Escondida no coração

Por Amanda Catarina

BLEACH e personagens pertencem a Tite Kubo.

Capítulo 27

– Tirem-me daqui! - Suzumi gritava, agarrada às barras de ferro da cela. – Estão cometendo um erro... - exausta e sem forças, ela quedou-se ao chão. Chorava baixo quando escutou passos se aproximando.

Um misto de medo e ânimo a invadiu: poderia ser o algoz ou um salvador. Ergueu a cabeça, os olhos verdes fitos no corredor imerso em sombrias trevas. Uma silhueta elegante surgiu ali, precedida por uma luz tênue. Amedrontada, mirou a katana desembainhada que a pessoa trazia na mão direita; era um shinigami. Com o coração agitado no peito, buscou o rosto velado pela escuridão; as sombras relutavam em desvendar sua face. Mas não fazia diferença, antes que seus olhos obtivessem a plena constatação, ela soube quem era.

Acuada de medo, arrastou-se desesperadamente ao fundo da sala, querendo escapar do olhar frio do tal visitante. Remexeu a cabeça em negativa, apavorada. Como um espectro, ele adentrou o espaço da cela, sem destrancar a porta, atravessando as grades e, erguendo a katana acima da cabeça, decretou:

– Pela honra da família Kuchiki, você deve desaparecer.

A voz grave dele não transmitira ódio ou fúria, nem mágoa, nem repulsa, nada; simplesmente soara impassível, impassível tal qual sua expressão austera.

– Por favor, me poupe, Byakuya, sei que posso reparar tudo...

– Pela honra da família Kuchiki, você deve desaparecer.

A lâmina estava perigosamente perto, mas ela, alheia à ameaça, divagou dizendo num tom melancólico:

– Se eu pudesse voltar no tempo... E se você tivesse me aceitado... Não entende que eu me apaixonei por você de verdade... eu quis mais que tudo ser sua mulher...

Ela se chocou com as próprias confissões. Por que estava dizendo aquilo? Sentiu-se estranha e confusa, mas não teve tempo de pensar numa explicação porque num movimento impossível de ser percebido por olhos destreinados, o nobre lhe agarrou o pescoço.

O ar em seus pulmões se consumia conforme ele a apertava com uma força inelutável. Ela teve a certeza de que seria estrangulada, mas, num repente, foi erguida do chão. Debateu-se alucinada, tentando escapar, antecipando que a lâmina brilhante não tardaria em transpassá-la.

Mas num piscar de olhos a realidade mudou e, ao invés de estar à mercê do capitão shinigami, achava-se simplesmente estirada no chão frio da cela, sozinha.

Junto à compreensão de que fora afligida por um pesadelo, vieram as lágrimas. Até que se refizesse do susto, sua mente ficou entorpecida e o choro escorreu farto por seu rosto alvo. Mas não era um choro de medo, nem de desespero, era o choro de uma pessoa extremamente inconformada. Trancafiada ali, talvez em seus momentos derradeiros e refletindo acerca daquele sonho, Suzumi não pôde manter a tristeza oriunda da desilusão abafada em seu íntimo, tristeza essa que, mesmo ela lutando com todas as suas forças, não conseguia extirpar.

Odiava-se por ter querido Byakuya Kuchiki e por ter realmente se apaixonado por ele. Era horrível a agonia de admitir que por uma ínfima probabilidade de ter sido correspondida, ela teria mudado de vida. Sim, teria abandonado a independência que tanto prezava, assimilando-se a seu amado tal qual um simbionte; talvez, tivesse até buscado um modo de restituir os males que havia causado a outros. Tinha toda certeza que viver um amor genuíno teria mudado a história de sua vida, e de uma forma natural e boa. Tal convicção travava uma guerra declarada contra seu lado racional, que julgava o amor uma bobagem, e eis a razão de se sentir inconformada consigo mesma.

Ao menos, essa fragilidade emocional achava-se enterrada muito no fundo de sua alma e não tinha vigor algum; quando estivesse face a face com o homem responsável por sua tristeza, o ódio prevaleceria, por certo. Mas, ali e até o amanhecer, seria a tristeza e não o ódio que iria imperar em seu coração despedaçado.

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O sol estava a pino. Quatro encapuzados a escoltavam, mantendo-a presa por espessos cordões; os quais saíam da coleira vermelha em seu pescoço. Ela vestia o típico quimono branco e calçava um simplório par de sapatilhas. Caminhando num passo firme, rumo à imponente Soukyoku, manteve a cabeça erguida. Antes que ela chegasse ao temível instrumento de aniquilação de almas, teria que cruzar um vão entre duas fileiras de pessoas.

Na fileira do lado esquerdo estavam homens e umas poucas mulheres, os líderes das famílias de maior destaque da elite nobre da Soul Society; ela conhecia a todos muito bem. Do lado direito, estava o renomado Juushirou Ukitake e ao lado deste estavam, respectivamente, a infeliz Rukia; sua prima Yoruichi; um rapaz de cabelos alaranjados a quem ela não deu atenção; a tal capitã aliada de Yoruichi e que a flagrara no cativeiro de Mudoh - Soifon era o nome, ela se lembrou -; e por fim, ele, Byakuya Kuchiki. Mais próximo à fileira do lado direito, estava o líder máximo das Treze Equipes de Proteção, Genryusai Shikeguni Yamamoto.

Ao passar por Byakuya, Suzumi lançou um olhar agressivo a ele, contudo, o nobre não se dignou a corresponder o gesto. Ela bufou com o desprezo dele, mas já devia esperar por isso.

Genryusai foi bastante breve na repetição de sua sentença, assim, ela logo foi postada bem próxima ao pé do mastro, junto ao qual, dentro em pouco, ficaria suspendida.

– Algo a declarar? - o velho líder lhe indagou por formalidade.

– Sim, senhor.

– Fale.

– Byakuya Kuchiki - chamou alto e em bom som, causando notório espanto nos presentes –, serei aniquilada agora, mas não me importo, porque o venci! Nada mudará isso! Nada!

Ante ao silêncio que se prolongou, um riso lascivo despontou nos lábios rubros de Suzumi. Ela fitou cuidadosamente cada uma daquelas pessoas e depois se ateve aos dois irmãos; Byakuya, a despeito da afronta, permaneceu calado e indiferente, mas a pequena Rukia não exibia tanta frieza, vendo-a abaixar a fronte e cerrar um dos punhos, Suzumi começou a rir. E ela gargalhou, sem qualquer receio, irreverente, desdenhosa.

Detendo enfim a risada, ela voltou a fitar o jovem Kuchiki. Sentindo a euforia da vitória fluindo por todo seu ser, tomou fôlego para falar do estupro por ela engendrado e por ele consumado, mas, no átimo de entreabrir os lábios, viu o moreno virar o rosto em sua direção. Ficou paralisada quando os olhos claros dele se encontraram com os seus. Essa troca de olhares não durou mais que alguns segundos, porém o efeito que causou foi inversamente proporcional à sua duração e teve o poder de demovê-la do intento.

– Que comece a execução - ordenou Genryusai.

À medida que ascendia ao alto - pela reiatsu despendida de três blocos místicos, cada qual flutuando na direção de suas mãos e pés -, Suzumi Shihouin voltou a rir e mesmo diante da gigantesca zanpakutou, ela se demorou em por término ao riso. Um pássaro de fogo - similar à ave mitológica - surgiu então, clareando e fervendo o ar a sua volta.

Ela inspirou profundamente, não sentia medo, nem arrependimentos.

Satisfeita, fechou os olhos à sua consciência post-mortem e abriu a mente para a desestruturação de seu espírito. Instantes depois, uma poeira fina, refletindo os fachos do sol, foi tudo o que restou dela, e em bem pouco tempo essa poeira se dissipou.

Continua...

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Próximo: Penúltimo capitulo, o recomeço dos irmãos.

Agradeço de coração todos que continuam acompanhando e especialmente quem tem comentado, em breve tem mais. Valeu, gente! Grande abraço! =^.^=