Tá legal, gente. Todo mundo detestou o final do último capítulo, mas eu, mais do que ninguém, odiei ele. Vou confessar - terminei o capítulo daquele jeito porque tentei várias vezes escrever o diálogo entre os dois e não saiu nada que prestasse, daí eu cortei o capítulo. Pronto! Falei! Mutilei mesmo minha fic... buááá. Bom, pra compensar, tentei melhorar nesse capítulo, foi por isso que demorei tanto pra postar. Na verdade, escrevi tanto que ele acabou com 11 mil palavras. O que fiz? Cortei ele em dois e estou publicando a primeira metade enquanto luto pra terminar a segunda metade.
Querem saber de uma coisa? A essa altura já não sei mais quantos capítulos essa fic vai ter. Tenho tanta inveja das autoras que escrevem histórias com a mesma facilidade com que eu leio.
Queria agradecer a todas pelas reviews, mas principalmente a Lia Liz pelo incentivo. Como eu disse, estou sem tempo pra escrever, mas depois que li sua mensagem resolvi cortar um capítulo enorme que estava meio acabado e postar já pra ver a recepção das leitoras.
Espero que gostem. Beijos,
Dai86
O amor pequeno se mostra grandioso nas catástrofes; o amor grande se prova todos os dias nas coisas pequenas.
- Anônimo
Capítulo 3
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Sasuke caminhava por uma das principais ruas do mercado ignorando olhares atravessados e comentários sussurrados por suas costas. Já havia se acostumado com isso. Ao que parece, sua presença na aldeia ainda provocava mal estar pra alguns moradores. Não podia reclamar, no entanto. Meses atrás o alvoroço era bem maior – não podia ir a lugar nenhum sem causar uma comoção pública de murmúrios e indignação. Podia apenas imaginar o quão pior seria a situação se soubessem que foi ele o responsável pelo assassinato dos antigos membros do Conselho. Não sabia o que era pior: isso ou as garotas irritantes que ainda o perseguiam. Aparentemente, ser um traidor foragido e estar sob condicional não afetou em nada seu sexappeal. Nem mesmo ter uma namorada inibiu os avanços nada discretos de algumas dessas garotas.
No momento, no entanto, sua mente estava distraída com outras questões. Voltava do apartamento de Sakura. Ou melhor, da porta do apartamento. Ao que parece, a garota não estava disposta a falar com ele no momento, visto que nem sequer o atendeu. Estava certo de que ela correria pra casa depois do incidente no onsen. E se lhe restasse alguma dúvida de que a garota estava no apartamento, a poça d'água bem na frente de sua porta era evidência suficiente. Poderia tê-la chamado – tinha certeza que não o ignoraria a este ponto, mas ele mesmo estava hesitante em vê-la. Não sabia ao certo o que dizer. Não tinha nada o que falar sobre a cena ridícula do onsen, e acreditava que ambos ficariam felizes em não lembrar nunca mais disso. E o ex-namorado...
Estava claro que se sentia incomodado, mas o que tanto o incomodava... não sabia exatamente o que era. Quando parou um momento pra refletir, percebeu que realmente não tinha nada o que dizer sobre isso. Odiava a idéia de Sakura com outro sujeito – tocando ela, beijando ela. Expôs os caninos diante da imagem. Mas isto estava no passado, e não podia fazer nada pra mudar esta realidade. Sakura era sua agora, e isso deveria bastar. Certo?
Mas tentar racionalizar seu lado emocional nunca funcionou pra ninguém, muito menos pra Sasuke. Ele era o tipo de pessoa que escolhia dar vazão a seus impulsos, se justificando com qualquer explicação conveniente. Infantil? Talvez. Egoísta? Definitivamente. Mas era esta sua natureza.
De qualquer modo, a questão do ex-namorado certamente se transformaria numa discussão sobre o próprio relacionamento deles, talvez porque fosse exatamente isto que o incomodava na realidade, e Sasuke não estava certo de que estava preparado pra tanto. A insegurança que o consumia ainda estava lá, e não estava pronto pra expor uma vulnerabilidade assim, nem mesmo pra Sakura – muito menos pra Sakura. E se descobrisse que realmente havia motivos pra se sentir inseguro? Certamente esta sutil hesitação por parte dela era indício de algo.
Havia ido até o apartamento de Sakura num impulso impensado, e tão logo bateu à porta, sentiu uma pontada de arrependimento, um receio de confrontá-la. Após um momento de tensão em que ela não o atendeu, um sentimento de inquietação o fez dar meio volta e ir embora.
Tentava aquietar a sensação de ansiedade que persistia, mas as distrações ao redor apenas pareciam atrapalhar, tanto a atenção dos transeuntes como os olhares atentos de seus vigilantes pessoais – agentes ANBU que o seguiam pelas sombras. Se irritou ainda mais com as risadinhas e olhares supostamente sedutores vindo de três jovens de kimono. Ao que parece, ele era o mau elemento, o rapaz subversivo de quem todos os pais queriam manter suas filhas afastadas. O que, é claro, só adicionava aos seus atrativos aos olhos dessas tolas garotas.
Era contraditório de fato, ser alvo ao mesmo tempo de repulsa e adoração de todos a sua volta, quando a reação que mais gostaria de causar era justamente o extremo oposto – queria sua indiferença. Nada lhe daria mais satisfação do que passar despercebido pela aldeia.
"Sasuke-kun!"
Uma veia saltou em sua testa diante do estridente chamado feminino, mas ele continuou caminhando calmamente. Descobriu que geralmente ignorar essas garotas lhe poupava o trabalho de dispensá-las de modo mais grosseiro, e uma possível cena dramática em público. Honestamente, o que é que elas tinham na cabeça?
"Eeiii, Sasuke-kun! Espera!" a voz ecoava cada vez mais próxima. Aparentemente não escaparia desta situação sem um pouco de grosseria. A pobre garota havia escolhido um péssimo dia pra perseguir o Uchiha, que estava pronto pra descontar seu mau humor na primeira vítima desavisada. Se virou abruptamente com seu habitual olhar arrogante de desgosto e se deparou com longos cabelos loiros e vibrantes olhos azuis.
Ino alcançou o moreno rindo de si mesma. Gostava de chamá-lo com o sufixo no nome pelas ruas apenas pra provocar o namorado da amiga. "Ei, Sasuke!"
A expressão de desgosto no rosto de Sasuke logo se transformou em indiferença. "Hn."
"Você viu a Testuda hoje? Preciso falar com ela!"
"No apartamento dela," o moreno respondeu num tom ácido, causando estranhamento na garota. Após um momento, um olhar de compreensão surgiu em seu rosto, e ela lhe lançou um sorriso sádico. "Problemas no paraíso, Sasuke-kun?"
Um rosnado e um olhar ameaçador do Uchiha geralmente bastavam pra calar qualquer um – quase qualquer um. Era por isso que detestava tanto suas interações com a loira. Rindo, Ino ignorou o mau humor do moreno. "Honestamente, às vezes não sei como a Sakura te agüenta. Cuidado, qualquer dia quando ela cansar desse seu corpinho sexy vai te trocar por alguém mais bem humorado."
Por um segundo ficou tenso com o comentário dito num tom de piada. Ino estava colocando o dedo numa ferida sem nem sequer se dar conta. "Cuide da própria vida, Yamanaka!"
A kunoichi recuou diante da explosão do moreno. "Calma, Sasuke. É brincadeira. Todo mundo sabe que a Testuda é louca por você," riu nervosa. "Pessoalmente, eu acho toda essa devoção um tanto patológica."
"... até parece..." resmungou pra si mesmo num tom de sarcasmo azedo, já se virando pra ir embora.
A audição aguçada da garota pescou as palavras do moreno, e ela levantou uma sobrancelha em afronte. "Quem te vê agindo assim até pode acreditar que você tem algum direito de reclamar da namorada que tem," Ino proclamou indignada em defesa da rosada; era sua melhor amiga afinal de contas, e agia como tal – ofendia na cara e elogiava pelas costas, e não dividia com ninguém o direito de falar mal dela, muito menos com namorados ingratos.
O moreno se virou para a garota, e, apesar de não estar com paciência para suas provocações, diante do tom indignado de Ino, sentiu o ímpeto de se defender, seja lá pelo o que estivesse sendo acusado. "E o que você sabe?" bufou com escárnio. "Ela parece estar ocupada demais até mesmo pra falar comigo," chiou num desabafo espontâneo de raiva.
Perplexa pela explosão emocional completamente atípica do Uchiha, Ino arregalou os olhos – primeiro por não achar que já tivesse ouvido Sasuke proferir tantas palavras de uma só vez, segundo porque desacreditou no que ele dizia.
"Você está de brincadeira, não?" a garota disse num tom incrédulo e, ao mesmo tempo, irritado.
Sasuke apenas continuou a encará-la com aquele olhar de raiva diante da pergunta, obviamente, retórica.
A kunoichi loira deu uma risada seca. "Claro. Você só pode estar brincando. Do contrário, eu diria que é um completo idiota se não vê o quanto ela se esforça pelo namorado ingrato que tem."
Sasuke não se abalou diante das palavras de Ino – era amiga de Sakura, é claro que ficaria do lado dela. Seria um desperdício de seu tempo enumerar todos os fatos que sustentavam seu argumento, principalmente porque, desde quando se importava com o que os outros pensavam? Mas nesse momento, quis ouvir o que a loira tinha a dizer. No fundo, queria que ela provasse que ele estava errado, que Sakura realmente era devotada a ele.
"São duas as pessoas nessa relação," Sasuke disse num tom severo, "e acredito que eu saiba mais do que se passa nele do que você."
"Devia saber, mas não parece," Ino respondeu num tom desafiador. O moreno simplesmente estreitou os olhos.
"Não sei se reparou, mas você não é exatamente a pessoa mais popular da aldeia," a loira cruzou os braços numa postura petulante.
Sasuke não se moveu, simplesmente levantando uma sobrancelha. "E o que isso tem a ver com qualquer coisa?"
"E eu não acredito que mesmo o Sr. Cubo de gelo ficaria alheio a toda essa hostilidade pairando no ar." Numa sincronia bizarra que parecia quase ensaiada, Ino desviou os olhos para o lado, bem de encontro a duas senhoras que passavam observando o Uchiha com um olhar ao mesmo tempo de reprovação e aversão.
"Tô pouco me fudendo pra essa gente," o moreno disse com grosseria. "O que isso tem a ver com a Sakura?"
"O que isso tem a ver com a Sakura? Você realmente não percebe nada do que acontece, não? Não sei se você reparou, mas todo mundo sabe que vocês são um casal agora. E você pode não se importar com o que os outros pensam, mas a Testuda não é igual a você. Não é muito fácil ignorar os olhares e comentários maldosos por todos os lugares aonde você vai," Ino bufou.
Sasuke franziu a testa. Sakura nunca lhe disse nada sobre isso. Na verdade, sempre que andavam juntos por Konoha, Sakura era muito bem tratada - até bem demais – pelos conhecidos com que encontrava pela aldeia. É claro que ele percebia o clima de mal estar coletivo por onde fossem, mas aqueles olhares eram sempre dirigidos apenas a ele. Certo?
Sacudiu a cabeça pra afastar o pensamento. E daí se Sakura recebia alguns olhares tortos andando pela rua. Desde quando ela se importava com o que estranhos achavam? Ela sempre os ignorou, assim como Sasuke fazia.
Como se tivesse lido sua mente, Ino continuou com o sermão. "E você pode se dar ao luxo de ignorar essa gente, mas Sakura trabalha no hospital,e é assistente da Hokage. Ela tem que conviver e trabalhar com essas pessoas, isso sem contar os habitantes da aldeia. Deixa eu te dizer que não é nada divertido discutir a cada cinco minutos porque alguém está difamando seu namorado. É exaustivo, ainda mais quando você não pode desmentir nada por que a verdade é confidencial," a garota sussurrou esta última parte.
Sasuke desviou o olhar sem ter o que dizer. Estava irritado, não com Ino, não com Sakura, mas com essas pessoas de quem ela falava. Nunca imaginou que Sakura pudesse estar sendo alvo desse repúdio público simplesmente por estar com ele.
Percebendo a postura menos hostil do moreno, o olhar da garota se suavizou. Obviamente Sasuke não tinha noção do que se passava ao seu redor – esperava mais de alguém tão perspicaz. "Sasuke, não estou dizendo que seja culpa sua, mas você podia no mínimo apreciar os esforços dela. Depois que ela brigou com os pais por sua causa e tudo o mais, você devia-"
"O quê?" o moreno rapidamente voltou-se pra ela.
Ino piscou surpresa. "O que foi?"
"Sakura brigou com os pais por minha causa?" ele perguntou confuso.
Ino arregalou os olhos. "Ela não... tinha te contado?"
"Me explica isso," ele apertou os olhos.
Merda! A loira olhou para os lados, agora parecendo procurar uma via de fuga. Era por isso que Sakura vivia falando pra ela aprender a controlar a língua. "Acho melhor você conversar com a Testuda. Eu preciso ir e-"
O Uchiha espalmou a mão com força contra a parede do edifício, efetivamente bloqueando a rota de fuga da garota. "Yamanaka," rosnou num tom impaciente de aviso.
Sem saída, Ino começou a alisar seu rabo de cavalo de modo nervoso. "Você vê,... bem... é que..."
Sasuke permaneceu imóvel, apertando os olhos milimetricamente, apenas o suficiente pra que ela entendesse a ameaça.
Suspirando, a garota desistiu de encontrar um modo de contornar a situação. "Os pais de Sakura são civis, Sasuke. Eles só conhecem a sua situação pelos rumores correndo pela aldeia. E depois de tudo o que eles ouviram do tempo em que ela esteve longe de Konoha com você, o que, diga-se de passagem, não é de todo mentira," ela lhe lançou um olhar de recriminação, "há de se convir que eles não ficaram felizes com esse namoro." Ela continuou a brincar com as pontas de seu cabelo, demonstrando-se ainda desconfortável com a conversa. "Bem, um comentário levou a uma discussão, que se transformou numa briga, que escalonou além do que devia, e, de repente, ela estava saindo de casa."
Sasuke piscou diante da nova descoberta. Quando havia perguntado a Sakura sobre o motivo da mudança para o apartamento, ela havia lhe dado uma desculpa sobre ficar mais próximo do hospital, e não incomodar os pais quando voltava de madrugada de alguns plantões. Ele aceitou a explicação sem muita consideração sobre o assunto, mas, pensando em retrospecto, a mudança fora bem repentina, e ela parecia um pouco chateada na época.
"Sasuke?"
Ele voltou a atenção para Ino, que o observava com curiosidade.
"Acho que ela não te disse nada pra não te deixar chateado. Sakura sabe que você está passando por um período de adaptação difícil, e provavelmente não quer te preocupar. Ela tem mania de pensar mais nos outros do que em si mesma, e se vocês forem manter um relacionamento, não pode apenas ouvir o que sai da boca dela. Enquanto ela achar que você está passando dificuldades, vai querer te ajudar, e não vai falar dos próprios problemas."
Naquele momento, Sasuke se deu conta de como estava sendo tolo, e egoísta. Depois de tudo o que Ino lhe contou, não poderia duvidar dos sentimentos de Sakura. Pensou nos pais dela e se sentiu culpado. Ela nunca os havia mencionado, e Sasuke nunca pensou sobre o assunto, afinal de contas, falar sobre os pais não era um tópico muito popular no time sete. Agora ele sabia o porquê – os pais dela o odiavam.
Irritado consigo mesmo, se perguntou por que havia ficado tão inseguro quanto a Sakura. Visto que ela chegou ao extremo de sair da casa dos pais por conta de uma discussão, com certeza não estava com o pé atrás neste namoro.
"Quer um conselho, Sasuke?" Ino se dirigiu a ele. Quase tinha se esquecido de que ela estava lá. "Converse com ela. Vocês dois tem um sério problema de comunicação." Dito isso, a loira deu a volta no rapaz pra ir embora.
Não deu cinco passos antes de ouvi-lo chamando seu nome. "Preciso de um favor," ele disse com um olhar mais calmo, quase dócil.
Ino levantou as sobrancelhas e inclinou a cabeça, curiosa.
"Você trabalha numa floricultura, não?"
O canto do lábio da garota se ergueu num sorriso cúmplice.
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Pisando no pedal da lata de lixo, Sakura descartou as luvas usadas e se virou pra pegar a prancheta com a ficha médica do paciente. "Parece estar tudo em ordem. Acho que estamos fazendo progresso com o tratamento!" disse animada.
Sentado na maca de exames, Juugo abriu um sorriso. "É, eu posso sentir. Estou me sentindo melhor do que nunca – não tenho nenhum episódio há meses. Não que eu tivesse algum motivo pra me estressar ultimamente."
Sakura riu. "Tem certeza? Você não jantou com Suigetsu e Karin esses dias? Se bem me lembro, esses encontros podem ser bem estressantes."
Juugo deu de ombros, rindo de leve.
Depois de se despedir do amigo com um abraço, Sakura foi até os arquivos guardar sua ficha médica. Geralmente isso era tarefa das enfermeiras, mas no momento Mizuki estava de plantão, e não se sentia inclinada a pedir nada pra essa enfermeira em particular. Entrou na apertada sala sem janelas e se enfiou atrás de uma das estantes abarrotadas de fichas de pacientes. Assim que encontrou a numeração desejada, puxou a pesada caixa e a colocou no chão pra guardar a ficha na ordem correta.
"-reclamando que nem uma criança." Sakura reconheceu a voz de uma das enfermeiras mais novas, que entrava na sala de arquivos, obviamente conversava com alguém.
"Tohru-san é assim mesmo. Ele só quer nossa atenção," uma segunda voz ecoou de forma presunçosa. "Se ao menos fosse atraente, eu não me importaria em aturar a choradeira," a voz feminina riu, e Sakura reconheceu a entonação de Mizuki na mesma hora.
"Falando em atraente, você viu aquele sujeito novo saindo daqui? O loiro bem alto?"
"Vi sim. Ele veio pra uma consulta com Haruno-san. Hunn, não faz meu tipo. Ele parece... bonzinho demais."
Sakura revirou os olhos agachada ao lado da caixa. Escondida atrás da estante, debateu se deveria se revelar e evitar possíveis constrangimentos, ou ficar quieta e continuar ouvindo a conversa num total desrespeito à privacidade alheia. A resposta era óbvia – ficou quieta.
A enfermeira nova voltou a falar, com um tom de humor na voz. "Se gosta dos malvados, então o Uchiha deve ser o seu tipo ideal. Sem contar que é lindo."
"Querida, aquele é o tipo ideal de qualquer garota."
"Um pouco jovem demais, talvez."
"Eu estaria mais do que disposta em ensinar tudo pra ele. Ele parece ser do tipo que aprende bem rápido," Mizuki respondeu num tom extremamente sugestivo.
Sakura se conteve pra não amassar o arquivo em suas mãos. Sua vontade era saltar detrás daquela estante e esganar aquela vadia.
"Pena que já está comprometido," a conversa continuou.
"Comprometido, mas não morto. Além disso, duvido que esse namoro dure muito. Apesar daquele moreno ser uma tentação, Uchiha não é um dos nomes mais populares em Konoha, principalmente entre os mais velhos. E acho que a rosinha já percebeu que se associar com ele foi péssimo negócio pra carreira dela."
"Como assim?"
"Você não reparou como Katayama sensei começou a passar os piores casos pra ela? E também teve aquele senhor que pediu outro atendente, dizendo que ela não tinha competência pra tanto. Ele só fez isso depois que eu comentei que ela era a namoradinha do Uchiha. Finalmente a queridinha da Hokage está se dando mal," a mulher disse num tom divertido e maldoso.
"Não sabia disso. Coitada..."
"Coitada nada. Bem feito! A justiça tarda, mas não falha. Aquela sonsa sempre se deu bem por ser pupila da Hokage, e sempre conseguiu o que quis de todo mundo com aqueles sorrisos falsos. Não dou dois meses pra esse namoro com o Uchiha terminar. Vai ser igual ao que aconteceu com Kaito-san, terminando em-"
"Ouvi meu nome?" uma voz de timbre profundo interrompeu os comentários desagradáveis da mulher.
Sakura imediatamente reconheceu o dono da voz.
"Kaito-san!" a enfermeira nova exclamou com adoração colegial em sua voz.
"Mizuki-chan, Aya-chan, não sabem que é feio falar dos outros pelas costas?" Ele as recriminou, mas num tom quase divertido. Enquanto uma baixava a cabeça envergonhada, a outra lhe lançava um olhar sugestivo. "Nós nunca diríamos nada de mal de você, Kaito. Sabe que só temos coisas boas pra falar da sua pessoa, não?"
Ele riu. "Só vim avisar que o velhote na cama ao lado da minha sumiu da enfermaria."
"Eiji-san? Ah, droga! Aya! Você não prendeu as amarras direito? Katayama-sensei vai comer o seu fígado," a enfermeira chiava enquanto passava por Kaito às pressas.
"Prendi! Juro que prendi! Quer dizer, acho que sim," a outra garota correu atrás da primeira, atônita.
Sakura permaneceu agachada atrás da estante até que julgasse seguro sair. De repente, sentiu um vulto pairando atrás dela. "Sabe, você tem sorte das enfermeiras não conseguirem sentir chakra." Ela levantou os olhos e encontrou Kaito a encarando com um sorriso maroto no rosto. Ela devolveu o sorriso, e assim que guardou a ficha, o homem pegou a caixa com uma mão enquanto estendia a outra pra ajudá-la a se levantar.
"Mas não tenho tanta sorte com você, pelo visto. Você sempre parece saber exatamente onde estou," ela brincou enquanto ele colocava a caixa na estante.
Ele colocou as duas mãos sobre o coração, "ah, assim você me magoa. Você sabe que eu só faço aparições pra resgatar donzelas em perigo." Logo levou um tapa bem humorado no braço.
"Tudo bem," ela consentiu, fazendo uma reverência digna de princesa. "Obrigada por me salvar do veneno da víbora, mas saiba que a essa altura já estou imunizada. Esse hospital mais parece um ninho de cobras."
O sorriso largo de divertimento no rosto de Kaito deu lugar a um mais dócil enquanto ele continuava a fitá-la.
"O que foi?" ela inclinou a cabeça, curiosa com o olhar silencioso.
"Sabe que não precisa se aborrecer com o que dizem, não? Enfermeiras são iguais a vampiros, não têm vida própria, então precisam sugar a dos outros," disse com o mesmo sorriso dócil de menino.
"Acho que não tenho escolha a não ser acreditar. Afinal, você é o perito em enfermeiras, não? Ou seria perito em mulheres em geral," levantou uma sobrancelha sugestiva enquanto ria.
"Cada um tem seu dom," ele deu de ombros.
Sakura continuou rindo das graças que o rapaz fazia enquanto fechava a sala de arquivos. Quando ela se dirigiu à estação de atendimento pra pegar a ficha da sua próxima consulta, ele a acompanhou.
"E então? Como vai a vida?" ele soltou em meio à conversa.
"Como vai a vida? É isso que você está me perguntando? Não quer falar do clima também? Kaito, você costumava ser bem divertido."
"Ei! Eu ainda sou muito divertido. Você acha que aquele velhinho realmente se soltou sozinho das amarras?"
Ela levantou as sobrancelhas. "Kaito!"
"O quê? Ele parecia desconfortável."
"Você sabe que por sua culpa tem um idoso senil, provavelmente nu, andando pelos corredores do hospital," ela colocou as mãos na cintura e fez sua melhor cara de reprovação.
"E você achou que eu não era mais divertido."
Sakura tentou. Ela realmente tentou manter a expressão de indignação, mas diante da cara deslavada de molecagem do rapaz, não conseguiu conter um sorriso. Balançando a cabeça, ela continuou seu caminho pelos corredores.
"E eu não estava só puxando conversa à toa. Estou honestamente perguntando como vai sua vida. Faz meses que não nos vemos," ele seguiu caminhando ao seu lado.
"Não. Faz meses que eu não te vejo. Acho que você tem me visto até demais," Sakura enfatizou com um olhar atravessado, e Kaito não pôde evitar desviar seus olhos com uma expressão de culpa. Limpando a garganta pra aliviar o desconforto, ele retrucou um pouco mais sério. "Não me recrimine por cumprir com minhas obrigações. Você entendeu o que eu quis dizer – faz meses que não conversamos."
A médica suspirou. "Desculpe, mas de quem é a culpa disso? Você é quem tem tido menos acidentes-" ela enfatizou a palavra fazendo um gesto de aspas com os dedos, "-de treinamento, e tem freqüentado menos o hospital."
"Não precisamos nos ver apenas no hospital, Haruno."
"Mas é onde eu passo a maior parte do meu tempo, e onde você costumava passar boa parte do seu quando precisava de reparos constantes nessa sua lataria maltratada. Aliás, porque você foi internado desta vez, se mal lhe pergunte?"
"Prefiro não falar, os detalhes são confidenciais e-"
"Eu posso simplesmente olhar sua ficha médica," Sakura o interrompeu.
Após um momento de silêncio ele soltou um suspiro derrotado. "Intoxicação alimentar."
"Ah," ela riu, compreendendo como isso podia ser constrangedor.
"Mas voltando ao que interessa, quer sair comigo um dia desses? Colocar o papo em dia?"
"Ahn, não acho que seja uma boa idéia, Kaito,..."
"Por quê? Seu namorado não ia gostar?"
Seu primeiro instinto foi responder sim, mas ela reprimiu a reação ao perceber que o amigo a provocava, e manteve a expressão tão neutra quanto possível quando respondeu de forma fria. "Porque não vou sair com você só pra satisfazer sua necessidade sádica de irritar o Sasuke."
Ela tentou deixá-lo pra trás, mas ele a segurou pelo cotovelo. "Ei! Tá legal – não é segredo que eu não gosto daquele sujeito, mas não estou querendo provocá-lo, eu estou realmente preocupado com você. Sei que as coisas não tem sido fáceis pra você desde que-" ele hesitou por um segundo. "Ainda somos amigos, não? Só não quero ver você se prejudicando por alguém que não vale à pena. Não quero te ver magoada, Sak."
O olhar duro da garota se suavizou enquanto ela cobria a mão larga do rapaz que segurava seu antebraço. "Sim, Kaito, ainda somos amigos, mas eu sei me cuidar. E alguns pequenos obstáculos ao longo do caminho não é nada demais. Eu amo Sasuke." Ela deu um aperto carinhoso na mão sob a sua antes de soltar-se dele e continuar sozinha pelo corredor. "Nos vemos por aí, ok?"
Sakura alcançou a estação de atendimento com tensão ainda pesando em seus ombros. Não gostava de tratar Kaito dessa maneira, mas queria deixar claro quais eram suas prioridades agora - quem era sua prioridade. Tentando afastar a sensação de desconforto, perguntou à enfermeira atrás do balcão sobre sua próxima consulta. Ela lhe entregou um prontuário médico, mas antes que Sakura pudesse examiná-lo, a mulher colocou um pequeno vaso de flores delicadas a sua frente. Cosmos, suas favoritas.
"Chegou pra você agora há pouco," a mulher lhe informou com um sorriso. Curiosa, ela pegou o pequeno envelope entre as flores e o abriu.
Obrigado.
S.
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Sakura tamborilava com os dedos contra o vaso enquanto esperava o elevador alcançar o nível térreo num sinal de impaciência. Havia passado o dia inteiro inquieta após receber as flores com aquele cartão. Ela havia reconhecido a letra impecável de Sasuke imediatamente, bem como o estilo da escrita – concisa e direta –, mas seu significado ainda era um mistério, algo que ocupou sua mente e a manteve distraída boa parte do dia.
Olhou pra baixo e viu o vaso de cosmos em vários tons de rosa e violeta. Bem, provavelmente não estava bravo ou não mandaria flores, certo? Não sabia, pois Sasuke nunca lhe dera flores antes. Tudo o que ele lhe dava tinha sempre um fundo prático, e ele sempre fazia questão de dar uma desculpa pra disfarçar a intenção afetuosa por trás do gesto. Honestamente, Sasuke era o sujeito mais arredio emocionalmente que já conheceu.
Bem, mas se estava curiosa sobre o significado da mensagem críptica, bastava perguntar ao próprio Sasuke. Mordeu o lábio diante da idéia, pois sabia que conversar com ele significava explicar sobre Kaito, e isso tinha uma alta probabilidade de se transformar numa discussão.
Torceu o nariz diante do próprio comportamento. Ainda se sentia ridícula por ter se esquivado de Sasuke da última vez que ele a procurou. Desde quando agia de forma tão imatura? Tinha que procurá-lo pra conversarem.
Não teve que ir longe, pois assim que pôs os pés pra fora do elevador, seus olhos imediatamente avistaram o moreno. Ele estava encostado na parede oposta do lobby do hospital, de braços cruzados numa pose casual, o rosto escondido por uma cortina de franja negra. Vestido todo de preto, ele era a imagem da sensualidade masculina. Apreciando a imagem, ela correu a vista por seu corpo, vindo a parar em seu rosto. Seu coração parou.
Ele carregava uma intensidade no olhar, mas não parecia estar irritado enquanto se desencostava da parede e calmamente caminhava até ela, vindo a parar bem a sua frente. Parecia difícil respirar sob o escrutínio daqueles olhos negros. Sem uma palavra, ele se inclinou sobre ela. Pega de surpresa, ela arregalou os olhos e prendeu a respiração diante da ação repentina.
Uma mão firme em sua nuca a impediu de se afastar, e a sensação de lábios quentes e úmidos contra os seus logo a fez esquecer a surpresa inicial; quase que inconscientemente fechou os olhos. O toque, a princípio gentil, logo se tornou mais enérgico, e quando ela sentiu a ponta da língua dele lamber o espaço entre seus lábios, cedeu ao seu pedido silencioso e aceitou que ele invadisse sua boca.
Assim que sua língua tocou a dela, a rosada respondeu o beijo com o mesmo fervor, sentindo uma sensação quente se espalhando por seu corpo, e borboletas em seu estômago. Sasuke não lhe deu trégua, aprofundando o beijo com uma impetuosidade quase violenta. Sakura sentiu que poderia desmaiar a qualquer segundo – se pela falta de oxigênio ou pela intensidade de Sasuke, não sabia. Podia sentir seu corpo vibrando com desejo.
Finalmente, a necessidade de respirar falou mais alto, e eles se afastaram apenas alguns centímetros. Um pouco ofegante, ela manteve seus olhos fechados, tentando recuperar o fôlego e seu senso de equilíbrio. Tinha certeza de que se Sasuke não segurasse sua nuca, teria balançado de uma forma nada elegante. Ainda um pouco trêmula, travou os joelhos com medo de que cedessem como gelatina.
Olhos esmeralda se abriram pra encontrar um intenso negro a observando com um misto de fascinação e contentamento.
Sakura não pôde evitar o sorriso maroto em seu rosto. "Saudades de mim?"
"Aa," o moreno respondeu com uma leve curva nos lábios. Entrelaçando seus dedos com os da rosada, a puxou gentilmente na direção da saída. "Vamos."
"Pra onde?"
Comentários? Reviews?
Sendo uma das minhas primeiras tentativas em escrever algo original às vezes acho que estou enrolando demais a história. Bom, no próximo capítulo o Sasuke vai esclarecer algumas coisas,... e a Sakura vai esclarecer outras.
Ah, e o que vocês acharam do Kaito? Quando li este personagem na fic da Lady-simplyme imaginei logo alguém como o Genma. Gosto dele...
Um último aviso: estou postando uma adaptação de um livro sob o título Um pai para a pequena Megumi. É uma AU, SasuSaku (pra variar). Como adaptar é um trabalho rápido e fácil, vou poder fazer updates rápidos. É uma historinha leve e agradável, praticamente um filme da sessão da tarde (com algumas cenas picantes). Recomendo.
Beijos.
Dai86
