Disclaimer: Saint Seiya e seus personagens pertencem ao Masami Kurumada.
Doce Vampira
Capítulo 2:
Os olhos da Auror
Éos coloriu o céu com seus dedos róseos, com sua bela aurora, sendo seguida por Hélios, que radiou a terra mais uma vez com a luz do sol.
De forma vagarosa, penetrou por entre as cortinas do quarto de Máscara, iluminando o tórax nu do cavaleiro, dormindo espalhado pela cama e com o cobertor jazendo no chão. O despertador tocou. O canceriano remexeu-se, murmurando algo inaudível a ouvido humano comum, dando um tapa no aparelho, que foi parar do outro lado do quarto, despedaçando-se ao encontrar a parede. Acordando com o barulho provocado, abriu um olho e expiou, ainda deitado, o estrago feito no relógio. Suspirou.
Máscara: Droga, já é o terceiro essa semana... – resmungou, levantando-se a contra-gosto, espreguiçando-se demoradamente, esticando todos os músculos. Foi até o almoxarifado, pegar uma sacola onde colocar o aparelho despedaçado. – Tô ficando igual ao Milo, odiando acordar cedo...
Após limpar o aparelho, foi até a cozinha preparar o café. Enquanto voltava para o quarto, bebericando café fumegante numa xícara, parou para ver dois porta-retratos ao lado da televisão na estante. Num, ele, Milo, Mu e Kamus, usando grossas roupas de lã vermelhas, à frente de enormes portas de carvalho, enquanto havia um grande tráfego de pessoas usando uniformes de capas negras com cachecóis listrados, uns, amarelos e vermelhos, outros, cinza e verde, e ainda outras duas combinações. Era a única lembrança que ele e os outros três da foto tinham daquela missão do Santuário. Fora durante apenas um ano, quando ele tinha dezessete anos e os outros, quatorze. Nada lembrava do que acontecera durante a missão, ou qual a finalidade da mesma. Era como se sua memória houvesse sido alterada. O outro, uma enorme família, onde ele não aparecia. Daquela ele lembrava, fora ele quem tirara. Tocou na foto, fitando uma mulher com um garoto na frente e um homem abraçando-a pelos ombros. Tinha os cabelos longos e negros, franja repicada caindo sobre os olhos anis, com um enorme sorriso que aqueceria todos os oceanos.
Máscara: Zoílo sempre me culpou pela morte da mãe e do pai dele... – murmurou. Desviou a atenção da foto e foi até o quarto trocar de roupa. Athena chegaria naquele dia, e era bom que ele estivesse no Coliseu, treinando, quando isso ocorresse.
Kamus e todos já estavam no Coliseu, treinando. Isto é, quase todos. Como sempre, Milo ainda não chegara. Devia ter ficado até tarde da noite na farra com alguma amazona.
Milo dormia esparramado na cama. Os cabelos embaraçados o deixavam parecendo um bichinho de pelúcia. Dormia de forma que seu ronco ecoava por toda a casa de Escorpião. Quem pensara que fora porque ficara na farra até tarde e por isso acordava tão tarde, enganava-se. Ficara até tarde refletindo em coisas do passado. Daquele um ano do qual os outros três nada lembravam. Ele era o único a lembrar de algo, não apenas algo, mas tudo. Ao virar para o lado, caiu no chão levando o cobertor e o travesseiro junto. Levantou-se rápido e olhou o relógio. Cinco para as dez. Gelou e correu para a cozinha, pegou um pão puro mesmo e voltou para o quarto. Pegou a roupa de treino e vestiu-se enquanto mastigava o pão. Tinha cinco minutos para chegar ao Coliseu. Terminou de comer e foi até o banheiro escovar os dentes. Ainda não havia calçado os sapatos, mas quem se importa? Sua vida era mais importante, por isso desceu as escadas para as casas abaixo ainda vestindo-os.
Ao chegar no Coliseu, os cavaleiros estavam se arrumando em fila militar de acordo com a ordem das doze casas. Correu para o seu lugar, e um minuto depois, exatamente às dez horas, Athena entrou no local.
Girou os olhos, atrás de Tenshi. Ela sempre ficava na fila que as amazonas faziam, mas não a encontrou. E percebeu que os outros também haviam reparado. Kanon e Saga pareciam tristes com algo. Será que Tenshi desistira de se tornar amazona? Impossível, estava lá somente há dois meses e se mostrava bem competente para tal.
Athena aproximou-se, consultando Shion de algumas coisas. Após tal, virou-se para os cavaleiros, com um olhar que intimidava. Sabia que a maioria não treinara, e sim, havia ido para a farra.
Athena: Então, ao invés de treinarem, ficaram assistindo as brigas de Milo e Máscara, e ainda fazendo apostas?! – falou imperando a voz irritada. Milo e todos os outros que estavam no local no dia anterior gelaram. Como Shion descobrira?! – Todos que estavam lá, inclusive os que brigaram, um passo à frente.
Sem escolha, Máscara, Milo, Kanon, Aiolia, Aiolos, Shura e Aldebaran apresentaram-se, junto com Shina e outras amazonas. A deusa olhou decepcionada para Aiolos e Aldebaran. Dos outros, já esperava tal comportamento.
Athena: Como castigo, terão que fazer trabalho comunitário por tempo indeterminado no Rodório. Isso inclui limpar a Acrópole, ajudar senhoras com as compras, coisas assim. – falou irritada. Sabia que, com exceção de Aiolos e Aldebaran, os outros detestavam fazer tal. Já estava saindo do Coliseu, quando ouviu Aiolos chamar-lhe. – Sim, Aiolos? – perguntou, já imaginando o que seria.
Aiolos: Onde está Tenshi, Athena? Não me diga que ela desistiu de ser amazona, sei que ela jamais o faria... – perguntou dando um passo em direção à deusa. Athena suspirou.
Athena: Basta que saibam que Tenshi precisou ser enviada ainda como aprendiz numa missão que durará tempo indeterminado na África. – falou, sem dar tempo para mais perguntas.
Os castigados entreolharam-se. Olharam para Kanon, esperando que este falasse algo.
Kanon: Não olhem para mim, sei tanto quanto vocês! – falou rápido. – Agora, é melhor irmos logo cumprir nosso castigo, antes que Athena venha aumentar de indeterminado para até nossa morte... – falou andando até a saída do Coliseu, sendo seguido pelos outros.
Os que haviam ficado organizaram-se em pares, começando alguns a conversarem sobre o que haviam feito enquanto Athena não estava no Santuário.
Máscara fazia diversas coisas. Milo, ao invés de fazer qualquer coisa, dava em cima das jovens que passavam que tivessem uma ótima aparência. Ele, por sua vez, ajudava com amabilidade senhoras a carregarem as compras, ou então crianças cujos gatos haviam ficado presos nas árvores, ou ainda, dava lição de moral naqueles garotos que tem em qualquer lugar, que bate em todo mundo. Querendo não ficar com a mesma fama do escorpiano, decidiu ir à Acrópole, onde mais à noite seria encenado Helena de Tróia, ver se precisavam de ajuda para arrumar o cenário. Como retribuição pela ajuda, deram-lhe um ingresso na primeira fila para assistir a peça.
Logo ao início, a peça começava com o nascimento de Páris, irmão do valente Heitor e da belíssima Cassandra, estes três, os filhos mais famosos, mas haviam outros filhos de Príamo e Hécuba, Heleno, este irmão gêmeo de Cassandra, Polido, Creusa, Laodice, Dêifobo, Polixena, Polídoro, Antifo, Tróilo e Ilíone. Cassandra aparecia e falava que Páris traria à ruína à Tróia. Preocupado, pelo fato de saber que Cassandra podia ouvir a voz dos deuses, mandou que abandonassem Páris para morrer devorado por lobos ou então de fome. Nesse momento, uma mulher pediu licença a Máscara para sentar-se ao seu lado, onde o banco estava vazio. Afastando-se um pouco, abriu caminho para a mulher, aparentemente estrangeira, passasse e se sentasse.
Ao final da peça, o canceriano observou melhor a mulher. Era a mesma que vira no dia anterior, após a briga com Milo. Interessado pela beleza um tanto exótica, resolveu puxar assunto com a mesma durante a saída.
Máscara: Você estava ontem no Caverna das Ninfas, não estava? – perguntou passando a andar ao lado da mulher, que se assustou, mas ainda assim afirmou balançando a cabeça. – Prazer, meu nome é Máscara da Morte, e o seu? – perguntou estendendo a mão num cumprimento.
Vandria: Meu nome é Vandria, sou da Inglaterra. Você também não é grego, é? – perguntou apertando a mão do italiano.
Mascara: Não mesmo, sou italiano. – respondeu à pergunta com um sorriso charmoso.
Vandria: (pensando) Esse mesmo sorriso... Foi esse sorriso que me conquistou seis anos atrás. – pensou um pouco encabulada. – (falando) Mas e aquela garota que parou a briga sua e do seu amigo? Quem é ela, que mete tanto medo em vocês? – perguntou interessada.
Mascara: A Tenshi? É prima do que tem cabelo azul-índigo, que tem um irmão gêmeo. O motivo pra meter tanto medo na gente? Não deixa nenhum dos três saber, mas ela é maluca igual a eles, e ainda é de gêmeos, também. Apesar de ter quatorze anos, ela é tão brava que parece Athena quando a gente não treina. – falou, então tapando a boca ao notar que falara coisas que tinham que permanecer nos limites de Rodório.
Vandria olhou-o. Lembrava de cada momento. Sabia, também, que mesmo com a memória apagado por um feitiço, uma pessoa não consegue deixar de contar coisas que jamais contaria a estranhos com pessoas que outrora já lhe foram de tanta confiança. E o que ele dissera em relação à Athena, era algo que lhe interessara.
Vandria: Athena, a deusa da sabedoria e guerra justa na mitologia?
Mascara: Essa mesma... Você deve me achar louco, não é verdade? – falou já se preparando para sair ao menor sinal de que ela não gostara dele.
Vandria: Pelo contrário, conheço de cor e salteado a lenda dos Cavaleiros de Athena. E é por isso que me interesso tanto por Helena de Tróia e Ilíada. É onde ela mostra sua verdadeira natureza, afinal, foi ela quem sussurrou a Odisseu a idéia de capturar Heleno, que possuía as mesmas habilidades de profecias que a irmã gêmea Cassandra, que lhe falou tudo o que precisavam fazer para vencer Tróia, e, em parte, foi ela quem sussurrou a idéia do Cavalo de Tróia. – falou sorrindo.
Máscara: Gostaria de jantar comigo? Conheço um restaurante italiano ótimo aqui perto. – perguntou oferecendo o braço.
Vandria enlaçou o braço do italiano, sorrindo. Porém, enquanto conversavam, não se olhavam, algo que fez o sorriso morrer. Sabia que tudo não passava de um sonho que acabava de recomeçar, e logo acabaria novamente.
