Músicas do capítulo (retirar os espaços):

* Duo Curbelo cantando Spanish Dance nº1 de Manuel de Falla: http:/ www. youtube. com/ watch?v=uI6NpeMR5a0

* Ramon Vargas canta Amarili, de Caccini: http:/ www. youtube. com/ watch?v=VD6Yfa9Gp84

* Claudio Monteverdi - Ecco mormorar l'onde: http:/ www. youtube. com/ watch?v=_EMZ8A5nz60

* Claudio Monteverdi - Ohime ch`io cado: http:/ www. youtube. com/ watch?v=O933ztu1eDM


Capítulo 27 –Todas as Almas

Tradutora: Ju Martinhão

~oЖo~

"Estou preocupada com você, menina." Ela diz, suave, quente e picante. "Eu não disse a você para prestar atenção no Dia das Bruxas?"

"O que você quer dizer, Vovó?"

Ela me dá 'o olhar'.

"Use a cabeça, Bella. Sobre o que você acha que eu estou preocupada?" Ela pega a fita métrica do seu bolso e começa a medir-me. "E agora você cresceu mais do que essa fantasia que eu fiz para você".

Eu olho para baixo e descubro que estou vestindo a fantasia da Chapeuzinho Vermelho que ela fez para mim quando eu tinha oito anos. A saia é escandalosamente curta agora, e a capa vermelho-sangue mal cobre os meus ombros.

"Isso foi há 12 anos!" Eu protesto. "Claro que eu cresci mais do que isso".

"E quanto aos meus olhos, você acha que já os superou também?" Ela pergunta, e quando ela pisca, seus olhos mudam do castanho quente para o negro vampiro.

"Sinto muito, Vovó, eu os manteria se eu pudesse".

"Você não vai dormir." Ela acrescenta, seus olhos mudando de volta ao normal. "Você não vai me ver por um longo tempo, não até que o sol reduza às cinzas. Suas lembranças de mim vão desaparecer, e você não vai sonhar mais comigo. Como eu serei capaz de ajudá-la então?"

Não sei o que dizer. Eu não tenho pensado nisso. Eu me sinto horrível.

"Eu não quero que você seja solitária".

"Solitária? Querida, está abarrotado por aqui." Ela zomba. "Estou mais preocupada com você e a companhia que você tem. Eu não disse a você que o bonito não significa bom?"

"Eu sei, mas às vezes é fácil esquecer." Eu não acho que ela esteja falando de Edward. Espero que não.

"E eu fiz uma nova amiga, viu? Ela tem me dito tudo sobre este lugar ruim onde você está".

Eu viro minha cabeça e é verdade, há uma jovem mulher com cabelos escuros encaracolados e tristes olhos castanhos sentada perto dela. Vê-la aqui me apavora, mas eu não sei por quê. Eu não sei quem ela é, ou o que é isso aqui, por sinal.

"Quem é você?" Eu pergunto, mesmo que pareça que eu deveria saber isso.

Ela treme, então dou a ela o meu capuz vermelho, e ela sorri para mim.

"Você é gentil e corajosa. Você não é como eles." Ela diz com uma voz tão quente quanto o sol italiano. "Não tenha medo. Encontre-me".

Vovó Swan pega meus ombros e me aperta, e a mulher começa a desvanecer-se na estática.

"Você está sonhando, menina. Acorde." A voz dela é frenética, e mais profunda do que o habitual. Seu rosto começa a torcer, mudando até que eu já não a reconheço. Ela também começa a transformar-se em estática.

"Eu não entendo, Vovó." Eu grito quando ela desaparece.

"Acorde." A voz soa tão alta que não posso dizer de onde está vindo.

Sento-me na cama, sozinha, e ouço a porta da frente bater, seguida pelo som metálico de uma tranca deslizando.

"Edward?" Eu o chamo, trêmula.

Rápido como uma brisa, ele aparece em cima de mim, pequenas gotas de chuva continuam agarradas ao seu cabelo e roupas.

"O que foi, Bella?" Ele pergunta, gentilmente verificando-me. "Sonho ruim?"

"Meus olhos mudarão de cor quando você me transformar?" Eu pergunto, incapaz de tirar completamente o sonho da minha cabeça, ou o pânico da minha voz.

Ele congela por um momento, depois senta-se pesadamente ao meu lado.

"Sim." Seu tom soa sombrio.

Ele não fala muito, mas isso parece realmente importante para mim por algum motivo.

"De que cor eram seus olhos?" Eu persisto, tentando fazer as suas características no escuro. "Você se lembra?"

"Verdes, como os da minha mãe." Ele diz lentamente depois de um momento, usando sua manga para limpar a testa. "Mas eu realmente não me lembro, isso é exatamente o que Carlisle me diz. Você pode me dizer se está nervosa e mudando de ideia, Bella Você está preocupada com a transformação?"

"Não, eu acho que não. Não realmente. Eu só meio que quero saber o que vai acontecer, sabe?" Eu deito de volta, tentando imaginá-lo com olhos verdes. "Era só - eu estava sonhando com a minha avó, e eu não quero esquecê-la. Eu tenho os olhos dela. Não quero deixar você triste".

"Eu amo seus olhos." Ele sussurra, e eu ouço um farfalhar de tecido quando ele desliza no meu lado. "As janelas da sua alma, lembra? Eu preferiria não perdê-los, ou qualquer outra coisa sua".

"Eu disse a você. Se eu tenho uma alma, então você também tem." Eu prometo pelo que parece ser a milionésima vez. "Não há nenhuma parte de mim que não toca o mesmo em você".

Estendi a mão para ele, angulando a minha boca à sua para um beijo. Ele recua um pouco, beijando-me no nariz, em vez disso.

"Eu acabei de caçar." Ele pede desculpas. "Deixe eu me limpar, ok?"

Ele nunca gosta de me beijar logo após a caça, e isso sempre me incomoda. Mesmo que ele explique isso para mim, sempre me sinto um pouco rejeitada.

Quero perguntar-lhe se o que ele disse antes é verdade, que ele não pode me beijar após a caça porque ele tem medo de ainda estar no modo de matar e vai perder o controle, ou se é algo nojento, como se ele precisasse lavar o sangue da sua boca.

Quero perguntar se ele deseja poder sonhar com a sua mãe.

Eu quero perguntar-lhe muitas coisas, mas tenho medo das respostas. Eu quero dizer-lhe que sim, eu tenho medo da transformação, mas não me atrevo. Conhecendo-o, ele decidiria que, por estar nervosa com isso, eu realmente não quero me transformar, e ele vai fazer alguma coisa incrivelmente estúpida para tentar me proteger.

Então, eu não falo nada.

Em vez disso, eu olho o teto até que ele volte, e eu sou recompensada com um beijo de verdade, como se ele estivesse tentando compensar por antes. É um daqueles beijos lentos, românticos, que não precisa nem levar a qualquer outra coisa porque eles são mais amor que sexo.

"O que você está pensando?" Ele pergunta, sua boca roçando levemente sobre a minha quando ele fala.

"Eu acho que sou a mulher viva mais sortuda".

Eu posso senti-lo sorrindo, um daqueles enormes e raros sorrisos de Edward que irradiam alegria pura. O tipo de sorriso que apenas eu vejo.

"Eu acho que você ainda está sonhando, doce menina. Volte a dormir." Seus dedos traçam o percurso da minha testa e pela encosta do meu nariz, apenas deslizando a superfície.

Ele faz isso novamente, e novamente, até que a ação calmante começa a embalar-me de volta ao sono.

~oЖo~

"O que é isso?" Pergunto, segurando o novo recipiente de sorvete de tiramisu que encontro em nosso minúsculo freezer.

Ele está inicializando o laptop de novo, sem dúvida para mais vídeo conferências com o Alaska. Eu me acostumei a ouvir as doces vozes de Carlisle, Eleazar e Alice em vários pontos ao longo do dia, muitas vezes em meu sono.

"Se não estou muito enganado, não é o seu sabor favorito?" Ele diz, parecendo desnorteado. "Você pareceu gostar bastante na noite passada... e na semana passada".

Itália e Edward parecem estar conspirando contra mim.

"É claro, eu gosto muito." Eu suspiro. "Estou começando a arrebentar minhas roupas".

"Sério?" Ele diz, seus olhos varrendo o meu corpo, demorando-se sobre o meu peito por muito mais tempo do que o necessário para a tarefa à mão. "Eu não tinha notado".

Eu estreito meus olhos para ele, atirando o recipiente de volta para o freezer e rodeando-o novamente, determinada a esclarecer isso antes que eu tenha que comprar roupas novas.

"Edward Anthony Masen Cullen, você está fazendo isso de propósito?"

Ele estabelece o laptop na mesa de café e estende a mão para mim.

"Isabella Marie Swan, que-deveria-ser-Cullen." Ele murmura esta última parte em voz baixa, puxando-me para o seu colo. "Você está exagerando. Você está usando o mesmo jeans que usava dez semanas atrás, quando chegamos aqui. E quem se importa quando vai a todos os melhores lugares?"

Eu observo que suas mãos estão esfregando minha bunda através daquele mesmo jeans com algo próximo a reverência, e as minhas próprias mãos movem-se automaticamente para acariciar seus cabelos.

Ele precisa parar com o sorvete, no entanto.

"Tanto quanto eu aprecio seu apoio - okay, entusiasmo." Eu corrijo, quando ele pressiona a prova disso na minha bunda, "Lembre-se, eu não gosto de fazer compras, e este-" Eu tiro a minha camisa, revelando um sutiã roxo simples mostrando mais clivagem do que nunca. "- é o único sutiã que me resta que serve, o que é uma afirmação discutível, na melhor das hipóteses".

Seus olhos arregalaram e ele tem esse olhar sonhador no rosto quando ele me reúne para mais perto para realizar uma inspeção da área em questão. Sério, eu sou uma idiota, porque mesmo eu deveria saber o que acontece quando você tenta argumentar contra um excesso de peito com homens que não são Tim Gunn.

"Eu não consigo ver qualquer coisa remotamente parecida com um problema aqui." Ele murmura, esfregando seu nariz na pele macia e exposta. Seu nariz está frio, e seu peito rosna um pouco.

"Bem, olá, sexy Itália." Um profundo sotaque que eu reconheceria em qualquer lugar vaia da direção do laptop.

"Jasper!" Eu grito com entusiasmo, correndo para puxar para baixo a minha camisa enquanto Edward protege-me da câmera. "Eu não te vejo desde o - o que diabos aconteceu com os seus olhos?"

Jasper se inclina para a câmera para me dar uma melhor visualização. Seus olhos azuis antes lindos são agora negros com círculos vermelho-sangrento assustadores.

"Meio louco, não é?" Ele pergunta, virando a cabeça ligeiramente. "Acredite em mim, eles são muito melhores do que eram".

"Ela não precisa ver isso." Edward diz, irritado. "Tenho certeza que vocês dois viram demais até agora".

"Ei, se vocês fazem um show aí não me culpem por assistir." Jasper brinca quando Edward faz uma carranca. "Relaxe, Edward, não é como se eu fosse morder a sua esposa, ou algo assim".

Aparentemente, Jasper não superou completamente isso.

"Oh, shhh, vocês dois." A voz de Alice filtra através antes de vermos o borrão quando a cabeça dela aparece por cima do ombro dele, seus braços enrolam em torno do pescoço dele. "Não deixe que o envenenamento de testosterona fique no caminho de uma bonita reunião".

Ela não está usando seus óculos escuros também, e enquanto seus olhos são igualmente sem cor, eles são muito mais fáceis de olhar do que os de Jasper. Eu me pergunto o que isso significa, se alguma coisa. Todos eles estiveram me dizendo que Jasper ainda não estava pronto para participar dos nossos bate-papos, e eu realmente não sei o que isso significa também. Às vezes eu desejo que eles simplesmente parem de me mimar. Eu li os diários de Edward. Eu sei o que acontece quando um vampiro recém-nascido perde o controle. Eu não sei por que todo mundo acha que eu não posso lidar com isso.

"Bella, por favor, não pergunte." Ela interrompe quando estou abrindo a boca para dizer o mesmo. "É por Jasper, tanto quanto é por você. Mas eu vi o problema que você estava, hum, discutindo com Edward, e eu tomei a liberdade de resolvê-lo para você. Tudo que você precisa está encostado contra a sua porta".

Com certeza, quando eu abro a nossa porta da frente uma caixa marrom cai no chão com um pequeno baque.

"Alice, vamos lá, eu não posso manter isso." Eu faço uma carranca assim que abro a embalagem e vejo o logotipo prata da loja na caixa branca dentro. "Até mesmo eu tenho ouvido falar desta loja, e como este material é caro. De jeito nenhum".

Eu quero dizer isso, mas estou meio que curiosa para ver o que ela comprou para mim, então eu dou uma olhada, de qualquer maneira.

"Por que você não pode mantê-lo?" O queixo de Edward descansa no meu ombro enquanto ele olha também. "Quero dizer, Alice é família agora, e você acabou de dizer que você está triste com o seu último".

"Oh, meu Deus." Eu respiro, e cautelosamente afasto o papel de seda branco para tocar um painel liso brilhante de material guarnecido de seda macia e diáfana em um design elegante.

"Você odeia fazer compras, lembra?" A respiração de Edward é uma brisa fresca, fazendo cócegas no meu ouvido. "Eu acho que você deveria, pelo menos, experimentá-lo antes de tomar qualquer decisão precipitada. Eu vou ajudar".

"Aposto que você vai. Vamos lá, é ridículo gastar tanto dinheiro em-" Eu paro no meio da frase quando os lábios dele encontram o exato local atrás da minha orelha, e eu não consigo me lembrar o que eu diria em seguida. "Ok, obrigada, Alice".

"Quando eu poderei ver?" Jasper ri, e Alice dá um tapa nele de brincadeira. Ele prende os braços dela e, de alguma forma, consegue fazer cócegas nela ao mesmo tempo. "Ei, eu não comecei isso, mas se vocês dois vão se exibir, vocês poderiam muito bem fazer isso com classe".

"Obrigado, Alice." Edward disse, incisivamente ignorando o comentário de Jasper. "Então, antes de Bella me distrair, como você provavelmente já sabe, eu tive alguns pensamentos sobre a situação de Marcus".

"Eu ainda não vejo qualquer mudança, Edward." Ela sacode a cabeça com tristeza. "Mas você tem que continuar tentando. Qualquer outra maneira termina em desastre".

Chelsea, de novo. Sempre a mesma coisa. Alice não vê Marcus ouvindo a razão, a menos que Chelsea saia, e Aro observa Edward como um falcão, especialmente quando ela está por perto.

"Mas Aro a mantém praticamente acorrentada ao lado dele." Ele diz, frustrado. "Eu tenho tentado desde que chegamos aqui".

"Parece que Aro sabe exatamente onde é o seu ponto fraco." Jasper observa. "Você não disse que ela tem um companheiro?"

"Afton. Ele não está muito ao redor." Edward diz suavemente. "Uma mente muito suspeita, muito cínico. Ele passa a maior parte do seu tempo perseguindo os interesses de Caius".

Fora pintura e escultura, não tenho ideia do que são os interesses de Caius, e eu não quero saber. Provavelmente coisas como brigas de cães, hóquei ultra-violento, ou molestar ursos. Algo inerentemente cruel com muito sangue e gritaria.

"Caius odeia Edward." Eu ofereço. "Quero dizer, ele parece odiar todos, mas especialmente Edward".

"Ele tem medo que eu esteja lendo a sua mente." Edward confirma. "É tudo o que ele pensa quando eu estou por perto".

"Qual é o talento de Caius?" Eu pergunto. Nunca vem à tona.

"Eleazar diz que ele não tem um. Ele diz que Caius é simplesmente muito velho, e realmente cruel pra caralho." Jasper balança a cabeça, pensativo. "E Aro nunca o toca, de algum acordo que eles fizeram desde o início".

"Vou concentrar em Afton." Edward diz, e Alice ofega um pouco, sentando-se ereta. "O que é isso? Alguma mudança?"

"Eu ainda não tenho certeza." Ela dá de ombros após um momento. "Está tudo misturado de novo, o que é melhor do que antes".

~oЖo~

Volterra parece quase como dois locais separados para mim: o mundo glamoroso e sombrio dos vampiros, o qual eu acho intrigante e um pouco assustador, e o mundo confortavelmente entediante humano, que parece achar a mim, ou, pelo menos o meu colar, igualmente intrigante e um pouco assustador.

Os mundos de humano e de vampiro se reúnem uma vez a cada quatro semanas, sempre que o meu coro tem um concerto. Eu vim para contar com a presença de vampiros, e meus olhos automaticamente procuram sua beleza visível e estranha na plateia. Não é difícil encontrá-los. Aro tem os melhores camarotes privados.

Estou acabando de reunir as minhas coisas depois do ensaio do coro quando o diretor me chama.

"Signorina Swan." Ele diz com um forte sotaque inglês, sempre mais respeitoso comigo do que qualquer outra pessoa. "Por favor, esteja com esta ária aprendida para o próximo concerto. É um pedido, ah, especial, do il Patrono".

Não houve a habitual audição formal para solos, mas ninguém questiona isso. Pela maneira como os olhos de todos se tornam maiores quando ele menciona o meu patrono, parece que ele não quer ter que explicar a ninguém, tampouco.

Tomo a partitura da mão estendida e começo a olhá-la. No momento em que leio as palavras, eu engasgo com a minha água engarrafada.

Aro do caralho.

"Algo é engraçado?" A mulher sentada ao meu lado pergunta, em inglês com forte sotaque.

É a primeira vez que alguém me fez uma pergunta que não foi completamente necessária, e leva-me um momento para superar a minha surpresa. Eu a peguei olhando para o V de ouro pendurado no meu pescoço várias vezes, embora esta seja a primeira vez que ela esteja cantando ao meu lado.

"A música, ela diverte você?" Ela pergunta com educada curiosidade, e talvez um pouco de receio.

"É a ideia do meu patrono de uma piada. Ele só está me provocando." Eu digo baixinho, e ela parece confusa, então eu me repito em italiano, esperando que eu esteja dizendo o que quero dizer.

"Eu entendo, uno scherzo." Ela balança a cabeça, sua expressão educada, mas um pouco apertada em torno das bordas. "Eu entendo. Seu patrono, ele gosta de fazer piadas?"

Eu dou de ombros e um sorriso de desculpa. Há uma linha quando se trata de falar sobre os Volturi com os seres humanos, e eu me sinto desconfortável perto dela.

"Você não tem a liberdade para dizer." Ela observa, e olha para mim especulativamente quando eu desvio o olhar, não tendo certeza de como responder. "Não se preocupe com isso. Ci prendiamo un caffè*?"

*Ci prendiamo um caffè = Vamos tomar um café?

Eu costumo tomar café sozinha, fazendo minha lição de italiano no período da tarde entre as aulas. É bom ter um convite de alguém que fala inglês e entende as minhas limitações.

"Si, perché no*?" Eu digo, grata pela pequena interação humana.

*Si, perché no? = sim, por que não?

Estou prestes a perguntar o nome dela quando Edward aparece, parecendo ansioso.

"Bella, você pode vir rapidamente? Algo está vindo." Ele diz com urgência, pegando a minha mochila.

Meu estômago cai enquanto passo por uma lista mental de tudo o que poderia dar errado. Aro descobrindo sobre Alice e Jasper. Algo acontecendo com Charlie ou Renée. Jasper cometendo um erro de novo. Emmett cometendo um erro de novo. Alice dando aviso de algum tipo – Aro vai descobrir o que estivemos escondendo dele? Quanto tempo nós temos para fugir. Nós podemos fugir?

"O que é?" Eu pergunto, aterrorizada.

"Eu posso ver que agora não é um bom momento, Isabella." A mulher diz, olhando Edward cautelosamente. Ela se afasta lentamente. "Talvez outro dia?"

"Sim, perdoe-me." Eu sussurro distraidamente enquanto Edward me leva pela mão.

"Alice enviou você?" Pergunto devidamente, uma vez que estamos fora.

"Ela enviou." Ele diz, voltando-se para mim. "Olha, eu sinto muito por tê-la assustado, mas você não pode simplesmente sair por aí tomando café com os humanos, Bella. Alice ligou para me avisar".

"Avisá-lo? Sobre o quê?" Pergunto, aliviada e confusa, tudo ao mesmo tempo. "Eu não posso ter amigos?"

"Não é seguro." Ele diz calmamente.

Eu realmente não posso acusá-lo de ser paternalista comigo, mas toda a situação parece ridiculamente exagerada.

"Você é superprotetor." Eu afirmo, irritada agora. "Todo mundo diz isso. É apenas um café, pelo amor de Deus."

"Para ela, Bella." Ele esclarece. "Não é seguro para ela".

Oh. Porcaria.

Vergonha brota dentro de mim quando eu percebo que nem sequer me ocorreu que alguém poderia ver nós duas tomando café juntas, mesmo à luz do sol. Aro ouviria sobre isso em poucas horas, se não mais cedo, e a pobre mulher teria a invejável atenção dele.

"Eu acho que devo a Alice, de verdade." Eu digo, mal conseguindo ouvir a minha própria voz. "Eu acho que eu não estava pensando".

"Ei, está tudo bem." Ele diz, levantando meu queixo. "Você não quis dizer nada com isso e nós pegamos isso a tempo. Crise evitada. Ninguém se machucou".

Eu não posso acreditar que eu acabei de criticá-lo por ser superprotetor.

"Graças a você." Eu franzi a testa, a culpa me fazendo torcer minhas mãos. "Obrigada por me parar, Edward. Eu nunca me perdoaria se algo acontecesse com ela por minha causa".

"Venha, vamos para casa." Ele diz, beijando minha testa, nariz e bochechas. "Nós podemos relaxar e você pode ligar para a sua mãe, ou Ângela. Você não está cortada de toda a interação humana, você sabe".

~oЖo~

Quando chegamos para a reunião semanal habitual com Aro, Felix nos encontra na entrada da biblioteca e nos orienta não para a sala de costume, mas para o grande salão, onde um piano de cauda preto brilhante foi estabelecido quando chegamos pela primeira vez. Há dois vampiros escuros que eu nunca tinha visto antes, um homem e uma mulher. Eles parecem mais velhos, como Aro, Marcus e Caius. A postura do macho parece meio fechada, os braços cruzados na frente do seu peito. A mulher está atrás dele, os olhos fixos em suas próprias mãos. Ela faz as esposas dos Anciãos parecerem feministas extremas, por comparação.

A maioria, senão todos, dos Volturi parece estar por perto também, parecendo calmos e, de alguma forma, mais relaxados do que eu já os vi, como se todos eles tivessem acabado de ter o jantar de Ação de Graças e um bom cochilo. A presença de Renata atrás de Aro completa a sugestão de uma ocasião formal.

Edward cheira o ar, e eu sinto o seu corpo inteiro tenso por um momento, seu braço curvando protetoramente em volta de mim antes de algo tácito passar entre Aro e ele. Ele acena minuciosamente, como se reconhecesse um ponto bem feito, e relaxa um pouco. Eu inspiro, tentando entender, e pego um tom tênue de cobre no ar.

"O entretenimento chegou." Aro grita no que eu reconheço agora como a sua voz formal. "Edward e Isabella, eu gostaria que vocês conhecessem os nossos visitantes do Egito, Amun e Kebi. Amun, estes são os músicos muito talentosos sobre os quais eu estava falando".

"Eu ainda não acredito em você." Amun afirma categoricamente. "A maneira como você justifica suas exceções, Aro. Por que você simplesmente não admite que as regras que você criou não se aplicam a você, em vez de inventar histórias tão ridículas?"

"Meu velho amigo, eu estava esperando que você dissesse isso." Aro ri, olhos brilhando de antecipação diabólica. "Eu acho que uma demonstração seria agradável para todos. Primeiro, Amun, por que você não faz a ele uma pergunta, mas apenas em sua mente?"

Amun parece incrivelmente desconfortável por um momento, e olha pra Edward.

"Sim, é verdade que eu não consumo sangue humano... é o jeito do meu clã." Edward diz educadamente. "Sim, eu provei sangue humano antes... Também é verdade que eu só posso ouvir quaisquer que sejam os pensamentos que estão atualmente em sua mente, e que você não acredita em mim quando digo isso".

As sobrancelhas de Amun levantam um pouco, mas, por outro lado, seu rosto permanece inexpressivo. Ele não parece ter acabado com o seu questionamento porque Edward continua falando.

"Não tenho nenhuma maneira de provar isso... Não, Aro não tem acesso aos meus pensamentos, por essa mesma razão. Sim, Aro respeita o meu pedido, como ele respeita o seu e o de Caius... Sim... Imagens, principalmente. Não, eu não ouço os pensamentos dela... alguns deles são muito hábeis em manter seus pensamentos calmos na minha presença, mas eu ainda posso observar das suas mentes... Isso, eu não tenho como saber, e eu não lhe diria se eu soubesse." Edward começa a soar cada vez mais irritado, e ele não é o único.

"Eu acho que isso é o suficiente." Aro interrompe, um pouco bruscamente. "Agora, Isabella. Infelizmente os nossos visitantes não têm talento especial, por isso vamos ter que usar um da guarda. Quem entre os talentosos que temos tentado? Ela bloqueia Edward, a pequena Jane, Demetri, Corin, e a mim completamente. Ela bloqueia Chelsea quase todo o caminho, e Marcus só um pouco. Vamos ver, quem não testamos?"

Tenho a sensação de que ele está usando isso como uma desculpa para mostrar o poder coletivo dos Volturi, para vangloriar-se sobre todos os membros talentosos da sua guarda mais do que tentando decidir como fazer o teste comigo.

Aparentemente, Amun entende a mensagem.

"Não, não você." Aro diz com escárnio flagrante quando o companheiro de Chelsea, Afton, dá um passo à frente. "Afton, você lida com objetos, não pessoas. O que você acha que pode fazer, verificá-la por falsificação? Onde está Alec? Venha para a frente, jovem rapaz. Seu talento tem certas vantagens visuais".

Afton se enfurece, humilhado e aparentemente esquecido quando desliza para o fundo. Alec parece completamente surpreso com sua convocação enquanto avança. Isso me faz pensar que Aro esteve guardando Alec expressamente para esta visita. Edward temia este teste desde que Eleazar explicou o que Alec e Jane fazem durante um julgamento. Ele nem sequer conhece o pior disso. Se ele conhecesse, bem, Alice não me disse o que ele teria feito, mas ela disse que não era bom. Estou feliz que isso vai acabar logo.

"Primeiro Edward." Aro diz para Alec. "Estou curioso para saber qual talento vai prevalecer".

Alec sorri, seus olhos um suave eco da emoção distorcida da sua irmã. Uma fina névoa se forma ao redor dele, e começa uma viagem lenta e insidiosa para onde estamos na frente do piano. Edward dá um passo ligeiramente em direção a ela, como se estivesse protegendo-me, desnecessário como seja isso. A névoa se reúne em torno dele, penetrando em sua roupa e girando em torno da sua cabeça até que ele parece desaparecer completamente. Eu dou um passo em frente, e estou horrorizada ao ver seus olhos nublados, seu rosto inclinado de uma forma estranha, como se ele não pudesse ver nada.

Eu toco sua mão, mas não há resposta. Pelo menos, não no início. Depois de um momento, ele cuidadosamente vira a sua mão e a segura levantada para mim, embora ele não vire a sua cabeça.

"Aha, você ainda pode vê-la então." Aro diz, inclinando-se para a frente. "Agora, todo mundo, fechem os olhos".

Eu suponho que ele não esteja falando comigo, então eu observo em fascínio quando todos os vampiros, salvo dois, fecham os olhos.

Edward fareja o ar, e relaxa, a tensão afrouxando dos ombros de uma maneira que parece completamente desconhecida para mim. Seu rosto também muda, e parece mais calmo do que eu já vi antes, particularmente em torno dos Volturi. Enquanto eu o vi feliz muitas vezes, sempre há um sentido subjacente de que ele esteja preparando-se contra alguma coisa. Eu nunca o vi tão relaxado, ponto final – não quando ele toca piano por prazer, não quando ele ri, nem mesmo quando estamos nus. Em seguida, isso me atinge.

Ele não pode sentir o meu cheiro.

"O que você vê? Diga a verdade." Aro diz, os olhos apertados.

"Eu ainda posso ver através dos seus olhos, Aro." Ele diz, e sorri suavemente. "Eu só desejo que eu pudesse sentir o toque dela assim como a vejo".

Aro não parece satisfeito com tudo isso, mas quando ele se inclina para trás em sua cadeira, sua expressão retorna ao seu padrão de diversão, calculando, todo observador.

"Agora tente Isabella, Alec, se você quiser".

A névoa gira para longe de Edward e sua mão aperta a minha dolorosamente antes que ele perceba o que está fazendo.

"Desculpe." Ele murmura quanto a tensão o recupera. "Você está bem? Eu te machuquei?"

"Eu estou bem." Eu o tranquilizo, enquanto minha mão pulsa em sinal de protesto.

Meu cheiro parece ser muito mais um fardo do que eu alguma vez totalmente apreciei.

A névoa gira em torno de mim e meio que paira sobre a minha roupa, mas não parece se elevar acima do meu pescoço. Minha pele formiga como se houvesse uma brisa úmida, e eu sinto o cheiro mais do que a quantidade usual da doçura dos vampiros. Meus membros parecem formigar, como se estivessem adormecidos.

Exatamente como Alice me disse que eles fariam.

"Alguma coisa?" Aro pergunta enquanto me observa com cuidado.

"Isso apenas parece como... neblina." Eu digo, olhando para o vapor amorfo para cobrir a minha mentira.

Eu mal posso sentir minhas pernas, mas ainda posso movê-las, elas ainda obedecem meus comandos. Eu movo minha mão experimentalmente, forçando um pequeno sorriso. Alice me disse que a mentira funcionaria, contanto que eu não olhe para Aro.

"Isso é um não para Alec então." Aro disse, parecendo nem satisfeito, nem insatisfeito. "Vê, Amun? O potencial dela é excelente".

O rosto de Alec permanece impassível quando a neblina volta a ele, mas Jane parece ter partes iguais de alívio e irritação que seu irmão gêmeo tenha falhado tanto quanto ela o fez.

"Eu posso ver por que você quereria transformá-la." O vampiro estrangeiro admite. "Mas por que esperar?"

"Você ouviu o que vampiros não treinados podem aprender a tocar no piano esta noite." Aro diz, e eu me pergunto quem esteve tocando. Provavelmente Aro, ou Heidi. "Agora veja o que acontece quando um talentoso e treinado músico humano se transforma. Edward, você faria a gentileza de reproduzir o dueto espanhol que lhe enviei esta manhã?"

"Certamente." Edward diz, e eu me movo para ficar atrás dele para que eu possa ver as suas mãos enquanto ele toca.

Ele fecha os olhos em preparação e eu fico animada, tendo visto a prática de executar isso antes. Edward nunca poderia tocar isso em público, já que suas mãos se movem com uma velocidade que, certamente, delataria a sua natureza não-humana. Mais cedo, ele disse que era a coisa mais desafiadora que ele já tocou, e seu rosto estava totalmente belo quando a frustração finalmente deu lugar à euforia, enquanto suas mãos e pés coordenavam para tocar quase todas as notas feitas para serem tocadas por quatro mãos simultaneamente. Quando ele começa, todos em torno de nós desaparecem até que eles são uma reflexão tardia incolor. A melodia me faz pensar em uma fogueira numa praia espanhola, chamas ecoando na cor do seu cabelo, as saias rodando furiosamente de dançarinos sugerida pelos seus dedos em movimento.

A peça parece um pouco diferente do que quando duas pessoas a tocam, simplesmente devido ao fato de que Edward tem apenas dez dedos, e há alguns lugares na partitura para o qual até mesmo a velocidade de vampiro não pode compensar. No entanto, a maioria destas passagens consiste de cordas paralelas, por isso a mudança é quase imperceptível. Sua combinação de velocidade e arte transforma a coluna em um foco de luz virtual e, enquanto eu não posso tirar meus olhos do borrão das suas mãos, eu posso sentir o ar em torno de nós bastante crepitante com a atenção sem fôlego e focada de cada pessoa no grande salão. Nada mais existe além de Edward ou as teclas. Pergunto-me o que suas mãos parecem aos olhos de vampiro, porque tudo que eu vejo são as manchas pálidas se movendo tão rápido como hélices de um avião em vôo, rodas em movimento.

Pelo que posso ver do seu rosto, é quase o olhar que ele recebe quando estamos juntos: não quando ele goza, mas quando eu gozo. O momento em que eu o vejo somente através de uma névoa do mais intenso prazer, quando eu grito seu nome e sua expressão determinada se transforma em uma de gratificação absoluta. Vendo aquele olhar sustentado em seu rosto me dá vontade de jogá-lo para baixo e violá-lo na frente de todos, e posso dizer, pelas suas narinas inflando e o sorriso puxando o canto da sua boca, que ele sabe disso.

Eu me sinto quase bêbada em querê-lo, e firmo meus joelhos contra o seu banco do piano.

Depois do ritmo alucinante do fim, o grande salão irrompe em aplausos quando ele retorna para as cores, e quando eu olho para o som, eu vejo uma sala cheia de mulheres perfeitamente bonitas que claramente querem fazer coisas muito perversas com o meu homem. Pela aparência disso, eu estou razoavelmente certa que a maioria dos homens estaria no jogo também. Orgulho e ciúme emaranhados no meu estômago enquanto ele educadamente agradece os aplausos. Mas então sua mão encontra a minha, e seus dedos acariciam a pele macia do meu pulso em um lembrete sutil e sensual da nossa posse mútua. Ele vira o rosto, como se para sussurrar no meu ouvido, mas, em vez disso, coloca um beijo doce, onde as suas palavras deveriam ter ido. Meu rosto queima com prazer, sabendo que ele tinha acabado de mostrar a todos exatamente quem é que ele quer.

"E você já ouviu vampiros não treinados cantarem esta noite. Agora, finalmente, eu gostaria de ouvir Isabella cantar." Aro diz, ignorando a atmosfera carregada e a nossa atípica demonstração pública de afeto. "O Caccini, por favor".

Fico meio surpresa por ele pedir algo tão fácil, já que tenho um repertório muito mais impressionante para escolher. Há provavelmente uma mensagem escondida nisso para Amun, conhecendo Aro.

"Os velhos madrigais parecem tão simples, e quase sempre os ouvimos mal feitos por estudantes iniciantes." Ele explica, deixando-me ainda mais suspeitas. Charlie sempre diz que se alguém começa a explicar quando ele não precisa, ele provavelmente está mentindo. "Quando se aproximam com a habilidade, eles me fazem lembrar a razão pela qual eu me apaixonei por essa música, em primeiro lugar".

Eu fico um pouco mais nervosa que o habitual, sabendo que esta apresentação significa algo para Aro, mas sem saber exatamente o quê. Eu tomo a minha posição no canto curvo do piano, fecho meus os olhos e chamo a coluna, esperando até que eu a sinta de novo através do silêncio pulsante, viva como um farol. Levanto o meu rosto no mesmo momento em que Edward começa a tocar, nossa conexão musical tão instantânea agora que quase não precisamos usar sinais em nada.

Enquanto eu canto as palavras para Amarylli mi bella, lembro-me da inclinação de Aro pelo simbolismo, particularmente quando se trata de flores, e percebo que a música que ele escolheu para eu cantar pode ser interpretada de muitas maneiras. Ele me enviou tantas flores que, por agora, eu tenho todos os seus significados memorizados. Ao dar esta Amaryllis* virtual para os seus visitantes na forma de música, ele pode estar mostrando a eles o orgulho, determinação. Isso iria junto com seu tema de se gabar.

*Amaryllis: narciso (tipo de planta). A amaryllis tem um rápido crescimento e floração de até um mês, após este tempo, o bulbo entra em período de dormência, perdendo todas as folhas e com aparência "sem-vida", após esse período nascem folhas e flores novamente.

A coluna funciona para mim também e eu me encontro facilmente envolvida nesta melodia dolorosamente linda e as palavras que eu poderia ter escrito eu mesma. O italiano é fácil de traduzir e me faz pensar em Edward quando ele fica com ciúmes, tanto que eu me pergunto se Aro escolheu esta canção com uma mensagem para ele também. Mesmo que ele esteja mantendo sua promessa e nunca sequer tentou tocar a pele de Edward, não precisa de um leitor de mente para ver o ciúme e a possessividade que parecem borbulhar para a superfície a qualquer momento que o nome de Demetri é mencionado, ou, pior, se ele está por perto. É fácil dizer isso quando eu canto as palavras que se traduzem rudemente em "Você não acredita, Ó meu doce desejo do coração, que você está apaixonado? Acredite, e se o medo assaltar você, não duvide da verdade".

Não que eu não fique com ciúmes também. Renata, Heidi e Chelsea nem sequer se preocupam em esconder o seu desejo óbvio por Edward, nem a sua perplexidade em nosso relacionamento.

Posso entender sua confusão.

"Eu tentei explicar isso a elas." Aro disse para Edward em uma ocasião memorável. "Mas elas não viram através das memórias de Carlisle exatamente o quanto Rose e Tanya realmente são belas. Elas não percebem o que você tem resistido até agora".

Agora que penso nisso, eu posso entender o que deixa Edward tão louco sobre Demetri. Ter uma vaga ideia que alguém quer o que você tem pode ser facilmente ignorado, mas tê-lo dito assim em voz alta? É uma loucura de decisões. Balançando a cabeça para me livrar desses pensamentos, eu olho para o único lugar onde as minhas dúvidas desaparecem, então eu olho diretamente nos olhos dele enquanto eu tento dizer o que ele significa para mim.

Aprimi il petto e vedrai scritto in core: Abra o meu peito e veja isso impresso em meu coração.

Há outra história por trás de Amaryllis e seu amor fatídico pelo pastor de ovelhas que a ignora até que ela perfura seu coração para criar a flor perfeita que ele quer. Isso sempre me lembra o que senti pela primeira vez por Edward, e ainda sinto às vezes. Sinto-me tão completamente inadequada em comparação a ele e todos os vampiros belíssimo que nos rodeiam. Quem não se sente assim, vendo-os em toda parte, e depois tendo que enfrentar todas as minhas falhas no espelho? Mesmo que ele diga que me ama, e prove a cada dia que ele me quer, uma parte de mim ainda não entende isso, não pode esquecer que não somos iguais. Ainda não, de qualquer maneira. E ele parece não compreender, então eu não falo sobre isso. Eu não digo a ele que o que mais me agrada quando Aro está satisfeito, é que isso significa que eu estou muito mais perto da minha transformação.

~oЖo~

Todo mês, o nosso coro e vários outros conjuntos se concentram em alguns compositores que fizeram mudanças revolucionárias na música e a noite do concerto da Palestrina de Monteverdi vem apenas algumas noites depois que os visitantes voltarão para o Egito. Eu tenho que entregá-lo a Aro, ele sabe como desenhar um programa. A música vai, não só em ordem cronológica, mas cada peça também mostra um elo de uma cadeia de ideias progredindo de música que é muito linda, mas ainda bastante simples, para a brilhante tecelagem de harmonia, melodia e poesia que define a tapeçaria exuberante da música Barroca Italiana em geral, e especificamente de ópera. Palestrina foi do professor de Monteverdi, e você pode definitivamente dizer pelos pedaços de harmonia e melodia ecoando de uma peça para a próxima. Algumas notas em um trabalho religioso transformam-se em parte de uma melodia em uma canção de amor de uma década depois, apenas para ser melhorada e ajustada para um melhor texto pelo estudante de várias décadas depois. A música é simplesmente linda, cada peça fluindo para a próxima de tal forma que você consegue o efeito completo de um novo tipo de música emergente como se estivesse assistindo a abertura da flor no lapso de tempo fotográfico.

Jasper adoraria isso, e eu faço uma nota mental para enviar o programa para ele.

Quase posso imaginar Aro testemunhando esta música pela primeira vez, séculos atrás quando era novo, e isso me faz pensar se ele também acha que não tem alma. Duvido que ele pense sobre almas. Carlisle e Edward eram humanos durante um tempo quando a religião era algo para o qual as pessoas viveram e morreram, e foram para a guerra. Romanos não precisavam de nenhum pretexto assim, a guerra teve o seu próprio deus, afinal. Aro era humano durante uma época quando a civilização significou dominação, e a única coisa que importava era a razão e a lei, apoiada pela força bruta implacável. Sem música... bem, eu não gosto de pensar sobre Aro sem música. Eu tremo só de pensar em como ele era antes que a música deu-lhe algo para fazer.

Quando eu ando para frente para cantar o meu solo, eu entrego-me à verdade e, estranhamente, à beleza das letras enquanto elas voam pela minha cabeça em um ensaio mental de última hora. É claro que eu tive tempo para me acostumar com as brincadeirinhas de Aro e descobrir como eu quero responder. O que eu não contava era com uma casa de ópera cheia de vampiros sentados ao longe, enquanto eu estou tentando cantar na frente de várias centenas de pessoas que não entendem a piada. A maioria dos vampiros parece entediada, com exceção de Aro, que, claro, parece muito satisfeito consigo mesmo, e Edward, que posicionou-se o mais próximo possível de mim, e perto o suficiente da borda, de modo que ele pode mover-se fora do alcance de Aro.

Leva simplesmente toda a minha concentração para tropeçar de propósito sem realmente me machucar, e os suspiros em massa da multidão enquanto o maestro estabiliza-me com uma mão, já conduzindo com a outra. Cuidando para não perder a coluna, mesmo enquanto apresento um pouco de comédia, eu olho para o sinal de saída e abro a boca para cantar a canção que poderia ter sido escrito por mim, se eu tivesse vivido no tempo de Monteverdi.

"Ohimé ch'io cado*." Eu canto, e não há nenhuma necessidade para atuar. O público ri.

*Ohimé ch'io cado = Aí eu caio.

É uma canção sobre um desajeitado. Claro, é uma metáfora por se apaixonar com muita facilidade, mas as palavras são inconfundíveis. Em inglês, seria:

Ai de mim, eu rolo para baixo, infelizmente para mim,

meu pé desliza novamente, exatamente como fez antes.

e minha esperança perdida e murchando

devo mais uma vez regar com lágrimas frescas.

Permito-me um olhar para a plateia e quase imediatamente tenho que olhar para baixo novamente, o calor infundindo meu rosto enquanto tento ignorar vários vampiros tremendo, bastante vibrantes com gargalhadas silenciosas. Até mesmo Edward, pelo amor de Deus.

Eu estou meio irritada com isso, e depois de outra estrofe eu lanço a ele um olhar sujo para torná-lo bastante claro de como eu me sinto. É quando os vampiros param de prender e vários riem abertamente. Eu encaro Edward enquanto ele mexe a boca com a palavra "desculpe" para mim com um encolher impotente dos seus ombros, inspirando uma nova rodada de risadinhas como sinos e gargalhadas ao redor dele.

O imortal campeão

Eu estou com raiva...

Eu me deixei irritar um pouco porque eu sempre canto melhor quando estou com raiva, e a única alternativa seria rastejar em um buraco e morrer de vergonha. A maioria das palavras já não se aplica à vida real, então eu simplesmente foco na coluna e faço o som mais lindo que eu puder. Parece que funciona, e na hora que eu chego à última parte, eu posso sentir que o público, vampiros incluídos, está totalmente do meu lado.

Oh, não me negue

o olhar e o riso;

para que a minha prisão

baseada nessa bela terra

deva tornar-se um paraíso.

Não é uma ária de ópera enorme, mas acaba por ser, possivelmente, a melhor performance que eu já dei, e quando a última nota ecoa de volta para mim, eu ouço gritos múltiplos de "Bravo!" da plateia sobre o doce som de aplausos.

O primeiro grito, eu tenho quase certeza disso, vem de Aro.

~oЖo~

"Muito bom." Minha quase amiga me diz quando saímos do palco.

Eu ainda não sei o nome dela. E eu quase...

Sorrio para ela num reflexo, mas começo a entrar em pânico quando ela parece levar isso como um convite para falar mais. Eu a tenho evitado antes e depois dos ensaios, até mesmo indo tão longe a ponto de chegar tarde e sair no momento em que paramos de cantar. Eu estava esperando que ela pegasse a dica.

"Obrigada." Eu respondo, quase incapaz de olhar para ela.

Ela parece que quer dizer algo, mas recua quando Edward me encontra nos bastidores.

"É melhor assim." Ele diz, dirigindo-me rapidamente em direção a uma passagem secreta onde temos um momento a sós.

"Eu sei, eu sei, mas eu ainda me sinto como uma idiota." Eu confesso. "Ela realmente parece que quer ser minha amiga".

"Tente não pensar nisso, ok?" Ele diz, e eu abro a minha boca para perguntar se ele tinha conseguido outra mensagem de texto ou ligação de Alice, quando ele murmura, "Você foi bem, Bella. Eu sei que Aro ficou impressionado".

"Na verdade, eu estou." Aro diz ao emergir das sombras, flores na mão.

"Vocês dois me agradaram extremamente bem, meus jovens amigos. Estou ficando bastante apegado a vocês."


Nota da Tradutora:

Vários acontecimentos e algumas mudanças na história... será que a transformação de Bella está mais próxima mesmo?

O próximo capítulo virá na segunda-feira se tiver no mínimo 12 reviews!

Bjs,

Ju

Pra quem ainda não leu, ontem comecei a postar a tradução de uma fic que é perfeita, chama-se High Anxiety. Quem ainda não leu, comece pq vale a pena! E não esqueça de deixar reviews!

E hoje comecei a postar a tradução de Fall to Pieces, que pretendo postar diariamente... Leiam e deixem reviews!