Lembranças? Não, obrigado!
Se você chegou até aqui provavelmente já leu os avisos, então não vou perder tempo escrevendo tudo de novo, tá?
Divirta-se.
-W-
Enquanto Sam permanecia sentado sobre a cama que tinha sido ocupada por Dean, com as mãos encaixadas por baixo do corpo e as pernas balançando pra cima e pra baixo, pra cima e pra baixo num movimento repetitivo, Dean dirigia.
Sem rumo, sem destino, sem consciência do que estava fazendo.
Enquanto Sam pensava incrédulo "ele foi embora, ele foi mesmo embora!", Dean pensava "Ele vai me odiar, quando o susto passar e ele conseguir pensar no assunto, ele vai ter nojo de mim!"
Não havia nada que pudessem fazer além de enfrentar cada um a seu modo, a situação desesperadora e os sentimentos de medo, raiva, culpa e vergonha que tomavam conta de cada um dos irmãos Winchester.
Sam pensava, balançando as pernas freneticamente.
Dean corria para longe, acelerando o Impala.
Horas e quilômetros foram colocados entre Sam e Dean e aquela revelação angustiante.
Dean atravessou paisagens, fazendas e lagos, asfalto e poeira, só parando para abastecer, sem beber ou comer nada, apenas sentindo o peso daquele segredo revelado na alma, antes do cansaço vencer o desespero e ele finalmente parar.
-W-
A agonia das paredes nuas, do silêncio, e da solidão finalmente venceram a apatia de Sam e ele resolveu se por em movimento. Sair daquele quarto em primeiro lugar. Arrumar um carro, roubar um, alugar, qualquer coisa e sair daquela cidade.
Enquanto Dean sentava-se na cama de solteiro de um quarto de motel com uma cama só, vivendo a realização daquele medo secreto que permeou toda sua vida, sentindo a tristeza de ser só, depois de tanto tempo sendo dois com Sam, Sam se levantava de uma outra cama a muitas milhas de distância tendo a mesma tristeza confusa na alma.
-W-
"Quase uma semana sem se falarem e Sam tinha dito que iam se falar todos os dias."
Dean olhava para o visor do celular vendo o numero de Sam na tela e correndo o polegar sobre a tecla de discagem. Acariciando a tecla, louco para apertar, mas sem coragem.
Não devia ligar pra ele, não devia impor sua presença, nem mesmo sua voz.
Se Sam quisesse falar com ele, ele ligaria. Se não tinha ligado era porque não queria saber dele.
Simples e óbvio.
Doloroso pra cacete, mas Dean tinha obrigação de respeitar porque Sam tinha o direito de não querer falar com ele nunca mais.
Ele bem que merecia.
Jogou o celular sobre a cama, afivelou sua melhor cara de "a vida continua", fingindo que o peito não estava doendo e que aquilo queimando na sua garganta não era vontade de chorar.
Fez o que sempre fazia, empurrou tudo bem pra dentro do coração, bem no fundo mesmo, ajudado por uma boa meia garrafa de whisky, aliada a mais ou menos uma meia hora de conversa fútil e um belo par de seios.
Usufruiu de tudo, da bebida às calcinhas de renda por baixo da minissaia apertada.
Tudo bem e tudo bom.
Até ele encontrar uma camiseta de Sam embolada no meio da sua roupa suja.
Uma camiseta de algodão, branca, simples.
Meio suja no peito.
Cheirando a perfume e suor.
De Sam.
Dean sentou no chão do quarto, encostado à parede, as pernas dobradas, os cotovelos apoiados nos joelhos e as mãos apoiando o queixo.
Olhando a camiseta branca, de algodão simples, cheirando a perfume e suor, jogada no chão.
Olhou por muito tempo.
Apenas uma camiseta branca igual a um milhão de outras.
De algodão, bem simples.
Com cheiro de perfume misturado com suor.
Estendeu a mão e puxou a peça do montinho de roupas, segurou entre os dedos, passou de uma mão para a outra. Depois de muito tempo só sentindo o tecido entre as mãos e captando a suave fragrância, finalmente levou até o rosto, enfiou o nariz, aspirou o perfume, esfregou o rosto sentindo o cheiro dele.
Finalmente chorou.
Chorou muito, desesperado, soluçando e chamando seu nome.
-W-
Sam havia se decidido por assumir o caso dos jovens músicos mortos misteriosamente e durante aquela primeira semana as pesquisas e entrevistas conseguiram ocupar seu tempo e sua mente, quase o fazendo esquecer.
Quase.
Porque checava o celular de meia em meia hora.
Não achava que ele fosse ligar, mas esperava que ligasse.
Toda vez que pensava no assunto era assaltado por aquela sensação confusa de novo.
Incredulidade, raiva, medo, saudade e culpa.
Mais uma vez Dean sofria por causa dele. Mas não era sua culpa, era culpa de Dean mesmo.
Ele não tinha feito nada para aquilo acontecer, ele não era culpado, se Dean estava apaixonado por ele, era problema dele.
Só dele!
É. Mas ele o amava. Do jeito certo ou do jeito errado, a verdade era que Dean o amava e tinha feito tudo por ele a vida inteira.
Tinha sido um bom irmão e um bom companheiro. O melhor que um cara podia querer.
Tinha se dedicado, se arriscado, confortado, alimentado e cuidado de Sam a vida inteira. Dean era só dedicação pra ele. Tinha vivido os melhores e os piores momentos da sua vida ao lado dele e muito mais de uma vez ele tinha sido o pilar que o sustentava.
Tinha um milhão de boas lembranças de infância que Dean, e só Dean proporcionou.
E outras nem tão infantis assim.
Dean todo enrolado explicando pra ele como usar uma camisinha, e porque era tão importante que ele nunca, nunca, não importa o quanto estivesse empolgado, esquecesse disso.
Tinha lembranças dos dois tocando o terror em Vegas naquela semana de férias que Dean fez tanta questão. Bem, os dois não, na verdade ele passou a maior parte do tempo arrancando Dean das mesas de baralho e das máquinas caça-níqueis...e dos bares.
Dean podia ser um bêbado bem divertido, sem contar que era um imã pra mulheres. Era inacreditável a quantidade de números de telefones de coristas, dançarinas e barwomens que ele tinha anotado em papeizinhos enfiados nos fundos dos bolsos no fim da noite.
E o tempo todo ele carregava aquela dor com ele, aquele amor desmedido, sem nunca deixar Sam perceber.
O que aquilo tinha custado pra ele? Fingir e se esconder por tantos anos, com Sam logo ali, na cama ao lado, tão perto e tão distante. O que aquilo tinha feito na cabeça dele?
Sam sabia que apesar da aparente frivolidade, Dean era intenso e amava intensamente. E Sam não conhecia pessoa mais fiel no mundo do que Dean Winchester.
Com o passar dos dias, com o pouco de isenção que o tempo proporcionou a ele, Sam finalmente chegou a conclusão que de um modo ou de outro Dean o fazia feliz.
Ele era feliz com Dean e se sentia seguro com ele.
Sem ele estava perdido, triste e solitário.
-W-
Alguém devia atender a porta. A campainha não parava de tocar mas ele não podia atender porque estava ocupado fazendo a merda do macarrão com queijo pro Sam.
Se revirou na cama resmungando pra Sam atender logo a porra da porta, se embolou nos cobertores e se sentou assustado.
Estava sonhando que estavam na casa de Bobby enquanto ele fazia macarrão pro chatinho do seu irmãozinho caçula que não queria comer outra coisa.
Olhou em volta procurando por Sammy. Não viu a outra cama, não viu o irmão, nem suas coisas ou sua mochila.
Lembrou-se que Sam não estava mais com ele. Quis voltar pro sonho e pro pirralho chato grudado na barra das suas calças e dizer pra ele que cozinharia uma tonelada do que ele quisesse comer. Quis voltar pro sonho e abraçar o menino magricela que o seguia com os olhos aonde quer que ele fosse, mas a campainha continuava a tocar.
Dean levantou correndo meio tonto de sono e confusão localizando o telefone sobre a mesa.
_Dean?
_Sam!
Uma longa pausa, Dean travou os dentes tentando se controlar e não despejar sua preocupação e sua saudade logo de cara. Um mês sem notícia nenhuma. Era muita coisa pra aguentar.
Ouviu Sam suspirar do outro lado da linha.
_Oi Dean.
_Oi Sammy.
Nova pausa cheia de tensão de ambos os lados.
_Eu te acordei?
_Não...não...
_Tem certeza, tá com voz de sono...
_É, mas tudo bem.
_Desculpa.
_Tudo bem, Sam. Não tem problema.
Dean cutucava um buraquinho no tampo da mesa sem saber que do outro lado do telefone, a milhas de distância Sam fazia o mesmo, sem saber o que falar.
Sam fez um som que poderia ser um sorriso. Dean permaneceu calado e tenso.
_Eu liguei pra...isso é estranho cara! – Dean ainda não sabia o que falar então continuou no seu silêncio angustiado – Tá tudo bem Dean?
_Tá, tá sim. Tudo ótimo e você? – resposta errada. Ele percebeu porque o tom de voz de Sam mudou, mais frio, mais magoado, mais distante.
_Que bom.
Não era mais preciso mentir nem fingir. A verdade já tinha sido dita, qualquer outro mal que pudesse vir disso seria apenas um incomodo menor.
_Não Sam...eu não to bem. Eu...pra falar a verdade eu nem sei...
_É...
_Você tá bem Sammy? Tá precisando de alguma coisa?
Dessa vez Sam riu mesmo, apesar de não ser um riso feliz, ainda assim o som era maravilhoso.
A resposta dele veio mais doce, menos tensa, mais Sam.
_Não Dean, eu to legal. Não precisa se preocupar.
_Certo.
Era estranho falar com Sam e não saber o que dizer, não poder usar nenhuma de suas piadas idiotas, fazer nenhuma de suas perguntas de fachada, não poder por a máscara. Agir sem precisar medir as palavras pela primeira vez pra não se trair era estranho, mas Sam tinha ligado, então talvez ele pudesse se mostrar. Só um pouquinho, talvez ele pudesse ser ele mesmo.
_Sammy...
_Oi?
_Você tá com raiva? ...quer dizer, você tá com muita raiva de mim?
Aquela conversa estava ficando cheia de pausas dramáticas que não estavam fazendo nada bem pra nenhum dos dois.
_Eu não to com raiva, Dean. É só que...eu não sei cara! Ainda é estranho demais!
_Desculpa.
Sam se irritou um pouco.
_Para de se desculpar, porra!
Dean quase se desculpou de novo por se desculpar.
_Olha Dean, isso é estranho, mas eu não vejo como...sei lá, eu não te culpo, tá?
_Sam, não tem jeito...é tudo culpa minha.
_Eu ainda não entendo isso. Como isso pode acontecer Dean? Não faz sentido.
Sam andava pelo quarto erguendo e colocando coisas no lugar a esmo, tentando se acalmar.
_Eu não sei Sam. Só aconteceu...
Não estava dando certo, era melhor não ter ligado, não estava preparado para conversar com Dean sem se exaltar.
_Tem um monte de coisa que eu não entendo, Dean!
_O que Sam? Pode perguntar.
_Não.
_Tudo bem Sam, pode perguntar, você tem direito de saber tudo.
_Não. Não dá... eu nem sei se eu quero saber, tá!
_Certo. Mas se você quiser... sei lá! Eu mesmo não entendo direito, eu só tenho certeza do que eu sinto, só isso.
_Eu vou desligar, tá?
_Tá bom Sammy.
_Se cuida.
_Ok.
Dean ficou olhando pro telefone mudo se sentindo muito pior do que antes.
Sam desligou mas não guardou o telefone, não era nada daquilo que ele queria ter dito, mas na hora os pensamentos se perderam, a cabeça dele ficou embaralhada e confusa.
Abriu o celular e ligou de novo, Dean que ainda estava com o telefone nas mãos atendeu no primeiro toque.
_Sam?
_Olha cara, não era nada disso que ia dizer...- Sam falava rápido e descompassado. – O que eu queria te dizer é que eu to sentindo sua falta, to com saudade e to preocupado com você. Eu quero que você se cuide, tá?
Dean ficou tão surpreso com o rápido discurso de Sam que apenas respondeu em voz baixa e assustada.
_Tá bom!
_Certo, eu te ligo...
_Tá bom, Sammy.
Dean queria dizer que ia esperar até o inferno congelar por Sam, até Sam esquecer aquilo e perdoar ou conseguir apenas conversar com ele normalmente, mas tudo o que saiu da sua boca foi um "tá bom, Sammy."
"Articulado pra caralho eu!"
Voltou a tentar dormir, se sentindo um pouquinho menos pesado pela primeira vez em muitos anos.
-W-
Tá curtinho, mas tá aí!
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