Disclaimer: No presente momento, nada me pertence. Nem Naruto, nem as músicas da Carrie Underwood ou do The Devil Wears Prada. Nem tenho um guarda-roupa que me leva pra Nárnia. D:

Nota da autora: Essa idéia estava comigo há algum tempo. São histórias desconexas — ou não —, baseadas em fatos reais — ou não. E eu não escrevo bem. Nada disso faz sentido. ' - ' Life is meaningless, mimimi. Viva todo o mundo!

P.S.: Só agora vi que a fanfic atualizada imediatamente antes da minha tinha (quase) o mesmo nome. E que também era uma coleção. Não de one-shots, mas de drabbles. Quão bizarra a vida pode ser?

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1

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So if you feel like giving up 'cause you don't fit in down here
Fear is crashing in
Close your eyes and take my hand

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Ela esperara por aquele dia a vida toda.

Certo que cinco anos não é lá tanto tempo, mas havia se preparado o mais que podia.

Embora quisesse mais que tudo estar ali não sabia muito bem o que fazer. Não conseguia sorrir. Seu rosto estava sério, guardando uma expressão aflita. A mão ainda segurava a da mãe.

— Seja uma boa menina. — A mulher deu um sorriso igualmente aflito — E prometa que vai ficar bem.

Disse que prometia, e foi deixada sozinha.

As crianças corriam pelo pátio fazendo um alvoroço. Um garoto caiu com a mochila aberta. O estojo e todos os cadernos foram parar no chão. Um moleque pisou por cima, de propósito. Os dois saíram no tapa. Uma menina mais adiante estava tomando sorvete de massa quando foi empurrada pelas costas. Caiu por cima de outra, melecando sua blusa de marrom-chocolate. Um grupo de garotas ali perto pulava corda, cantando junto do ritmo das batidas no chão. E Hinata não sabia o que fazer. Não sabia nem onde era sua sala.

Começou a sentir um nó na garganta. Resolveu falar com alguém.

— O-oi, você sabe onde fica... — Mas o menino com quem falara saíra correndo quando um outro gritara "Hoje não!". Ela se sentiu meio humilhada.

Sua mãe não podia ter ficado um pouco mais? Pelo menos até ela achar a professora?

O sinal ecoou nas paredes da escola. As crianças gritaram numa só voz, cada uma correndo para uma fila diferente. Só ela ficou ali, parada, de pé. As bochechas se tornaram escarlates.

— Ô! Psiu! — Uma menina mais velha fez uma concha com as mãos e gritou pra ela — Vai pra tua fila!

— Eu não sei onde é. — Tremeu.

— Qual é tua série?

— Pri-primeira.

— Disso eu sei. — Revirou os olhos — Mas qual é a letra?

— D.

— Então é a última do lado de lá. — A garota apontou duas vezes pra esquerda — Corre, que já vai começar.

— O-obrigada! — E sumiu praquele lado correndo. Esquecera de perguntar o que é que já ia começar. A mochila batia na junta das pernas.

A professora daquela turma tinha um ar severo no rosto.

Estava metida num jaleco branco bem comprido e usava uns jeans surrados. Era muito alta. Seus olhos apertados e o cabelo todo escovado para trás metia medo nos alunos. Hinata, que chegou correndo, engoliu em seco. Sentiu a saliva descer rasgando a garganta.

— Professora? — Chamou baixinho, puxando a barra do guarda-pó. — Aqui é a fila do Primeiro D? — Sua voz sumindo, sumindo.

— É — Foi a resposta mecânica — Fica aqui na frente, já que é por tamanho.

Hinata olhou para a turma e percebeu-se menor que os outros. Enfiou-se na frente de um menino pequeno, mas não mais baixo que ela. A professora torceu as sobrancelhas.

— Aí não! — E puxou-a pelo braço para frente de uma garota que conversava com a de trás — Fique na fila das meninas.

Fila das meninas, repetiu em sua mente, perdendo a cor do rosto. Estava fazendo tudo errado num dia que deveria ser perfeito.

O som de fanfarra começou de lugar nenhum, pondo todos os alunos muito retos em suas filas. As mochilas foram jogadas no chão. Ninguém virou pra trás, nem conversou. O barulho ressonante se transformou em melodia e uma voz começou num tom forte e entusiástico:

"Ouviram do Ipiranga às margens plácidas, de um povo heróico o brado retumbante..!"

E ninguém sabia o que diabos era penhor, ou fúlgidos, e não houve um na fila do Primeiro D que não cantou "Funduras, ó Brasil Florando América", mas todos cantavam com tanta força e vida que era como um baile de carnaval. Mas ela não conseguiu cantar. Mal sabia a letra. Estava nas costas da apostila de jaguar que ela vira em casa. Se soubesse que iria ter de cantar, decoraria. Mas não sabia.

As vozes altas cresciam e cresciam, fazendo uma pausa dramática em "Brasil, um sonho intenso", como se não soubessem se era esse ou o outro verso. Ela mexia a boca de vez em quando, sob o olhar atento da professora. Não cantou uma palavra e deu graças a Deus quando acabou.

— Anda logo! — A menina de trás a empurrou no ombro. — A fila das meninas vai primeiro, sabia não?

— D-desculpe — Tentou pegar a mochila, que parecia cera escorregando — Eu não sabia.

Os meninos riram alto na fila ao lado. Ela agarrou a alça com as duas mãos. Deu uns passos para frente e tropeçou. Não caiu, mas o nó na boca do estômago saltou direto pra garganta.

— Anda logo! — Alguém lá atrás repetiu.

Resolveu andar logo mesmo, antes que alguém a empurrasse como a menina do sorvete. No próximo tropeço, ela ia dar de cara com o chão.

A sala ficava no fundo de um corredor ao lado do refeitório, e era isolada. Também era bem pequenininha, só com umas poucas carteiras, um quadro-negro partido e um armário velho encapado com papel azul e fita adesiva. Hinata esperou todo mundo sentar para escolher uma carteira. Ficou destinada à da frente.

Uns vinte minutos se passaram com ela ali, sem conversar com ninguém. A apostila estava aberta nas primeiras páginas, com uns desenhos infantis. A professora havia escrito algumas coisas no quadro. Feito uns rabiscos também. A abelha que ela desenhara tinha asas tortas. Olhos esbugalhados. Hinata ouviu uma menina a seu lado dizer que a professora desenhava bem. Talvez na terra do contrário, pensou, sem querer ser cruel.

Vinte minutos foi o tempo que ficou sem fazer nada. A tarefa da classe era circular vogais. Hinata sabia o que eram vogais, sabia ler e sabia onde ficava cada letra no alfabeto, mesmo as estrangeiras. Quando a professora terminou de explicar, ela já havia terminado.

Passou aquele tempo folheando a apostila. A tiara em sua cabeça estava machucando como dentes afiados que a mordiam, mas não ia tirar.

Tinha medo de um olhar reprovador que certamente viria.

Uma senhora bateu à porta.

— Com licença, e me desculpe — Tinha um sorriso tímido. Um garotinho segurava sua mão — Acabamos de voltar de viagem, por isso ele se atrasou. Será que ainda pode ficar?

A professora analisou o menino apertando a mão da mãe. Havia marcas de tinta vermelha em cada uma das bochechas. Torceu o nariz, mas disse que podia. A mãe do menino virou-se para a criança e disse que ia ficar tudo bem. A mão dele passou para a professora, que sorriu forçosamente.

Hinata teve vontade de dizer que nada ficaria bem, mas a professora estava ali e a mulher muito longe.

O menino olhou para cima e deve ter sentido a mesma coisa. Soube que a mãe mentia. E desatou a chorar.

— Não chora — Sussurrou uma garota na fila perto da porta — Chora não.

Mas o menino não parou. Foi pra carteira chorando. Sentou perto da janela soluçando, debruçou o rosto na carteira e chorou. Chorou doído. Chorou a aula inteira.

Hinata segurou a apostila com bastante força dos dois lados.

Ela sabia o alfabeto inteiro. Sabia ler. Sabia mais do que qualquer um na sua idade poderia, mas não sabia por que é que o menino chorava tanto. Não sabia que compartilhavam o mesmo desconforto.

E não sabia — não podia saber! — que os mesmos olhos que ela temia pela tiara seriam os mesmos a reprovar suas contas de somar. As que davam errado e as que davam certo, sem seguir a lógica correta. Você fez errado. Seria a frase taxativa matando sua vontade de aprender.

Mas não sabia que não poderia errar. Não sabia nem o que considerar um erro. Assim como não sabia que não poderia erguer a mão, nem fazer perguntas. Que pedir para ir ao banheiro seria sempre um pedido negado, que errar a letra no hino era motivo de rechaço.

Mas havia algo naquele choro — naquele choro doído que a fazia apertar a apostila — que deixava entrever o futuro. Como uma fenda cortada por faca sutil, onde ela podia espiar como garota mal-criada. Hinata não era mal-criada, mas a escola quase a faria acreditar ser.

Lembrou-se do garoto pisoteando os cadernos. Do sorvete na roupa. Das garotas pulando, "... e vá pro olho da RUA!" e de como as meninas batiam a corda com mais força e riam.

Sentiu vontade de levantar da carteira e pedir pra trocar de lugar.

Queria sentar-se a frente do menino e dizer que não ia ficar tudo bem, mas que podiam passar por isso juntos. Talvez não fosse tão ruim assim com mais alguém que não se encaixasse, mais um que não achasse que linhas tortas eram desenhos bonitos.

Nada ia ficar bem, mas eles ainda podiam sair dessa.

Ela sabia ler. Ele podia saber contar.

Não precisavam pertencer àquele conjunto universo, onde alunos seriam enquadrados por medo. Onde receberiam olhares que os fariam calar todas as palavras e dúvidas.

Ela diria que ele podia ser seu amigo, desde que a deixasse tentar. Passariam o recreio juntos. Trouxera um pote de amendocream escondido, e esse seria o segredo deles. Ela não poderia ajudá-lo, mas eles se ajudariam. E enquanto sozinhos eram fracos, juntos, talvez, fossem fortes.

Mas Hinata tinha cinco anos e não sabia nenhuma dessas coisas. A vontade de pedir pra levantar ficou só no pensamento. No recreio, nem tirou o pote da maleta.

A apostila é que amassou entre seus dedos.

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And I know this is not much,

but I know, I could, I could be better

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