logo depois a sala ficou completamente escura.

– Não! - Suzumi gritou histericamente e suplicou por clemência, mas nenhuma outra voz se ouviu naquela sala.

Continua...

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Acho que estou com pena da Suzumi-chan agora *pensa um pouco*. Não...

Bom, galera ainda tem alguns dias de férias e pretendo me empenhar para terminar a fic antes da volta às aulas, mas sugiram alguns imprevistos que podem comprometer esse planejamento, mas vamos ver como fica, por hora, só gostaria de lhes pedir um pouquinho mais de paciência.^_^

E aí? Curtiram o momento love IchiRuki? Byakuya está tão tristinho, ô dó...

Por fim, agradeço a todos que continuam acompanhando e comentando! Mega abraço e até a próxima! =^.~=