Músicas do capítulo (retirar os espaços):
* Duruflé: Ubi Caritas pelo grupo Cambridge Singers: http:/ www. youtube. com/ watch?v=457nVpxJDkA
* Beethoven: "O wär' ich schön," de Fidelio, por Elizabeth Gale: http:/ www. youtube. com/ watch?v=qsrJ0xnXh0c
* Brahms: Intermezzo, E minor, Op.119 No. 2, por Heinrich Neuhaus: http:/ www. youtube. com/ watch?v=2DdLzGcYIGQ
* Philip Glass – Violin Concerto, 2nd movement por Adele Anthony e Ulster Orchestra: http:/ www. youtube. com/ watch?v=CsioM3GaAAY
Capítulo 26 – Perséfone no Mundo Subterrâneo*
Tradutora: Shampoo-chan
* Perséfone: rainha do submundo que é filha de Zeus e Demeter (Mitologia Grega). Na mitologia grega, Perséfone ou Coré, corresponde à deusa romana Proserpina, ou Cora. Era filha de Zeus e da deusa Deméter, da agricultura, tendo nascido antes do casamento de seu pai com Hera. Quando os sinais de sua grande beleza e feminilidade começaram a brilhar, em sua adolescência, chamou a atenção do deus Hades, que a pediu em casamento. Zeus, sem sequer consultar Deméter, aquiesceu ao pedido de seu irmão. Hades, impaciente, emergiu da terra e a raptou, levando-a para seus domínios (o mundo subterrâneo), desposando-a e fazendo dela sua rainha.
~oЖo~
O que vou contar não é algo que uma cantora de ópera deve admitir, mas eu estou acostumada a ser dolorosamente tímida.
Eu costumava ser tão tímida que, quando criança, se alguém me perguntasse que superpoder eu escolheria, provavelmente... bem, eu provavelmente tentaria evitar a pergunta, mas eu pensaria em invisibilidade. Eu costumava sonhar em ter uma capa de invisibilidade, ou apenas um jeito de desaparecer quando quisesse, de me esconder quando não queria lidar com as pessoas que não tinham nada a ver com o meu pequeno círculo de membros familiares e amigos em que eu realmente confiava. Mal sabia eu que um dia o mais assustador vampiro me daria algo do meu sonho de infância, ou pelo menos algo muito similar.
Quando eu era adolescente, eu geralmente tentava me esconder por trás de um livro e fones de ouvido. Eu não falava muito, a não ser com alguém como Jake, que me tirava disso e me fazia sentir confortável, apesar de tudo. Eu me juntei ao coral porque eu não sabia desenhar e tinha que escolher um tipo de arte para o colégio. Eu gostava de cantar com Renée, geralmente no carro com o rádio no volume máximo, e com outras pessoas, cantando duas vezes por ano em concertos que poucas pessoas veriam parecia ser um bom compromisso.
As coisas mudaram depois disso. A música me tirou da minha concha, até certo ponto. Era como se eu saísse de ser reclusa para meramente reservada, mas para mim fez uma enorme diferença. Ainda não me sinto bem em receber cotoveladas no meio de uma multidão, ou conhecer novas pessoas. Viver na França foi um desafio com todos aqueles beijos no rosto e com pessoas requerendo menos espaço pessoal do que grande parte dos americanos. Tudo que já me foi dito sobre a Itália me convenceu de que eu teria que lidar com uma sociedade cheia de pessoas que não são nem um pouco tímidas. Aceitei isso como preço a pagar pelo sol, cenário deslumbrante e essa espetacular chance de estudar canto no país onde nasceu a ópera.
Agora quando eu uso essa coisa no meu pescoço – o V de ouro, o símbolo dos Volturi - todo mundo age como se eu não existisse, a menos que eu fale com eles diretamente. Eles então respondem muito baixo e educadamente, e não olham nos meus olhos. Também não me bombardeiam com perguntas constrangedoras. Elas não invadem meu espaço.
Eu estaria mentindo se dissesse que isso não é tudo com o que eu sonhei.
~oЖo~
Como Alice previra, minha agenda mudou completamente dos cursos que eu tinha originalmente escolhido para o semestre. Em vez de oficina de ópera, que deveria ser o foco principal da minha bolsa, fui colocada em uma câmara de coro. Além do curso intensivo de Italiano para Estrangeiros, há um curso extra de dicção, em vez de literatura italiana, e aulas de repertório, em vez de história da música.
"Você não se importa, não é, Isabella?" Aro pergunta durante nosso primeiro encontro das sextas-feiras à noite.
Estamos no salon pessoal de Aro, como ele o chama, uma luxuosa sala cheia dos mais lindos instrumentos musicais que já vi. Edward está sentado ao piano, e se isso fosse uma mulher eu sentiria ciúmes do jeito que ele o toca.
"Não realmente." Dou de ombros, e tecnicamente isso não é uma mentira. É um pouco irritante, mas não vale a pena arrumar briga com Aro. "Edward e eu temos lido literatura italiana juntos, de qualquer forma, e eu agora estou realmente gostando de câmara de coro. Eu amo a música em que estamos trabalhando".
"Então me fale – o que você mais gosta?" Ele pergunta atentamente.
"São todas excelentes, mas eu definitivamente tenho uma queda por Duruflé".
"Ubi Caritas?" Ele pergunta, aparentemente divertido. "Veja só, essa é a minha piadinha. Penso nela como a canção de Heidi".
Eu sei quem ela é. É a outra vampira que faz outros vampiros parecerem comuns pela comparação – tão adorável quanto Chelsea ou Rosalie, mas parece muito mais amigável. Ela é provavelmente a única vampira que realmente sorri para mim. Eu definitivamente não conto com o sorriso conhecedor de Demetri, assim como o sorriso de Aro também. Ele parece mostrar seus dentes em grande parte das vezes, embora eu não possa dizer que ele não pareça divertido. Heidi tem um sorriso caloroso para uma vampira.
"Piada?" Pergunto, confusa. "Eu não entendo. Porque Heidi é mais gentil que os outros?"
"É claro, bem, eu devo contar a você." Ele ri, claramente se divertindo às minhas custas. "Eu pessoalmente aprovo o repertório para esse grupo em particular. Duruflé é uma das minhas próprias seleções".
"Mas é tão bonita, tão comovente." Minha testa fica franzida, e olho para Edward, que está apertando a ponte do nariz de novo. "Sinto muito, eu simplesmente não entendo o motivo de por que isso deveria ser engraçado".
"Vamos lá, Aro." Edward diz com calma desaprovação. "Você não pode esperar que Bella ache isso divertido".
"Gianna costumava rir dessas coisas." Aro protesta, parecendo Charlie toda vez que Billy não ria de uma das piadas de cassino dele. "Isso me lembra um pouco Heidi: O amor de Cristo nos reuniu num só rebanho. Geralmente nos referimos a Heidi como nossa pastora".
"Aro, por favor." A voz de Edward está suave, mas não calma. "Bella não é como Gianna. Certamente você consegue ver isso".
Aro olha para mim especulativamente, com um ligeiro brilho no olhar que faz os cabelos da minha nuca ficarem em pé. Alguma coisa me diz para começar a falar, simplesmente dizer qualquer coisa, então eu salto sobre essa pausa como se fosse um salva-vidas.
"Sim, mas as palavras como um todo, e a música, me lembram Carlisle." Eu digo, pensando na forma como a estrutura da canção parece quase tangível. "E catedrais, talvez. Há algo sobre a estrutura harmônica que é tão convidativa, como se você estivesse dentro e não pudesse ser ferido jamais, e sempre será amado. É tão impressionantemente serena, mas sólida, como ele".
Aro parece por um instante como se eu tivesse dado um tapa nele. Sinto um arrepio frio na base da minha espinha, e pergunto-me se eu deveria deixá-lo contar a piada dele, qualquer que seja ela. Ele estreita os olhos para Edward, que o ignora olhando uma partitura que trouxemos da nossa nova instrutora de voz.
"Que tal ouvirmos algo que você preparou?" Aro diz, todo o bom humor embora. "Uma nova tarefa?"
"Ela me deu apenas uma peça até agora." Aviso. "Não tenho certeza se o senhor vai gostar. É em alemão, e-"
"Árias alemãs." Ele reconhece com um suspiro resignado. "Algumas valem até a pena traduzir para o italiano. Podemos também trabalhar com essa".
Ele inclina a cabeça para olhar impassivelmente para o teto enquanto Edward e eu nos lançamos na ária de Marzelline, Fidelio. Tento torná-la interessante, mas simplesmente não há muito espaço para gama emocional. É apenas uma garotinha fantasiando sobre a paixão dela, e ela nem fica angustiada a respeito disso. Com isso eu consigo trabalhar. Ela está simplesmente feliz. Muito, muito feliz. Não faz muito sentido, mas eu tento, porque é Beethoven. Então o problema deve ser meu. Quero dizer, Beethoven.
Claramente, estou fodendo tudo, mas, em minha defesa, não sei como entrar na coluna com essa. É como se a coluna estivesse quase rejeitando a ária. Aro parece concordar com a coluna, infelizmente, e faz lembrar o júri do American Idol durante as audições muito ruins. Depois que termino de cantar, ele me olha por um instante.
"Bem, essa ária não mudou em dois séculos." Ele finalmente diz, parecendo azedo. "Continua um monte fedorento de merda".
"E-eu sinto muito." Gaguejo, e o medo tem gosto do cobre de moeda na minha boca. Se Aro não gosta da forma como canto, o que vai acontecer? "Eu posso tentar de novo? Eu só não sei como fazer isso – será que falta alguma coisa que não estou entendendo?"
"O que há para entender? Não há nada que você possa fazer além de sofrer passando por isso, ou trocar seus professores de voz." Ele dá de ombros, e minha ansiedade diminui enquanto ele continua. "Você simplesmente não pode fazer nada com isso. Eles precisam tirar isso da ópera, pura e simplesmente. Acontece que eu sei que ele escreveu essa ária simplesmente para me irritar".
"Para irritá-lo?" Eu pergunto, e dou uma olhada em Edward, que cruza os braços em frente ao peito, como para indicar que estamos ouvindo há algum tempo.
"Sim, para me irritar!" Ele diz, apontando para o próprio peito com irritação. "Eu! Sem minha ajuda ele não teria nem ao menos uma carreira. Então ele achou que tinha um negócio cru. Bem, você tentar pegar sua porção de carne de alguém que o torturasse tão profundamente – isso não pode ser assim! Nem fui eu quem o deixou surdo, mas ele tinha tanta certeza disso que escreveu essa ária apenas para eu querer ficar surdo também".
Olho para Edward, e ele balança a cabeça sutilmente, como se dissesse, apenas deixe-o falar, deixe.
"Digo, na verdade, apenas escute isso: a tessitura descansa neste lugar constrangedor, e é apenas reservado a jovens garotas que certamente nunca saberão como lidar com isso. E pelo quê? Pela grande ideia de amor, honra e heroísmo, como Leonora canta? Não, é só uma idiota insípida, que passa roupa e suspira por um garoto bonito que nem é garoto mesmo, mas sim uma mulher adulta travestida? O que é isso?"
Aro anda de um lado a outro agora, os olhos fixos em alguma lembrança vívida, o rosto contorcido em desgosto.
"E quantos minutos de feliz, feliz, feliz, feliz, feliz, feliz cantar como um papagaio demente, de novo, de novo e de novo? Alguém que já leu algo sobre a personalidade de Beethoven sabe que esta ária é completamente sarcástica! São quatro minutos de mais nada além da palavra alemã 'feliz' por um homem que não sabe o que é felicidade como se estivesse deitado nu na casa dele à noite. Ele nunca fez uma mulher feliz na vida miserável dele. E são quatro aberturas diferentes. Quatro. Por quê?"
"Não faço a menor ideia." Confesso.
"Ridículo. Vamos mudar seu professor de voz".
Bem. Acho que é isso então.
~oЖo~
Todos os dias depois das aulas eu ando por Volterra na volta para casa, na maioria das vezes olhando as lojas e memorizando as ruas. É uma desculpa para a luz do sol, e eu mergulho nisso avidamente. Já que dificilmente alguém no curso, ou em qualquer outro lugar, falará comigo por causa do meu intimidante penduricalho de gângster, não estou conseguindo praticar o italiano. Embora eu deteste fazer compras em geral, parar em diversas lojas para comprar pão e outros produtos que preciso parece ser um meio de obter pequenas trocas comuns. Sinto-me culpada pelas expressões de cautela deles, então tento ser super gentil na esperança de que eles eventualmente relaxem. Não é como se eu fosse machucar alguém.
As ruas estreitas de Volterra – se podem mesmo ser chamadas de ruas – ficaram mais fáceis de lidar, por isso uso sapatos de verdade novamente. Não saltos de dez centímetros como grande parte das italianas da minha idade usa, mas estou trabalhando nisso. Paro em uma das lojas de artesanato original de Volterra quando vejo uma pequena estatueta de um cacto de alabastro na janela. Isso lembra aquele cacto pontiagudo que Renée e eu tivemos por anos em Phoenix. Ela disse que o amava porque ele se recusava a morrer, e eu sei que ela sente falta dele porque ainda toca no assunto. Consigo imaginar a cara dela quando abrir o pacote, então eu vou comprá-lo, com a intenção de mandar alguns dos biscoitos favoritos de Phil ao mesmo tempo – se eu conseguir encontrar biscoitos de manteiga de amendoim, é claro. Estou andando de volta para casa e perguntando-me onde posso encontrar isso quando meu salto prende em alguma coisa e eu quase caio em cima do presente de Renée.
É claro que um vampiro me segura. Mas não o vampiro que geralmente faz isso.
Meu estômago revira quando eu percebo que é possivelmente a última criatura que quero que me toque.
"Obrigada, Demetri." Digo firmemente, tentando ignorar a náusea enquanto me livro do seu abraço muito familiar. "Não que eu esteja reclamando por me ajudar, mas, uh, você estava me seguindo?"
Ele inclina a cabeça para o lado e me olha intensamente, como se tentasse me hipnotizar. Eu não sei qual efeito ele tem, mas não vou ceder, então ajeito minhas sacolas e continuo andando. Ele começa a andar ao meu lado, falando como se fôssemos amigos dando uma volta.
"Acontece que eu estava andando pela Via Gramsci." Ele diz em uma voz que reprova totalmente no teste verbal de detector de mentiras de Charlie Swan, "E vi você comprando isso e, ah, acidentes esperando acontecer? Pensei que seria no melhor dos nossos interesses," ele balança o meu pingente de V antes que eu possa me afastar dele, "pegar você quando o inevitável acontecesse. E assim foi".
"Bem, estou ótima agora, você pode ir já".
"Você tem um caminho a percorrer antes de chegar em casa, Bella".
Só Edward tem a permissão de me chamar assim, eu penso, mas não quero que ele saiba que isso me irrita. Talvez eu possa fingir que ele não está aqui.
"Alguém com a sua pele comprando um alabastro?" Ele pergunta, como se eu quisesse ter uma conversa com ele. "Não é um pouco redundante?"
"Ótimo, um vampiro fazendo piada de mim por ser pálida demais." Murmuro, verificando antes se nenhum humano está por perto para me ouvir usar a palavra proibida.
"Não é uma crítica, Bella." Ele diz sedosamente, enfatizando a forma familiar do meu nome, como se me conhecesse melhor que ninguém. "Eu acho sua pele muito bonita, na verdade. O seu rubor é primoroso".
"Você tentou me matar, Demetri. Eu tenho uma péssima memória humana, mas não esqueci isso." Não me importo em esconder minha repulsa, o que parece surpreendê-lo.
Sério, Demetri? Ele deve estar acostumado a sair com mulheres suicidas. Ou talvez ele as torne desse jeito depois de um tempo.
"Eu não ia realmente matar você." Ele protesta, transbordando com a falsa indignação de um verdadeiro cafajeste. "Eu só queria um beijo. Eu sempre gostei de você, Bella".
Eu nem me dignifico a dar uma resposta, mas acelero um pouco meu passo. Quero mostrar irritação, não medo. Espero que não pareça como se eu tivesse medo.
Nesta hora do dia, grande parte das ruas estreitas está completamente em sombras advindas das construções, então não é incomum ver vampiros andando livremente entre os humanos aqui. As pessoas parecem olhar para eles com olhares encobertos assim que notam os Vs dourados brilhando no peito deles, os rostos elegantes e sua graça felina.
Vejo Heidi descansando lindamente à porta de um bar, falando com alguns turistas tatuados no que parece ser um dialeto eslavo. Ela parece uma modelo da Victoria's Secret, com uma bota cano alto e uma microssaia, enrolando o cabelo num dedo frio e flertando. Ela sorri largamente para mim, e eu sorrio de volta, mas é mais por reflexo desta vez. Ela e Demetri trocam acenos presunçosos, e eu me pergunto por que ela falar com esses caras me aborrece.
Ela parece ser amigável demais – Não. Ela não faria aquilo em público, não é?
"Oh, sim, eu gosto de tudo sobre você, Bella." Ele diz, e antes que eu possa perceber, estende a mão para tirar um pouco de poeira ou algo do tipo do meu ombro.
Afasto-me dele, mas ele apenas sorri como se eu estivesse bancando a tímida, combinando os meus passos para marcharmos juntos. Ele está brincando? Eu o pego observando meu peito, então posiciono minhas sacolas ali para obstruir a vista dele.
"Oh, Deus, você está tentando flertar comigo?" Pergunto horrorizada.
De novo, ele parece confuso. Felizmente, estamos perto de uma intersecção de ruas numa poderosa luz do sol, então ele para antes que a luz pegue nele.
Fico feliz que ele não usasse uma capa com capuz hoje. Elas provavelmente não estão na moda agora, e Demetri é a essência do estilo. Como se ilustrasse meu pensamento, ele me dá um olhar que imediatamente identifico como o Blue Steel*.
*Blue Steel: um dos tipos de olhares usados pelo personagem Derek Zoolander, no filme Zoolander, em que ele é um modelo decadente, que já foi o principal modelo do mundo pelos seus olhares Le Tigre, Blue Steel e pelo inovador Magnum.
"Por que não está funcionando?" Ele grita enquanto caminho depressa no sol, deixando-o para trás.
Acho que vou vomitar.
~oЖo~
Na hora que subo as escadas para o nosso apartamento, já acalmei-me consideravelmente, tendo me desgastado um pouco. Ouvir o anseio sombrio-doce de Edward tocando Brahms pela porta me faz esquecer tudo, exceto colocar a chave na fechadura e passar para o outro lado.
As notas gentis flutuam por mim como muitos beijos doces e toques. Coloco minhas sacolas na bancada da cozinha e vou até ele, esfregando minhas mãos pelos seus sólidos ombros.
"Está tentando fazer uma massagem num vampiro?" Ele pergunta, rindo.
"Isso não é patético?" Pergunto, para o seu grande divertimento. "Poderia ficar melhor se você não estivesse usando roupas. Que tal?"
Corri minhas mãos pela pele exposta do seu pescoço, deixo meus dedos tecerem o através do seu cabelo, arranho minhas unhas ao longo do seu couro cabeludo. Ele começa a ronronar, ou cantarolar, ou uma combinação dos dois, e eu me inclino para beijar o pescoço dele. Tenho certeza de que ele erra algumas notas.
"Bom saber que eu ainda consigo distraí-lo." Eu rio, mas ele para de tocar e fica rígido. "Edward, o que é? Algo errado?"
Ele se vira para me encarar, seu rosto tenso de raiva. Ele pega minhas mãos e as cheira, relaxando aos poucos.
"Há algo que você queira me contar, Bella?" Ele pergunta, perigosamente calmo. "Esbarrou em alguém hoje?"
"O que você quer dizer?" Não tenho ideia de como o humor dele mudou tão subitamente. "Esbarrou?"
Então cai a ficha. Vampiros e seus estúpidos narizes. Fecho meus olhos e estremeço, balançando a cabeça como se tentasse tirar as imagens da minha mente.
"Oh, provavelmente você sente cheiro de vampiro em mim." Eu digo com grande irritação. "Eu preferiria nem pensar sobre isso, se você não se importa. Eu já tinha quase esquecido disso. Eu quero esquecer".
Tento me levantar, pegar minhas sacolas, mas ele se vira no banco do piano e me puxa para o colo dele com um abraço firme.
"Eu definitivamente me importo." Ele sussurra no meu ouvido, e se não estivéssemos falando de Demetri, eu acharia sexy. "Dada a origem do cheiro. Por que ele estava tocando você?"
"Eu não queria." Sussurro, quase inaudível. Eu sei que ele consegue me ouvir.
"O quê? Bella, o que ele fez?" Ele incita, a voz cheia de raiva. "Conte-me. Eu cuidarei disso se ele estiver intimidando você. Eu sabia que você não deveria andar por aí sem mim".
"Pare, Edward. Não foi nada disso." Eu digo, virando meu rosto. Ele olha profundamente nos meus olhos, procurando pistas. "Okay, vou contar, mas você precisa me prometer que não vai deixar isso arruinar nossa noite".
"Conte-me, Bella, por favor." Ele insiste. "Você está me enlouquecendo".
Quando se trata de Demetri, o caminho até a loucura é tão curto para Edward que é praticamente um passo de distância.
"Okay, mas ajudaria se eu mostrasse algo a você." Aponto para as sacolas, e ele me solta.
"Bem, eu estava andando com a minha escultura de alabastro em forma de cacto." Eu começo, tirando o dito objeto da sacola de compras que embalaram em algum tecido fino. Os olhos dele arregalam quando ele vê todos os longos e estreitos espinhos apontando em todas as direções. "E estou de saltos hoje, então-"
"Jesus." Ele murmura. "O que no mundo a fez pensar que isso era uma boa ideia?"
"Hey!" Eu protesto, embora, no fundo, aquilo fosse uma ideia espetacularmente estúpida. "Sim, talvez dado o meu histórico, eu devesse ter mando para Renée diretamente da loja, mas eu queria mandar a Phil alguns biscoitos também. Você quer ouvir a história ou não?"
"Acho que posso adivinhar a partir daqui." Ele diz, olhando para o teto. "Vamos ver, você comprou essa escultura em forma de faca e decidiu ir cambaleando nos seus saltos nas ruas irregularmente pavimentadas, e você quase caiu em cima disso até ele salvá-la no último segundo. Isso resume tudo?"
"Okay, okay, então não foi um brilhante movimento." Eu digo, sentindo-me um pouco magoada e defensiva. "Você precisa fazer isso parecer como se eu tivesse feito isso para chamar a atenção dele. Você sabe como eu me sinto com relação a ele".
Algo no meu tom o alcança através da sua raiva, e seu rosto suaviza em arrependimento. Ele põe os braços ao meu redor e eu me apoio nele, fazendo meu melhor beicinho.
"Sinto muito." Ele sussurra, beijando minha bochecha. "Eu sei que ele a assusta. É por isso ele me deixa com tanta raiva. Então, ele flertou com você?"
"Por que você acha isso?" Pergunto.
"É a única forma que ele se comunica com mulheres." Ele atesta categoricamente, a raiva penetrando no seu tom de voz. "Elas costumam adorar isso".
Só Edward fica com ciúmes de mim por causa de um homem que me faz querer vomitar. Ainda assim, um Edward ciumento pode algumas vezes ser um Edward amoroso. Volto para o colo dele e o deixo me segurar até eu me sentir segura e pronta para continuar.
"Mais como se ele estivesse flertando para mim." Eu murmuro, descansando minha cabeça no ombro dele para poder ver ainda o seu rosto. "Foi assustador e estranho".
"O que aconteceu depois?" As narinas dele inflam, ou de raiva, ou ele ainda estava sentindo o meu cheiro disfarçadamente.
Muito ciumento.
"Oh, Deus, quase nada." Eu digo fazendo uma careta. "Exceto que ele tentou conversar comigo como se não tivesse tentado me matar, batendo um papo e caminhando ao meu lado. Então eu vi Heidi conversando com alguns turistas... ela... eu não pensei nisso, Edward. Eu não quero pensar a respeito disso".
Balanço minha cabeça de novo, e relembro o conselho de Eleazar: Algumas vezes você tem o controle das situações. Algumas vezes você tem influência. Outras vezes nenhum dos dois. Imagine que poder você tem no momento, e tente deixar para lá. Se não conseguir, então saia. Se não conseguir sair, então encontre uma forma de lidar com isso até poder sair.
Isso ajuda, e eu respiro fundo para me acalmar.
"Eu sei, Bella, eu sei." Ele diz, beijando meu rosto. "O que aconteceu depois? Como você conseguiu se livrar dele?"
"Entrei em uma rua ensolarada. Ele não estava bem vestido para isso".
"Boa menina." Ele diz, abraçando-me mais. Ele funga de novo, discretamente desta vez, e torce o nariz. "Mas ainda não gosto do cheiro dele em você".
"Bem, isso é fácil de resolver." Eu digo, desabotoando a minha blusa. A ideia de tomar banho parece mesmo boa para mim. Eu só quero lavar essa tarde assustadora inteira de mim. "Lava meu cabelo para mim?"
Este, é claro, é um dos nossos códigos.
"É?" Ele pergunta, parecendo um pouco surpreso. Ele ajuda a tirar a camisa pelos meus braços e beija docemente o meu pescoço. "Depois de passar por tudo isso? Tem certeza?"
Não é que eu queira, mas sim porque preciso. Eu simplesmente preciso dele. É como quando está muito escuro e você só precisa acender a luz. Mas não como se Edward fosse a luz, exatamente. Eu não o uso para lidar com os meus problemas. Somos nós juntos, nossa conexão. Quero me perder nisso. Quero que vivamos nossa bolha sempre que pudermos, e não deixar Aro, Demetri, nem ninguém interferir.
"Por favor, Edward." Eu suspiro, virando-me para poder envolver meus braços pelo seu pescoço de novo e correndo meus dedos no cabelo dele. "Eu não quero ninguém influenciando quando estivermos fazendo amor, exceto você-" Eu paro para dar um suave beijo de boca aberta, lambendo o seu lábio inferior lentamente para que ele não consiga perder o ponto. "E eu. Digo, Alice não disse que não podíamos fazer isso quantas vezes quiséssemos".
"Isso é verdade." Ele diz, olhos arregalando. "Eu não acho que é uma boa ideia fazermos isso sempre que quisermos, no entanto".
Aparentemente ele concorda com isso agora, no entanto. Ele beija meu pescoço, exatamente abaixo da minha orelha e para baixo, guiando-nos até o banheiro.
"Por que não?" Pergunto, desabotoando a camisa dele tão rápido quanto meus dedos permitem. Estou nua em questão de segundos. "Não é justo com a sua rapidez de vampiro. Pode me ajudar, Edward, por favor?"
Ouço a fivela do cinto dele bater no chão no mesmo instante que o chuveiro liga, e ele nos gira para me prender contra a parede enquanto esperamos a água aquecer. É rápido ao estilo vampírico, e ele parece exatamente como o que ele é por um instante. Não humano. Ultimamente ele esconde isso menos e menos quando estamos juntos e sozinhos. Mesmo sabendo que ele não mata pessoas, a amostra do poder é intensa.
"Você está bem?" Ele sussurra, olhando para mim com as pálpebras pesadas, saturadas de amor e desejo.
Eu pisco, e ele é Edward de novo. O pensamento me atinge: estou bloqueando essa informação da minha mente, ou é a minha definição intuitiva de vampiro que mudou desde o novo encontro com os Volturi? Desde conhecer Edward, por sinal? Ele nunca me machucaria, e eu sei disso com a mesma convicção que sei meu nome. Eu o amo ainda mais por não estar com eles. Todo esse poder, usado apenas para o bem. Não é o mesmo que alguém incapaz de crueldade refrear-se de machucar os outros. É definitivamente melhor, mais significativo.
"Eu amo você." Eu digo fervorosamente, e ele sorri antes de enterrar o rosto no meu pescoço, o toque dos seus lábios trazendo apenas prazer.
Seguro a cabeça dele, ofegando quando ele começa a beijar mais abaixo, abaixo, e mais ainda até ele alcançar o bico rosado e enrijecido. Uma das suas mãos gentilmente cobre o seio que não está recebendo atenção da sua gloriosa língua, e o outro braço estica até o chuveiro.
"Acho que essa é a temperatura da água que você prefere." Ele diz, erguendo-me até a banheira.
Concordo com a cabeça vigorosamente enquanto ele me carrega, e enrolo minhas pernas pela cintura dele para ajudar. Tenho certeza que isso não seria possível num chuveiro a menos que um de nós fosse um vampiro, ou no mínimo um acrobata, então eu tento ajudar tanto quanto possível. Inclino meu torso e ele enterra a cabeça molhada entre meus seios, concentrando-se.
Adoro quando ele se concentra, particularmente quando está nu.
"Oh-" Eu grito quando ele entra em mim com um ruído sexy, algo entre um rosnado e um grunhido. Eu sinto alívio, "Sim, isso. Eu preciso de você".
Inclino-me para trás e monto nele ondulando meus quadris, confiante que ele segurará minha cintura, confiante nos meus braços ao redor do seu pescoço, sua constante atenção à minha segurança. Minha cabeça pende para trás em êxtase, e eu solto um gemido muito forte, realmente feliz por nossa vizinha falar que ela perdeu a bateria do aparelho auditivo e não vai conseguir um novo até o final de semana.
"Deus, sim... solte, Bella." A voz dele como veludo áspero. Veludo áspero e vaporizado. Abro meus olhos para vê-lo me observando com uma expressão faminta, riachos claros fazendo o fulgor da sua pele brilhar artificialmente sob a luz.
Eu quase gozo, mas a tensão apenas cresce, então eu invisto nele com mais força. Ele grita, quase como se estivesse sentindo dor, mas pelo olhar em seus olhos ele está se segurando e esperando que eu o alcance. Geralmente é o bastante apenas tê-lo dentro de mim, e estou latejando tanto, por dentro e por fora, que não entendo por que não aconteceu ainda.
A sensação de tê-lo dentro de mim, encontrando minhas investidas é quase demais, mas não o suficiente, e eu grito de frustração. Sinto as mãos dele movendo enquanto ele nos reajusta, e seus longos dedos moverem entre nós para me acariciar onde estamos unidos, deixando-me exatamente no limite.
"Sim, Edward!" Eu grito de novo e de novo quando acontece, e os olhos dele enlouquecem completamente quando eu me atiro contra ele.
É como se fosse um terremoto com dois epicentros, e meus quadris continuam a investir conta ele por mais algum tempo depois de eu ter deixado de ter o controle sobre o assunto. Como se de cem milhas de distância eu mal conseguisse registrar seus profanos gemidos e grunhidos sensuais quando ele goza. Tenho certeza que ele diz meu nome, e eu sorrio quando percebo que ele está dizendo que me ama de novo e de novo enquanto fico tremendo nos braços dele.
"Eu amo você também." Sussurro de volta sentindo os deliciosos tremores. "É errado da minha parte querer roubar as baterias do aparelho auditivo da Signora Alberti quando elas chegarem?"
Ele ri, seu belo rosto transformado em pura luz enquanto ele tira a água do seu cabelo. Eu adoro quando ele fica brincalhão no chuveiro depois de brincar no chuveiro.
"Acho que podemos ter meios de tirá-la de casa." Ele pega meu shampoo e começa a formar espuma no meu couro cabeludo, seu sorriso ficando maligno quando inclino meu rosto para olhá-lo com uma interrogação. "Ingressos para concertos, uma viagem para visitar a filha em Roma, por exemplo".
"Poderíamos dar a ela um iPod carregado e alguns fones de ouvido com anti-ruído?" Eu sorrio, e ele me beija docemente, seus lábios descendo aos meus. "Hey, antes você disse que não deveríamos fazer isso sempre que quiséssemos. Por que não?"
Ele ri, e abandona meu cabelo para cobrir meus seios por trás.
"Não pararíamos nunca." Ele diz, pressionando a evidência disso nas minhas costas. "Temos aulas e bizarrice de vampiros – você precisa dormir algumas vezes".
"Acredito que sim." Suspiro, esticando a minha mão para trás para acariciá-lo. Ele começa a beijar meu pescoço num doce ponto. "Mas eu voto por mais em geral. É fantástico desestressar assim, e ficamos numa panela de pressão toda vez que saímos pela porta da frente".
"Eu entendo isso." Ele diz quando eu viro e começo a beijar uma trilha em direção à sua barriga. "Use-me para aliviar a tensão, e, uh, oh, porra, por que eu estou discutindo de novo? Você tem razão a respeito disso".
~oЖo~
"Edward, ela está fugindo do ritmo de novo." Aro grita exasperadamente uma noite de sexta-feira da outra semana, jogando as mãos para o alto. "Você pode fazer algo a respeito? Darei a você alguns segundos".
Ele vai embora andando como se flutuasse, e ainda consigo ouvir o eco das últimas notas de piano quando Edward enrola os braços em mim.
"Desculpe." Eu fungo, minhas lágrimas quentes finalmente descendo livremente pelo meu rosto. "Eu não estou triste, apenas frustrada. Eu odeio quando isso me faz chorar".
"Eu sei." Ele beija minhas lágrimas como sempre faz quando fico emotiva. "Não se preocupe".
"As minhas lágrimas têm o gosto do meu sangue?" Pergunto numa risada trêmula.
"Não brinque sobre isso." Ele diz, ficando um pouco rígido. "Eu assusto você quando faço isso?"
"O quê? Não, claro que não. Eu adoro. É como se você tentasse tirar minha tristeza para eu não senti-la mais".
"Algumas vezes acho que você lê minha mente." Ele brinca, levemente trilhando as feições do meu rosto com o nariz. "Você pode cantar de novo?"
"Nós estamos nessa há duas horas." Eu digo, entrando em conflito. "Não conheço meu novo instrutor, mas o Dr. George advertiu a respeito de cantar durante muito tempo sem ter no mínimo uma pausa. Na minha idade, pelo menos".
"Esse é um ponto excelente." Aro diz em um tom polido da porta, e me pergunto onde ele tinha ido, se foi a algum lugar. "Algumas vezes esqueço as limitações humanas, e eu continuo pensando em você como praticamente já sendo uma de nós. Acredito que vocês dois gostem de livros, certo? Venham comigo, quero mostrar uma coisa".
Grata pela chance de descanso, seguimos Aro pelo palácio, ao fundo de um corredor desconhecido. Paramos diante de portas de bronze altamente polido.
"Ghiberti* fez isso?" Edward pergunta, olhando mais de perto.
* Lorenzo Ghiberti (Florença, 1378 –01/12/1455): foi um escultor italiano renascentista. Escultor e fundidor em metal italiano, nascido em Pelago, que conseguiu impor, sobre as influências góticas, os novos postulados estéticos inspirados no mundo clássico, que caracterizariam a arte renascentista do período "Quattrocento" (1449-1499) e cuja principal obra foi lavrar as monumentais portas de bronze do batistério de Florença.
Aro inclina a cabeça minuciosamente, através da postura que indica o prazer do colecionador.
"Não posso ficar com os créditos por isso, mas é excelente." Aro confirma. "Caius encomendou ao artista como presente para Marcus. Ele amava tanto Ghiberti que deu a ele técnicas e segredos artísticos que morreram com a própria Roma. Essas portas foram feitas antes das de Florença".
Há cenas esculpidas dentro dos painéis que formam a porta, exatamente como os Portões do Paraíso nas portas do Duomo em Florença, exceto que essas aqui não são cenas religiosas. Em lugar disso, há cenas da mitologia clássica: a linda Io se transformando numa vaca, Europa guiando nas costas de Zeus na forma de touro, Daphne se transformando na árvore de louro quando Apolo a persegue; Perséfone sendo enganada quando come as sementes de romã durante o sequestro dela ao mundo subterrâneo; um nu e enraivecido Artemis transformando Actaeon num alce, e assim por diante. Noto o padrão e prendo a respiração. É tão perfeito para vampiros, mas alguém que olhar pode notar apenas o clássico tema da transformação.
"Metamorfoses de Ovídio. É tão lindo." Eu digo maravilhada, não ousando tocar as portas apesar de querer. "Incrível".
"Fico muito feliz que você goste." Aro diz, claramente satisfeito. "Entretanto, não é isso que quero mostrar a vocês".
Damos um passo para trás e ele abre as pesadas portas como se fossem feitas de papel. O que há dentro é, bem, esmagador. Eu nunca vi algo tão bonito em minha vida. É como um cruzamento de Vaticano com a Biblioteca do Congresso. Tetos abobados, uma cúpula no centro com luz natural fluindo por claraboias e janelas altas alcançando a superfície da cidade. Certamente eu nunca vi isto do lado de fora – como isso deve se parecer? Um bloco de apartamentos? Uma igreja? Tudo que vejo ao redor é madeira brilhando, escadas em espiral, fileiras de mesas com lâmpadas em verde e dourado, mas, mais do que isso, tudo que meus olhos veem são livros, mais do que já vi na vida. Milhares de livros com espirais de couro, de tecido, livros enormes, alguns tão grandes como 1m20cm de altura e 90cm de diâmetro, encadernados em madeira com entalhes intricados e joias incrustadas. Há uma parede inteira com pequenos compartimentos seccionada em triângulos por uma madeira branca em forma de X, cheia de antigos pergaminhos.
E o cheiro, oh, Deus. É o cheiro que um amante de livros de verdade aspira. O ar pesa cheio de tinta, papel, poeira e ideias. Eu poderia morar aqui. Nós poderíamos morar aqui, se tivesse um piano e um banheiro.
"Gah." Eu digo brilhantemente, sentindo-me atordoada. Eu mal consigo falar mais alguma coisa.
"É." Edward concorda, pegando a minha mão. "Aro, isso é – digo, Carlisle me contou, mas eu nunca..." Ele para de falar, tão admirado quanto eu.
"Este era o lugar favorito de Carlisle quando ele morava aqui." Aro diz melancolicamente. "E poderia ser novamente, caso ele escolhesse retornar. Tivemos muitas conversas vivazes aqui, e muitos maravilhosos jogos de xadrez. Algumas das minhas lembranças favoritas sobre ele estão neste lugar. Seria gratificante para nós se vocês dois fizessem uso disto quando quisessem".
Ele caminha à nossa frente, apontando vários aspectos da forma como tudo é cronologicamente organizado por extensão e categorizado por peso. É brilhante, na verdade, e fico atordoada de novo quando percebo quantos livros deve haver lá em cima sobre nós, quantos livros mais.
"Este andar inferior é a coleção de livros raros, e a mais antiga seção desta biblioteca. Com o passar do tempo nós adicionamos as construções acima daqui e os transformamos." Ele para e me lança um olhar significativo. "Poucos humanos foram autorizados a entrar nos andares superiores, menos neste aqui. Não mais que dezoito humanos na história tiveram esse privilégio. É uma honra que Marcus concede aos escritores favoritos dele, e agora você, Isabella. Mas eu não conto você como humana por muito tempo, não é mesmo?"
"Obrigada." Eu digo, sentindo pura gratidão quando dobramos um corredor, aproximando-nos de Marcus.
Ele está sentado em uma estranha bancada em forma de um alongado S, com espaço para duas pessoas sentarem lado a lado, ou em frente um ao outro dependendo da suas posições. Seu rosto está mais relaxado do que já vi, totalmente absorto no que está lendo. É um pergaminho, cujas pontas parecem muito frágeis. Tenho medo que virem farelos enquanto observamos. Nós nos aproximamos, e dou uma espiada para ver o outro lado cheio com outros pergaminhos, pequenos livros de capa de couro com espiral dourado e encadernação de couro brilhantemente tingido, e muitas pilhas de elegantes envelopes, de qualidade similar ao que Aro usa, apesar da caligrafia não parecer familiar. É feminina, e até mais bonita que a de Edward.
"Marcus." Aro dispara impacientemente, parecendo irritado até o instante que o outro vampiro deixa de ler o pergaminho e ergue a cabeça. É quase como se trocassem expressões porque Marcus parece agora com raiva e impaciente, claramente insatisfeito com a interrupção, enquanto Aro parece visivelmente mais calmo. "Dei a Edward e Bella as boas notícias, então espere vê-los aqui mais vezes".
Marcus volta sua atenção para nós, como se causasse enorme dor nele fazer isso. Assim que nos vê, no entanto, ele sorri, e parece ser sincero, mas triste também. É a maior emoção que já o vi apresentar desde Seattle. Geralmente, ou ele está perdido na leitura de um livro, ou parece meio apático. Eu não sei se é a exaustão ou os hormônios, mas ver essa expressão me faz querer chorar de novo.
"Vocês são bem-vindos." Ele diz, sua voz flutuando efemeramente até nós, fina e sombria como um anel de fumaça de cigarro.
~oЖo~
"Eu me pergunto o que ele estava lendo." Eu digo suavemente, mais tarde naquela noite na cama. "Você sabe?"
Não conversamos muito desde que saímos da biblioteca por um dos andares superiores. Aquilo tinha sido sugestão de Aro, quando ele nos deu os códigos de segurança e nos entregou as esquisitas e enormes chaves de bronze do um dos pontos de entrada para a biblioteca de aparência comum.
O silêncio da biblioteca parece ter nos guiado até em casa.
"Sim, eu sei." Edward diz, e sua voz soa muito estrangulada de emoção. "Eu não consigo imaginar. Eu não consigo - eu não sei como ele agüenta isso. Se alguma coisa acontecesse algum dia com você, Bella..."
Ele subitamente para, e enterra o rosto no meu cabelo, enrolando os braços com força em mim.
"O quê, Edward?" Pergunto, acariciando a pele nua das suas costas. "O que é?"
"Ele estava lendo as cartas de amor dela." Ele diz, seu rosto contorcido em compaixão e angústia. "Ela o amava".
"Quem?"
"A esposa dele, irmã de Aro".
"Tudo aquilo, naquela cadeira, era dela?" Eu pergunto, e ele me segura de alguma forma com ainda mais força. Tomo isso como um sim. "O que aconteceu com ela? Onde ela está?"
"Ela se foi." Ele diz suavemente. "Ela foi assassinada".
"Mas se ela era uma vampira, e tão importante." Eu digo, pensando nos séculos de pensamentos empilhados na cadeira próxima a Marcus, aparentemente tudo que restou dela. "Como ela foi morta?"
"Ele não sabe, mas quer descobrir".
Nota da Ju:
Agora já dá pra saber um pouco do que está acontecendo na vida deles na Itália... e quem será que matou a esposa de Marcus?
Pessoal, só postarei o próximo capítulo quando tiver no mínimo 10 reviews! Não vou repetir isso de novo! Cansei de ficar dando "bronca" nas leitoras que nunca comentam...
Bjs,
Ju
Para quem acompanha The Screamers, só postarei amanhã pq não consegui terminar de traduzir ainda...
