Escondida no coração

Por Amanda Catarina

Bleach e personagens pertencem a Tite Kubo.

Capítulo 29: Final

No curto espaço de tempo de caminhar do assento onde estava até o púlpito, uma porção de cenas passou veloz pela mente de Ichigo e, dentre essas, uma bastante especial: o primeiro dia de aula de Rukia no colégio de Karakura.

Sorridente e muito seguro de si, ele chegou ao palanque e, antes de qualquer coisa, tratou de ajustar para si a altura do microfone. Então sim lançou o olhar à grande platéia adiante, acomodada em muitas e muitas fileiras de cadeiras dispostas por quase toda a extensão do ginásio poliesportivo. Apesar de ter alargado o bonito sorriso nos lábios, ele titubeou um instante ao fitar os rostos conhecidos numa das fileiras; lá estavam sua família, os amigos da loja Urahara e sua amada shinigami. Do lado esquerdo de Isshin estavam Kisuke, Yoruichi, Tessai, Ururu e Jinta; do lado direito, Yuzu, com Kon no colo, Karin e Rukia.

Rukia lhe acenou, sorrindo graciosamente, tornando sua satisfação ainda mais completa e diluindo o pequeno nervosismo que nele havia se instalado - era sempre assim, enchia-se de paz com a mera presença dela.

– Bom - começou com a voz meio arranhada ainda –, quando me convidaram para ser o orador da turma, eu disse que o Mizuiro era melhor nisso do que eu. Ele concordou, mas insistiu que eu fizesse porque, afinal de contas, sou muito mais popular com as garotas.

Após inúmeras vaias da parte dos garotos e suspiros apaixonados das garotas, ele continuou:

Ladies, me perdoem por ter que recorrer a algo tão vulgar para conseguir a atenção desses marmanjos - e mais vaias masculinas somadas a risinhos femininos. – OK, falando sério agora, quis começar assim só pra mostrar que nesses meus quase dezenove anos de vida aprendi que nossa passagem neste mundo é cheia disso: momentos descontraídos, momentos sérios, momentos tristes, momentos alegres... Concluímos hoje uma etapa importante e vamos dar o primeiro passo rumo à vida adulta. Até um bem resolvido como eu, fica com o pé atrás nessas horas - aguardou o fim da zoeira para prosseguir. – É bem provável que muitos de nós não nos encontremos mais com tanta frequência, cada qual seguirá sua estrada e buscará explorar seus dons de acordo com as oportunidades que lhes surgirem. Mas, mesmo que o convívio não seja como antes, laços feitos com a fita da verdadeira amizade não devem ser tão fáceis de desatar... - ele lançou um olhar amistoso aos melhores amigos e aos demais formandos de sua turma, bem atrás de si e depois acrescentou: – Ao menos eu espero.

Rukia ficou admirada com as palavras de Ichigo, como ele a surpreendia. Sentia-se emocionada e feliz em poder estar junto dele num momento tão significativo quanto aquele, e um bom momento. E ela não era a única enlevada de emoção, Tatsuki e Orihime também se achavam assim.

O ruivo encerrou dizendo:

– Sejam fortes, cada qual a sua maneira, e não desanimem, é o que desejo a todos! Foi muito bom ter passado esses anos com vocês! Nos vemos por aí!

Naturalmente, ele foi muitíssimo aplaudido.

– Esse é o meu garoto! Nunca me convidaram para fazer um discurso... por que será?

– Você ainda pergunta, pai? - retrucou Yuzu.

Após os discursos dos professores representantes das turmas, a cerimônia culminou com a tão eternizada cena dos formandos lançando aos ares seus capelos.

Pouco depois, Ichigo correu na direção de Rukia.

Yo! Obrigado por ter vindo, não achei que conseguiria - disse reparando no visual dela: saia jeans, legging, botas de cano alto, blusinha rendada, jaqueta curtinha e uma presilha nos cabelos.

– Eu não podia faltar - ela respondeu com um sorriso lindo.

Ele correspondeu o gesto da mesma forma, mas então não se conteve e se curvando, puxou-a para um abraço.

– Boas notícias? - ele indagou num cochicho ao ouvido dela.

– Sim - confirmou baixo –, em breve assumirei meu novo posto. Graças a você.

– Só dei uma ajudinha, mas sempre soube que você conseguiria!

Os dois se desvencilharam ao perceber a aproximação dos amigos.

– Senhorita Kuchiki, que bom que pôde vir! - comentou Orihime.

– Olá, Inoue! Ficaste mui bem com esses cachos nos cabelos - elogiou admirada.

– Ah, muito obrigada! É bem fácil de fazer, qualquer hora eu te ensino!

– Ela fica linda de todo jeito - comentou Uryuu.

– Ou seja: ela é o lado olhável do casal - provocou Ichigo. – Por que você, Ishida, de todo jeito é feio!

O que se seguiu foi muitas risadas, piadas e gozações. Passado um tempo, quando a algazarra diminuiu um pouco, Ichigo deu um abraço muito fraterno em Sado, quase enforcou Keigo, apertou levemente a mão de Mizuiro, mas, com Uryuu, só trocou um olhar desafiador. E para selar o tipo "sou o cara e não podem fazer nada a respeito" agarrou Tatsuki e Orihime pelas cinturas ao mesmo tempo, a morena à sua direita e a ruiva à esquerda, e deu um beijo bem molhado nas bochechas de cada uma delas. Revivendo a paixão da adolescência, Orihime corou até as raízes do cabelo. Tatsuki apenas deu risada e não desperdiçou a chance de desferir uma cotovelada no ruivo. Keigo só deu uma risadinha sem graça, pois nunca sabia quem entre os dois lhe dava mais medo. Rukia não fez caso, mas Uryuu ferveu de ciúme e se Sado não o tivesse detido até flechas de Quincy teriam colorido a festa. Mizuiro rolou os olhos e comentou algo que já se tornara habitual: "Vocês nunca vão crescer?"

Yuzu, prestativa como sempre, se prontificou em fazer muitas e muitas fotos de seu adorado irmão junto aos amigos que tanto estimava. Anos depois, duas dessas fotos se tornariam as preferidas de Ichigo, uma com Rukia no centro, Inoue e Ishida de um lado, Sado e ele do outro, o grupo inicial. E a outra, ele e Rukia ao centro, com o trio inicial à esquerda e os três que não se envolveram tão diretamente nas lutas, à direita.

Dessa dita, regada a muito refrigerante, doces e sanduíches, a animada confraternização seguiu até o entardecer. E, ao fim do evento, Ichigo ficou muito contente quando seu pai concordou, sem qualquer ressalva ou comentário embaraçoso, que ele não fosse para casa, mas seguisse ao lado de Rukia para a casa de Urahara; ele só omitiu do pai que Urahara lhes chamara mais para que a casa não ficasse vazia, pois ele e sua trupe tinham outros planos para aquela noite.

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Já era bem tarde quando Ichigo e Rukia adentraram, abraçados, o quarto separado para eles. O jovem se atirou no futon, puxando a pequena consigo, e seus lábios cobiçosos se colaram de imediato.

– Se eles demorassem mais dez minutos pra ir embora, eu ia te agarrar ali mesmo.

Rukia riu levemente.

– Esse seu lado pervertido ainda é novidade pra mim.

– Pode ficar tranquila que essa noite eu te mostro qualquer lado meu que ainda não conheça.

– Bobo! - bronqueou risonha e deu um tapinha no ombro dele.

Beijaram-se. Rukia também sentia-se ansiosa por um momento de intimidade com ele, afinal não fazia a menor ideia de quando poderiam estar juntos outra vez. Talvez Ichigo fosse convidado para a cerimônia de honrarias, mas sendo esse um evento que envolveria todas as treze equipes havia uma pequena probabilidade disso não ocorrer, e ainda que Ichigo pudesse estar presente, um evento tão grande por certo demoraria um bom tempo para ser organizado.

– Diz que me ama - ele pediu num tom dengoso que só usava naqueles momentos de completa entrega.

– Eu te amo - ela sussurrou ao pé do ouvido dele, mordiscando-o ali.

Abraçaram-se e permaneceram assim um tempo, até que ele passou a despi-la, e ela logo fez o mesmo com ele. Sendo a casa tão ampla, a privacidade do quarto era tal que ainda que não estivessem apenas os dois ali, somente a lua e as estrelas podiam escutar suas juras de amor, beijos estalados, respirar arfante, grunhidos e gemidos, enfim, os sons típicos de um fulgaz enlace amoroso. Assim, eles consumaram o amor que os unia.

Ao amanhecer, a claridade que adentrava a janela fez Ichigo levar a mão à frente dos olhos; esquecera-se de fechá-la durante a noite, tão agitada. Foi então que ele sentiu o corpo miúdo junto de si se mexer.

– Que pena, coelhinha, já é dia...

– Você vai virar um ogro agora?

– Boba!

– Aprendi com o melhor.

Ele suspirou fundo.

– Você tem que voltar para a SoulSociety,não é? - perguntou num tom amuado, afagando os cabelos dela.

– Não, me deram dois dias de folga.

– É sério? - retrucou animado. – Você vai passar o dia aqui comigo?

Ela assentiu tranquilamente, alisando a mão dele.

– Ah, o dia começou bem. Muito bem!

Trocaram um beijo demorado e só muito mais tarde quiseram deixar o aconchegante quarto. Depois de uma precária refeição matinal - que falta Tessai fazia -, seguiram dali para um dia repleto das melhores atrações que o mundo humano tinha a oferecer.

Mas apesar de toda a animosidade e calmaria, a conexão que Ichigo mantinha com Rukia o fazia capaz de saber que ela não estava de todo recobrada do trauma. De tempos em tempos, ele dizia que ela não precisava fingir que estava feliz só para não preocupá-lo, pois ele estaria com ela da mesma forma, em meio aos risos ou em meio às lágrimas. Felizmente, as lágrimas, se ainda não eram nulas, vinham diminuindo dia após dia e ela recobrava a alegria e fortaleza de antes, e nada poderia fazê-lo mais feliz do que ajudá-la nesse processo.

Assim, caminhando ao lado de Rukia pelas ruas movimentadas de Karakura, Ichigo se sentia tranquilo quanto ao futuro, pois, desde que estivesse com ela, tudo estaria bem para ele.

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Haviam se passado alguns dias desde a formatura de Ichigo, e já muito antes disso a atividade hollow em Karakura era tão baixa que o ex-shinigami substituto, que atualmente era o titular, podia dar cabo das ocorrências sem problemas, razão pela qual Urahara e Yoruichi já nem se atentavam a isso e apenas se dedicavam ao monitoramento de uma área que mesmo após quase quatro anos ainda oferecia riscos aos cidadãos do distrito: o descampado onde Ichigo e Sousuke Aizen haviam se enfrentado. Porém nesse dia, Yoruichi deixou de acompanhar Kisuke nas expedições de coleta de dados para receber a visita da capitã Soifon, e essa lhe trazia novas preocupantes acerca do capitão da Equipe Seis.

Após sorver um bom gole de chá, Soifon prosseguiu com sua narrativa:

– É lamentável... Ao passo que a carreira da irmã ascende, a dele decai, vertiginosamente. Ele não é nem uma sombra do capitão que já foi. Tem se mostrado totalmente desinteressado e se não for nominalmente cobrado, não assume qualquer responsabilidade ou missão, sendo que antes ele queria estar envolvido em absolutamente tudo.

– Mas que raios... - praguejou a morena. – Até na hora de sofrer o Byakuya tem que querer ser melhor que os outros. Precisamos tomar alguma providência.

– Precisamos? - retrucou com certo espanto.

– Claro! E não se faça de desentendida que eu já notei o quanto você tem estado preocupada com ele. Faz sentido - começou a provocação –, uma vez que você superou sua paixão pelo Kisuke, agora deve estar interessada no Kuchiki. Sim, faz todo o sentido.

Com uma muda exclamação nos lábios, a jovem capitã arregalou os olhos, indignada.

– A senhora não me comece com essas histórias descabidas! - vociferou.

Brincalhona, a morena rebateu:

– Nem adianta ficar brava assim. Sei que estou certa!

– Nada disso! Não é que eu esteja tão preocupada com ele, apenas acho que seria uma grande baixa para a SoulSociety perder um oficial do nível dele.

Yoruichi se colocou em pé e andou pela sala, para disfarçar a própria apreensão.

– Byakuya é um cara extremado. Ele não vai sair dessa sozinho. Já posso até ver: ele irá se isolar de tudo e de todos até definhar por completo - declarou, apertando o peito, tal qual uma mãe aflita.

Em princípio, Soifon se assustou com o prognóstico, mas, vendo a mentora tão preocupada com outra pessoa, logo se sentiu enciumada.

– Ora, também não precisa ficar desse jeito, minha senhora Yoruichi. Se eu imaginasse que a notícia iria deixá-la tão alarmada não teria dito nada.

– Não, você fez bem em me contar. Quero que faça um favor pra mim.

– E o que seria? - rebateu com desconfiança.

– Peça para o Abarai vir até aqui, quero falar com ele.

– Se a senhora acha necessário, muito bem.

– Sim, por favor. Eu não posso ir pra lá agora, tenho que ajudar Kisuke com algumas coisas.

Claramente mal-humorada, a capitã se colocou de pé.

– Que seja!

Depois que Soifon se foi, e sem nem se despedir, Yoruichi riu do jeito dela e comentou consigo:

– É uma pimentinha mesmo.

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Era uma manhã ensolarada em Seireitei, quando Renji recebeu uma borboleta negra trazendo um recado da capitã da Equipe Dois. Ele estava internado e em observação na sede da Equipe Quatro após ter sido ferido enfrentando um VastoLord numa missão - e estava em um quarto particular por cortesia da capitã Unohana.

– Bom dia, vice-capitão Abarai - saudou Isane com um sorriso amigável, ao adentrar o quarto. – Eu trouxe sua refeição! E bem reforçada!

– Atenciosa como sempre, vice-capitã Kotetsu. Sou-lhe grato pelos cuidados - falou com um ar maroto, ainda deitado, e deu uma piscadela.

Isane ficou tão desconcertada que por pouco não derrubou todo o conteúdo da bandeja que trouxera encima do ruivo. Depois que ela preparou tudo ali, ele meneou a cabeça em agradecimento e se sentou no leito.

– Vice-capitã, você saberia me dizer se vou ter alta hoje? Porque acabei de receber um chamado da capitã Soifon.

– Pode até ser, o senhor me parece bem melhor.

– Tudo graças à senhorita - ele gracejou outra vez, fazendo-a enrubescer.

– Eu vou confirmar com a capitã! - exclamou alto, tentando esconder o acanhamento, e seguiu em direção à porta do quarto.

– Senhorita Isane? - ele chamou num tom muito brando.

– Sim? - ela falou por sobre o ombro, bem corada ainda, e até mais por ele tê-la chamado pelo nome.

– Insista com ela, por favor. Não é um bom momento para eu estar afastado, minha equipe precisa de mim.

– Verei o que posso fazer, vice-capitão - falou compreensiva e sorriu.

– Obrigado.

Apesar da disposição e do bom humor que mantinha, os últimos meses vinham sendo conturbados para Renji. Para poupar seu capitão - que parecia ter entrado na pior fase da carreira -, ele tomara para si mais responsabilidades do que conseguia arcar; mesmo que seu poder se aprimorasse a cada dia, a diferença entre ele e o capitão ainda era grande. Embora essa fosse uma realidade também com as outras equipes, Renji parecia não fazer caso disso, estava determinado em manter a boa reputação alcançada por Byakuya para a Equipe Seis ao longo dos anos mesmo a custa do próprio sangue. Agia assim tanto pelo grupo, quanto por Rukia, pois julgava que ela poderia se entristecer com o declínio do status da Equipe Seis, porém, em virtude do trauma vivido, não teria forças em si mesma para fazer muito a respeito.

– Só espero que a capitã Soifon não me venha com mais problemas...

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Diasdepois...

Kisuke chegou ao seu lar com um sorriso abobado nos lábios em virtude de uma excelente negociação que acabara de fazer, e esse sorriso se alargou ao encontrar sua querida Yoruichi já de volta à casa também. Sentada à mesa da sala principal, ela lia algo que parecia ser uma carta.

– O que é isso, minha cara?

– Um convite.

– Convite?

– Sim, logo após a próxima cerimônia de honrarias, acontecerá uma festa na mansão Kuchiki em comemoração ao posto de vice-capitã alcançado por Rukia. A propósito, você não foi convidado.

– Ah, eu devia saber que para coisas assim não iriam me chamar - comentou, já sem sorrir.

– Vou lembrar de trazer uns doces pra você.

– Como se esse fosse o maior dos meus problemas. E imagino que seja ocasião para comparecer com traje tradicional?

– Claro que sim. Acho que vou precisar comprar uns quimonos novos... É, e vou comprar alguns para Soifon também!

Ele bufou mal-humorado.

– Kisuke, você não acha que a Soifon e o Byakuya formariam um bom par?

Os olhos do loiro cintilaram com o comentário.

Ho, eu gostei disso! Sim, sim eu acho que sim, me fale mais a respeito.

Após encará-lo com um olhar perscrutador, a morena retrucou:

– Céus, homem, ainda não parou com essa bobagem de sentir ciúme do Byakuya? O que há com você?

Sentando-se no chão e bem ao lado dela, ele depositou um beijo carinhoso em sua testa e respondeu de modo enigmático:

– Você nunca me entenderia, mas talvez a capitã Soifon sim.

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Mal Renji adentrou o gabinete já recebeu uma ordem.

– Sente-se.

– Pois não, capitão.

– Acabei de receber uma solicitação do capitão Kurotsuchi. Ele disse que necessita de mais amostras daquele material coletado junto ao portal próximo ao píer daquela cidade do Mundo Real. Encarregue-se disso.

– Sim, senhor.

– Vou sair em missão hoje e só devo voltar...

– Hoje? - sobressaltou-se o ruivo. – Mas a cerimônia de honrarias da Rukia é amanhã! O senhor precisa estar presente!

– Isso não passa de uma mera formalidade. Não é necessário que eu esteja presente.

– Como assim não é necessário, capitão?

– Não me lembro de ter lhe dado licença para contestações.

Indiferente, o ruivo se levantou e se afastou alguns passos da mesa.

– Você quer fazer o favor de se sentar? - Byakuya exigiu, mas o jovem nem se mexeu. – Eu não vou repetir, Renji.

– Eu sei de tudo - ele falou num tom baixo, então voltou o rosto na direção do capitão, que pestanejou momentaneamente, mas logo retomou o que dizia.

– Depois de coletar esses dados, você irá...

– Eu disse que sei de tudo! - cortou-o, gritando a plenos pulmões. – Rukia me contou!

Byakuya o encarou pesadamente, mas como se mantivesse calado, Renji bateu as mãos na mesa e exclamou com fúria:

– Diga alguma coisa!

– Se já está sabendo, devia apoiar minha resolução. Este será um momento importante pra ela, minha presença só iria estragar tudo.

– Mas será que o senhor não entende?

– E o que há para entender?

– Claro que a Rukia vai querer que o senhor esteja lá! Como pode achar que toda admiração que ela sente pelo senhor tenha acabado? Como shinigami ela e eu nos espelhamos no senhor! Crescemos tendo o senhor como exemplo!

– Renji, por favor... não torne tudo mais difícil.

– O senhor é que está fazendo isso. Está se afastando de nós dia após dia! Onde isso vai parar?

Byakuya abaixou a fronte.

– O senhor não sente orgulho dela? Não está feliz com sua conquista?

– Claro que estou.

– Então como pode pensar em não estar lá? Por favor, capitão, eu lhe imploro: não nos faça uma desfeita dessas.

Byakuya não disse nada, então sem disfarçar o desapontamento, Renji se dirigiu à porta.

– Às vezes me pergunto se não estou na presença de um impostor... Mas vou torcer para que o verdadeiro capitão Byakuya Kuchiki esteja presente amanhã na cerimônia.

E sem qualquer reverência, ele deixou a sala.

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Um sol bonito brilhava naquela típica manhã de primavera, mas se nem mesmo a realidade de não estar em falta com ninguém podia melhorar o ânimo de Byakuya, não seria um clima ameno que iria fazer diferença.

Assentado a uma mesa no jardim da mansão, ele tinha um copo de chá intocado à sua frente enquanto decidia se iria ou não ao evento logo mais. Foi então que começou a lembrar dos tempos em que vivera as mesmas situações pelas quais Rukia vinha passando. Lembrou-se da sua própria formatura na academia de shinigami; de sua admissão na Equipe Seis; das raras, porém significativas, felicitações de seu avô; dos treinos com Yoruichi; de sua ascensão de postos até a colocação de vice-capitão; do exílio de Yoruichi, após o banimento de Kisuke Urahara, e do secreto pesar que sentiu com a ausência dela quando conquistou seu bankai e, pouco depois disso, quando foi honrado com o tão cobiçado título de capitão - uma brilhante trajetória em apenas uns cem anos.

Passada quase uma hora, e tendo resolvido que compareceria à cerimônia de honrarias, ele foi se aprontar. Mais tarde, foi um dos últimos a chegar ao salão onde há muitos anos participara daquele mesmo tipo de solenidade. Tão logo se acomodou e foi notado, Rukia trocou um rápido olhar com ele e um estreito sorriso. Ele reparou que Renji e Ichigo estavam o mais próximo que podiam dela e ambos pareciam tão felizes quanto ela própria.

Tudo transcorreu perfeitamente bem e, no fim, ele precisou reconhecer que foi bom ter cedido ao apelo de Renji, ver Rukia tão contente com a braçadeira de vice-capitã da Equipe Treze, a mesma que fora do notável Kaien Shiba, deveras lhe encheu de orgulho; se seu coração não estivesse tão estéril pela tristeza, alguma felicidade poderia ter brotado ali.

– Minhas sinceras felicitações, senhorita Kuchiki - ele a cumprimentou com toda a polidez que a ocasião exigia, e até mais. – Estou certo de que fez por merecer.

– Muito obrigada, senhor meu irmão!

Sentiu algo mudado no agir dela e até ficou um tanto intrigado por ela fitá-lo nos olhos sem qualquer vestígio de constrangimento. Seria o ocorrido uma página realmente virada para ela? Como ele queria acreditar nisso, porém não conseguia.

A cerimônia terminou, a tarde passou rápida e, por fim, a noite chegou. O pátio e os jardins da mansão estavam cheios como há tempos não acontecia. Uma festa realmente glamourosa, um raro encontro entre a milícia shinigami e a elite nobre. Sendo ele o anfitrião, era seu dever saudar e cumprimentar os inúmeros convidados. Munido de um kuromotsuki, ostentando o brasão da família Kuchiki, um hakama cinza escuro e seu apetrecho na franja dos cabelos, Byakuya desempenhava seu papel sem qualquer entusiasmo e já começava a se fatigar dessa obrigação - mesmo mal tendo começado - quando Rukia chegou ali.

Ela vinha acompanhada de Ichigo Kurosaki e de Renji, ambos vestidos de modo bem similar - hakama, kimono e haori. Reparando no requinte do kimono que a pequena exibia, Byakuya ficou admirado - tratava-se de um belo furisode com estampas floridas, cheio de brocados e bordados. Além disso, ela estava com os cabelos presos por um adornado kanzashi, ajeitados num penteado clássico. Achou-a linda, tão linda quanto Hisana no dia de seu casamento. Notou também que Rukia se portava com uma nobre autêntica, com gestos calmos e graciosos; Renji também sabia se portar bastante bem, mas Ichigo mostrava-se perdido e pouco à vontade.

No espírito do mais puro dever, ele se aproximou para saudá-los. Rukia estava entre os dois rapazes e sua aproximação causou um constrangimento natural nos três, por isso ele buscou ser bem conciso, dizendo que eram bem vindos e que ficassem à vontade. Antes de se retirar, Byakuya reparou que Rukia usava um anel prateado na mão direita e, voltando discretamente o olhar para os dedos de Ichigo, constatou que ele também tinha um, compreendeu então se tratar de um costume do mundo humano ao qual ela havia aderido por influência do rapaz.

Outra presença que ele não pôde deixar de notar, em virtude do bom gosto da composição de trajes que exibia, foi a da capitã Soifon. Com ela, diferente do que fizera com os jovens, empreendeu uma acolhida mais demorada, saudou-a com a mesma reverência pertinente aos mais nobres e disse que estaria à disposição para qualquer eventualidade. Achou-a mais singela no falar e nos gestos, porém a conversa não se estendeu muito. Quando ele se retirou, Soifon voltou para junto dos demais capitães e foi neste momento que Byakuya deu por falta de Yoruichi; pois se ela estivesse presente, Soifon por certo estaria em sua companhia - bem que ele estranhou ter conseguido despistar Yoruichi tão facilmente na cerimônia; claro que ela, estando na SoulSociety, não demoraria a arrumar algo mais obscuro para fazer, foi a explicação que ele encontrou para sua ausência e, bem certo de que não seria nada aprazível confrontá-la, rogou para que continuasse sumida.

As horas se arrastaram até que as fartas iguarias, servidas sem trégua, recebessem mais atenção dos convidados do que ele próprio. Desgastado, ele pensava em fazer sua costumeira caminhada pelo jardim e então se recolher, mas mudou de ideia ao avistar Rukia e Ichigo deixando o salão pela mesma rota que ele intentava - Renji enfim os deixara a sós, mais ocupado em entreter a senhorita Kotetsu. Acerca desses dois últimos, Byakuya escutara uns boatos de que vinham sendo vistos juntos com alguma frequência, em face ao flerte que ali mantinham, constatou que não eram apenas boatos e imaginou que aquilo logo iria gerar uma boa repercussão, sobretudo por Renji ter integrado a Equipe Onze, equipe contra a qual a equipe de Isane mantinha uma declarada rivalidade.

Suspirou fundo e ia se retirando, quando escutou uma nota de shamisen. Já sabendo que uma das nobres presentes faria um número de dança, voltou o rosto por sobre o ombro, por mera curiosidade em saber quem fora a eleita. Qual não foi sua surpresa, e desprazer, ao ver Yoruichi com um grande e adornado leque à mão. Logo ela se tornou o centro das atenções em virtude de sua famosa perícia na arte. Foi uma performance impecável, que ele assistiu na íntegra, simplesmente por não ter nada além para fazer.

Tão logo conseguiu se esquivar dos cumprimentos, Yoruichi veio até ele.

– Típico de você mal chegar e já se fazer notar desse jeito - foi a acolhida dele.

– Amistoso como sempre, Byakuya-guri! - ela retrucou e sorriu daquele jeito matreiro que ele conhecia tão bem e detestava. – Que bom que ainda está por aqui. Eu queria mesmo falar contigo.

– Já não me trouxe problemas o suficiente transtornando as ideias do meu vice-capitão? Teve que vir em pessoa me aborrecer com suas bobagens?

– Se você deixasse de ser tão cabeça-dura, evitaria isso.

Ele não deu resposta e só não se retirou sem ao menos ouvi-la, porque percebeu a fisionomia dela se transformando, perdendo a altivez e irreverência e adquirindo uma rara serenidade. Assim, se mantiveram calados, de frente um para o outro, encarando-se e sob o olhar muito atento e apreensivo da capitã Soifon.

– Você precisa reagir, Byakuya - ela quebrou o silêncio, num timbre totalmente diferente de até então, uma voz branda cheia de piedade e preocupação.

Ele já esperava por algo do tipo, mas não conseguiu não ficar abalado, contudo, soube se dominar bem rápido e respondeu com frieza.

– Não faço ideia do que esteja falando.

– Vamos, não seja assim... - ela rebateu num tom baixo.

Só de olhá-la, ele pôde sentir o quanto estava nervosa. Uma reação compreensível sendo que ela se alterava tanto quando tentava ser séria, sobretudo com ele. Nesses raros momentos, ela lhe lançava um olhar piedoso de uma irmã mais velha que na frente dos outros agia como quem só quisesse azucriná-lo, mas que no íntimo vibrava com cada uma de suas conquistas e se inquietava com cada um de seus percalços. Mas isso, longe de fazer com que ele se sentisse melhor, só fez aumentar a tristeza que o consumia.

– Não espere muito mais de mim, Yoruichi - decretou com os olhos sem brilho.

Ela se sobressaltou, claramente chocada, então cruzou os braços, virou o rosto de lado e retrucou:

– Francamente, Byakuya Kuchiki, você é a pessoa mais irritante que eu conheço!

Ele chegou a achar engraçado o modo quase infantil com que aquela declaração lhe chegou aos ouvidos. Então, sem qualquer motivo, ele deu um passo adiante e pousou uma mão no rosto dela; um gesto tão inusitado que a olhos desatentos poderia parecer uma carícia.

– Depois que você e Urahara foram inocentados, e sua família recobrou o prestígio, eu devia ter me casado com você - ele falou numa simplicidade ímpar, e logo depois afastou a mão, porém permaneceu onde estava.

Yoruichi demonstrou ter se espantado bem mais do que ele esperava com o comentário, e só depois de uns bons instantes, ela retrucou:

– Por quê? O que isso tem a ver? - seu tom foi impaciente.

– Se eu já fosse casado, talvez aquela mulher não tivesse se interessado por mim.

– Céus, você continua remoendo isso? Passou, Byakuya! Você não pode continuar agarrado ao passado assim - advertiu num tom brando ainda, porém mais firme. – Você é ou não é um Kuchiki? Reaja!

Pois a reação dele foi precisamente não esboçar a menor reação. Bufando inconformada, a morena abaixou a cabeça.

– Sim, já houve vários casamentos entre nossas famílias - ela voltou a falar após um tempo, mas num tom tão sumido e introspectivo, que mais parecia estar falando consigo mesma -, mas nós dois, seria ridículo... Você tem idade pra ser meu filho.

– Curioso como alguém que execute os passos da Kamigata-mae tão bem, possa calcular a diferença entre dois números tão mal.

Ela ergueu o rosto, lançando-lhe um olhar feroz, contudo ele voltou à imobilidade, demonstrando que não ia dar seguimento à discussão. Ao perceber isso e como ainda estavam muito próximos, Yoruichi, num ato mais desesperado, apertou-o com força pelos braços, dizendo por meio desse gesto que não se conformava com sua atitude. Ainda que não tenha reagido de imediato, no sentido de se desvencilhar, sustentando o olhar de angustia dela, com os mesmos olhos sem brilho, Byakuya respondeu:

– Não era você que gostava de dizer que as coisas nem sempre acontecem da maneira que queremos? Pois então trate de aceitar: é o fim pra mim.

Remexendo a cabeça numa negativa enérgica, ela contradisse:

– Se tem alguém aqui precisando aceitar alguma coisa, esse alguém é você! De onde você tirou que pode simplesmente sair das nossas vidas? Quer parar de agir como se fosse um robô que perdeu a serventia? Já chega!

Ainda sustentando o olhar dela, agora inflamado de ira, ele rebateu:

– Exatamente, já chega. Eu não poderia ter dito melhor.

Por fim, desvencilhando-se dos braços dela, ele se foi dali para não ser mais visto naquela noite.

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À borda de um desfiladeiro, no mundo das almas, Rukia correu a vista pela vastidão do terreno rochoso que se estendia à sua frente. Estivera à caça de um Adjucas, mas acabara de perder seu rastro.

– É uma significativa vantagem que eu possa usar meu bankai à distância, mas preciso urgentemente aprimorar o shunpo.

Fitava seu rastreador, quando captou um sinal atípico.

– O que é isso? Um shinigami?

Intrigada, seguiu na direção do sinal. Imaginando que sua aproximação poderia interferir no trabalho de algum colega, achou conveniente ocultar sua reiatsu ao menor nível que conseguia, e obteve um êxito notável nisso - essa era mais uma das habilidades que aperfeiçoara com a ajuda de Ichigo. Foi desse modo que após ter sobrevoado gargantas escarpadas e um imenso cânion que ela captou a reiatsu de Byakuya.

– Mas o que ele faz aqui?

A primeira resposta que lhe ocorreu foi a mais óbvia: estava sendo vigiada por ele. Indignada, ela se perguntou há quanto tempo ele devia estar fazendo aquilo. Não era nenhum segredo a super-proteção que Byakuya exercia em relação à ela. No passado, isso fazia com que se sentisse alentada e até especial, mas, nas atuais circunstâncias, lhe causou uma sensação horrível de perseguição. Engoliu em seco e só quis sumir dali; se não estava mais encontrando o Adjucas,podia ser porque o nobre já tinha dado cabo dele.

– Mas espera, não faz sentido... Se ele estivesse me vigiando, não ia deixar a reiatsu exposta desse jeito.

Lembrando que ela sim era quem estava com o poder oculto, usou o rastreador para achar a posição exata do irmão. A varredura do equipamento logo indicou outra presença, e de poder elevado. Ainda mais intrigada, ela retomou a busca. Não precisou procurar muito e encontrou o irmão duelando contra um hollow que se não era um Arrankar, era seguramente um VastoLord. O hollow devia ter uns três metros de altura, seu corpo era de uma palidez mórbida e muito esguio, e ele usava como espada um canino de uma fera gigante.

Escondendo-se numa fenda de rocha, Rukia ficou observando e de imediato notou que o irmão estava muito diferente no aspecto físico se comparado à última vez que o vira, na festa na mansão. Em função da luta, ele estava ferido e tinha o shihakusho e a capa danificados, porém, muito mais notório que isso era a barba crescida, sua magreza e os cabelos mais longos.

– Mas o que se passa?

Reparando nos golpes imprecisos da zanpakutou dele, ela sentiu que havia algo errado. Claro que se tratava de um adversário difícil, mas depois da batalha contra Aizen, os shinigami haviam se aprimorado muito, e Byakuya não era exceção; ela mesma já tinha presenciado ele derrotar outros hollows do mesmo nível com relativa facilidade.

– Ele não está lutando a sério. Parece que quer ser vencido.

Num lampejo, Rukia levou a mão sobre os lábios, ao compreender o que de fato acontecia; o caso todo tinha sim a ver com ela, mas não da maneira como havia imaginado. Há tempos Renji e Yoruichi vinham lhe advertindo de que seu irmão estava à beira de uma crise depressiva irrecuperável por causa do que havia lhe causado. Mas ela teimou em ignorar esses alertas, porque era mais simples se auto-intitular a grande vítima da circunstância do que enfrentar o verdadeiro problema. Ao passo que ela assim raciocinava, recriminando-se pela covardia, Byakuya e o hollow passaram a trocar golpes numa velocidade que ela não podia acompanhar, mas eis que um estrondo colocou fim as suas reflexões.

Saltando com uma bocarra escancarada na direção do capitão e do outro hollow, aquele Adjucas que ela não dera cabo apareceu.

– Não! - ela gritou, denunciando sua presença, e logo se lançou na direção do Adjucas.

Ao avistá-la, Byakuya vidrou os olhos e interveio mais que depressa.

Kurohitsugi!- ele conjurou contra o Adjucas, fazendo surgiu um invólucro de energia escura que o confinou e o aniquilou em poucos instantes. Tudo muito rápido, mas, ainda assim, tempo demais para se estar à mercê de um VastoLord.

Rukia se deteve no lugar, a uns dez metros de distância e, vendo que o VastoLord erguia a arma rústica para degolar seu irmão, precisou agir na rapidez de um pensamento.

Bankai: Hage Sode-no Shirayuki! - bradou ela.

Byakuya se voltou para trás em tempo de ver seu adversário confuso com um brilho ofuscante sob os pés. Num rápido reflexo, o nobre soube que precisava se afastar, então desapareceu num shunpo. No instante seguinte, uma mão gigantesca perfurou o solo e apertou o hollow entre os dedos, como se este fosse um pequenino brinquedo.

– O senhor está bem? - Rukia perguntou assim que o irmão surgiu a seu lado.

– Aquilo é... - ele parecia atônito, vendo surgir da terra a figura de uma mulher, de uns trinta metros de altura, entalhada em gelo que se assemelhava a cristal.

A figura, de silhueta esbelta e face inanimada, ergueu seu imenso braço translúcido ao céu e esmagou o hollow. Em seguida, começou a se desfazer, em fase com a desfragmentação do derrotado, de modo que uma nuvem de poeira negra misturou-se a uma cintilante até que não restasse nenhuma nem outra.

– Hage Sode-no Shirayuki, meu bankai - Rukia confirmou e abaixou a fronte.

Ainda ao lado dela, estático, ele falou:

– Seu bankai... Então não há mais nada que você precise aprender, em pouco tempo poderá assumir meu lugar.

Rukia pestanejou e logo ergueu o rosto a ele.

– Assumir seu lugar? - ponderou um pouco. – Não, eu não posso acreditar nisso - falou, movendo a cabeça em negativa. – O senhor não pode estar querendo desistir de tudo só por causa daquilo que aconteceu. Não pode!

Ele não deu resposta, sequer lhe virou o rosto. Por isso, ela exclamou, em tom de reprovação:

– Mas será que não vê que assim estará dando a vitória praquela mulher por completo?

Ficou olhando na direção dele, inconformada, mas ele persistia em não se manifestar.

– Hein? - reclamou impaciente e então ele lhe deu as costas.

Rukia estreitou a vista no número seis na capa dele e também ficou quieta um tempo, mas logo voltou a falar:

– Por causa da promessa que você fez a sua esposa - o tom dela era sério e solene –, você me tirou do meu caminho. Um caminho no qual eu teria sido uma shinigami mediana de pouca ou nenhuma reputação, e me trouxe para a família Kuchiki.

– Que bobagem... - ele enfim se manifestou, mas de costas ainda. – Ter sido uma shinigami mediana nunca foi seu destino. Mas uma coisa é certa: - hesitou um instante – se eu não tivesse entrado em sua vida, aquela desgraça nunca teria acontecido.

– Ora, isso sim que é uma bobagem... Eu não falei como se estivesse lamentando, o senhor me entendeu errado...

Ele voltou a ficar quieto. Rukia sentiu então que era um momento oportuno para esclarecer as coisas de uma vez, porém ao entreabrir os lábios, ficou tensa e trêmula. Suspirou fundo, buscando se dominar, até que enfim conseguiu prosseguir:

– Vejo que o dano causado por aquela mulher se alastrou no senhor como um câncer... E é tudo minha culpa. É, chega a ser insano que o senhor esteja se atormentando desse jeito quando a verdadeira culpada sou eu.

Imediatamente, Byakuya se voltou a ela, com uma expressão atônita e interrogativa. Como ela permanecesse calada, foi a vez dele exclamar exasperado:

– Você não teve culpa de nada!

Rukia virou o rosto de lado e deu um riso amargo.

– Não tive? É, vinha sendo bem cômodo pra mim seguir acreditando nisso, mas eu sabia que mais cedo ou mais tarde a hora de enfrentar esse problema iria chegar - ainda sem olhá-lo, acrescentou em tom mais baixo: – Já faz um bom tempo que eu entendi que você sempre me tratou com frieza e severidade porque queria que eu me tornasse mais forte.

– É verdade, mas agora isso não vem ao caso.

– Claro que vem... - ela voltou a encará-lo. – Não adianta nada o senhor insistir em tomar toda a culpa para si, isso não muda o fato de que aquela mulher me usou para atingir você porque eu fui fraca! - exclamou com raiva de si mesma.

O nobre remexeu a cabeça numa negativa enérgica e, antes que ele dissesse qualquer coisa, Rukia insistiu:

– Não adianta tentar encobrir. Na verdade, toda vez que o senhor age assim, me protegendo desse jeito, eu me sinto ainda pior. Eu fui fraca! - exclamou. – Eu sou uma fraca! Será que não percebe que, por mim mesma, eu nunca teria chegado até aqui?

– Está enganada...

– Enganada coisa nenhuma! - vociferou, mas logo não conseguiu mais encará-lo e abaixou o rosto. – Por ser tão fraca eu só lhe trago problemas. Não passo de uma desgraça na sua vida. Como pode achar que uma parasita como eu poderia te substituir?

Estando com a cabeça abaixada, ela não pôde ver o quanto ele se chocou com aquelas palavras.

– Pare com isso, Rukia.

– Por que, se é a mais pura verdade? - ela levantou o rosto num ímpeto e exclamou: – Olhe pra você! - fitava-o de alto abaixo. – Está se destruindo por minha causa!

Por fim, não conseguindo mais se conter, ela começou a chorar.

Como estavam próximos, Byakuya só precisou dar dois passos adiante para alcançá-la, então, sem qualquer aviso, ele puxou Rukia para os braços, fazendo-a repousar a cabeça em seu peito. Em poucos instantes, ela pôde perceber que ele também começou a chorar. Sem se preocupar em esconder esse fato, ele falou:

– Me desculpe... Por tudo. Eu não imaginava... Ao que parece pra mim também estava sendo mais cômodo encará-la como uma moça comum apenas e não como a shinigami cheia de virtudes que é.

Comovida, Rukia se agarrou às vestes dele e deixou que as lágrimas fluíssem com mais vigor. Ficaram unidos como dois irmãos realmente, por um bom tempo, ambos chorando. E naquele choro tão adiado e sentido puderam enfim se libertar da teia de tristeza que os enredava.

Depois que o choro cessou, eles se desvencilharam, então Byakuya se assentou num elevado das pedras e Rukia se sentou no chão, segurando os joelhos.

– Parece muito óbvio agora, por isso não se aborreça por eu perguntar: Mas naquele dia que veio até mim, você realmente me perdoou?

– Sim... Também tive dúvidas de ter sido sincera, mas me apeguei à ideia de que mesmo que aquilo não fizesse diferença pra mim, poderia fazer pra você, só que, com o tempo, começou sim a fazer diferença pra mim. Foi como se aquilo tivesse se tornado um marco que me lembrava de tempo em tempo que eu não podia me entregar e isso tirou o peso dos meus ombros e me fortaleceu. O senhor devia tentar.

– Eu?

– Sim, o senhor precisa si perdoar. Precisa tomar essa atitude pra depois recomeçar.

Byakuya a encarou demoradamente e por fim assentiu. Depois ele se colocou de pé, desembainhou a zanpakutou e abriu um portal.

– Desculpe ter comprometido seu trabalho.

Deduzindo que fosse uma evasiva, Rukia suspirou compreensiva e meneou a cabeça como quem dissesse "tudo bem". Imaginando que ele fosse partir na frente, deu um pequeno sobressalto ao ouvi-lo dizer, por sobre o ombro:

– Me faz companhia até a praça?

Encarou-o com surpresa, por causa do tom espontâneo e, vendo-o esboçar um casto sorriso, ficou ainda mais espantada, mas pouco depois se ergueu e falou:

– Claro.

xxx xxx xxxx

Dezenove meses depois.

Byakuya protegeu os olhos da claridade, ao despertar com o canto alto de um passarinho. Levantou-se, veio até o jardim e não demorou a encontrar um ninho na calha que circundava seu telhado.

– Isso é lugar de construírem sua casa, sendo que tinham a cerejeira em flor bem ali?

Deu de ombros e retornou ao quarto para se aprontar. Vestiu seu impecável uniforme, ajeitou nos cabelos a relíquia de família, o fino cachecol no pescoço e tomou sua capa. Se fosse para a sede de sua equipe, chegaria muito cedo, então pensou em fazer um trajeto diferente e mais longo para gastar o tempo.

Ao deixar o aposento, foi interpelado por sua governanta:

– Bom dia, honorável senhor Kuchiki. Vós despertastes mais cedo, mas já mandarei servir o desjejum.

– Não é necessário, senhora Sayaka. Pretendo fazer minha refeição na sede.

– Como quiser, meu senhor.

Sem qualquer pressa, ele deixou a mansão sob um sol pálido naquele começo de manhã. Andava ansioso por conta de alguns boatos sobre a nomeação de novos capitães. Já não era sem tempo, há quase cinco anos as equipes três, cinco e nove estavam sob a responsabilidade de seus vice-capitães e, consequentemente, enfrentando dificuldades. Ele não acreditava realmente que algum dos atuais vice-capitães viesse a ser promovido, mas, mesmo assim, pensava em recomendar Renji para uma das três vagas - pois, se haviam shinigami de nível de poder mais elevado do que os vice-capitães, estes se mantinham em total anonimato.

Distraído com esses assuntos, nem percebeu que se afastara em sua rota alternativa mais do que o planejado, então, do alto de uma colina, parando ali pôde notar o aumento progressivo de atividade nas ruas e vielas abaixo em mais um corriqueiro dia em Seireitei. Já estava há alguns bons instantes ali, apenas contemplando, quando avistou ao longe, perto da divisa da área urbana com área não-pavimentada, o jovem Ichigo Kurosaki. Rukia estava com ele, naturalmente. Ambos de shihakusho, caminhando em lentas passadas, rumo à praça. Não podia ter muita certeza em função da distância, mas deduziu pelas expressões que exibiam que deviam estar conversando sobre algum assunto sério. Repentinamente, porém, Rukia parou no lugar, sorriu ao rapaz, tomou-o pela mão e foi puxando-o apressadamente, apontando uma direção.

Tão logo os perdeu de vista, Byakuya riu sozinho e depois voltou a andar, mas, em pouco tempo, não conseguia parar de pensar na cena; os dois pareciam tão felizes, tão cúmplices. Refletindo a respeito, num repentino insight ele se recordou do valor que um relacionamento podia ter, ao compreender que toda aquela felicidade deles residia no simples fato de terem um ao outro. Então, numa reação quase instintiva, ele simplesmente desejou ter também alguém a seu lado. Acercando-se da situação, chegou a se assustar, mas logo se convenceu de que não havia nada de errado naquilo - deveras, o único empecilho que o impedia de se ariscar novamente no amor tinha sido criado por ele mesmo.

– Mas será que terei tanta sorte quanto ela?

Por hora, essa ainda era uma pergunta sem resposta, mas, pela primeira vez em muito tempo, Byakuya Kuchiki se sentiu apto em alimentar alguma esperança.

~ FIM ~

Vocabulário:

Furisode = quimono típico de moças solteiras.

Kuromontuski = quimono negro usado pelo líder da família, este quimono normalmente traz gravado o brasão da família na região do peito e das costas.

Kanzashi = pente de madeira, presilha.

Shamisen = instrumento musical de três cordas, similar ao banjo.

Kamigata-mae = dança típica japonesa, nascida na região de Kyoto e Osaka, normalmente realizada por mulheres, com um leque e ao som do shamisen ou de seu antecessor juita.

Sode-noShirayuki = Neve branca da donzela.

HageSonde-noShirayuki = Furiosa neve branca da donzela.

Kurohitsugi = Caixão negro, magia de ataque (hadou) número 90, usado por Aizen contra o capitão Komamura no episódio 176 do mangá.

Próximos: Epílogo, Bastidores (agradecimentos, notas finais, etc.).