Olás,

Eu avisei que os updates de Epílogo iam demorar bem mais... escrever é muito mais difícil do que traduzir, especialmente quando não se tem muita prática.

Mas os reviews de vocês me deram ânimo pra continuar. Super obrigada, meninas!

Mas tenho que ser sincera, não fiquei muito satisfeita com esse capítulo. Ainda tô meio perdida sobre pra onde ir com a história (não que tenha muito enredo, rs), e alguns diálogos podem ter ficado meio estranhos...

Bom, leiam e me digam o que acham, ok?

Valeu gente!

dai86


O destino decide quem entra na minha vida. Minha atitude decide quem fica.

- Martha Medeiros


Capítulo 2

.

"Que diabos você tá fazendo aqui?"

Todos os rapazes saltaram assustados diante do grito irado do Uchiha, e logo entraram em estado de alerta. Apesar de o garoto parecer completamente inofensivo, entre shinobis, aparências podiam enganar, e visto que ele conseguira arrancar uma reação tão exaltada de nada menos que Uchiha Sasuke, só podia ser alguém digno de cautela.

Sasuke atravessou a distância entre eles num piscar de olhos, vindo a pairar sobre o desconhecido como um animal sobre sua presa, bloqueando inteiramente a visão dos outros homens. Mesmo estando de costas pra eles, era fácil perceber que o moreno arfava como uma fera.

Estava enfurecido.

Mas sua postura não parecia transmitir agressividade física, ou receio, mas sim uma irritação profunda, o mesmo tipo de reação que Naruto costumava inspirar nele, só que de forma mais intensa. Muito mais intensa.

Quem era esse garoto?

De sua parte, Sasuke estava praticamente vendo em vermelho. No momento em que se deu conta de quem estava naquele onsen com eles uma fúria cega subiu a sua cabeça. Sem mesmo pensar duas vezes avançou e se colocou entre seus companheiros e a figura do outro lado da piscina, obstruindo a visão deles.

Ficou lá, ofegando de raiva, encarando aquele garoto moreno de cabelos castanhos. Encarando aqueles intensos olhos verdes.

Haru.

Ou melhor... Haruno Sakura.

E Sasuke estava esperando uma explicação razoável pra ela estar sob um henge nessa área do onsen, nessa área reservada para o público masculino, nessa piscina, onde havia outros homens praticamente nus, e ela vestindo nada mais que uma-

Ele voltou seu olhar pra baixo, esperando encontrar uma toalha ao redor da garota, mas não viu nada além de pele nua.

Incapaz de desviar o olhar, transfixado naquelas formas, Sasuke continuou a encarar a figura encolhida dentro d'água, mergulhada até o queixo. Estando de pé sobre ela, podia enxergar seus joelhos dobrados e os braços cobrindo o busto, mas ainda assim incapaz de esconder as suaves curvas femininas.

"Sasuke! Tá tudo bem?" A urgência na voz de Naruto lhe tirou do transe momentâneo.

Voltando os olhos negros para encarar aquele falso rosto masculino, estava pronto pra gritar que não! Não estava tudo bem! Sua namorada estava nua na área masculina do onsen!

Mas a figura agachada dentro d'água tinha os olhos arregalados, e sacudiu a cabeça discretamente num gesto de pânico.

Foi então que Sasuke se deu conta que nenhum dos outros rapazes a havia reconhecido, pois nenhum deles havia conhecido Haru, e, apesar de Sakura ter relatado pra todos sobre sua experiência disfarçada de garoto durante sua estadia em Oto, apenas ele conhecia essa aparência física. Até onde qualquer um deles sabia, esse simples garoto no onsen não era nada mais do que isso – um simples garoto.

Falando por meio de dentes cerrados, e controlando a raiva em sua voz, Sasuke disse num tom curto e grosso. "Está tudo bem."

"Você conhece esse garoto, Sasuke?" Juugo perguntou com cautela.

A resposta pra essa pergunta era óbvia, mas em vista da reação de Sasuke, todos estavam curiosos em saber quem era esse garoto e de onde o Uchiha o conhecia.

De sua parte, Sasuke não tinha a menor noção de como explicar sua atitude sem entregar que esse garoto não era um garoto – que era sua namorada disfarçada de garoto. Nua! Bem diante de vários homens. Com a mente correndo em círculos tentando processar a situação e controlar a raiva, Sasuke não conseguia elaborar uma explicação coerente, quanto mais convincente.

"Sakuraba Haru. Prazer em conhecê-los," veio a voz firme do garoto até agora desconhecido.

Sasuke piscou diante da fala inesperada. Ele se lembrava bem dessa voz. Havia se acostumado com a presença do garoto petulante de comportamento atrevido quando se conheceram em Oto. Estranhamente, em alguns momentos se lembrava de Haru como se fosse uma pessoa completamente separada de Sakura.

Os outros rapazes responderam ao cumprimento cordial do garoto, mesmo enquanto Sasuke permanecia lá de pé sem pronunciar uma palavra sequer.

"Então,... de onde vocês se conhecem?" Naruto perguntou com curiosidade. Esse garoto lhe parecia vagamente familiar, mas não conseguia identificá-lo exatamente.

Sem hesitação o rapaz de cabelos castanhos respondeu com calma. "Fui encarregado de escoltar Uchiha-san até a Hokage para suas avaliações mensais sobre sua condicional."

Naruto acenou com a cabeça, parecendo aceitar a simples explicação do garoto. Ao que parece, a reação do amigo não era razão pra alarde – apenas Sasuke sendo Sasuke. Provavelmente a natureza paranóica dele o fez crer que Haru estava aqui para vigiá-lo. O que era impossível, visto que ele havia chegado aqui antes deles. Pobre garoto, da forma que estava se encolhendo na água provavelmente estava se sentindo intimidado pelo comportamento do Uchiha.

"Ei, Teme! Pára de agir como um cretino e deixa o garoto em paz," Naruto cutucou.

Sasuke ignorou o comentário do loiro e continuou a encarar Haru – Sakura – levemente admirado com a explicação rápida e convincente. Mas o que ele mais queria no momento era uma explicação autêntica sobre o que diabos ela estava fazendo aqui... nua.

"Err... vocês por acaso não entraram aqui sem passar pela recepcionista, não?" Haru perguntou meio sem jeito.

Eles se entreolharam confusos. Foi Suigetsu quem ofereceu uma explicação primeiro. "Não tinha ninguém na recepção quando chegamos. Achamos que a recepcionista devia ter saído por um minuto, então simplesmente pegamos as toalhas em cima do balcão e entramos," ele terminou levantando os ombros.

"Oh," Haru levantou as sobrancelhas. "Ela ficou de buscar algumas toalhas limpas pra mim,..." ao invés de deixar homens entrarem aqui pra me flagrar nua, Sakura acrescentou em sua mente. Onde raios essa recepcionista tinha ido?

Abruptamente Sasuke emergiu da piscina e desapareceu pela porta do vestiário de onde haviam saído momentos antes. Sakura se permitiu um momento de pânico ao se dar conta que ele a havia deixado sozinha e completamente nua com os outros rapazes, mas tão rápido quanto saiu de lá, ele retornou. Sem dizer uma palavra, despejou uma pilha de toalhas nos braços dela.

"Obrig- obrigado, Uchiha-san," ela agradeceu surpresa.

Diante da atitude do moreno, os outros pareciam confusos. Era raro – extremamente raro – presenciar Uchiha Sasuke ter uma atitude cordial, muito menos para com uma pessoa com quem estava gritando minutos antes.

De sua parte, Sakura estava um pouco aliviada por ter algo com o que cobrir seu corpo, mas teve que reprimir a vontade de envolver a toalha ao redor do peito. Ao invés disso enrolou uma das toalhas na cintura sob a água, e pendurou outra no pescoço, como alguns homens faziam, efetivamente escondendo seu busto.

Um pouco menos tenso agora que ela pelo menos tinha toalhas cobrindo o corpo, mas ainda extremamente irritado, Sasuke se sentou próximo a ela dentro da água quente do onsen, tentando reprimir a aura de raiva pra não chamar muito mais atenção dos outros homens na borda oposta.

Numa voz baixa o suficiente pra que apenas ela o escutasse, e contendo sua raiva, ele chiou dentre dentes cerrados. "Que diabos você está fazendo aqui?"

Mantendo a voz igualmente baixa e controlada, com uma expressão neutra, Sakura respondeu irritada. "Eu? Eu estava relaxando no onsen até vocês aparecerem!"

"Na área masculina?" Sasuke rosnou. "Disfarçada de homem?"

"A outra área do onsen está em reformas, e eles estão revezando os dias da semana pra homens e mulheres. E hoje, Sasuke," Sakura chiou, "o onsen está aberto pra mulheres apenas! E vocês saberiam disso, se aquela idiota da recepcionista estivesse no lugar dela," ela lutou pra suprimir a raiva em sua expressão facial. "E se eu não tivesse pensado rápido quando ouvi as vozes de vocês, todos teriam tido uma bela visão do meu-"

"Já entendi!" Sasuke interrompeu.

"Ei, Sasuke!" Naruto emergiu da água ao lado deles de repente.

"Irk!" Sakura não pôde engolir o grito de surpresa um tanto feminino diante do susto, enquanto Sasuke desferiu um cascudo na cabeça do loiro.

"Ouch! Pra que isso, Teme?" Naruto agarrou a cabeça onde um galo logo surgiria.

"É pra você deixar de fazer coisas idiotas, idiota!" Sasuke retrucou.

"Eu só queria perguntar sobre o que tanto vocês cochicham, cretino!"

"Na realidade, Naruto estava fazendo insinuações sobre sua orientação sexual, Sasuke," Sai surgiu de repente ao lado de Haru, quase arrancando outro grito de surpresa da garota disfarçada.

Sakura estava se esforçando ao máximo pra suprimir o impulso de socar seus dois colegas de equipe, já que isso entregaria sua identidade imediatamente. Ela manteve seu autocontrole ao dizer pra si mesma que poderia descontar sua raiva na próxima sessão de treinamento que tivessem.

"Cala boca, Sai! Eu só tava fazendo uma piada," o loiro defendeu. Graças a Deus Sakura não estava por perto pra ouvir essa conversa. Com certeza ele não escaparia intacto depois dessa brincadeira. "Se tem algum gay aqui é você!"

"Não acredito ser gay. Depois daquela vez que fiz companhia pra Sakura no esconderijo Uchiha, tenho certeza de que sou heterossexual," Sai afirmou com a voz inexpressiva de sempre.

"O quê?" Naruto berrou enquanto Sasuke soltou um rosnado ininteligível. Haru por sua vez tinha tombado a testa na mão num gesto exasperado. Não que ninguém tivesse notado, pois todos estavam com a atenção voltada pra Sai. A essa altura, Suigetsu e Juugo já haviam se aproximado da confusão.

"Explica essa história, seu pervertido!" Naruto sacudiu seu punho num gesto ameaçador.

Sai, indiferente ao clima pesado pairando ao seu redor explicou com calma. "Aquele dia Sakura estava me explicando sobre amor e sexo," a essa altura os outros homens estavam de olhos arregalados, exceto por Haru, que havia se afundado ainda mais na água, "e ela me explicou como eu poderia saber se sou homossexual ou não. Analisando suas palavras cheguei à conclusão que sou heterossexual."

A despeito do quão acostumada estivesse com o comportamento bizarro de Sai, uma pessoa nunca podia estar completamente preparada para a lógica distorcida do artista. E ainda que quase nunca tivesse a intenção de irritar as pessoas, a maneira apática como dizia as coisas mais absurdas e ofensivas sempre provocava justamente esse tipo sentimento - irritação.

Querendo acabar com o silêncio constrangedor que se abateu sobre o grupo, Naruto desviou suas brincadeiras para outra vítima desavisada, para infortúnio de Sakura. Percebendo que Haru estava encolhido até o queixo na água, tratou logo de brincar com o garoto. "Não precisa ficar com medo, Haru. A gente tá só zoando – o Teme não é gay, hahaha. Pode ser duro de acreditar, mas ele tem namorada e tudo. Você deve conhecer ela-"

"Dobe." Sasuke rosnou.

"Só tô tranqüilizando o sujeito, Teme. Do jeito que você tá se comportando, se ele acreditar que você é gay vai achar que você vai pular em cima dele a qualquer momento," Naruto continuou num tom zombeteiro. "O que foi? Ainda tá estressado com a história do ex-namorado da Sakura. Eu já te falei que-"

"Err, Naruto," Suigetsu interrompeu. "Acho melhor mudar de assunto," o shinobi sugeriu enquanto olhava com receio a expressão de Sasuke. Ainda que adorasse ver o circo pegar fogo, ele sabia que não tinha muito espaço aqui pra escapar o fogo cruzado. Sem contar que não seria muito agradável o prospecto de dois homens de toalha lutando.

Juugo aproveitou pra ajudar a apaziguar os ânimos. "Acho que a Sakura-san não iria apreciar que ficássemos falando da vida pessoal dela."

Embora Sakura estivesse grata a Juugo (pelo menos alguém tinha alguma consideração por ela), sua mente ainda estava focada no que acabou de escutar de Naruto. Sasuke estava com ciúmes de um ex-namorado? Eles não podiam estar falando de... de Kaito, podiam?

Dã, imbecil, pensou consigo mesma, e que outro ex-namorado você tem?

Ela sabia que devia ter falado disso com Sasuke, explicado sobre Kaito. Era óbvio que Sasuke acabaria escutando sobre isso cedo ou tarde. Honestamente, os ninjas em Konoha eram pior do que velhas fofoqueiras...

Nesse momento, Sai soltou uma exclamação triunfante, como se tivesse acabado de ter uma revelação.

Todos se voltaram pra ele com um único pensamento coletivo. 'Ah, merda!'

E era como assistir um acidente prestes a acontecer - ainda que pudesse fazer algo pra evitar, você está pasmo demais pra reagir, e apesar do horror da cena que está prestes a presenciar, não consegue desviar o olhar.

Um segundo de expectativa deixou todos em silêncio.

"Já entendi. É sobre sexo." Sai disse no tom contente de uma criança que resolve uma charada difícil.

A curiosidade falou mais alto do que o medo, e ninguém o interrompeu quando ele seguiu com sua explicação.

"Sasuke não pode estar com ciúmes dos sentimentos de Sakura, pois eles estão namorando agora, o que quer dizer que ela deve gostar mais dele do que do ex-namorado. Então deve estar com raiva do relacionamento físico que tiveram no passado." Sai pousou o indicador no queixo, na sua típica pose pensativa. "Sim, isso é condizente com um comportamento de macho dominante marcando território. Ouvi falar que homens às vezes se incomodam com a idéia de suas companheiras já terem tido outros parceiros sexuais, apesar deles mesmo gostarem de se relacionar com diferentes mulheres. Isso não é um tanto contraditório?"

Era possível ouvir o som dos grilos na floresta.

Sai observou todos que o encaravam boquiabertos, inocentemente aguardando uma resposta.

E sua resposta veio sob a forma de um Sasuke vermelho de raiva, avançando em sua direção, pronto pra matá-lo. Felizmente, a água pela cintura diminuiu sua velocidade, dando a Naruto e Juugo tempo pra interceptá-lo.

E foi em meio a gritos e confusão que Haru aproveitou pra escapar sorrateiramente daquele lugar em direção aos vestiários.

.

.

.

"Eu realmente preciso voltar pro trabalho, Keitarô," a garota protestou sem muita convicção enquanto o namorado deslizava uma mão por baixo de sua blusa e beijava seu pescoço.

"Ninguém vem no onsen a essa hora, Naru-chan," o rapaz continuou as carícias.

"Tem uma cliente esperando as toalhas," ela murmurou sem aparentar real preocupação com as obrigações. A essa altura estava distraída demais correndo os dedos pelos cabelos do rapaz.

"Tenho certeza que as toalhas não estão fazendo falta," ele argumentou antes de beijá-la e pressionar seu corpo contra a parede. O casal estava num canto escondido do lado de fora, próximos aos vestiários. Como esse local ficava na direção oposta da recepção, estavam seguros que ninguém passaria por lá.

"Algum cliente pode chegar na recepção. Eu realmente preciso-" ele a calou com um beijo.

Completamente distraída pelos lábios e mãos correndo por seu corpo, a garota perdeu qualquer desejo de protestar contra o que estavam fazendo. Decidiu aproveitar o momento e se entregar às carícias do rapaz. Afinal de contas, não haveria nenhuma tragédia se aquela moça tivesse que esperar mais alguns minutos pelas toalh-"

BLAM!

Assustados com o barulho, interromperam o que estavam fazendo para voltarem os rostos para a porta que fora escancarada. Imediatamente se depararam com uma garota que saía de lá correndo, carregando uma mochila e um par de botas nas mãos. Ao ouvir os sons de surpresa do casal, ela se virou na direção deles.

"Okyaku-sama¹..." Naru, a recepcionista do onsen, murmurou surpresa ao reconhecer Sakura. A garota a quem tinha atendido não havia meia hora estava completamente ensopada, como se tivesse acabado de sair das águas do onsen e vestido suas roupas sem se enxugar. Mechas de cabelo rosa grudavam na pele molhada de seu rosto e pescoço, pingando grossas gotas d'água e molhando ainda mais a blusa vermelha. Pra completar o visual desgrenhado, ela estava descalça.

Num momento, a expressão de surpresa se transformou, e olhos verdes brilharam com fúria. A recepcionista se encolheu ao sentir um arrepio percorrer sua espinha.

Sakura teve o ímpeto de gritar mil injúrias. Ela quase passou uma das maiores humilhações da sua vida porque a maldita recepcionista decidiu se agarrar com o namorado atrás do onsen. Abriu a boca pra gritar, mas eram tantas obscenidades que queria soltar ao mesmo tempo que as palavras entalaram na garganta. Apertou os lábios e os olhos e respirou fundo pra tentar se acalmar.

O casal permanecia imóvel observando a kunoichi tentar controlar seu acesso de fúria. Cada gota que pingava de suas roupas parecia adicionar ao nervosismo dos dois.

Após um longo minuto Sakura abriu os olhos e os voltou para a recepcionista irresponsável. Não era um olhar de raiva, mas um que deixou a garota ainda mais inquieta – a kunoichi estava sorrindo de forma maliciosa. Naru sentiu um arrepio novamente.

"Já terminei meu banho, mas acho melhor você entrar lá – chegaram mais clientes," Sakura disse de forma doce.

Naru assentiu com a cabeça com receio, mas após um momento lembrou-se de seus modos, e se inclinou num gesto formal antes de entrar pela porta de serviço puxando o namorado pela manga da blusa.

Sakura calçou as botas rapidamente e se apressou na direção dos portões do onsen. Por um segundo teve pena da garota que teria que lidar com a situação de caos que acontecia no onsen, mas ao olhar pra baixo e pensar que teria que voltar pra casa neste estado, qualquer sentimento de culpa desapareceu.

.

.

.

Sakura continuou a encarar o teto de seu quarto.

Devia estar ali deitada na cama há pelo menos uma hora contemplando as manchas de umidade, e até o momento a única conclusão a que tinha chego era de que precisava urgentemente pintar o teto.

"Argh," grunhiu enquanto afundava o travesseiro no rosto. Esse provavelmente foi um dos episódios mais constrangedores de sua vida. Com certeza disputava de perto com a vez em que Kiba a flagrou trocando de roupa. Apesar dele mesmo ter ficado constrangido com a situação, isso não impediu as piadinhas e insinuações que vieram mais tarde.

Um bom olho roxo tratou de dar fim às gracinhas.

Mas a situação atual era diferente, bem diferente. Pra começo de conversa, os garotos dificilmente tiveram qualquer culpa nesse incidente, e depois, com exceção de Sasuke, eles nem se deram conta do que aconteceu – graças aos céus. E Sakura sabia que dificilmente Sasuke sequer gostaria de ser lembrado do incidente.

Mas o que mais a atormentava no momento foi o comentário de Sai. Bem, não o comentário em si. Já estava acostumada com as atrocidades que saiam da boca daquele sem noção. Mas, por mais que Sai chegasse a conclusões absurdas por conta da linha de raciocínio torta (pra dizer o mínimo), suas deduções sempre tinham um fundo de verdade. Nesse caso era a raiva de Sasuke ao descobrir que Sakura havia tido um namorado antes dele.

Ela devia ter falado sobre isso com ele antes, sabia disso. Mas como abordar o assunto? Ei, Sasuke. Só pra você saber eu namorei um cara durante uns meses um tempo atrás. Onde vamos almoçar hoje? Claro, seria simples assim.

E tinha medo da reação dele. Se ele já se irritava apenas com os olhares de outros garotos, teria um ataque ao saber de Kaito.

Kaito...

Sakura se lembrou do rapaz com quem namorou durante três meses.

Kaito era um jounin extremamente habilidoso, mas diferente da maioria dos ninjas mais talentosos, era agradável e divertido. Talvez por isso fosse tão popular com as mulheres. Sakura nunca perguntou sobre sua posição como shinobi além do necessário, mas não era difícil identificar um agente ANBU pelo histórico médico – ferimentos graves freqüentemente obtidos em "treinamento", estresse físico periódico, internações constantes,... Talvez por essas inúmeras visitas ao hospital conhecesse tão bem todas as enfermeiras. Bem até demais.

Sakura sabia que o jounin também era namorador. Das mais jovens às mais maduras, praticamente toda a população feminina do hospital tinha conhecido os encantos do rapaz. Até onde sabia, a fama ia além das paredes do hospital. Sim, ele era o típico galinha, flertando com tudo o que se movia. Talvez por isso tivesse sentido uma espetada em seu orgulho feminino quando ele não lhe provocou com uma gracinha sequer como fazia com todas as garotas. Obviamente um rapaz de 21 anos que já se envolveu com mulheres de verdade não teria nenhum interesse numa adolescente 5 anos mais jovem.

Mas isso não lhe incomodou de verdade, pois se por um lado não flertava com ela, tampouco a tratava com desconsideração. Muito pelo contrário, a tratava com amizade e respeito, o que bastava pra deixar Sakura contente. Até por essa razão foi pega de surpresa quando ele a convidou pra sair. De pronto recusou educadamente, é claro. Gostava muito de Kaito, mas era sua amiga, e não mais uma de suas conquistas.

Kaito era divertido, charmoso e bonito – extremamente bonito –, além de ser cordial e um shinobi leal e habilidoso. Então, porque não se permitir o que poderia ser no mínimo um encontro divertido? A primeira razão que lhe veio a mente foram suas obrigações – seu treinamento com Tsunade, o hospital, o time sete, sua promessa com Naruto... o que lhe trouxe à segunda razão: Sasuke.

Já havia empurrado as pretensões amorosas de adolescente em relação ao Uchiha para o fundo da mente. O que a movia nesses dias era um profundo sentimento de companheirismo pelo moreno, laço que compartilhava com Naruto, ainda que de forma diferente. Não iria mentir pra si mesma e negar que ainda tinha sentimentos por ele, mas... o time sete era sua prioridade, e pra tanto precisava crescer como kunoichi, se concentrar em seu treinamento. Por Naruto, e por Sasuke, não seria mais fraca, e ajudaria a trazer o Uchiha de volta. Não precisava de distrações, ainda mais uma distração que dava em cima de metade da aldeia.

Kaito, como bom Don Juan que era, continuou persistindo, mas nunca pressionando Sakura além do limite. De modo que, mesmo recusando as investidas, puderam continuar com a amizade casual.

Certa vez, sentou-se na cafeteria do hospital próxima a algumas enfermeiras que conversavam animadamente sobre temas comuns a todas: sapatos, novelas, dietas,... Nagasami Kaito. Curiosidade se sobrepondo ao respeito à privacidade alheia, Sakura fingiu continuar a ler os relatórios médicos, enquanto sua atenção já divergia completamente pra mesa atrás de si.

- "Eu também o convidei pra minha casa semana passada. O safado recusou o convite..." uma delas reclamou.

- "Já faz um mês. Estou começando a achar que ele estava falando sério quando disse que estava interessado numa única mulher," a outra complementou.

- "Nagasami Kaito comprometido? Meu Deus, é o fim dos tempos." Todas riram.

- "Ah, deve ser só uma fase. Seria uma pena desperdiçar tanto talento numa única mulher."

E enquanto todas concordavam com a observação bem humorada, Sakura franzia a testa para o relatório no qual não prestava atenção há mais de dez minutos. Um mês? Já fazia pelo menos três semanas que Kaito vinha convidando ela pra sair. As implicações do que acabava de ouvir fizeram seu coração bater mais rápido. Kaito estava... interessado nela, de verdade?

Depois desse dia ela passou a prestar mais atenção ao comportamento dele. Só então notou que, embora mantivesse o jeito simpático com as enfermeiras, não havia mais aquele tom de flerte, aqueles sorrisos marotos ou toques sugestivos. Toda a sua atenção especial era reservada apenas a ela. Mas não era como havia visto ele agir com outras mulheres antes, com gracinhas e insinuações. Eram olhares significativos, e intensos, e afetuosos. Era o modo como ele elogiava suas habilidades e sua dedicação ao trabalho. Era a admiração e carinho sinceros que ela via naqueles olhos negros.

Descobriu que gostava daquele olhar.

Assim, no convite que se seguiu a essa revelação pessoal, ela disse sim.

Suspirou diante da memória. Seu relacionamento com Kaito, apesar de curto, havia sido maravilhoso. Kaito era carinhoso e divertido, e, surpreendentemente, muito maduro ao mesmo tempo. No período em que estiveram juntos, Sakura amadureceu bastante emocionalmente, e aprendeu muito sobre relacionamentos, e também sobre si mesma. Deixando pra trás as noções infantis de romances perfeitos, descobriu as dificuldades de um relacionamento real, mas também seus encantos.

Escolheria a realidade sobre seus contos de fada de garotinha em qualquer dia.

Mas acabou sendo todo esse auto-conhecimento adquirido que a forçou a encarar a verdade após aquele desastroso reencontro dela e de Naruto com Sasuke, na base de Orochimaru. Ainda que houvesse admitido pra si mesma que não poderia ter Sasuke, se deu conta que tampouco se permitiria ter qualquer outra pessoa. Sasuke havia arruinado seu coração pra qualquer um que quisesse entrar.

Assim, ainda que amasse Kaito, não o amava o suficiente pra ficar com ele. Mas o amava o bastante pra deixá-lo livre pra alguém que o merecesse. Deus sabe que havia uma legião de garotas dispostas a tentar.

Bem, talvez Sasuke tivesse um pouco de razão em ter ciúmes, mas não muita. Afinal, ela estava com ele agora, não? O que mais ele poderia querer?

'Você sabe exatamente o que mais ele poderia querer. '

Sakura corou diante do próprio pensamento.

Sim, ainda que não tivesse usado palavras, as atitudes de Sasuke diziam claramente o que ele queria. Era de se esperar – Sasuke sempre foi um homem mais de ação do que de palavras, e, neste caso, suas ações ousadas gritavam em alto e bom tom.

Ela se lembrou do episódio quando treinaram sozinhos.

Se deitou de lado na cama pra olhar pela janela. Inquieta, tentou buscar naqueles suaves tons róseos e alaranjados do entardecer uma fonte de calma pra sua disposição agitada. Não parecia funcionar, pois sua mente insistia em voar para aquele momento com Sasuke.

Deveria ter tido melhor senso. Estavam no meio da floresta, no meio do dia, e Sasuke estava sob condicional. Mas essa era a questão – não tinha a menor sensatez quando se tratava de Sasuke. O moreno era como uma droga – viciante, intoxicante, inebriante. Fechou os olhos.

Podia sentir seus lábios úmidos insistentes contra os dela. A mão áspera pelo constante manuseio de armas correndo por baixo de sua blusa, tocando sua pele, subindo pela sua barriga. E a deliciosa sensação do corpo firme dele pesando sobre o dela, pressionando ela contra a grama. Não conseguia raciocinar naquela hora, não conseguia sequer respirar, estava desnorteada. De fato, Sasuke era como uma droga pra ela.

Antes que percebesse, estava agarrando seus cachos negros com força, suas pernas enroscadas ao redor dele, e, de alguma forma, várias peças de roupas já se encontravam na grama. Num esforço sobre humano, agarrou os ombros do namorado e o empurrou gentilmente, lamentando na mesma hora interromper a sensação dos lábios dele na base de seu pescoço. "Vamos... parar... Sasuke..." disse ofegante e sem muita determinação. E, enquanto aqueles olhos negros a encaravam com intensidade, se deu conta de que se ele insistisse, ela não seria mais capaz de protestar.

Felizmente, ele atendeu seu pedido. Ou infelizmente...

Mas certamente ele não ficou contente, fazendo Sakura se sentir terrivelmente culpada. Maldição. Será que ele não entendia que-

Sakura abriu os olhos abruptamente. Sentiu uma presença familiar se aproximando da sua porta da frente.

Sasuke.

Permaneceu ali deitada com os olhos arregalados imaginando o que ele estava fazendo ali. Bem, o que fazia ali era óbvio – provavelmente veio gritar com ela sobre o episódio no onsen. E depois exigir explicações sobre Kaito. E talvez, pra completar, queira esclarecer alguns pontos do relacionamento deles. Nenhum desses três assuntos soava atrativo para Sakura.

Sentiu a presença do rapaz diante da porta de seu apartamento. Ele parecia hesitante, pois nada pôde ser ouvido por vários minutos, até que finalmente vieram leves batidas em sua porta. Ela continuou completamente imóvel, perdida sobre o que fazer num pânico momentâneo. Os minutos foram se passando, e Sakura foi ficando cada vez mais tensa. Apertou os olhos e imaginou se ele desistiria se ficasse quieta. Com seu chakra lacrado, Sasuke tinha dificuldades em sentir a presença de outras pessoas como a maioria dos shinobi. Talvez acreditasse que ela não estava em casa.

Mais um minuto se passou e ela começou a se sentir ridícula com a atitude infantil. Estava se escondendo do namorado, trancada no próprio apartamento. Sua consciência já a forçava a se levantar da cama quando sentiu a movimentação na porta de seu apartamento. Sasuke estava indo embora.

Conforme sentiu sua presença se afastando, uma sensação de alívio a tomou, mas logo foi substituída por um sentimento de inquietação.

Cedo ou tarde teria que conversar com Sasuke.


Okyaku-sama¹ - do japonês, modo formal de se referir aos clientes de um estabelecimento.


Cada novo amigo que ganhamos no decorrer da vida aperfeiçoa-nos e enriquece-nos, não tanto pelo que nos dá, mas pelo que nos revela de nós mesmos.

- Miguel Unamuno


Pra quem não sabe, já estou publicando outra tradução de uma fic SasuSaku, se chama Pedacinho do Céu e já está no terceiro capítulo. Como os capítulos são bem curtinhos, a tradução sai rápido, bem rápido. Espero que curtam.

Ah, e não deixem de comentar esse capítulo de Epílogo. Sugestões são mais que bem vindas (por favor).

Beijos

dai86