Disclaimer: Eles não são meus, estou descaradamente utilizando a criação de outras pessoas e construindo minha própria fantasia com ela. Faço para o meu prazer e satisfação e também para agradar a quem queira me acompanhar e sonhar um pouco. Não rola um puto, embora eu economize uma grana em terapia!
Título: Lembranças? Não, obrigado!
Casal: Dean X Sam
Avisos: MachoxMacho!
Se quiser ler, entenda esse aviso:
É o tal do Wincest! É diferente porque é um puta de um tabu, mas se você der uma chance pra história talvez até consiga gostar!
Ou não!
De qualquer forma, se você resolver ler, eu gostaria de saber sua opinião.
Mesmo que você não goste, mesmo que você não entenda como alguém pode gostar disso, ou ainda goste de tudo, mas não goste do meu jeito de escrever! ...eu aceito qualquer opinião ou crítica que quiser fazer, até por que se eu não quiser ouvir os motivos que te fazem detestar o gênero ou o casal ou o estilo, ou seja lá o que for que você por ventura venha a não gostar, vou perder a oportunidade de argumentar ou até de melhorar, ou ainda quem sabe, te trazer pro lado slash da força! kkkk
Então é isso, manda bala nas reviews que eu sou toda orelhas pra vocês. Só não vou aceitar falta de educação, falou? Quer dizer, até vou, mas vou responder a altura!Se quiser me sacanear nas reviews... tá liberado! Mas seja corajoso(a)! Não mande review anônima.
Se quiser curtir fique à vontade. Pra quem já curti, divirta-se!
-W-
"Meu Deus, eu vou enfartar!"
Dean ouviu o barulho da chave na porta, correu e pulou na cama se cobrindo. Antes de Sam acender a luz ele já estava teatralmente capotado no segundo sono.
Sam fechou a porta passando a chave, virou-se e olhou o irmão deitado de lado, de costas para ele, ressonando suavemente. Deu a volta na cama e parou de frente para ele, chegou a sorrir antes de sentar-se na beirada do colchão e chamá-lo.
_Dean!
Nada.
_Dean, deixa de ser tonto! Eu sei que você tá acordado!
Cara de pau...chegou a se remexer na cama e se ajeitar no travesseiro.
_Dean, o seu olho fica mexendo quando você tá fingindo que tá dormindo! Para de frescura e vamos conversar.
"Touché!"
_Merda! Você me acordou com essa luz! Apaga isso!
Sam bufou sem acreditar no descaramento dele enquanto Dean resmungava e virava pro outro lado, de costas de novo, socando o travesseiro.
_Seu mentiroso fingido! Bancar o avestruz não vai te ajudar!
_Esse avestruz quer dormir, Sam!
_Nós temos que conversar!
_ Eu não tenho que conversar, eu tenho que dormir! Dorme também e vê se não me enche!
Sam ainda ficou alguns segundos olhando para as costas do irmão decidindo o que fazer. Chegou a conclusão que não ia adiantar tentar apertar Dean agora, ele era bem capaz de começar uma briga àquela hora da madrugada só para escapar da conversa.
_Tá bom, Dean! Boa noite!
Nem resposta.
Sam não resistiu e deu um peteleco bem dado na orelha do irmão.
_Ai!
_Eu disse boa noite, seu dissimulado!
_Vai tomar no cu!
-W-
Sam acordou mais cedo que o normal no dia seguinte, não tinha dormido nada bem.
Se ele não tinha dormido bem, Dean não devia nem ter dormido, pois àquela hora já estava lavado, barbeado, vestido e com a mochila arrumada, não que fosse necessário nenhuma dessas observações para deduzir que sua noite não tinha sido das melhores. As olheiras escuras e a aparência abatida eram indícios mais do que óbvios da noite passada em claro. Sem falar no olhar doído dele e no sorriso falso que ele lançou quando Sam se levantou da cama.
Aquele sorriso chegou a arder no coração de Sam e o bom humor com que ele o cumprimentou lhe deu vontade de pedir para que ele parasse de fingir.
_Ei bela adormecida, achei um caso pra nós!
_Como assim achou um caso? Que horas? Onde?
_Calma, ôh!
Sam se aproximou do laptop aberto sobre a mesa, numa página que mostrava uma foto de um jovem moreno segurando um violino. A manchete do jornal eletrônico falava sobre mortes misteriosas de jovens músicos de uma orquestra.
_Que horas que você viu isso, Dean?
_Ah! O casal do quarto aqui do lado é meio animado de manhã, acabou me acordando! Dá uma olhada nisso, eu vou buscar nosso café! O que você quer?
Toda aquela animação estava irritando Sam que sentia ganas de sacudir Dean e berrar que não queria café, nem queria outro trabalho. Queria era saber que porra que ele estava fazendo fingindo estar tudo bem entre eles quando nada estava bem e os dois sabiam disso!
Virou-se pronto para despejar sua raiva no irmão, mas o sorriso rasgado na cara dele, aquele esforço desesperado que ele estava fazendo para manter as aparências, o medo que ele viu embaçando os olhos verdes, as olheiras, a tristeza, tudo isso o atingiu como um soco no estômago.
Junto veio a culpa.
Por que não era a primeira vez que ele via aquela expressão na sua face ao longo dos anos! Só agora se dava conta de como ela era falsa.
Depois do que tinham dito, ou melhor, ele tinha deduzido e meio que jogado na sua na noite anterior, Dean estava ali olhando para ele com aquele sorriso ensaiado, fazendo um esforço sobre-humano para convencê-lo que estava tudo bem, que nada tinha mudado.
Será mesmo que ele achava que Sam não tinha chegado às suas próprias conclusões? Não tinha suas suspeitas? Será que ele estava achando que se continuassem fingindo, por alguma mágica de esquecimento, Sam não ia querer ir fundo naquele assunto?
E Sam? Será mesmo que ele nunca tinha reparado naquele teatro mal feito? Quantas vezes ele escondeu o que estava sentindo, quantas vezes ele mascarou a raiva, o medo, a incerteza, e até o amor, por baixo daquele sorriso?
Sam reconheceu aquela expressão de tantos outros tempos, tantos outros problemas, tantas outras dores.
Como ele pode fechar os olhos e fingir não ver a mentira daquele sorriso, a tristeza impondo uma nota quebrada na voz grossa?
Tantas vezes! Ele apenas aceitava comodamente aquela mentira.
O sorriso falso, as palavras de conforto para ele.
Quando seu pai demorava demais para voltar de uma caçada e Sam começava a preocupar-se, ele sorria aquele mesmo sorriso e usava aquela voz para lhe dizer que estava tudo bem! Que tudo ia ficar bem! Quando ele gastava os últimos trocados para lhe comprar uma refeição, ele usava aquele mesmo sorriso e dizia que já tinha comido.
Mesmo que o mundo estivesse desabando na cabeça dele, ele sorriria e diria que estava tudo bem!
Quando Sam brigava com ele, dizia que ele era fútil e superficial. Um mulherengo safado, que não respeitava ninguém, só pensava no seu prazer, ele também sorria daquele jeito e brincava dizendo que não podia ser de uma mulher só, seria uma injustiça com o resto.
Dean sempre se escondia atrás daquele sorriso falso. Sempre com suas piadas sacanas, seu jeito sem-vergonha de conquistador barato que não liga pra nada nem ninguém.
Sempre fingindo e tentando esconder o mundo de sentimentos que brilhavam por trás dos seus olhos.
Sam teve vontade de chorar.
Virou rápido em direção ao banheiro para Dean não ver sua expressão.
_Hei! O que você quer comer?
_Qualquer coisa Dean!
Falou e bateu a porta, se encostando nela, apertando os olhos com força sentindo a garganta arder.
Ferrado! Ferrado!
Os dois! Ferrados!
Porque agora mais do que nunca, ele tinha certeza do sofrimento do irmão. Ele estava escolado demais em mascarar as emoções. Calejado, isso sim.
Dean estava calejado de tanto sentir e sofrer.
O que ele devia fazer? Apertar Dean e arrancar dele todas as respostas que ele precisava? Que bem traria aos dois confrontá-lo? Em que isso os ajudaria? Só o faria sofrer, isso sim. E depois, se ele colocasse suas suspeitas em palavras estava preparado para ouvir o que ele poderia ter para lhe dizer?
Será que ele estava realmente preparado para ouvi-lo dar a resposta completa àquela pergunta que estava berrando em sua mente desde à noite passada?
"Como você me ama, Dean?
Porque definitivamente tudo remetia àquela única questão. A resposta àquela pergunta era a resposta à todas as perguntas que ele tinha sobre o irmão.
A chave para entender Dean Winchester.
-W-
"Ele sabe!"
Essas palavras estavam martelando sua cabeça desde a noite anterior quando ele conseguiu fugir de Sam e do seu maldito "momento mocinha" que quer discutir a relação.
"Ele sabe, ele sabe, ele sabe!"
Palavras girando, dando voltas e voltas e criando ondas de pânico que não o deixavam pensar racionalmente.
"Ele sabe! E agora?"
Com ele ia conseguir escapar do confronto, reverter a situação? Aquele segredo enorme que maculava sua alma, fazia ele se sentir sujo. Ele não ia conseguir suportar ver o desprezo no olhar do irmão. Sam ia sentir nojo dele, raiva, ódio. Ele mesmo sentia nojo, se sentia sujo, traidor. Como ele podia sentir aquilo pelo próprio irmão. Quão doente alguém tinha que ser para alimentar uma paixão assim durante anos?
Nojento! Imundo!
Isso é que ele era, e para ser bem franco, se ele tivesse um pingo de caráter teria era ido embora pra longe de Sam a muito tempo atrás. Nunca devia ter ido buscá-lo em Stanford. Essa que era a verdade, mas sozinho, sem o pai, sem ninguém, a necessidade, a saudade era tanta, que tinha dias que ele pensava que ia enlouquecer.
Por isso foi buscar Sam. Se iludiu na época dizendo que era só porque precisava de ajuda para encontrar o pai.
Será mesmo?
Ou foi porque não conseguia nem respirar longe dele, precisava pelo menos poder olhar pra ele, ouvir sua voz pra não enlouquecer de saudade.
_Prontinho Sr. !
A garçonete sorridente entregou o saco com os pedidos para Dean fazendo questão de roçar os dedos na sua mão na hora de passar o pacote. Dean sequer notou, nem percebeu que continuou ali parado em pé olhando a moça sem realmente vê-la.
_Posso ajudar em mais alguma coisa, querido?
_Ah, não. Obrigada!
Dean saiu da lanchonete totalmente aéreo, deixando uma garota muito desapontada pra trás.
Quando chegou ao quarto que ocupavam, Sam já tinha terminado seu banho e estudava o caso dos músicos, já tinha até levantado mais informações pela internet.
Dean estava tentando se manter calmo, mas a certeza de que Sam ia tentar dar-lhe outra prensa não ajudava muito, porém ao chegar ao motel Sam o recebeu normalmente, tomou seu café, reclamou com Dean que rosquinhas cobertas de açúcar não eram muito diferentes de hamburgers, profetizou que ele ia acabar morrendo mais cedo por conta das porcarias que comia enquanto Dean torcia a cara dizendo que preferia morrer antes da hora do que comer aquelas suas "barras de cereal sabor merda com gergelim". Sam ainda reclamou da bagunça que ele deixara no quarto, da toalha molha em cima da cama de Sam !
"Como se ele fosse dormir nela de novo!"
_Fresco!
Enfim, tudo absolutamente normal.
Normal até Sam se levantar calmamente da cadeira, encostar o quadril na pequena mesa e cruzar os braços.
_Dean, nós precisamos conversar.
-W-
Sam odiou fazer isso com ele. Odiou ver o sorriso rasgando seu rosto, odiou as ruginhas que se formaram em volta dos olhos, odiou a expressão de normalidade dele.
Odiou.
Porque o pânico estava logo em baixo, no brilho desesperado dos olhos, na palidez da face, nos gestos nervosos da mão mexendo aqui e ali, fuçando bolsos em busca de nada, os olhos correndo rápidos pelo quarto, pra porta, a mente buscando uma saída, o sorriso que não era um sorriso e sim uma careta.
Raspou a garganta, virou de costas, fez de conta que não tinha ouvido nada.
_Se a gente sair agora, capaz que chega antes do almoço em River Drive, hein?
_Dean!
Um tenso momento de silêncio.
_Por favor, Sam!
As palavras saíram baixas, suplicantes.
_Não posso, Dean. Desculpa.
Os ombros dele se curvaram, toda a pose, todo o teatro perdido. Ele se virou lentamente e Sam sentiu um arrependimento enorme, porque a dor no seu rosto superava tudo que ele já tinha visto em matéria de sofrimento. Se tivesse como voltar atrás, ele voltaria, mas o tempo do não saber tinha ficado pra trás. Não dava mais pra voltar.
_Certo. O que você quer saber Sam?
Naquele momento Sam teve a louca esperança de que podia estar errado!De que talvez ele pudesse explicar, e a explicação não tivesse nada haver com aquela coisa insana que ficava martelando sua cabeça.
Uma explicação lógica, normal, pra toda aquela dedicação, todo aquele sentimento, toda aquela dor.
Sam abriu a boca mas fechou de novo meio surpreso.
Não soube o que perguntar.
_Vamos lá Sam! Desembucha de uma vez! A voz dele era amarga, azeda, e Sam ficou com raiva, porque era como se ele tivesse metido os dois nessa encrenca.
_Olha Dean, eu nem sei como conversar mas eu tenho que falar, porque tá tudo estranho demais, cara.
Sam andou pelo quarto, a esperança de que as coisas fossem menos complicadas do que ele imaginava se esvaindo conforme a expressão de Dean ia ficando mais carregada.
_Eu não entendo, Dean.
_Oque Sam? Oque você não entende?
_Você!
E Sam pôs para fora, tudo que estava entalado na sua garganta, todas as dúvidas desde que se deu conta do quanto a vida, as atitudes, as opções de Dean giravam em torno dele.
_Dean, porque você foi me buscar em Stanford para começar. Você não precisava de mim. Você nunca precisou de mim. – Sam andava pelo quarto nervoso, correndo as mãos pelos cabelos, falando exaltado – Você é um caçador melhor do que eu, sempre foi.
_Não é bem assim...
_Não me interrompe Dean, eu preciso falar, tá bom?
_Tá.
_ Eu olho pra você e só vejo tristeza, Dean! Eu te conheço, você tenta disfarçar mas as vezes você olha pra mim de um jeito...é tão triste, eu vejo seu sofrimento.
Ele parou de falar para encarar os olhos do irmão do outro lado do quarto, Dean tinha os lábios apertados e olhava para o nada, não enfrentando seu olhar.
_Olha pra mim Dean!
Seus olhos se encontraram, Dean ainda tentava manter um ar de indiferença apesar da angústia derramada na sua face.
_Eu te abandonei tantas vezes. Tantas! Mas você sempre me aceitou de volta. Eu menti, te enganei, te trai. E você continuou indo atrás de mim, me salvando, me perdoando, me aceitando. Porque? – Sam perguntou gesticulando as mãos – Porque Dean? _O que eu te dei em troca? Nada, eu nunca te dei nada, você só perde comigo. Você não precisa de mim, eu que sempre precisei de você, e eu nunca fui metade do irmão que você é pra mim.
Dean andou até metade do quarto, vencendo parte da distância entre eles, esquecido do seu segredo, preocupado com Sam.
_Não é nada disso Sam, nada disso é verdade! Eu preciso de você, sempre precisei. Você errou, eu errei, mas a gente é irmão, fazer o que? A gente tem que se aguentar né?
Dean ainda tentou gracejar com ele.
_Nenhuma cagada sua, nada do que você faça vai me afastar de você, porque você é meu irmão e eu nunca vou te abandonar.
_Eu sei Dean! Eu sei disso! Você é o melhor irmão do mundo!
Velhas palavras, novas dores.
Foi como se uma mão fria apertasse seu coração, a lembrança de muitos anos atrás, um momento especial, um sentimento revelado. Naquele momento, naquela primeira vez que ele registrou essas palavras, sentiu o peito inundar de felicidade. Talvez aquela não tivesse sido a primeira vez que Sam havia dito aquelas palavras, que ele era o melhor irmão do mundo, mas foi a primeira vez que ele sentiu o doce peso delas.
_É tudo que eu sempre quis Sam! Ser o melhor irmão do mundo pra você!
Aquilo saiu tão doído, tão sofrido, quase como se ele estivesse implorando alguma coisa para Sam.
_Dean, porque você sofre tanto por minha causa?
Sam se aproximou mais dele, tentando ler no seu olhar, por baixo da sua tristeza.
_O que eu quero dizer, é que, sei lá. Parece que tudo que você faz...eu sinto que é por minha causa. Esse seu jeito de "não tô nem ai pra nada!", esse jeito que você tem com as mulheres, quer dizer...não é possível que você nunca tenha...assim...gostado de ninguém. Não tem como, Dean! Nem da Lisa você fala! Você viveu com ela um ano, cara!
_Você pediu!
_Oque?
_Você pediu, antes de encontrar Lucifer...você pediu pra eu tentar...-deu de ombros, abaixou a cabeça - você me fez prometer...
_Dean, pelo amor de Deus!
Os dois falavam em voz baixa, tensos, Sam sentou-se na cama, fez sinal para Dean sentar na cama em frente, apoio os cotovelos nos joelhos, esfregou a mão no rosto, pelos olhos, pelos cabelos. Dean sentou a sua frente, tenso, os ombros caídos, as mãos juntas sobre o colo, os olhos baixos, parecendo um menininho culpado por alguma coisa grave, esperando o castigo que viria.
_ Oque significa tudo isso? Me fala.
_Você sabe...eu sei que você sabe.
_Não Dean! Oque eu sei é que você tem vivido num mar de sofrimento e culpa, e que isso tudo tem haver comigo, de alguma forma eu sou o responsável, todo esse...essa dor sua é culpa minha.
_Não é sua culpa. –sua voz era baixa, quase sussurrante
_Então me explica!...me explica Dean, porque eu juro, se você não disser, eu digo por você! Eu falo tudo o que eu tô pensando por mais...estranho e doente que possa parecer! Eu falo o que eu acho que é e Deus! tomara que eu esteja errado, mas se eu estiver certo, olha, é uma puta de uma merda isso, porque a gente tá ferrado! Eu nem sei o que fazer!
Dean se levantou e andou pelo quarto, agitado, passando as mãos pelos cabelos, assumindo uma postura agressiva, intimidante, se escondendo atrás da postura de briga, as palavras de Sam ardendo no ouvido.
"Estranho, doente"
Preferia brigar com Sam, virar a cara, até sair na mão com ele se fosse preciso, mas nunca, jamais deixaria ele saber. Ele podia ter suas desconfianças, que se foda.
Com o tempo ele ia esquecer, porque na cabeça de qualquer um era loucura demais para ser verdade.
Não podia se entregar assim, não ia se entregar. Lutou tanto para manter aquele sentimento escondido, embaixo de camadas e mais camadas de verniz. Tantos anos de treino.
Esconda seu sofrimento. Esconda seu amor.
Não olhe.
Não peça.
Não toque.
Não deseje.
Não sonhe.
Não ame.
Durante todos esses anos Dean não se permitiu sequer a pensar em Sam em suas fantasias. Quando o desejo era grande demais e ele não podia suportar vê-lo, sentir seu cheiro, ouvir sua voz, ele fugia pro seus romances de uma noite só, suas garotas sem nome, seus corpos sem história, seus carinhos sem amor.
Ele lutou tanto, se privou tanto até de imaginar, até de sonhar. Era como passar a vida no deserto. Morrendo de sede, desesperado, bebendo aqui e ali pequenas gotas de ilusão só para não enlouquecer de sede.
Sede de Sam.
Tanto força de vontade, tanta privação, tanto sofrimento, pra nada!
Ele explodiu.
_É problema meu! Não se mete! Não se mete, não é da sua conta!
Ele perdeu todo o auto controle, seu corpo tremia enquanto ele andava pelo quarto esbravejando.
_Você não tem o direito, você não pode! Eu nunca te pedi nada! Nada Sam! Eu sempre fiquei quieto no meu canto! Sempre cuidei de você, a minha vida inteiro. É só o que eu sempre quis, cuidar de você! Porque você tá fazendo isso comigo?
_Dean...
Dean andava pelo quarto e Sam percebeu horrorizado que seus olhos estavam cheios de lágrimas.
_Cala a boca, cala a porra da sua boca! – os gritos dele poderiam ser ouvidos do corredor - Porque você não podia deixar as coisas como estavam, Sam, por que? Toda vez que você me chutou eu voltei pra você, sempre. Eu sempre estive lá pra você, eu sempre te aceitei! Porque você não pode fazer isso por mim? Só aceitar que eu estou aqui?
Quando seus olhos se cruzaram qualquer dúvida que Sam tivesse se esvaiu. Dean era um livro aberto, bastava ter prestado atenção, se ele tivesse prestado um pingo de atenção em Dean teria notado à muito tempo. Mas ele não ligava pra ele, não se importava. Dean era como uma fortaleza, uma rocha, era tão confortável receber toda a atenção, só aceitar ter alguém que faria tudo por você, se dedicaria à você incondicionalmente, perdoaria todas as suas cagadas. Tão bom ter alguém assim que faria tudo por você sem pedir nada em troca.
_Eu sinto muito Dean!
As lágrimas finalmente escorreram grossas pelo rosto dele, a cabeça baixa, a voz quebrada, a vergonha, o medo, tudo transparecendo nas palavras gritadas e depois sussurradas em sofrimento.
_Não é sua culpa, não sinta. – ele não ousava encarar o irmão.
_Dean...
_Olha Sam, é melhor eu sair um pouco, tá. Eu...eu preciso só sair daqui um pouco.
_Não! Pra onde você vai? – Sam levantou e andou até ele, fez menção de tocá-lo mas Dean impediu, colocou as mãos na frente do corpo num gesto de proteção, deu alguns passos pra trás ainda sem o olhar.
_Eu não vou fugir, Sam. Eu juro. Nós vamos terminar essa conversa, tá. Eu vou te contar tudo, vou responder todas as suas perguntas, mas agora eu preciso de um tempo, ok.
_Dean, não! Não quero mais saber. Não quero! Vamos esquecer isso!
Dean riu, olhou pra ele e sorriu, o sorriso mais doce, amoroso e sofrido que Sam poderia ter visto no rosto dele.
_Acho que não dá mais tempo pra isso, né?
Sam voltou a sentar-se agora na ponta da cama, Dean fungou, limpou os olhos na manga da jaqueta. Sam ouviu o barulho das chaves do impala tilintando na mão dele, ouviu os passos se arrastando, viu a silhueta tão conhecida, com os ombros caídos caminhar até a porta e abri-la. Ouviu sua voz quebrada mais uma vez.
_Eu volto pra gente acabar isso!
-W-
As horas da manhã se arrastaram, Sam não conseguia organizar os pensamentos, por mais que tentasse. Via e revia os acontecimentos em sua mente buscando uma saída para aquela situação mas o pânico não o estava deixando pensar racionalmente.
Em alguns momentos sentia raiva de Dean, que escondeu aquilo dele, em outros sentia raiva de si mesmo por nunca ter desconfiado, e depois sentia raiva de novo por ter finalmente desconfiado.
No momento seguinte, incredulidade. Não podiam estar falando da mesma coisa, não era possível. Não era amor, não podia ser porque eles eram irmãos.
Era tão errado! Não podia ser verdade.
Mas que merda de situação desgraçada, e Dean era um filho da puta sujo e descarado por sentir isso!
Mas ele não era!
E Sam sabia disso! Dean era a pessoa mais integra, mais justa e mais generosa que Sam conhecia.
Ele podia fazer de pose de bad-boy, podia beber feito um gambá as vezes, podia xingar feito uma puta, se fazer de durão, de bronco e arrogante, mas no fundo ele era doce e amoroso. Gentil e generoso. Ele era a pessoa menos egoísta que Sam conhecia, a mais limpa e corajosa.
Aquilo era tão errado! Não podia ser verdade. Mas era tão claro, os olhares, o sofrimento, as máscaras. Até o ciúme que Dean sentia. Porque se ele se acabava de preocupação por causa da sua relação com Ruby, também se mordia de ciúmes dela.
Tão na cara!
Finalmente Sam foi vencido pela fome, pelo cansaço e pela sua própria cabeça que não parava de dar voltas, resolveu sair daquele quarto também e andar um pouco, arejar, talvez comer alguma coisa. Quem sabe as ideias clareassem um pouco.
Se forçou a se distrair pela cidade, olhando uma coisa ou outra, tentando não pensar em Dean, onde ele estaria ou o que estaria pensando.
A tarde já ia pela metade quando resolveu que era hora de voltar pro motel e aguardar. Fosse o que fosse que o destino reservava para eles, o primeiro passo seria dado esta tarde.
Quando finalmente voltou ao quarto , se deparou com Dean sentado na cama, a mochila arrumada ao lado. Sobre a cama de Sam algumas das armas que eles carregavam, bem como parte dos suprimentos. Sal, balas e cartuchos, os livros de exorcismo de Sam e um ou outro objeto que eles costumavam usar nos rituais.
Sam ficou parado no meio do quarto olhando para as coisas dispostas sobre o lençol, sem pensar em nada para articular.
_Senta aqui, Sam! – Dessa vez foi Dean quem fez um gesto convidando-o a sentar-se a sua frente. Sam o fez com gestos suaves e apreensivos.
_Dean, oque são essas coisas? Porque você trouxe isso para cá.
Dean levou as mãos ao rosto, esfregou os olhos, escorregando os dedos pelos cabelos em um gesto cansado.
_Eu te amo Sam.
Sua voz era baixa, calma e controlada. Ele havia pensado muito nisso e já que o momento que ele temeu por sua vida inteira tinha chegado ele não ia mais fugir nem se esconder.
_Dean...
_Só me escute, por favor.
Sam se remexeu desconfortável e concordou com gesto de cabeça, não conseguiria falar, não tinha voz.
_Eu te amo como irmão acima de tudo. Eu quero que isso fique claro para você. Você entende isso?
_Eu entendo Dean.
_Ótimo. Porque você pode pensar o que quiser Sam, é direito seu, mas acredite quando eu te digo que acima de tudo você é meu irmão e eu te amo. Eu faço qualquer coisa por você.
_Eu sei Dean, eu sei disso.
Dan fez um gesto pedindo para ele se calar.
_Se você não quiser me ver nunca mais, eu vou aceitar, se quiser me odiar, tudo bem. Eu mereço. Mas se você precisar de mim pra qualquer coisa e quiser minha ajuda, sempre vai poder contar comigo. Sempre Sam.
_Dean, para com isso. Está me assustando.
Dean sorriu para ele novamente.
_Eu te amo.
Sam sentia seu coração batendo nos ouvidos, um ruído alto tinindo na sua cabeça, as palmas da sua mão estavam úmidas de nervoso, viu que Dean também não estava lá muito calmo, apesar da voz suave e do olhar decidido, porque ele também ficava esfregando as palmas das mãos no jeans para cima e pra baixo.
_Eu estou...não! eu sou, essa é a palavra certa. – suspirou fundo, se remexeu, pareceu buscar coragem em algum ponto perdido na parede.
"Meu Deus, como isso é difícil!"
_A verdade é que eu sou apaixonado por você Sam! Muito apaixonado!
Sam respirou fundo, pensar aquilo era uma coisa, mas ouvir com todas as letras era muito diferente. A sensação era de ter tomado um murro no estômago, levantou-se indo e voltando pelo quarto.
-Dean, não pode! Você é meu irmão.
"Ah! Que idiotice pra dizer!" Sam pensou.
Dean pareceu achar graça.
_É cara, nem me diga!
_Oh merda! Não é isso que eu quero dizer, é que Dean! Não pode ser verdade. Você...sei lá, você tá confuso! É isso! Você tá confundindo as coisas!
Dessa vez Dean chegou mesmo a sorrir aquele seu sorriso cheio de dor.
_Sério Sam? Então eu acho que eu tô confuso a anos!
_Anos? – Sam voltou a sentar-se. _Desde quando?
_Sei lá...desde sempre eu acho. Mas eu percebi mesmo naquele quatro de julho dos fogos, lembra?
A expressão de Sam ficou confusa, ele franziu as sobrancelhas, se esforçando para lembrar do que Dean estava falando.
_Quatro de Julho?
_É! Você queria ver os fogos, papai não deixou a gente ir pra cidade, então eu saí e comprei uma monte deles, te levei pro campo perto do lago. Você quase enlouqueceu de felicidade.
Aquela lembrança tão doce arrancou outro sorriso de Dean.
_Meu Deus Dean, eu tinha oque treze, quatorze?
_É! Por aí!
Sam levantou se sentindo incomodado, como eles podiam estar tendo aquela conversa assim tão calmamente, como se falassem do tempo. Todo o estranho, todo o errado daquilo o atingiu tirando-o do torpor momentâneo.
_Porra Dean, eu era só uma criança! Como você pode?
Dean também se levantou sentindo o peso da acusação implícita naquela pergunta.
_Como eu pude o que, Sam?
Não teve a intenção de soar acusador, mas era muito com que para lidar. Pensou em todos os momentos de intimidade juntos, nas vezes que ele se esgueirava para cama do irmão para dormir com ele porque estava com frio ou com medo. Pensou em quantas vezes deitou a cabeça no colo dele e ficou ali curtindo o carinho gostoso que ele fazia nos seus cabelos, quando ele era moleque.
_Eu não sei Dean, isso não tá certo. Quer dizer, você se sentindo assim e eu nem fazia ideia. Eu ia dormir na sua cama, porra!
Dean finalmente se exaltou.
_Escuta aqui Sam, você tá insinuando alguma coisa? Eu alguma vez te toquei do jeito errado? Hein? Você lembra de eu ter me aproveitado de você por acaso?
Merda de situação. Sam estava sendo injusto por conta do choque, falando essas coisas. Tudo que ele não queria era magoar mais Dean, mas não tinha jeito, e ver que Dean deixava as lágrimas caírem novamente só o deixou mais confuso e irritado. Assustado e com medo.
_Olha, não...desculpa, tá. É que isso é muito estranho, Dean. Quer dizer, eu sempre confiei em você, eu dormia na sua cama, eu te abraçava toda hora. Cara, você vivia me chamando de viadinho pegajoso! E agora isso?
A sensação de pânico crescente dentro de Sam não o deixava raciocinar, sua vontade era sair correndo pra longe do irmão, bem longe até não ouvir mais sua vez, não lembrar do seu rosto, esquecer aquela confissão. Esquecer quem ele era, esquecer seu nome, sua voz, sua tristeza, seu amor.
_Você me comprou minha primeira camisinha, me explicou como por! Eu me trocava na sua frente, que merda, eu me troco ainda. E agora você vem com essa bomba! Quer dizer, que merda é essa? Você é afim de mim? Isso tá errado! Eu sou homem, caralho! Você também. Eu sou a porra do seu irmão, seu desgraçado! Eu sou seu irmão!
Sam estava começando a se apavorar, e sua reação quando ficava assim com medo era sempre agredir, partir pra cima. Todo o torpor do choque ficando para trás dando lugar à raiva, bem que Dean achou que ele estava meio calmo demais pra situação mesmo.
-Sam, tenta se controlar! Olha, o que eu sinto não muda os nossos momentos como irmãos Sam. Eu juro por Deus! Eu preferiria cortar minhas mãos fora Sam, se eu não pudesse me controlar com você. Eu nunca cheguei perto de você assim, eu juro, nem nunca te toquei que não fosse como seu irmão mais velho. Nunca. Eu daria um tiro na minha cabeça antes de fazer alguma coisa suja contra você. Pelo amor de Deus, acredita!
_Eu não sei Dean! Olha, eu não sei oque fazer nem o que pensar agora. Eu preciso de um tempo.
Dean abaixou a cabeça, o momento que ele tanto temia finalmente havia chegado. Ele abriu sua mochila, tirou a carteira, pegou a maior parte do dinheiro que havia lá e estendeu na direção de Sam.
_Oque é isso?
_Tem quase seis mil!
_Seis? É toda a nossa grana!
_Pega!
_Não! Você vai ficar sem nada!
_Eu me viro.
_Não.
Dean contou e separou metade. Deu metade para Sam e enfiou a outra metade no bolso da calça, se levantou puxou a mochila enganchando a alça no ombro.
_Eu vou indo então.
Sam se assustou, não tinha pensado realmente em se separar dele, não a sério, apesar de tudo.
_Aonde você vai?
_Eu vou embora Sam. É melhor.
_Não, Dean. Não precisa, a gente enfrenta isso junto, tá. A gente vai dar um jeito.
Sam finalmente entendeu que desde o momento em que Dean se rendeu, ele tinha planejado aquilo. Contar toda a verdade, aguentar o tranco e depois ir embora, carregando o peso da culpa nas costas.
_Dean, não vai!
_Não dá Sam. Não vai dar pra gente conviver com isso.
_A gente pode tentar. A gente esquece isso, vai ser como se essa conversa não tivesse existido. Eu posso fazer isso.
_Mas eu não Sam. Desculpa.
_Dean...
_Olha, vamos dar um tempo tá, você sabe que é o melhor agora.
_Quanto tempo?
_Não sei Sam. Vamos deixar rolar e ver o que acontece, tá?
_A gente vai se falar?
Sam parecia tão frágil, tão assustado, Dean sentiu vontade de abraça-lo, mas não o fez. Ficou com medo de como ele poderia reagir.
_Todo dia...se você quiser.
_Todo dia.
_Tá! Se cuida.
_Você também.
Sair por aquela porta foi a decisão mais difícil que Dean tomou na vida e pra Sam, deixar Dean sair também foi.
-W-
Reviews?
Rola?
