Considerações para entender o capítulo.
Se passa em algum momento da sexta temporada depois do episódio 6x11. Sam tem sua alma no lugarzinho certo, Cas tá enrolado com a guerra no céu e tem anjos, demônios e criaturas correndo por todo lado, ok?
Capítulo VI
Dean caçava sem parar. Feroz, obstinado, quase suicida.
Quando era inevitável parar, quando nada aparecia para ele poder enfiar toda a sua alma, ele se trancava em algum quarto de motel obscuro munido de algumas garrafas de whisky e uma vontade imensa de usar o telefone.
Passava muito tempo bebendo e pensando, geralmente quando a garrafa estava lá pela metade, ele começava a olhar para sua grande mochila cheia de bolsos laterais.
Grandes bolsos laterais fechados a zíper onde você poderia esconder uma camiseta por dias e fingir que esqueceu que ela existia e que o dono dela existia e que você não queria mais existir se tivesse que ficar longe dele mais um minuto da sua maldita vida.
Grandes bolsos laterais que ajudavam a manter longe dos olhos uma simples camiseta branca.
Uma camiseta e seu cheiro que tinham o poder de encher o peito de um homem de tristeza e saudade.
Numa dessas noites solitárias, regadas a whisky e desespero, Bobby ligou.
Estava a tempos sem notícias, e embora as coisas estivessem complicadas com a quantidade de criaturas pôs-apocalipse, circulando soltas, Sam e Dean nunca haviam passado tanto tempo sem dar notícias.
O velho caçador estava visivelmente preocupado.
_Dean?
_Bobby!
_Hei, garoto! Por onde vocês têm andado.
Bobby ficou escutando o silêncio tenso. Seu sexto sentido em alerta lhe dizia que tinha alguma coisa errada acontecendo do outro lado da linha.
_Por aí Bobby, resolvendo umas coisas.
_Resolvendo umas coisas, Dean?
_É! Isso.
_Que tipo de coisas?
_Coisas, você sabe.
_Caçando?
_É.
_Certo. Dean ... – Bobby chamou com jeito - você tá bêbado, filho?
Dean demorou para responder e quando o fez não se importou em disfarçar e tentar parecer sóbrio.
_É Bobby, quer saber? Eu estou bêbado, mas...não o suficiente, se é que você me entende! – completou com uma risadinha
_Sam tá por aí? Põe no viva-voz, tenho um trabalho pra vocês.
_Ahn, Sam...ele não tá aqui não.
Uma campainha tocou no cérebro do velho caçador.
_Dean...Sam não está com você agora, ou...Sam não está com você.
Dean fungou no telefone, pigarreou e finalmente respondeu, a voz mais pastosa ainda.
_Jesus, Bobby! Você é bom!
_Dean, onde está seu irmão?
_Meu irmão? Meu irmão...eu não faço ideia Bobby. – respondeu com sua voz engrolada de bêbado.
Bobby bufou no telefone, esfregou o rosto, não era possível que eles tivessem brigado de novo. O mundo estava um caos e eles brigando igual a dois pirralhos de jardim de infância.
_Dean...quanto tempo as princesas vão ficar de mal, por que eu estou com uma situação aqui e vou precisar de vocês.
Quando Dean não respondeu Bobby começou a se preocupar de verdade.
_Hei, o que está acontecendo?
A resposta de Dean e seu tom de voz arrasado fez Bobby ter certeza que dessa vez seus garotos não tinham tido só um desentendimento normal de irmãos. A coisa era mais séria do que isso.
_Bobby, eu acho que...sei lá, acabou pra nós. Sam e eu, você sabe. Nada de Batmam e Robin pra nós. Nunca mais.
_Dean, não importa o que tenha acontecido filho, vocês vão resolver isso.
_Não Bobby, não dá. Já era. Não vai dar pra resolver isso, cara. Acredite!
_Dean, para com isso! Depois de tudo o que vocês já passaram! O que Sam pode ter feito que você não possa perdoar?
_Não foi ele Bobby, fui eu.
Isso era novidade, geralmente quando Dean dava alguma mancada ele era o primeiro a correr atrás do irmão e se desculpar. Ou apenas se explicar e deixar o tempo resolver.
_Dean, oque você fez?
Dean soltou o ar pelo nariz, resmungou um pouco, Bobby pode ouvir pelo telefone que ele deu uma grande golada no que quer que fosse que ele estava usando para afogar as mágoas.
_Você não vai querer saber, Bobby. Então, do que você precisa?
_Esquece.
_Como assim esquece?
_Não é trabalho para um cara sozinho. Tem uma matilha de lobisomens se movimentando, um alfa e quatro fêmeas.
_Coisa grande.
_É. Vou falar com o Tompson e o Smith.
_Certo.
_Certo.
_Até Bobby.
Dean desligou sem dar tempo do outro caçador de despedir.
Assim que desligou Bobby ligou para Sam.
Já que Dean não falava, Bobby faria Sam cantar feito um canarinho.
Ah, e como faria!
-W-
Depois de quase meia hora de conversa Bobby desligou o telefone, cansado, irritado e dez vezes mais preocupado do que quando ligou.
Bobby questionou Sam com diplomacia, depois brigou, ameaçou, adulou e brigou de novo com ele, mas não conseguiu arrancar nada além da promessa de que ia manter contato e também ia ligar para Dean.
Promessa que não teve o poder de tranquilizá-lo.
Bobby sabia que falar grosso ou falar macio não adiantava com aqueles dois burros chucros quando empacavam com alguma coisa, mas Sam sempre fora mais susceptível à argumentação, entretanto o garoto estava fechado em copas. Nada do que Bobby falou foi capaz de convencê-lo a se abrir e embora Sam não negasse que tinha alguma coisa errada acontecendo, em nenhum momento insinuou que Dean tinha feito algo de errado.
Só ficava repetindo irritantemente "só estamos com alguns problemas Bobby" ou "vamos resolver, não se preocupe".
O fato de nenhum dos dois ficar esbravejando no telefone contra o outro era indicativo mais do que suficiente que o assunto dessa vez era sério. Muito sério.
Por fim teve que aceitar que não conseguiria arrancar nada de Sam também, mas isso não significava que tivesse desistido, ou que fosse deixar aqueles dois continuarem de cara virada um com o outro sem tentar interceder.
-W-
Sam não sabia o que fazer, estava preocupado com Dean depois da conversa com Bobby, já que Bobby não poupou detalhes, inclusive a parte de Dean estar muito bêbado, afundado num daqueles períodos de surto alcoólico que Bobby e Sam conheciam tão bem.
E já fazia quase duas semanas que tinham se falado pela última vez.
Voltou a ligar para Dean, ficou ouvindo o telefone tocar cheio de apreensão, sem perceber que estava segurando o ar até ouvir a voz do irmão do outro lado da linha.
_Hei Sammy.
_Hei, Dean.
_Bobby te ligou?
_É.
_Ele te encheu muito?
_Muito, cara.
_E você...
_Não Dean! Eu não falei nada.
_Certo.
_Dean...ele tá preocupado, você sabe.
Dean pigarreou.
_Tá tudo bem Sam, pode dizer pra ele que tá tudo bem.
_Eu também tô preocupado...
Mais daquele silêncio constrangedor ao telefone. Sam pensou que aquilo era uma merda, quando você não conseguia falar com a pessoa que você mais amava e confiava no mundo, era mesmo uma grande merda.
_Dean, você pode me ligar se quiser, você sabe, né?
_Claro, Sam. Eu ligo.
_Certo.
Dean desligou sem dar tempo para ele dizer mais nada.
-W-
De um jeito ou de outro o tempo acabou passando.
Sam e Dean se falavam eventualmente, embora fosse sempre Sam quem ligasse, nunca deixava passar mais que dois ou três dias entre uma ligação e outra. Conversam sobre as caçadas e a estranheza dos acontecimentos sobrenaturais mais recentes, trocavam informações e teorias, falavam sobre o sumiço de Castiel, sobre a barreira que a "Morte" tinha colocado em Sam, Dean se preocupava imensamente sobre isso, mas Sam o tranquilizava dizendo que estava bem.
Quase três meses de separação e a confusão tinha minimizado um pouco dentro de Sam, que não deixava de se surpreender com sua própria capacidade de adaptação.
Nos primeiros dias, quase tinha um troço toda vez que lembrava de Dean dizendo que estava apaixonado por ele, mas ultimamente esse pensamento não soava mais tão assustador e ele se pegava rememorando aquele momento um número cada vez maior de vezes.
"_A verdade é que eu sou apaixonado por você Sam! Muito apaixonado!"
E a cada vez, a sensação de estranheza ia ficando mais para trás.
Ultimamente Sam vinha tocando cada vez mais no assunto sobre quando poderiam se encontrar, mas Dean desconversava. Sam não insistia, mas deixava claro que queria vê-lo, que estava com saudades e que bastava Dean dizer sim e ele correria para onde quer que ele estivesse, o mais rápido que pudesse.
Essas conversas sempre terminavam com Sam dizendo que Dean podia ligar pra ele a qualquer hora, por qualquer coisa. Qualquer coisa mesmo. Dean respondia que sim, ligaria sim, claro.
Mas nunca ligava.
E Sam sentia-se cada vez mais angustiado com a distância entre eles, não tinha paz e pensava em Dean todos os minutos do dia.
Pegava-se lembrando do tom da sua voz, do seu papo idiota, das piadas rudes e machistas, do som da sua risada, do seu sorriso de cantinho de boca, quando ele prendia o lábio inferior com os dentes e ia soltando devagar ao mesmo tempo em que ia abrindo aquele sorriso.
Quando ele fazia isso Sam sempre pensava que ele ficava parecendo um moleque, um moleque safado que tinha conseguido olhar por baixo da saia da garota mais bonita da rua.
As vezes lhe dizia que ele ficava parecendo com o "gato que comeu o passarinho", então Dean começava a imitar aquele gato do desenho que tinha a língua presa e só se ferrava, falando "paschaaaarinho, vem paschaaaarinho!" chamando Sam com a mão.
Sam sempre rachava de rir com isso.
-W-
Sam tinha se envolvido em um caso de espírito vingativo e acabou por salvar a mocinha bonita, inteligente e espirituosa, de uma morte trágica no final.
Quando Evelyn, a mocinha bonita, bateu na porta do quarto de motel que ele ocupava, usando um vestido preto simples, mas muito sensual, Sam não pode deixar de pensar que aquilo também não deixava de ser a porra de um maldito clichê na vida dele.
O herói ia transar com a mocinha no final da aventura.
Foi seu pensamento quando a convidou para entrar.
E se a vida parecia mesmo feita de clichês, porque não seguir o roteiro afinal?
-W-
Sam estava deitado na cama, esparramado, sexualmente satisfeito, mas com a sensação de que cometera um erro.
Sensação que agravou quando seu celular tocou e ele viu o nome no visor.
A primeira vez que Dean ligava para ele e ele tinha uma mulher nua deitada ao seu lado, aninhada na curva do seu braço. Ficou tenso e nervoso, teve vontade de jogar o lençol e cobrir o corpo nu da moça.
"Pego no flagra" foi o pensamento incoerente que invadiu sua mente enquanto ele tentava se desvencilhar discretamente de Evelyn para atender ao telefone.
_Dean!
_Sammy!
_Oi, Dean.
_Pode falar?
_É, posso. Claro!
_E aí, tá tudo bem?
Sam não conseguiu responder por que a doce, sexy e espirituosa Evelyn resolveu que era uma boa hora para iniciar as preliminares de mais uma rodada, cochichando com a boca no seu ouvido que ia tomar um banho e que ele estava convidado.
Sam tentou tapar o bocal do telefone, mas a falta de resposta de Dean quando ele disse que estava sim tudo bem, foi indicativo mais do que suficiente de que ele tinha ouvido o convite de Evelyn.
_Você está ocupado.
_Não...Dean, não é ninguém. – se sentiu meio canalha falando isso, mas Dean era mais importante naquele momento e Evelyn bem que podia parar de cantarolar no banheiro.
_Sammy ... isso é uma coisa que eu diria.
_Dean, olha...- Sam baixou a voz, não precisava ferir os sentimentos de Evelyn também - É só alguém que eu conheci, tá? Não significa nada.
_Não, Sam... pra você sempre significa!
O telefone ficou mudo.
Sam teve certeza do que Dean estava falando, por que se lembrou na hora das suas próprias palavras.
"_ ... eu não sou assim! Eu quero ter algum ...sei lá, uma ligação, empatia, tem que rolar alguma coisa, entendeu, não dá pra ser só sexo."
Ótimo.
Outro maldito clichê, ser pego numa mentira, desmascarado pelas suas próprias palavras.
E de novo ele magoava quem mais amava, ainda que fosse sem querer.
Se tivesse como, teria mandado Evelyn ir embora na hora.
Muito embora se vestir e ficar sentado na cama esperando a moça sair do banheiro não tenha sido exatamente sutil ou cavalheiresco de sua parte, funcionou a titulo de dispensa. Sam não queria ser rude e esforçou-se em desculpar-se com ela, dizendo que tinha surgido uma emergência, mesmo não se importando realmente com seus sentimentos.
Naquele momento os únicos sentimentos que contavam para ele, eram os de Dean.
E no que lhe dizia respeito, ela podia sumir no mundo sem olhar para trás, que ele não estava nem aí.
Voltou a pegar o telefone, mas não discou. Decidiu que o melhor era dar um tempo. Dean não deveria estar querendo falar com ele naquele momento, ou talvez fosse Sam que não quisesse falar com ele.
Mas apenas porque não saberia o que dizer.
Sua vontade era de ligar e se desculpar. Dizer que estava arrependido, como se tivesse sido pego fazendo algo errado.
Era ridículo, mas ele não conseguia se livrar do sentimento de culpa, como se tivesse cometido uma traição ou algo assim.
E queria vê-lo. Deus, como queria vê-lo.
Estava com tanta saudade.
-W-
Sam simplesmente não conseguia esquecer o tom da voz dele, a maneira magoada quando disse aquela última frase antes de desligar.
Conseguiu se segurar por um dia inteiro, mas ao começo da noite pegou-se agarrado ao telefone, sentindo-se ansioso como na primeira vez que ligara pra ele depois que tinham se separado.
Dean deixou o telefone tocar várias vezes antes de se obrigar a atendê-lo. Não queria falar com ele, não estava preparado, não devia ter falado aquilo e desligado. Aliás, não devia nem ter ligado.
Não tinha direito nenhum de ficar magoado e muito menos demonstrar, só não conseguiu segurar a onda quando ouviu os sussurros femininos do outro lado do telefone.
Não segurou a onda e teve vontade de gritar com ele de raiva e frustração.
Ainda tremia de ciúmes ao lembrar do tom sussurrante, a imaginação correndo solta, pensando em quem poderia ser a moça, qual sua aparência, o que eles tinham feito...
Imaginando ele na cama com ela.
Mas e daí, era só Sam tocando a vida.
Dean não podia e não tinha o direito de se incomodar com isso, e se por acaso ele tocasse no assunto da garota, Dean iria responder normalmente.
Finalmente juntou coragem e apertou a tecla para receber a ligação.
_Hei Sam.
_Dean...achei que não fosse atender.
Dean demorou um pouco pra responder, o que não passou despercebido por Sam.
_Eu...estava no banho.
_Ah...
Sam se perguntou se era realmente uma boa ideia ter ligado, quer dizer, talvez devesse ter dado um pouco mais de tempo. Seus pensamentos foram interrompidos.
_Tudo bem, Sammy?
_É, tá sim. E você?
_Tudo.
Mais silêncio embaraçoso quebrado novamente por Dean.
_Você ligou por... – Dean gesticulou dando andamento ao próprio pensamento sem perceber que Sam não podia vê-lo, portanto não podia interpretar seus gestos, Sam ficou confuso por um momento.
_Ah, é. Eu...Dean? Onde você está?
_Longe, Sam.
Sam riu soltando o ar pelo nariz.
_Não tem como você saber se você tá longe, seu tonto. Você não sabe aonde eu estou!
_ E onde você está sabichão? – A conversa fluíu com naturalidade e Dean se sentiu feliz por isso.
_Ohio.
_Viu só? Longe!
_Espertinho!
Dean sorriu "se pudesse ser sempre assim, seria tão bom" , foi seu pensamento momentâneo. Sam pigarreou do outro lado da linha e Dean tencionou.
"Lá vem."
_Dean...?
_Oi Sammy. –
_A gente não pode, sei lá, se ver? Você acha que já não tá na hora da gente se encontrar? Quer dizer, já faz um tempo desde...bom, já faz tempo, né?
Dean estava temendo aquele momento, desde que "aquilo" aconteceu.
Foi difícil voltarem a se falar, ouve muita tensão dos dois lados e Sam se empenhou ao máximo para minimizar o constrangimento de Dean, finalmente aquelas conversas voltaram a ser quase normais, o clima entre eles tinha melhorado um pouco, bem, apesar da última ligação de Dean, mas Sam estava deliberadamente ignorando o último contato deles.
_Sam, eu acho melhor não.
_Por que Dean? – Sam falava baixo e parecia magoado, isso entristeceu Dean.
_Ainda é cedo eu acho, é melhor para gente. Vamos dar mais um tempo, tá?
_Você não sabe isso. Você não sabe o que é melhor pra mim! – Sam não tinha intenção, mas estava começando a se exaltar.
_Sam, por favor...
_Não! Não é melhor para mim ficar longe de você, eu não entendo como pode ser melhor para nós ficar longe assim.
_Sam, só mais um tempo... – Dean não queria brigar com ele, nem que Sam ficasse com raiva, queria que ele entendesse que era melhor que ele ficasse longe de Sam, não saberia nem como olhar para ele caso se encontrassem – Sam, não vai ser uma boa nem pra mim nem pra você, acredite! - mas Sam já tinha esquentado, e quando voltou a falar estava irritado e com raiva.
_Quer saber, eu acho que você não liga, isso sim! Eu sinto a sua falta, mas você tá bem assim, longe!
Dean explodiu.
_Eu tô bem? – ele devolveu de volta com raiva e mágoa – você acha que eu tô bem, Sam? Me diz como eu posso estar bem quando eu tenho que me obrigar a ficar longe de você?– Dean sentou na cama com um baque batendo a cabeça contra parede, fechando os olhos em frustração, segurou o telefone contra o peito.
"Merda!"
Que ótimo, quando as coisas começavam a esfriar ele ia e fazia uma dessas.
Voltou o telefone no ouvido, sofrendo com o silêncio tenso do outro lado da linha.
_Sam...desculpa. Eu não devia ter falado isso, eu não...me desculpa. – Estava com vontade de bater a cabeça na parede de novo, dessa vez com muita força, fechou os olhos suspirando inconformado com sua falta de controle. Parecia que depois que abriu o jogo com Sam, não conseguia mais se controlar, as palavras vinham direto, não passavam mais pelo crivo da sua consciência culpada. Não que não sentisse mais culpa. Não, ainda se culpava por todos os sentimentos que carregava pelo irmão, mas não tinha mais aquele freio que o fazia se esconder e disfarçar.
_Dean...
_Oque Sammy?
_Não quero mais ouvir você se desculpando por...não se desculpe mais pelos seus sentimentos, tá bom? Você não precisa se desculpar pra mim, Dean. – Sam fez uma longa pausa, respirando fundo, nem ele mesmo sabia o que queria dizer, apenas deixou as palavras fluírem numa voz baixa, emocionada, cheio de cuidado e bem querer – ...você pode me falar tudo que quiser, tá? Sem ter que pedir desculpas depois...eu quero ouvir... – fez mais uma longa pausa – ...eu quero ouvir tudo o que você tiver pra me dizer, tá bom Dean?.
Sam ouviu Dean engolir em seco e puxar o ar com força, numa demonstração de surpresa. Ele mesmo estava nervoso, segurando o telefone com força, sentindo as mãos suarem, a garganta seca e o coração batendo tão forte a ponto de sentir as pulsações nos ouvidos.
Respirou fundo algumas vezes tentando se acalmar o suficiente para organizar as palavras e fazer Dean entender o que ele queria. Do que ele precisava.
"Não vá se atrapalhar agora!"- pensava - "e não o assuste".
Se fosse precipitado Dean ia fugir igual a um coelho de uma armadilha, e não queria que ele fugisse de novo.
Não queria que ele fugisse nunca mais, voltou a falar com voz baixa e calma.
_Dean, ficar longe não tá fazendo bem nem pra mim nem pra você. Eu quero te ver... por favor!
Dean não respondeu e Sam pensou que aquela era sua deixa para continuar, muito suavemente.
_Eu sei que você tá no meio de um trabalho agora, eu podia ir e sei lá, te ajudar. O que você acha? Te dou uma mão.
Dean se remexeu do outro lado da linha.
_Sam, não sei cara, não é uma boa ideia.
"Calma, não pressiona" Sam pensava.
_Onde você tá? – Sam falava baixo e com voz tranquila aparentando uma calma que não sentia.
_Iowa.
_Nem tá tão longe, eu posso chegar aí amanhã, só tenho uns detalhes pra resolver. O que você acha?
Apenas silêncio do outro lado da linha, enquanto Dean pensava se os tais detalhes teriam a ver com a voz sussurrante da noite anterior.
Sam resolveu continuar argumentando com ele e apelar pro seu senso de proteção.
_Eu posso me hospedar em algum hotel perto de você, nem precisa ser o mesmo. Isso...eu fico em outro lugar, a gente vai se falando por telefone, eu te ajudo nas pesquisas e quando você terminar a gente pode se encontrar para uns drinques. Só...conversar um pouco. O que você acha?
Dean ia responder mas Sam cortou-o.
_Seria bom pra mim, eu aproveito e descanso um pouco. Tô saindo de um trabalho complicado.
_Você tá bem Sammy, aconteceu alguma coisa?
Sam sorriu do outro lado da linha, tentando não se deixar levar pela empolgação – "bingo" – continuou a falar sem mudar o tom calmo.
_É, tô. Cansado só...e eu tô com a mão quebrada, também! – dessa vez deixou a risada sair, como se fosse uma coisa engraçada. Nem era grande coisa na verdade, tinha só uma pequena fratura num dos ossinhos da mão, mas Dean não precisava saber que não era nada. Certo?
_O que aconteceu? Como você quebrou?
_Ah, me distrai no último trabalho e o fantasma que estava despachando conseguiu prender minha mão numa porta.
_Sammy, tem que tomar cuidado cara! – Sam percebeu a velha preocupação falar mais alto na voz de Dean. Sam não queria deixá-lo preocupado, mas essa era uma arma para conseguir atraí-lo e ele ia usar tudo que tivesse ao alcance.
_É. O que me diz, posso ir?
_Tá ok, eu estou em uma cidadezinha chamada West Liberty. Quando você chegar você me liga.
_Certo.
_Certo.
_Dean?
_Oi, Sammy.
_Nada...até amanhã então.
_Até Sam.
Dean desligou o telefone pensando que poderia ver Sam amanhã.
Pensou e pensou oscilando entre a vontade de vê-lo e o medo de finalmente reencontrá-lo.
Pensou de novo nas palavras de Lisa para ele a séculos atrás, no que parecia outra vida. Aliás, vinha pensando muito nisso ultimamente.
"Vocês têm a coisa mais doentia, complicada e maluca que já vi. Enquanto estiverem juntos, você não será feliz." *
Lisa tinha uma intuição muito boa e embora não soubesse o que estava errado no relacionamento deles, ela sabia que havia algo errado, muito errado.
E tinha razão ao dizer que Dean nuca seria feliz enquanto estivesse com Sam. O que ela não sabia é que ele jamais seria feliz sem ele também.
Sam enfiou o telefone dentro do bolso da jaqueta e puxou a mochila encaixando a alça no ombro. Não ia esperar, se partisse agora, chegaria antes de meia noite em West Liberty.
Quanto aos detalhes a resolver, bem, despedir-se de Evelyn não chegava nem a ser um detalhe, não se comparado a Dean.
Não ia dar tempo para ele se arrepender do combinado e se mandar antes que Sam pudesse chegar.
Encontrar Dean seria fácil.
Encarar Dean, definitivamente não.
-W-
Oi!
Compensou o capítulo minúsculo da semana passada?
Er...
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