Escondida no coração
Por Amanda Catarina
BLEACH e personagens pertencem a Tite Kubo.
Capítulo 28
Tessai sentia-se bem contente em receber tantas pessoas, eis a razão dele ter se empenhado ao máximo no preparo da farta e apetitosa refeição com a qual brindava seus convidados; eram eles a família Kurosaki - Isshin inclusive -, Kon e os amigos de Ichigo, Sado, Mizuiro, e os dois casais: Uryuu e Orihime, Keigo e Tatsuki. Estavam todos reunidos ao redor de uma mesa baixa, num espaçoso salão da residência de Urahara, seu chefe e sorridente anfitrião. Além dos visitantes estavam ali também os adolescentes Jinta e Ururu. Era um almoço descontraído e Yoruichi tinha a palavra:
– Ichigo me pediu para avisá-los que ele pretende permanecer na Soul Society durante as férias de verão - Rukia ainda está muito abalada e precisando do apoio dele -, mas ele estará de volta para o recomeço das aulas em agosto.
– Graças aos céus! - exclamou Yuzu, fazendo Jinta rir.
– Mesmo enfrentando uma crise após a outra com os shinigami, o Ichigo ainda se preocupa com os estudos - comentou Tatsuki.
– Ah sim, esse falso bad-boy, na realidade, não passa de um nerd - disse Ishida. – E claro que ele não ia querer perder o ano, ainda mais agora que falta tão pouco para nos formarmos.
– Há muito que o Ichigo perdeu a fama de bad-boy - intercedeu Sado.
– Mas nerd ele sempre foi - ajuntou Keigo –, pra minha sorte!
Tatsuki rolou os olhos com o descaramento do comentário do namorado.
– Ora, senhor Asano - começou Mizuiro –, a sua sorte, e a da maioria dos marmanjos daquele colégio, está no fato do Ichigo nunca ter sido um garanhão - com o perdão do termo, senhoritas -, porque com a popularidade que ele sempre teve ninguém ia ter chance com as garotas.
– Claro que o jovem Kurosaki não iria desistir dos estudos numa altura dessas - comentou Orihime –, quanto a isso eu não tinha dúvidas. Agora, com relação à senhorita Kuchiki, acho que posso imaginar mais ou menos como ela deve estar se sentindo, já que vivi algo parecido quando meu irmão se transformou em hollow...
Uryuu encarou a namorada com uma expressão piedosa, então apertou-lhe a mão num gesto carinhoso. Aquela mudança de rumo na conversa fez o clima descontraído pesar um pouco.
– Mas a Rukia-lindinha é forte - salientou Kon –, tenho certeza que ela irá superar tudo isso em pouco tempo!
– Sim, o tempo há de restaurar tudo - falou Isshin com ares de homem maduro, para estranhamento de todos.
– O importante é que tudo acabou bem - decretou Yoruichi. – E, no fim, devemos tudo a você, Kisuke! Mais uma vez!
– Ah, que é isso, minha cara - rebateu, todo encabulado. – Fico sempre à distância, você e o jovem Kurosaki que podem ir e vir e colocam meus planos em prática.
– Deixe de falsa modéstia, homem! - ela exclamou bem humorada, fazendo com que risos ressoassem no salão. – Mas voltando ao caso Suzumi - retomou mais séria –, tudo transcorreu bem rápido, felizmente. Ela foi julgada na noite de sua captura e executada no dia seguinte. Mas mesmo isso não pareceu servir muito para melhorar o estado do Byakuya; ele está arrasado.
– Naturalmente... - ajuntou Isshin.
– É, foi uma trama bem intricada - comentou Urahara –, e por pouco a moça Suzumi não triunfou. Felizmente, ela nada sabia sobre o jovem Kurosaki e nem cogitava que o poder daquele hollow se restringisse à Soul Society.
– Desculpem-me se não acompanho os detalhes técnicos - começou Karin –, mas então quer dizer que o Ichigo vai passar as férias com a Rukia? Lá na Equipe Treze? Sei... - ela não poupou malícia e de modo brincalhão ajuntou: – Será que ele vai ser tão leso de deixar passar uma oportunidade perfeita como essa?
Mizuiro trocou um olhar maroto com a irmã de Ichigo, como quem dissesse "essa sim se atenta ao que importa".
– Karin! - sobressaltou-se Yuzu. – Eu entendi muito bem essa sua insinuação! Não tem vergonha de dizer algo assim? E ainda na frente do pai!
Isshin soltou uma boa risada.
– Yuzu, Yuzu, minha menina, eu ficarei realmente bem mais preocupado se teu irmão agir de modo contrário ao que a Karin está insinuando.
Uma risada em coro ressoou novamente.
– Ah, vocês dois! - esbravejou a loira.
– Yuzu, por que você tem tanto ciúme do seu irmão? - quis saber Ururu.
– Não é isso, Ururu. Apenas... - ela não encontrou uma justificativa e logo outras vozes se sobrepuseram às suas queixas.
A confraternização seguiu por horas, repleta de conversas animadas e esclarecedoras. Ao final da tarde, após se despedir dos convidados, Tessai se achava cheio da sensação de missão cumprida. Pouco depois, ele notou que seu chefe e a linda Yoruichi seguiam de braços dados a um dos quartos.
– É, por hoje é só pra mim, mas pra esses dois a euforia ainda há de continuar... - comentou e soltou um risinho de canto.
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Com uma expressão séria, possivelmente apreensiva, Rukia fitava a passagem de entrada da sede da Equipe Seis, mas desviou a atenção para Ichigo, que estava bem ao seu lado, quando ele disse:
– Você não precisa fazer isso.
– Preciso sim. E quero entrar para falar com ele sozinha.
– Que seja, mas eu acho...
– Ichigo, eu sei que você só está querendo me proteger, mas precisa entender que há momentos em que não podemos fugir de uma responsabilidade.
– Eu sei muito bem disso, mas não tem nada a ver. O que eu estava querendo dizer é que duvido que você consiga perdoar o Byakuya assim. Pode ser que consiga daqui um tempo, mas agora... Você mal consegue encará-lo, Rukia.
– É, mas eu tenho que transcender isso. Já não ficou provado que ele estava sendo manipulado? Então eu não posso continuar dando vazão ao rancor. Não é justo! Preciso dar um fim nisso, por mim e por ele.
– Claro que sua intenção é boa - boa até demais, eu diria -, mas tá na cara que o que te move não é nada além da obrigação.
– Está enganado...
– Será? Olha, não vou continuar discutindo. Estarei aqui te esperando; qualquer coisa você me chama.
Enternecida com a notória preocupação no semblante dele, ela assentiu, em seguida, deu um passo em direção à passagem, mas antes que adentrasse foi surpreendida por uma pessoa saindo por ali; era seu amigo e o vice-capitão daquela equipe, Renji.
– Rukia? - exclamou ele com surpresa. – E o Ichigo também...
– Yo! - saudou o rapaz.
– Vieram ver o capitão? - ele perguntou e ao que Rukia assentiu com a cabeça. – Ele só veio aqui me passar o serviço e já foi embora. Não creio que irá voltar hoje; estava meio abatido... Vocês sabem, toda essa situação não deve estar sendo fácil pra ele. Tudo bem que não estou muito a par das coisas, mas imagino o quanto o capitão deve estar se sentindo mal.
Rukia trocou um olhar lânguido com Ichigo, então falou:
– Renji, você ainda não está sabendo por que aquela mulher hipnotizou o senhor meu irmão?
– Não, o capitão ficou me devendo essa explicação.
– Se é assim - ela hesitou um pouco antes de prosseguir –, eu mesma irei lhe contar os detalhes, se não se importar.
– Claro que não, por mim é indiferente.
– Por enquanto... - sussurrou Ichigo. Sem ter entendido, Renji se voltou a ele e indagou:
– Disse alguma coisa?
– Não, nada.
– Muito bem, então eu vou para a mansão Kuchiki - disse Rukia. – Ichigo, você não precisa me acompanhar até lá; volte para a sede da minha equipe.
– Tem certeza?
– Tenho sim. E quanto a você Renji, logo conversaremos.
O ruivo assentiu e depois de se despedir seguiu seu caminho.
– Nos vemos mais tarde então - Ichigo falou antes de deixá-la.
– Sim, até...
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Cerca de meia hora já devia ter se passado desde o momento que Byakuya fora avisado da presença de Rukia ali na mansão, todavia ele ainda não se achava com disposição de deixar o isolamento do quarto e ir ter com ela. Pois que era impossível não notar o mal-estar que dela se apoderava sempre que estavam frente a frente, encará-la tornara-se um autêntico martírio.
Entretanto, era inadmissível, além de indecoroso, continuar se demorando. Muniu-se então de um quimono formal, azul marinho, e um hakama cinza grafite, sobre estes, vestiu um haori na cor azul céu; porém, contrariando seu costume, não ajeitou nos cabelos os apetrechos característicos da linhagem nobre, ao invés disso prendeu os fios negros, um tanto mais compridos, com uma fita branca. Findada a preparação, ele se encaminhou à sala em que Rukia o aguardava.
Ao adentrar o local, encontrou-a cabisbaixa, ajoelhada num futon. Notou que ela vestia o shihakusho, o que o fez nutrir a expectativa de que a razão de sua presença fosse algum assunto ligado aos ofícios dos shinigami, mas, sendo que se tratava da primeira vez que ficavam a sós, desde que tinham recobrado a memória, imaginou que não devia ser nada tão corriqueiro.
– Boa tarde, senhorita Kuchiki - saudou, ganhando a atenção dela. – Desculpe-me fazê-la esperar tanto - disse e se aproximou, vindo a se acomodar no futon disposto em frente ao que ela estava.
– Boa tarde, senhor meu irmão. Não há porque se desculpar.
Num misto de surpresa e reverência, ele reparou na limpidez do tom dela e, dominado pela ansiedade, se adiantou em perguntar:
– O que a traz aqui?
Notou-a pestanejando, por certo devido ao tom exigente que ele injetara à voz, mas, um pouco depois, ela respondeu:
– Primeiramente, gostaria de saber se o senhor está bem?
– Essa pergunta caberia melhor a mim, não?
De cenho franzido, ela rebateu:
– É que estive hoje com vosso vice-capitão e ele me contou que achou o senhor bastante abatido quando esteve na sede de vossa equipe, pela manhã.
– Um equívoco dele, nada mais.
Ela se manteve em silêncio, com um ar pensativo, parecia-lhe acuada também. Essa impressão o levou a suprimir a ansiedade de saber a real razão da visita, e com medo de ouvir novas que provavelmente o deixariam ainda mais depressivo, buscando poupá-la também, ele falou:
– Rukia - repreendeu-se por tê-la chamado pelo nome –, não perca seu tempo comigo. Tudo que tínhamos por conversar, o fizemos logo após a execução. Sua honra foi lavada e isso é tudo que importa.
Ela tornou a franzir o cenho, como quem não gostou do que ouviu, e então retrucou:
– Não, ainda há algo que precisamos tratar, pois percebo que o senhor continua se culpando por aquilo que aconteceu.
– Eu sou culpado, isso é imutável - ele percebeu que ela se abalou com a afirmativa e como nada dissesse, ele acrescentou: – E posso sentir o quanto é horrível pra você estar aqui a me encarar.
– Não vou negar - ela rebateu de pronto, para seu tormento, mas após uns instantes, exclamou: – Mas não quero que as coisas continuem assim! - e mais contida, ajuntou: – Isso com certeza entristeceria o coração da minha honorável irmã, Hisana.
Ele vacilou um momento, ouvir o nome da amada esposa da boca dela foi uma terrível apunhalada. Encarou-a com os olhos sem brilho e retrucou com amargura:
– Penso sinceramente que não há muito que se possa fazer.
Baixou momentaneamente o rosto, Rukia permanecia em silêncio. Justo quando voltou a olhá-la, notou que ela cerrava os punhos sobre os joelhos.
– Vá embora - ele pediu, querendo colocar fim ao suplício, de ambos.
– Não, não antes de dizer o que vim dizer.
– E o que seria?
– O que quero que o senhor saiba não é outra coisa senão que entendo que só fez aquilo porque estava sendo manipulado; pelo que só cabe a mim perdoá-lo.
A princípio, ele recebeu a declaração com estranheza, pois soara tão ensaiada, tão artificial, que não se recordava de ter escutado Rukia falando daquela forma antes; após um minuto de reflexão, sua musculatura, até então rígida como aço, se alterou para um estado de uma tremedeira involuntária.
– Veio aqui dizer que me perdoa?
Era-lhe tão inconcebível que precisou confirmar.
– Sim, senhor.
Perplexo, ele vidrou os olhos. Por um instante, não mais que um instante, ele se alegrou com o dito e até sentiu que o fardo em seus ombros houvesse sido removido, mas se apartando da emoção e se enchendo de racionalidade, obstinadamente, se desviou do oásis surgido no deserto de seu coração, muito convicto de que não passava de uma miragem.
– Ora, se isso fosse realmente verdade - começou ele –, então não haveria palavras para expressar minha gratidão, mas é evidente que não é assim.
– Está enganado... - ela contestou num tom baixo.
Byakuya esperou que ela apresentasse mais argumentos, um único teria ascendido uma fagulha de esperança nele, mas ela não o fez. Indeciso, abaixou a cabeça e ponderou. Ora, repetir que duvidava dela seria não apenas rude, mas petulante. Uma vez que ela se prestara a um ato tão abnegado, julgou que o mínimo que podia fazer era acolher de bom grado sua resolução; se o dito perdão era verídico ou não, era outra questão e não estava em pauta.
– Então, sou-lhe grato - respondeu por fim, inexpressivo e formalmente.
Mostrando-se satisfeita, Rukia meneou a cabeça em sinal de assentimento e se colocou de pé. Ele acompanhou com os olhos ela se encaminhando à porta da sala e antes de deixar o local, ela falou ainda, no mesmo tom límpido do início:
– A engrenagem que rege as existências não admite que fiquemos parados. Sendo que chegamos até aqui, precisamos seguir em frente.
Tão logo ela deixou o local, Byakuya inspirou fundo. Seguir em frente? Achou simples de entender, mas bem difícil de colocar em prática. Tentava acreditar no futuro, porém sentia que sua alma desvanecia, sem a menor chance de restauração. Tamanha desesperança fez com que uma lágrima fugitiva escapasse de seus olhos claros, contra sua vontade. E ele permaneceu ali naquela sala por um bom tempo, antes de voltar ao escuro confinamento de seu quarto.
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Cerca de meia hora já devia ter se passado desde o momento que Rukia chegara à mansão Kuchiki e pedira para falar com Byakuya; ela começava a se impacientar com a demora dele. Achava-se ajoelhada em um futon e bem a sua frente havia outro, ambos no centro da sala, que era ampla e estava praticamente vazia. O silêncio reinante a sufocava, sentia-se como se num claustro e só pensava em sumir dali, porém, uma voz em seu íntimo clamava que não podia. Por estar cabisbaixa, não viu quando o nobre enfim adentrou o local.
– Boa tarde, senhorita Kuchiki - ela ergueu o rosto num susto e o encarou. – Desculpe-me fazê-la esperar tanto.
Aguardou até que o nobre se acomodasse no futon a sua frente e em função do estranhamento que a recente tendência dele de não mais chamá-la pelo nome lhe causara - pois compreendia que aquele era um sinal de rebaixamento -, ela demorou uns instantes antes de responder:
– Boa tarde, senhor meu irmão. Não há porque se desculpar.
Permaneceu em silêncio um tempo, reunindo coragem para anunciar o porquê da vinda, mas ele, impaciente que era, não lhe deu tempo o bastante e já foi perguntando:
– O que a traz aqui?
O tom exigente a deixou acuada, tanto que quis dar-se um pouco mais de tempo antes de entrar no assunto principal.
– Primeiramente, gostaria de saber se o senhor está bem?
– Essa pergunta caberia melhor a mim, não?
Franziu o cenho, incomodada com o escárnio dele, mas prosseguiu com o tópico:
– É que estive hoje com vosso vice-capitão e ele me contou que achou o senhor bastante abatido quando esteve na sede de vossa equipe, pela manhã.
– Um equívoco dele, nada mais.
Respostas que não davam margem à discussão era uma especialidade dele. Suspirou, achava difícil ter que lidar com alguém tão frio. Pensava em como começar a verdadeira abordagem, porém ele se adiantou novamente, dizendo:
– Rukia - ele fez uma longa pausa –, não perca seu tempo comigo. Tudo que tínhamos por conversar, o fizemos logo após a execução. Sua honra foi lavada e isso é tudo que importa.
Indignada com a obstinação dele em repeli-la, tornou a franzir o cenho e, julgando que tal papel cabia a ela própria, sem conseguir refrear a braveza na voz, retrucou:
– Não, ainda há algo que precisamos tratar, pois percebo que o senhor continua se culpando por aquilo que aconteceu.
– Eu sou culpado, isso é imutável.
Aturdida, ela vidrou os olhos e algo dentro de si berrou "você bem o sabe". Tentava calar esse brado, mas antes que conseguisse, o nobre acrescentou:
– E posso sentir o quanto é horrível pra você estar aqui a me encarar.
– Não vou negar - falou sem pensar e, arrependida, logo exclamou: – Mas não quero que as coisas continuem assim! - num tom mais contido, ajuntou: – Isso com certeza entristeceria o coração da minha honorável irmã, Hisana.
Reparou que a expressão de pedra dele exibiu uma boa perturbação, quando ela proferiu o nome da irmã, mas a frieza logo voltou a seu semblante e ele retrucou:
– Penso sinceramente que não há muito que se possa fazer.
O tom dele foi melancólico, porém, por mais que ela conseguisse imaginar o quanto a situação devia ser insuportável para ele, não foi capaz de evitar sentir raiva de sua apatia. Cerrou os punhos com toda a força e não conseguiu fazer mais que encará-lo com um olhar aflito.
– Vá embora - ele pediu com ares de súplica, mas de um jeito bem autoritário também.
– Não, não antes de dizer o que vim dizer.
– E o que seria?
– O que quero que o senhor saiba não é outra coisa senão que entendo que só fez aquilo porque estava sendo manipulado; pelo que só cabe a mim perdoá-lo.
Ela pelejara para deixar a voz o mais firme e honesta possível, mas pela descrença que se fez clara nos olhos claros dele, imaginou que devia ter falhado na tentativa.
– Veio aqui dizer que me perdoa?
Deveras, devia soar como um trote.
– Sim, senhor.
Ele a encarou por um tempo, entreabriu os lábios algumas vezes, parecia estar a ponderar muito no que dizer, então, depois do que para ela pareceu uma eternidade, ele falou:
– Ora, se isso fosse realmente verdade, então não haveria palavras para expressar minha gratidão, mas é evidente que não é assim.
– Está enganado...
Ela quis dizer algo mais, realmente quis, contudo, as palavras se entravaram na garganta e por lá ficaram. Ora, viera preparada para dizer que o perdoava, mas não contava ter que ir além. Ichigo estaria certo? Estava exigindo demais de si mesma? Angustiava-se assim, até que ele deu resposta:
– Então, sou-lhe grato - disse simplesmente.
Foi um alívio ouvir aquilo, mas um alívio momentâneo, de alguma forma ela soube que ele dissera aquilo por mera formalidade. Entrementes, afirmou a si mesma que sua parte estava feita e não dispunha de forças ou coragem para ir além daquilo. Assim, ela assentiu com a cabeça e, em seguida, colocou-se de pé. Pretendia deixar a sala sem dizer mais nada, porém acabou fazendo uma última declaração:
– A engrenagem que rege as existências não admite que fiquemos parados. Sendo que chegamos até aqui, precisamos seguir em frente.
Rukia acreditava piamente naquela lógica, mas, naquele momento, não encontrou consolo naquilo. Deixou a sala e enquanto caminhava pelo corredor que levava a saída, se perguntava até quando persistiria o aperto em seu peito. Pensava que tão logo liberasse o perdão fosse se sentir melhor, mas em nada se sentia diferente; o desânimo, a mágoa, o inconformismo ainda preenchiam seu ser; ao menos lhe nascera o alento de que aquilo poderia fazer alguma diferença para o nobre.
– E ainda não acabou: agora é a vez do Renji.
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Ichigo estava sentado na relva da campina dos arredores da Equipe Treze. Pensativo, mirava o céu num tristonho crepúsculo, quando o capitão Ukitake se achegou a ele.
– Boa tarde, jovem Kurosaki.
– Ah, boa tarde, capitão Ukitake! Tudo bem com o senhor?
– Comigo está sim, mas você me parece um pouco abatido.
– Só um pouco preocupado... a Rukia foi conversar com o Byakuya.
– Ah que bom! Eles precisam encontrar um meio de superar esse trauma.
– Sim, mas eu acho que ela está se precipitando, é tudo tão recente...
– Mas por isso mesmo que esse é o momento certo, jovem Kurosaki.
– É? - retrucou com certa surpresa. – Seja como for, eu só torço para que essa conversa faça mais bem do que mal a ela, mas confesso que não estou muito confiante nisso.
– Bem se vê o quanto você gosta dela - comentou dentro de um casto sorriso.
Ichigo enrubesceu todo. Por um instante imaginou que estava com o pai de sua namorada, mas este ainda não sabia do namoro e só por isso o tratava bem. Rindo discretamente, agitou a cabeça, de modo a afastar esse devaneio. Ora, não tinha porque se envergonhar, mais cedo ou mais tarde, não só Ukitake, mas todos ficariam sabendo de seu romance com Rukia. O capitão se mantinha em silêncio, compartilhando consigo a visão do fim de tarde, então ele percebeu que aquele era um momento oportuno para tratar de um outro assunto.
– Posso te fazer uma pergunta, capitão Ukitake?
– Claro...
– Se a Rukia desenvolvesse um bankai, o senhor consentiria que ela passasse ao posto de vice-capitã da sua equipe?
– Que curioso você levantar essa questão... Sabe, há algumas semanas, eu conversava sobre isso com o honorável senhor Ginrei Kuchiki, o avô do Byakuya. Comentei com ele que Rukia vinha se destacando muito na carreira de shinigami e que eu gostaria de promovê-la a vice-capitã tão logo ela aprendesse um bankai.
– É mesmo? - rebateu entusiasmado.
– É sim. Mas por que tanto interesse nisso agora?
Ele pestanejou um momento com a pergunta, escolheu bem as palavras e então falou:
– Porque eu acho que se a Rukia não se apegar a alguma coisa, acabará ficando depressiva. E não consigo pensar em algo que possa ter mais significado pra ela do que alcançar o posto de vice-capitã.
– Quanta perspicácia, jovem Kurosaki. Estou surpreso.
O ruivo tornou a corar com vigor, mas prosseguiu:
– Se o senhor concordar, e uma vez que estou autorizado em permanecer um tempo aqui na Soul Society, eu gostaria de começar um treinamento com a Rukia com o objetivo de que ela desenvolva o bankai. A senhora Yoruichi já havia comentado comigo que ela acredita que a Rukia está hoje no mesmo nível que eu quando fui treinado por ela e alcancei o bankai.
– E ela tem razão; eu mesmo já pude constatar isso. Mas o modo como você aprendeu o bankai não foi lá muito ortodoxo... Você tinha um grande potencial nato. Acredita que o método possa ser eficaz com Rukia?
– Isso só começando o treino para descobrir, mas acredito nela.
Ukitake lhe sorriu.
– Então tem meu total apoio, jovem Kurosaki.
– Muito obrigado, capitão Ukitake! Bom, já anoitece e eu combinei que iria encontrar com ela na sede da Equipe Seis.
– Vá lá. Posso aguardá-los para a ceia?
– Ah, por favor, não se incomode em nos esperar. Pode ser que surja algum imprevisto.
– Muito bem, como quiser.
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Por volta de uma hora atrás...
Na pouco movimentada varanda de um dos alojamentos da Equipe Seis, Renji ouvia o relato de Rukia acerca da conspiração da nobre Shihouin contra seu capitão. Ele estava sentado na trave do parapeito de madeira que circundava o galpão, ela, no último dos degraus da escada que levava ao corredor da entrada. Conversavam já há um bom tempo; era um fresco fim de tarde. Rukia não seguia uma cronologia muito linear, mas ele, por ter também participado em parte dos eventos, não teve dificuldades para alinhá-los no tempo. Entrementes, o que mais o intrigava naquele momento era a forte sensação que tinha de que Rukia estava lhe escondendo algo, pois se mostrava nervosa e perturbada de um modo como raramente ele tinha visto.
– É tão difícil de acreditar que aquela mulher - que nem tinha um poder espiritual tão considerável, apesar de ter pertencido à família Shihouin -, tenha conseguido hipnotizar o capitão. É simplesmente inacreditável isso.
– Ela mesma não conseguiria jamais. Primeiro, o hollow dela bagunçou as nossas memórias e só então ela nos hipnotizou.
– Ah sim, sempre me esqueço do hollow - ele olhou-a de esguelha e perguntou: – Rukia, o que há? Não é de agora que estou te achando muito esquisita. O que você está escondendo de mim?
Observou-a atentamente, de modo que pôde captar com facilidade um aumento na perturbação de espírito dela.
– Eu já contei tudo, Renji.
– Pois não parece...
Indiferente, ela permaneceu calada. Ele suspirou e achou melhor mudar de assunto.
– E o Ichigo ficou com muito ciúme quando o capitão veio com aquela história de querer se casar com você?
Achou engraçada a expressão de susto que ela exibiu.
– Ciúme? - retrucou abobada. – Como assim?
– Ora, até quando achou que iria conseguir esconder de mim que estão juntos?
Ela bufou em resposta e disse:
– Não estamos juntos há tanto tempo assim, aconteceu no meio dessa confusão toda...
– Dois lerdos - acusou bem humorado –; se gostam há tanto tempo e só agora resolveram assumir...
– Se até hoje você também não arranjou alguém, que moral tem pra falar de mim?
– Boba! Tem muita mulher correndo atrás de mim, eu só não descobri ainda nesse batalhão uma que valesse a pena. E não esqueça que se o Ichigo não tivesse entrado na sua vida, talvez você e eu estivéssemos juntos hoje...
– Como pode dizer uma coisa assim com tanta naturalidade? E nem mesmo fica corado...
Ele riu, mas logo um silêncio solene pairou entre eles.
– Já que estamos falando disso... - retomou ele – foi muito esquisito ser cortejada pelo capitão?
Toda retraída, Rukia abaixou o rosto e respondeu:
– É esquisito hoje, mas na ocasião não tinha nada de esquisito.
– Entendo. Mas também não foi nada muito sério, né? Você disse que nem chegaram a oficializar o noivado.
Ela não deu resposta. Renji estranhou. Conforme os instantes se passavam, ele começava a ficar alarmado que ela não confirmasse de uma vez.
– Rukia, o capitão, não fez nada com você, certo? Sendo um nobre, ele haveria de esperar pelas bodas pra... pra... ah, você sabe!
Nesse momento, aquela sua sensação de que ela estava perturbada se tornou contundente. Viu-a então curvar o corpo e encostar a cabeça nos joelhos. Nenhuma palavra saiu dos lábios dela, mas ele soube de tudo através de seu silêncio; não eram tão ligados quanto antes, mas ainda compartilhavam de imensa empatia. Transtornado, ele saltou do parapeito e sentou-se junto dela. Ergueu-lhe o corpo, obrigando-a a encará-lo.
– Não pode ser - balbuciou, apertando-a pelos ombros –, diz que é mentira. O capitão não seria capaz disso. Nem hipnotizado!
Desviando o olhar, ela retrucou:
– Ninguém mais do que eu gostaria de poder dizer isso.
Horrorizado, ele não fez mais que encará-la, então com imenso rancor na voz ela disse:
– Esse foi o objetivo daquela mulher todo o tempo.
– Céus, mas...
Ele não achava o que dizer. Tudo fez sentido então: a tristeza pungente que fluía de seu capitão, a falta de brilho nos olhos de Rukia, a pouca disposição daquele, o jeito mudado desta. Vendo-a trêmula e tensa, soube que ela se esforçava para não cair no choro. Admirou-a por isso, então, num ímpeto, puxou-a para os braços. Não demorou e ela se agarrou a ele também.
– Me perdoa por ser tão imprestável - ele falou enfim.
– Ninguém tem culpa, Renji - ela chorava.
– Mas você não merecia passar por uma coisa dessas.
– E quem merece? Só que acontece, independente disso. Ninguém é intocável. Estamos todos sujeitos às circunstâncias...
Abraçaram-se mais forte, como há anos não faziam. Um bom tempo se passou e quando Ichigo chegou ali, alegando ter ficado preocupado com a demora, Rukia ainda estava aninhada em seus braços. Renji leu algum ciúme nos olhos castanhos do rapaz, mas não fez caso, ademais, ele sim tinha muitos mais motivos para ter ciúme de Ichigo, uma vez que ele roubara o que antes era seu tempo com ela.
Ao vê-los seguindo de volta à Equipe Treze, Renji se sentia desalentado. Ele caminhou pelo corredor do alojamento com inúmeras considerações tumultuadas na mente. De início, foi inevitável que sentisse alguma raiva de seu capitão, mas isso logo passou e em pouco tempo já não sabia se estava mais preocupado com ele ou com Rukia. Por fim, nem quis mais entrar e se apoiou no parapeito, agora do lado oposto ao que antes estivera. Fitando a lua baixa no céu, ele se perguntou:
– E o que vai ser daqui pra frente?
Um vento frio soprou suavemente como uma enigmática resposta e Renji sentiu seu coração inquieto quanto ao futuro.
Continua...
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Puxa, esse foi o maior capítulo da fic até agora! Será que o último ficará ainda maior? Vamos ver... Mas esse ficou tão grande por conta do mirror da cena da Rukia com o Byakuya. Uma única vez eu li uma fanfic que usou esse esquema de narrar toda uma cena pelo ponto de vista de uma das personagens e, logo em seguida, voltar e narrar tudo de novo pelo ponto de vista da outra. Achei super legal e sempre quis fazer isso nas minhas fics, mas nunca achei uma deixa tão boa quanto a dessa história. Enfim, gostaram? Eu achei que ficou legal.
Então é isso aí, a todos que tem comentado e aos que não desistiram de acompanhar a despeito das minhas falhas no cronograma, meu muito obrigado! O próximo é o capítulo final, mas terá ainda um epílogo. Espero vocês hein! Mega abraço a todos e fiquem na paz!
