A espera foi bem menor desta vez, não? Rs, espero que gostem do capítulo.
dai86
O amor é o nosso estado natural quando não optamos pela dor, pelo medo ou pela culpa.
- Willis Harman e Howard Rheingold
Capítulo 4
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Sakura se viu surpresa com o destino do pequeno passeio com Sasuke. Após uma curta caminhada preenchida por um silêncio confortável, quase agradável, eles chegaram a um local familiar. Assim que se sentou no banco de concreto, Sasuke gesticulou pra que ela fizesse o mesmo. Ainda que confusa, ela acatou seu pedido.
"Sasuke. Por que estamos aqui?"
"Acho que você vai concordar que precisamos conversar."
Ela não iria discordar - tinham muito o que discutir. Mas por que aqui, num lugar que guardava tantas memórias desagradáveis pra ela?
Antes que ela pudesse verbalizar a pergunta, Sasuke se explicou. "Aquela noite quando deixei a aldeia, você se expôs pra mim de uma forma tão... honesta. Eu não esperava," começou hesitante. "Aquela era justamente a razão pela qual eu tinha que ir embora. Você e Naruto, mesmo Kakashi, todos vocês estavam me desviando do meu objetivo." Ele desviou os olhos dos dela e focou num ponto distante qualquer. "Este lugar apenas me lembra do quão idiota fui, deixando vocês pra trás pra perseguir um destino amargo. Suas palavras naquela noite... eu te achava uma garota ingênua que não sabia nada do mundo real. No fim das contas,... você estava certa. Vingança não trouxe felicidade, nem pra mim, e nem pra você." Sasuke engoliu seco, se esforçando pra continuar. "Aqui é o lugar onde você expôs seu coração pra mim pela primeira vez. Eu apenas... eu quero ser digno da sua confiança de novo."
"Sasuke,..." ela murmurou perplexa.
"Por que você não me contou, Sakura?"
Ela logo imaginou do que ele falava, e voltou os olhos para o mesmo ponto distante que ele observava, suspirando. "Eu não achei que fosse importante. Kaito foi... Eu não me dei conta naquela época, mas ele foi uma tentativa de te esquecer. Eu só queria tentar ser feliz sem você. Quando me dei conta de que aquilo não estava funcionando... não parecia certo usar alguém daquele modo."
Sasuke franziu as sobrancelhas. "Eu..."
"Não estou dizendo isso pra fazer você se sentir mal. Só queria que você entendesse que Kaito foi importante pra mim, mas eu nunca o amei. Não de verdade. Não como... como eu amo você." Ela sussurrou esta última parte.
Sasuke virou o rosto pra observar a garota sentada ao seu lado. Ela continuava a mirar o infinito, e seu tom de voz não carregava a emoção de uma declaração. Ela já havia se declarado tantas vezes pra ele no passado. Agora simplesmente declarava um fato de conhecimento público: Haruno Sakura amava Uchiha Sasuke.
Se fosse um homem diferente teria sorrido, mas o modo como olhos negros se suavizaram o entregou. Ele desviou os olhos novamente antes continuar. "Eu sei. Naruto já me explicou sobre esse sujeito, e honestamente não quero falar dele. Não é disso que eu estou falando."
Sakura se voltou pra ele, confusa.
"Por que você não me contou sobre os problemas que você tem tido por minha causa?"
Ela ergueu as sobrancelhas, surpresa. "Onde você ouviu isso?"
Ino havia lhe contado. Na verdade Ino havia lhe esfregado na cara, mas ele não precisava deixar ainda mais evidente que droga de namorado era ao não se dar conta do que acontecia com Sakura, algo óbvio até pra idiotas como Naruto e Sai. Ele simplesmente levantou uma sobrancelha pra garota, sugerindo que apenas um idiota poderia ignorar algo assim. Afinal, aparentemente, Konoha inteira sabia disso.
Levando a ponta dos dedos à testa, Sakura exalou desanimada. "Eu só estaria te dando mais uma razão pra se aborrecer; e não é como se qualquer um de nós possa fazer algo a respeito. As pessoas têm o direito às próprias opiniões, por mais cretinas que sejam. Eu não gosto do que elas dizem de você, mas também sei que nada daquilo é verdade. E isso basta pra mim."
Um sentimento de auto-depreciação distorceu o rosto do Uchiha, pois sabia que ela tinha razão – não havia nada o que ele pudesse fazer. Não havia inimigos pra derrotar ou perigos dos quais protegê-la, ele não podia agredir ou intimidar ninguém pra resolver isso, não havia um inimigo. Havia apenas um ressentimento coletivo que o perseguia, e não podia protegê-la disso. A única coisa que poderia fazer por ela seria se afastar. Mas isto estava fora de cogitação. Sasuke seria capaz de abrir mão de muitas coisas em sua vida, mas não de Sakura.
"Quando Madara despejou aquela bomba em mim, eu me senti desnorteado," o moreno admitiu. "Ainda que você não pudesse fazer nada pra mudar o que tinha acontecido, eu não sei o que faria se você não estivesse comigo. Mesmo quando eu não puder fazer nada a respeito, ainda espero que você me conte seus problemas. Eu quero estar lá por você como você fez por mim."
Ela apertou as sobrancelhas numa expressão de compaixão enquanto lutava contra as lágrimas que ameaçavam escapar. Ela sentou-se mais perto, e, pousando sua pequena mão sobre a de Sasuke, que apertava o tecido de sua calça preta, ela chamou por ele numa voz gentil.
"Sabe, uma vez eu atendi um shinobi em estado grave no hospital. Por milagre, haviam conseguido trazê-lo, mas eu tinha certeza que não podia salvá-lo, mas ele continuava implorando 'por favor, mais um pouco'." Com sua outra mão, Sakura enxugou algumas lágrimas fugidias. "A esposa dele chegou algum tempo depois, e, enquanto eu ainda tentava salvá-lo, vi ele se despedir. Ele sabia que ia morrer – só estava me pedindo a oportunidade de ver a esposa pela última vez." ela suspirou. "Como médica, eu vejo os extremos da vida das pessoas – vida e morte. Sei melhor do que a maioria das pessoas o que é importante e o que não é. Gente mesquinha se comportando de forma mesquinha não me afeta, Sasuke. Agora, ter quem amo comigo, isso sim é importante."
Sasuke não pôde conter a sensação de adoração que o invadiu diante da presença daquela garota. Ele se virou pra contemplá-la. "Não é por ser médica que você sabe o que é importante – é porque você é quem é – e é por isso que eu... eu quero ter você sempre comigo." O moreno ajeitou uma mecha rosada atrás da orelha dela e aninhou o rosto dela com a mão, afastando uma lágrima com o polegar. "Não esconda coisas de mim pra me proteger, Sakura. Você não confia em mim pra te apoiar? Nós devíamos apoiar um ao outro, não?"
"Eu confio em você, Sasuke! Eu não- Eu só-" perdida nas palavras, Sakura soltou um suspiro derrotado. "Desculpe, você tem razão," ela assentiu com um sorriso e uma mão cobrindo a que lhe segurava o rosto.
Nada pareceu mais natural para Sasuke naquele instante do que se inclinar e tocar seus lábios contra os dela num beijo afetuoso.
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Sasuke havia insistido em acompanhá-la até seu apartamento, e agora estavam ambos parados diante da porta da frente. Ela segurando o vaso com uma mão enquanto a outra buscava suas chaves no bolso da saia, ele inquieto como se quisesse dizer algo.
"Achei!"
Rapidamente a rosada enfiou a chave na fechadura e abriu a porta que dava para a pequena quitinete. Ela então se virou para o moreno e se colocou na ponta dos pés pra plantar um selinho em seus lábios. Ao recuar, estava pronta pra se despedir quando notou um lampejo de ansiedade no rapaz. "Sasuke? Algo errado?"
Ele ainda não havia abordado a questão da briga dela com os pais, ou a mudança pra este apartamento que muito provavelmente não chegava aos pés de sua antiga casa em questão de tamanho, conforto e segurança. Mas podiam falar disso depois. Havia um assunto que ainda o incomodava mais do que qualquer outro, entretanto. "Sakura, está tudo bem entre nós?"
Surpresa pela pergunta, ela piscou confusa. "O que você quer dizer. Acho que está tudo ótimo entre nós. Você acha que tem algo errado?"
Ela não iria mentir dizendo que estava tudo perfeito, por que, francamente, relacionamento perfeito não existia. Mas tudo parecia tão bem quanto possível. Mas a postura inquieta de Sasuke e o modo como ele hesitava em dizer o que estava em sua cabeça a colocou em alerta.
"Fiquei preocupado porque você não me falava dos seus problemas, mas mesmo antes disso já estava com a sensação que você estava me evitando, de certa forma."
"O quê? Não! Quando eu te dei essa impressão?"
Ele tentou encontrar uma maneira sutil de fazê-la entender do que ele falava. "Você quase nunca vem na minha casa, e quando aparece, traz um dos idiotas com você. Eu nem mesmo conheço seu apartamento, e eu sei que o dobe já esteve aqui porque ele disse que era ainda menor do que aquela espelunca onde ele mora."
Alarmada, Sakura parecia entender onde ele estava tentando chegar.
Um pouco hesitante, ele continuou. "E aquele dia na floresta quando estávamos-"
"Eu já entendi o que você está dizendo, Sasuke." Ela o interrompeu abruptamente, levantando a mão diante de si.
Mordendo o lábio, ela se encostou no batente da porta enquanto seus olhos corriam pelo chão de um lado para o outro. Sasuke permaneceu imóvel onde estava, esperando que ela dissesse algo. Eles provavelmente haviam acabado com a cota de silêncios constrangedores. O Uchiha estava quase arrependido de ter abordado o assunto.
"Sasuke, você quer entrar?"
Ele correu os olhos para o rosto da garota, surpreso ao encontrá-la estendendo uma mão convidativa em sua direção.
"Eu não falei isso pra te forçar a me convidar pro seu apartamento. Eu só-"
"Eu sei. Eu quis dizer que é melhor entrarmos pra conversar."
Após um momento de hesitação, ele a seguiu pela porta, observando enquanto descalçava suas sandálias, e fazendo o mesmo com seus calçados. Ela acendeu as luzes e ele pôde ver pela primeira vez o apartamento de Sakura. Ficou surpreso.
Realmente era pequeno como Naruto havia descrito, mas ajeitado. O espaço era ordenado o suficiente pra atender todas as necessidades da moradora. Uma bancada com pia e armários, onde se encaixavam um mini bar, um cooktop e um microondas, fazia as vezes da cozinha junto a mesma parede da porta de entrada. Uma bancada para refeições separava esta do resto do ambiente. Aparentemente, ao invés de comer nesta bancada, Sakura preferia trabalhar nela, visto a quantidade de arquivos e livros ali empilhados.
Um passo adiante e ele pôde ver o apartamento por completo. Na parede mais afastada da entrada estava a única janela, e sob ela uma cama coberta por um confortável edredom amarelo, ao lado de uma pequena mesa de cabeceira. Na parede lateral havia um armário de duas portas junto a uma estante cheia de livros e objetos diversos. Na parede oposta a esta havia um espelho de corpo e o que era provavelmente a porta do banheiro. A gravura na parede lhe chamou a atenção – reconheceu os traços de Sai nas linhas que delineavam uma árvore de cerejeira. Ao lado desta, podia ver um juramento médico num pergaminho.
O interior do apartamento de Sakura certamente contrastava com o estado de conservação decadente do exterior do prédio. Era... aconchegante. E exalava um aroma agradável, o mesmo aroma que sentia toda vez que abraçava Sakura.
Sasuke imediatamente se sentiu confortável ali.
Sakura gesticulou pra que ele se sentasse em sua cama e tratou de preparar um chá pra eles. Enquanto esperava, Sasuke se ocupou de estudar os objetos na estante. Eram em sua maioria livros de medicina, com alguns romances, e outros livros sobre assuntos ligados a ocupação ninja – técnicas, estratégias e afins. Havia também diversas fotos, dentre as quais se destacava uma bem familiar do time sete quando eles ainda eram crianças. No mais, ficou fascinado com a variedade de itens espalhados pelo móvel – pergaminhos, kunais, senbons, brincos e uma infinidade de minúcias – era um interessante contraste que refletia sua dona: um misto de médica, kunoichi e menina.
Mulher, corrigiu a si mesmo em sua mente enquanto voltava os olhos para a forma feminina atrás da bancada. Se lembrou da imagem provocante do outro dia, no onsen. Sakura definitivamente não era mais uma menina. Despertou de seus pensamentos quando ela se virou trazendo duas canecas com o líquido fumegante. Ela lhe entregou uma caneca e se sentou na ponta da cama, bebericando de seu chá.
Ainda que o tivesse convidado, claramente não estava ansiosa por essa conversa.
"Sasuke, é evidente que gostamos muito um do outro," ela começou, hesitante. Ele assentiu com a cabeça em silêncio, esperando que ela continuasse. "Eu sei que você quer ficar comigo," um pouco constrangida, ela enfatizou a palavra pra que não restassem dúvidas a que ela se referia. Ele pareceu entender. "Me desculpe se eu fiz você se sentir rejeitado. Eu também quero muito... ficar com você." Uau, o calor do chá estava realmente subindo pelas bochechas dela.
Observando o moreno por baixo dos cílios, Sakura prosseguiu com cautela. "Mas você há de convir que nossa situação é um pouco incomum. Eu só acho que, diante das circunstâncias, devíamos... esperar."
Sasuke ficou tenso, franzindo a testa. "Esperar?"
"Sim. Eu sei que não é o que você queria ouvir, mas... diante de tudo... Ah, Sasuke, isso é meio constrangedor pra mim. Você pode achar que sou moralista, mas..." Ela cobriu o rosto com a mão.
O jovem Uchiha observou a garota com o cenho franzido. Não esperava por isso – nunca imaginou que Sakura realmente desse importância pra tais coisas. A idéia de esperar certamente era penosa, mas por outro lado... vendo Sakura daquele jeito, não podia lhe negar esse pedido – teria simplesmente que esperar, por mais angustiante que a idéia lhe parecesse.
"Tudo bem," ele respondeu com calma, tentando não transparecer sua frustração. Não queria soar como se estivesse irritado. Lembrou a si mesmo da sorte que tinha em simplesmente ter Sakura pra si.
Sakura pareceu surpresa quando espiou entre os dedos. Estranhou que ele simplesmente concordasse sem argumentar nada. "Tudo bem? Você não se importa? Tem certeza?"
Ele não pôde conter um exalar pesaroso dessa vez. Ela tinha que perguntar se tinha certeza? Por acaso ela mudaria de idéia se ele não tivesse certeza? "Sim. Se você quer esperar até depois do casamento,... eu posso esperar."
Ele deve ter dito algo errado, pois tão logo ela processou suas palavras, seu rosto empalideceu. Num sobressalto, ela ficou de pé, derramando o chá no tapete e forçando Sasuke a recuar na cama, surpreso.
"Do quê você está falando?"
"Você não queria esperar estarmos casados pra- pra-" ele tropeçou nas palavras.
"Kami, não!" ela imediatamente berrou.
"Então do que diabos você está falando?" ele perguntou espelhando o tom de voz exaltado da garota.
"Da sua condicional," Sakura esclareceu imediatamente. "Eu estava falando de esperar pelo fim da sua condicional."
Após um segundo de perplexidade, Sasuke soltou uma arfada de alívio, sentindo a frustração se esvair de seu corpo. Mas tão logo processou a informação, se viu curioso. Voltou-se para a namorada. "Eu não vejo problemas em esperar pelo fim da minha condicional, mas por quê? Isso te incomoda tanto assim?"
"É claro que me incomoda. Estou surpresa que não incomode a você. Nem sou eu quem está sob vigilância e já sinto minha privacidade invadida," Sakura argumentou enquanto trazia uma toalha pra enxugar o tapete.
Sasuke deu de ombros. "É só uma supervisão de agentes ANBU em intervalos aleatórios. Eles vêm e vão de vez em quando. Eu me irritava com isso no começo, mas acabei me acostumando."
Sakura paralisou com uma toalha sobre o tapete e encarou o moreno. "Sasuke, Tsunade te explicou como ia funcionar a vigilância da ANBU, não?"
"Ela só disse que eu teria vigilância prioritária, e nada mais." Ele não estava gostando do tom de voz de Sakura, qual era o grande problema afinal de contas?
Apertando a toalha úmida de chá, Sakura estava prestes a rasgar o tecido de raiva enquanto amaldiçoava a Hokage dentre dentes cerrados. "Aquela inconseqüente... eu juro que-"
"Sakura. Qual é o problema exatamente?"
Largando a toalha sobre o tapete e se acalmando, Sakura suprimiu a irritação na fala. "Você sabe o que significa vigilância prioritária da ANBU?" O moreno balançou a cabeça negativamente. Não imaginava que fosse diferente de outros tipos de vigilância sobre contraventores sob liberdade condicional.
"Significa vigilância constante – dia e noite – onde quer que você vá, com quem quer que você esteja," o tom grave de Sakura quase fez Sasuke rir. "Você está exagerando. Eles passam boa parte do dia vigiando a mim e aos outros – Juugo, Suigetsu e Karin – mas não é otempo todo, Sakura."
"Você está com seu chakra selado, Sasuke. Você consegue vê-los às vezes, e até sentir sua presença. Mas não pode detectar seu chakra, muito menos quando eles se mantém escondidos. Confie em mim – eles estão sempre por perto." Olhos verdes se voltaram pra janela ao lado da cama e focaram a cobertura do prédio vizinho. Sasuke seguiu sua linha de visão e arregalou levemente os olhos ao notar uma silhueta humana contra o céu noturno. Ele rapidamente se voltou pra Sakura e seus olhares se cruzaram em entendimento.
Estavam sendo vigiados nesse exato momento! Raiva tomou seu rosto, e um sentimento de indignação profunda. Que diabos! Essa gente nunca ouviu falar em privacidade?
"Agora entende o que estava tentando te explicar, Sasuke?" Sakura o tirou de seu torpor de raiva. "Você está sob vigilância o tempo todo. Mesmo quando está na sua casa eles mantém seu chakra monitorado. Até enquanto dorme você está sendo monitorado.
Enquanto ouvia aquilo, Sasuke percorreu a memória por cada momento desde o início da sua condicional. Cada encontro e conversa que teve, cada momento que passou, mesmo sozinho, em sua casa, suas visitas ao túmulo da família, seus momentos mais privados... Um minuto atrás estava achando graça dos receios de Sakura. Agora que compreendia tudo, suas palavras o alarmavam. Mais que isso, estava enfurecido.
Se levantou num ímpeto de ir até o telhado do prédio vizinho explicar exatamente a definição de privacidade pra quem quer que os estivesse observando. Antes que pudesse alcançar a janela, entretanto, Sakura lhe agarrou o braço. "O que você está fazendo?" a rosada chiou.
"Vou dar uma coisa pra ele espiar de perto," Sasuke retrucou com raiva.
"Está doido? Você está sob condicional! E ela," Sakura apontou para o prédio da frente, deixando claro que sabia quem os vigiava, "está apenas cumprindo a obrigação. Não é como se estivesse se divertindo nos vigiando."
"Você sabe quem é que está ali?" Sasuke soou um tanto surpreso.
"Eu trabalho no hospital e já tratei boa parte dos shinobis. Eu reconheço alguns dos agentes que te vigiam pela assinatura de chakra. E eu conheço alguns pessoalmente também." Ela disse esta ultima parte com um tom de constrangimento na voz.
Sasuke observou como ela encarava a toalha no chão tentando esconder o rubor no rosto. De repente, um pensamento lhe ocorreu. Na verdade, uma lembrança. "Aquele dia... quando estávamos treinando na floresta..."
Sakura pareceu encolher ainda mais os ombros de vergonha.
"Sakura, estavam nos observando naquela hora?" Sasuke sabia a resposta, mas queria se certificar. Com um sutil movimento da cabeça Sakura confirmou. "E você conhece as pessoas que estavam nos vigiando naquele dia?" Outro movimento hesitante confirmou suas suspeitas.
Sasuke se levantou inquieto e apoiou ambas as mãos contra a bancada coberta de livros encarando a pia do outro lado. Estava tentando controlar a vontade de sair pela janela e pular em cima daquele ANBU... daquela ANBU, pelo o que Sakura lhe informou. A culpa podia não ser da 'kunoichi voyeur', mas ela era o alvo mais palpável para a ira de Sasuke nesse momento. E ele realmente queria poder descontar em alguém esse sentimento.
Quando acreditava que estava prestes a explodir de raiva, sentiu algo contornando sua cintura. Logo sentiu o calor do corpo de Sakura contra suas costas enquanto ela o abraçava. Mesmo sem dizer nada, sua simples proximidade pareceu abater sua raiva. Mesmo depois de tudo o que passaram juntos, Sasuke ainda se via surpreso com o efeito que Sakura tinha sobre ele. Largou a bancada e segurou os delicados braços que o envolviam.
A rosada continuou abraçada a ele, com o rosto colado em suas costas, ouvindo as batidas aceleradas de seu coração se acalmarem num ritmo calmo e constante sob o calor que emanava do corpo dele. Suspirou. Podia passar o resto da vida ali, ouvindo aquele som. "Sasuke, eu sei que essa situação é uma droga, mas você só precisa ter um pouco de paciência... as coisas vão melhorar. Eu prometo."
E Sasuke acreditou naquelas palavras, simplesmente porque vinham dela, e Sakura nunca havia quebrado nenhuma promessa feita. Ela tinha esse dom de fazer tudo parecer melhor, de contagiá-lo com seu otimismo. Um dia ele já chamou isso de ingenuidade infantil. Hoje em dia tinha inveja dessa habilidade que parecia emanar naturalmente, tanto dela como de Naruto. Ele entrelaçou seus dedos com os dela, ainda ao redor da sua cintura. "Obrigado, koishii¹."
O apelido carinhoso escapou de seus lábios com tanta naturalidade que surpreendeu o próprio Sasuke. Nunca havia usado essa palavra, tampouco se lembrava a última vez de tê-la escutado. Alguns a achariam um tanto antiquada, mas para ele, Sakura era a perfeita personificação da palavra. Koishii...
De sua parte, a médica quase engasgou diante do tratamento carinhoso. Já havia sido chamada por vários nomes carinhosos por amigos, familiares, pretendentes,... por Kaito. Mas ninguém nunca a havia chamado assim. Secretamente, sempre achou o som encantador, praticamente uma declaração de amor resumida numa palavra. Ouvir Sasuke lhe chamando assim fazia seu coração disparar. Nada poderia estragar um momento tão romântico.
A não ser, é claro, o ronco estrondoso de seu estômago.
Abraçados como estavam, Sasuke não apenas ouviu o som, como sentiu a vibração vindo do estômago de Sakura. A rosada simplesmente enterrou o rosto na camisa de Sasuke e gemeu de vergonha. Fantástico! Quando Naruto ou Sai não estavam por perto, seu próprio corpo se encarregava de arruinar seus momentos.
Quando sentiu um tremor, teve receio que seu corpo estivesse tendo outra manifestação espontânea para envergonhá-la ainda mais. Mas logo se deu conta que o tremor vinha de Sasuke. Ele estava... rindo? Sim, o maldito estava rindo de uma reação involuntária de seu organismo. Que culpa ela tinha por não ter tido tempo de se alimentar nas últimas oito horas? A culpa na verdade era dele. Se ele não tivesse aparecido no hospital ela já teria forrado o estômago com um belo jantar.
Irritada, ela se soltou do moreno e lhe deu um cutucão num ponto sensível, fazendo com que se contorcesse pra escapar. Se irritou mais ainda ao ver que ele continuava a rir de seu constrangimento. Na realidade, Sasuke agora achava graça no beiço quase infantil que Sakura fazia. Já havia esquecido quase que por completo a raiva de minutos atrás. Estendeu a mão para a rosada num gesto convidativo.
De braços cruzados, Sakura se mantinha numa pose petulante. "O que você quer?"
Sakura manteve o sorriso sagaz no rosto. "Presumo que esteja com fome."
Sakura estreitou os olhos. "Acho que ficou óbvio. E?"
"E estou te convidando pra jantar."
"Jantar?" Ela piscou surpresa. "Tipo... jantar fora?" Ela correu os olhos pra janela se lembrando da vigilância. Certamente Sasuke não gostaria da idéia de jantar enquanto eram observados. Agora que ele sabia...
Como se lesse seus pensamentos, o moreno se adiantou. "Eles vão me vigiar onde quer que eu esteja, não? Já que não vamos ter privacidade de qualquer maneira, podemos muito bem ir pra um lugar público." Raciocinou com um certo desdém.
Sakura concluiu que Sasuke provavelmente estava certo, só não esperava que ele se conformasse tão rápido. Encarou o rapaz e percebeu que ele permanecia com a mão estendida. Seu beiço se derreteu num sorriso relutante enquanto pegava sua mão. "Então, aonde vamos?"
"Você escolhe," ele ofereceu gentilmente enquanto colocavam os calçados. "Qualquer lugar que quiser."
Quis provocá-lo um pouco. Com um sorriso maroto exclamou, "Ichiraku!"
"Qualquer lugar exceto esse!" Sasuke rosnou.
1. Koishii – do japonês, algo como "amada"
Bom, deixa eu avisar que o próximo capítulo deve demorar mais algum tempo, pois eu escrevo devagar... beeeeem devagar. Rs. Mas com dedicação, eu garanto. Por favor, não esqueçam de deixar reviews.
beijos!
dai86
