Escondida no coração

Por Amanda Catarina

Bleach e personagens pertencem a Tite Kubo.

Capítulo 30: Epílogo

A lua bonita no céu era um convite à paz de espírito. Depois de um dia repleto de afazeres, Byakuya achou reconfortante poder apenas descansar sob tão belo luar. Em seu quarto, recostado à ombreira da porta que levava ao jardim, ele suspirou fundo e fechou os olhos. Foi então que, sem qualquer motivo, uma imagem se imprimiu em sua mente. Nada mais que uma cena, mas tão desconcertante que parte de si chegou a clamar: proibido.

Entretanto, afastá-la se mostrou impossível, então só lhe restou acolhê-la. E, ao fazê-lo, ficou impressionado com o poder dessa entidade chamada memória, pois, mesmo relutando, foi como se ele voltasse no tempo e revivesse o momento registrado pela lembrança detentora daquela imagem, a lembrança dos doces lábios de Rukia.

Consentir que a mente divagasse por essa senda era arriscado, tanto sabia que devia ser a primeira vez, desde a noite fatídica, que ele se permitia recordar do ato, não do abuso. Assim, foi inevitável que detalhes ainda não invocados passassem a se descortinar em sua mente: a textura da pele dela, a maciez dos cabelos, a delicadeza das mãos... Ela inteira ao alcance de seus toques e lábios.

De repente, inquietou-se: Teria Rukia lhe incitado tamanho desejo por causa da semelhança física com Hisana?

– É claro que sim - disse a si mesmo.

Porém o próprio dito lhe soou errôneo e isso o deixou muito intrigado.

Tomando o cuidado de não se deixar afetar pela emoção e buscando ser imparcial, encontrou coragem para pensar na diferença que foi viver no contexto tecido por Suzumi, se comparada à rotina que antes levava. Por tudo se manter íntegro em sua memória - a tão poderosa memória -, ele tinha condição de comparar precisamente os dois momentos: com o coração trancado ao amor, sua vida se assemelhava a um filme em preto e branco; devotado ao amor, tudo se tornou tingido de cores exuberantes e intensas.

Ele havia admitido, há bem pouco tempo, que aquele seu dogma de que a chave de seu coração havia sido levada por Hisana, caíra por terra. Agora, se via impelido a admitir também que o trauma que Suzumi lhe infligira fora pior que um pesadelo, porém tudo que sentiu não poderia ser para sempre menosprezado. Claro que não foi a melhor maneira de descobrir que podia sim amar outro alguém, contudo foi uma maneira.

Outra dúvida o inquietou: E se ao invés de Rukia, outra mulher, ou mesmo a própria Suzumi, houvesse ocupado aquele lugar, suas emoções teriam sido tão intensas?

Ele quis acreditar que sim, mas, no íntimo, tendeu ao não.

Ficou ainda mais intrigado, então, após refletir um pouco mais naquele contexto, acabou se acercando de um detalhe relevante: o ardil de Suzumi, pelo tempo que durou, deixou derribada uma muralha que ele mesmo havia erigido - a muralha que o impedia de se apaixonar por Rukia. Não chegou a ser um choque, mas ficou bem desconcertado ao pensar no quão depressa isso aconteceu, sem a restrição da muralha.

– Mas algo tão intenso daquele jeito em tão pouco tempo? Não, não faz sentido.

Imaginando que o sono e o cansaço já deviam estar lhe confundindo as ideias, virou o rosto de lado e tratou de deixar a reflexão toda em suspenso. Algum tempo se passou, ele já tinha até se erguido, no intuito de ir se deitar, mas eis que, numa fração de segundo, chegou a uma resposta para a aparente contradição.

Compreendeu que a coisa toda se desenrolara de modo tão abrasador por já haver algo enraizado em si. Tratava-se de uma verdade que nem ele mesmo havia percebido antes: no mais secreto de seu ser, uma paixão residia. Intuiu que não era algo novo, mas não conseguiu pontuar exatamente há quanto tempo devia estar lá, pois tal verdade só se tornara manifesta em função da forma como as coisas se deram - conscientemente, ele nunca teria cogitado que Rukia pudesse ser sua mulher, já que havia incutido na mente que isso era algo terminantemente proibido.

– Então era isso? Uma paixão escondida no coração.

Satisfeito por ter chegado a esse entendimento, Byakuya voltou a se recostar ali, tantas considerações afugentaram seu sono. Suspirou novamente e se tranquilizou dizendo que doravante seria mais simples lidar com essa realidade e garantir que aquela paixão não evoluísse. Ele não pretendia alimentá-la, mas não encontrou razão para querer extirpá-la também, bastava que continuasse onde até então havia estado.

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A seguir: Capítulo extra - Os bastidores, agradecimentos, notas finais...