Lembranças! Não, obrigado.

Capítulo XI

-W-

_O que você tá me dizendo, Dean?

O velho caçador tornou a encher o próprio copo bebendo de um único gole, encheu novamente, derramando mais uma dose para si e outra para o homem assustado sentado a sua frente.

Dean estava pálido, com expressão perdida.

_Bobby, eu sei que isso é esquisito, tá. Mas é a verdade. Você pediu a verdade, e a verdade é essa. Eu o amo, sempre amei!

_Não, não, é claro que você o ama, garoto. Não tem nada errado nisso. Vocês são irmãos.

Deu um grande gole no copo. Dean abaixou a cabeça, respirou fundo, Bobby não estava entendendo ou apenas estava se recusando a entender.

Melhor ser claro, então. Bem claro.

_Bobby, não finge que não ouviu, cara! Eu sou apaixonado por ele e não me pergunte como, mas Deus, ele é apaixonado por mim também! Bobby, ele me ama!

Bobby se levantou rápido empurrando a cadeira com força derrubando no chão.

_Você enlouqueceu?

Bobby deu as costas pra Dean, saindo da cozinha, andou alguns passos pela sala, voltou rápido com expressão furiosa, avançou sobre Dean e o ergueu pela gola da camisa batendo seu corpo contra a geladeira.

_Você enlouqueceu, seu moleque?

Dean não reagiu, Bobby bateu seu corpo contra a geladeira de novo, e berrou contra sua cara.

_O que significa isso, que diabos significa isso?

Dean segurou suas mãos sem esboçar reação, mas quando falou sua voz era fria e decidida.

_Ou me bate ou me solta Bobby, não importa. Não vai mudar nada.

Bobby o puxou pela gola da jaqueta novamente e tornou a bater seu corpo com força no móvel. Rosnou contra a sua cara, Dean sentiu seu hálito de whisky.

Soltou Dean e praguejou pra ninguém. Voltou a andar sem rumo pela cozinha, foi até a pia, se apoio na bancada de pedra, cofiou a barba com a mão, tornou a olhar pra Dean como se fosse dizer algo, mas apenas abanou a cabeça incrédulo.

_Senta aí. – ordenou, virou o resto do whisky do copo e serviu mais uma dose. – Desde quando?

_Desde quando? – Dean ainda estava meio atordoado com a mudança brusca de Bobby, o velho homem aparentava estar bem mais controlado.

_É! Desde quando isso tá acontecendo entre vocês?

_Eu não sei...eu sempre fui apaixonado por ele eu acho...desde de que a gente era garoto.

Bobby fuzilou Dean com o olhar, havia raiva e desprezo dentro dos seus olhos.

_Você tá me dizendo que tem um caso com seu irmão desde que ele era criança?

_Não! Porra, Bobby! Claro que não, Deus do céu!

O olhar de Bobby ainda era de desprezo e desconfiança, ele tinha os lábios cerrados e as mãos fechadas em punho, Dean suspeitou que o velho caçador estava usando todo o seu auto controle para não partir pra cima dele e simplesmente quebrar-lhe ao meio como parecia ser sua vontade.

_Então...explica logo de uma vez, como é isso?

_Eu gosto dele sim, desde que a gente era pivete, mas ele não sabia Bobby. Eu juro, eu nunca deixei ele perceber, eu...ele só descobriu agora, há uns poucos meses atrás.

_A briga?

_É. A briga.

Dean se levantou também, pegou seu copo e bebeu o restinho, entornando nova dose.

_O que aconteceu que vocês brigaram? O que você fez? Você me disse que tinha feito alguma coisa, quando eu perguntei. Eu achei que Sam tinha dado alguma mancada, mas você disse que não. Você disse que tinha sido você, então, que merda você fez por seu irmão hein, Dean?

_Eu dei bobeira, um vacilo. Ele desconfiou, me apertou...eu sei lá, eu não tava muito normal. Acabei demonstrando, ele sacou o lance, desconfiou que tinha alguma coisa. Sabe como ele é, né? Ele é esperto pra cacete, inteligente... me olhou bem no olho e me apertou. Então eu...sei lá... não consegui fingir, acho que eu tava cansado demais de fugir disso, fugir de mim, de mentir sempre, me esconder.

Dean correu as mãos pelos cabelos se sentindo cansado.

_Acabou que eu falei tudo! – deu uma risada sem graça – cantei igual canário, até chorei. Foi o inferno...aí eu fugi. Fugi dele, me escondi.

Bobby continuou olhando-o em silêncio. Estava em choque, mas conhecia aquele garoto como a palma da sua mão, amava aquele garoto como a um filho. Era um garoto bom, não era um canalha safado.

_Dean, eu vou te perguntar de novo. Eu vou acreditar no que você me disser, mas se eu descobrir que você mentiu, se eu descobrir Dean, some da minha vista. Porque se você aparecer na minha frente de novo, eu te mato. Você entendeu filho?

_Entendi Bobby.

_Tem certeza que entendeu? Porque eu estou te fazendo uma promessa aqui.

_Eu entendi Bobby, pode perguntar.

_Você alguma vez tocou no seu irmão? Antes? Eu quero dizer...

_Você tá me perguntando se eu folguei com Sam quando ele era criança. Não precisa medir as palavras comigo, Bobby.

_É. Eu quero saber se alguma vez você se aproveitou do seu irmão, Dean?

_Nunca.

Bobby continuou parado olhando bem dentro dos seus olhos, olhando dentro da sua alma. O que viu ali, lhe deu alívio ao mesmo tempo que apenas o preocupou mais. Só viu verdade. Verdade e sofrimento. Relembrou num átimo de segundo todos os anos de dedicação daquele menino para com o irmão. Todas as vezes em que ele arriscou a própria vida, todas as vezes em que ele enfrentou a única pessoa que ele realmente temeu na vida, John. Sempre por causa de Sam.

Aquilo era sério.

_Nunca toquei nele! Não antes...antes de...agora...você sabe!

_Vocês são...vocês já...?

_Hu-hum. Agora...depois que ele descobriu sabe, que eu...tipo...gosto dele...ele gosta de mim também...então aconteceu...nós...

Dean sentiu o rosto queimar por revelar parte de sua intimidade com Sam, não era bem da conta de Bobby até aonde eles tinham chegado, mas era melhor deixar as coisas bem claras de uma vez, pra ele não achar que era só um coisa de sentimentos, sem um envolvimento real, porque não era, eles eram amantes mesmo e era melhor isso ficar bem claro também.

_Nós estamos juntos...tipo...juntos mesmo... Entendeu?

_Como isso aconteceu Dean? Como você pode? Ele é seu irmão! Não pode ser seu..., merda! Você tá transando com seu irmão? Eu nem sei o que pensar, vocês são homens! É seu irmão, seu irmão!Puta que o pariu, como você pode fazer isso com seu irmão?

Dean levantou-se também encostando no móvel velho que servia como armário de louças na cozinha decrépita daquela casa.

_Dean, vocês enlouqueceram? Você não pode tá falando sério! Você tá fodendo o seu irmão, rapaz? Nem ligo que é outro cara, nem importa, mas Dean... se meter com seu irmão?

_Bobby, por favor...não é assim...

_Ah não? De que jeito é então? Você não tá aí me falando que tá trepando com ele? Ou eu entendi errado?

_A gente se ama, porra!

_Ele é seu irmão! Você não pode levar seu irmão pra cama, não pode fazer amor com ele! Melhorou Dean? Soa melhor assim? Só que tem uma coisinha, não importa se você acha que tá fodendo ele ou tá fazendo amor com ele! Ainda é seu irmão, amando ou fodendo, não faz diferença, é seu irmão!

_Bobby, cara...tudo que você pode pensar, acredite, eu já pensei! Tudo que você disser eu já me disse, todas essas recriminações...eu passei a vida inteira me fazendo...

_É, mas parece que não funcionou, né?

_Não Bobby, não funcionou mesmo, e não tem nada que você ou eu ou ele possa fazer sobre isso! Não importa o quanto você ache nojento, não muda nada. Eu o amo e ele me ama, e a gente faz amor sim. É amor Bobby! Amor, do jeito que você fazia com sua esposa! Porque a gente se ama e a gente faz amor! É amor, entendeu?

Bobby chegou a fremir as narinas de raiva, abriu a porta dos fundos da cozinha e saiu para o pátio, seguido por Dean. A conversa já saia aos berros, os dois gritavam um na cara do outro e se Sam não estivesse praticamente desmaiado já teria acordado a muito tempo com todo aquela gritaria..

_Não se atreva a falar da Karen. Você não sabe nada, você não sabe o que é amar.

_Eu sei,sim! Eu sei o que é amar uma pessoa desesperadamente. Amar a sua vida inteira e não poder ter. Eu sei o que é morrer de saudade, de desejo. Eu sei o que é não poder estender a mão e tocar quem você ama. Você sofreu por que sua esposa morreu, eu sofri porque amava quem não podia. Então não vem me falar que eu não sei o que é amar.

_É errado Dean! Entende isso! Não tem como isso dar certo, é errado!

_Eu sei que é errado Bobby, eu sei! Mas aconteceu. Não importa o que vai ser daqui para frente, eu não sei viver sem ele! Eu morro se o perder.

Bobby viu as lágrimas se formarem e descerem grossas pela face dele.

Dean nunca chorava, não na frente dos outros pelo menos. Bobby se lembrava de tê-lo visto chorar um ou duas vezes na vida. Uma delas quando Sam foi esfaqueado. Bobby chegou a conclusão que provavelmente Dean só perdia o controle e só chorava quando o assunto era Sam. Nem quando era moleque Bobby não se lembrava de vê-lo chorar.

Não gostou de vê-lo chorar, não gostou de ver as lágrimas traçarem um caminho pela sua face. Não gostou da profundidade e nem da verdade daquelas palavras. Acreditou realmente no que ele disse, olhando nos seus olhos, vendo as lágrimas se formarem uma atrás da outra, teve certeza que Dean amava Sam, contra tudo, contra todos, Dean amava Sam com toda a sua alma e morreria de tristeza sem ele.

Ah, ele sabia bem o que era isso, ele sabia bem que nem era tão difícil assim alguém morrer de tristeza.

_Filho...- Bobby se aproximou e tentou tocá-lo no ombro, passar algum conforto, mas não soube como. Não era como se pudesse simplesmente aceitar aquilo - como você deixou isso acontecer, filho?

_Eu não sei como aconteceu, só aconteceu. Eu só...eu só o amo. Só isso.

Bobby sentiu pena de Dean, desde que aquela conversa insana começou ele realmente sentiu pena. Sentiu pena de tanto sofrimento, tanto abnegação. Sentiu pena por tudo que ele deveria ter passado, por todo sofrimento que ele deveria ter carregado, o medo de ser descoberto, a vergonha, o medo de John. Enfim, a vida dele deve ter sido um tormento.

Bobby passou por ele e entrou novamente na cozinha, saiu segundos depois com a garrafa de whisky e os dois copos usados, se afastou alguns passos e colocou a garrafa em cima de um tambor velho que juntava água e enferrujava no pátio dos fundos, depois de encher os copos de novo e entregar um para Dean.

_Me conta da briga, do começo.

_Foi como eu te disse, ele descobriu e eu fugi. Ficamos meses longe. Eu fugi dele igual o diabo foge da cruz.

Dean pegou seu copo e virou a dose de uma vez, provavelmente quando aquela conversa terminasse estariam os dois bêbados, mas Dean não tinha ilusões, o fato de Bobby não estar berrando mais e esbravejando contra a sua cara, não significava que ele aceitava os fatos. Provavelmente ele ia mandar Dean pegar Sam e sumir da casa dele, achava mesmo que essa seria a última vez que falaria com Bobby.

Olhou ao redor pensando em como seria não poder mais contar com ele, nunca mais por os pés naquela casa, não ter mais o ombro amigo daquele que foi um substituto para seu pai. Tinha mais lembranças de família com Bobby do que com o próprio John.

Bobby que o havia ensinado a pescar. Bobby que o levava pra jogar bola no parque.

Bobby que reformou uma velha bicicleta arrancada do monte de sucatas pra ele andar.

Bobby que forjou um pequeno carro de corrida com restos das sucatas pra ele brincar entre os corredores do pátio do ferro velho, com Sam agarrado nele, e ele pedalando freneticamente , fazendo as correntes rodarem e impulsionarem o carrinho. Sam fazendo bolhas de baba enquanto imitava o barulho de carros de corrida - "RAM-ram...ram! Brum..brum...brumbrummmmmmm!. " - soprando cuspe no painel de papelão que eles pintaram numa imitação colorida e rabiscada de botões e números.

Sam tão bonitinho, cabelinho comprido, franja no olho, só de short. Barrigudinho e babão, berrando a plenos pulmões.

"corre Dee, corre mazi co cauo!"

Tantas lembranças daquele lugar.

Sam tinha uma cicatriz no joelho que ele não cansava de beijar quando faziam amor, cicatriz que Sam conseguiu com mais ou menos três aninhos quando Dean capotou o carro de corridas e Sam se cortou na lataria.

Sam berrou até, e Bobby deu umas palmadas na bunda de Dean por ele ficar correndo igual um maluco com aquele carro velho que já deveria ter ido pro lixo.

Todas essas lembranças cortaram sua mente e seu coração, perder Bobby ia ser terrível, mas lembrar de Sam, de suas cicatrizes, seus joelhos, seu cheiro, seus cabelos, seus olhos e seu amor, lhe faziam ver que não precisava nem pensar para saber que simplesmente não suportaria viver sem ele, e que nada que viesse a acontecer o faria querer mudar de ideia e voltar atrás no relacionamento que tinham agora.

Bobby merecia a verdade. Completa, inteira, sem meias palavras nem subterfúgios.

_Eu senti vergonha a minha vida inteira Bobby. Senti nojo de mim, me senti sujo, doente. Passei minha vida inteira lutando contra esse amor.

Dean pensou um pouco, relanceou os olhos pela porta da cozinha, a parede da sala ao fundo. Não podia ver Sam dali, mas sabia que ele estava lá. Era só dar alguns passos e poderia tocá-lo. Poderia tocá-lo sempre que quisesse. Ele não era mais inalcançável. Ele não era mais um desejo secreto, um segredo sujo.

Dean sabia no fundo da sua alma, sem sentimento nenhum de pânico, com calma e tranquilidade, que o dia em que perdesse Sam ele morreria, porque não sabia respirar outro ar que não fosse o que rodeava seu corpo.

_Não me sinto mais assim, Bobby. Não tenho mais vergonha. Eu o amo e ele me ama. Eu fugi, me escondi, me afundei em bebedeira...quis morrer mesmo! Ele foi atrás de mim Bobby, me perseguiu, não me deixou fugir...me fez encarar, entende? E ele disse que ama. Só tem uma semana que ele disse que me ama, a gente tá junto a uma semana!

Dean fungou.

_Eu nunca fui feliz! Nunca. Eu sei que é errado pra todo mundo, mas pra mim não é. Eu estou feliz pela primeira vez na minha vida e não me envergonho disso! Eu estou feliz porque eu amo o amo e ele me ama! Essa é a verdade e nada do que você disser vai mudar isso.

Dean pensou sobre como continuar, como dizer tudo o que precisava ser dito, mas sem ofender Bobby. Depois pensou que ofendido ele já estava, aquilo devia ser como um tapa na cara do velho caçador que os tratou como filhos a vida inteira. Chegou a pensar no pai, em qual seria a reação de John com aquilo tudo.

Chegou a conclusão que John provavelmente lhe daria uma surra de moer os ossos, mas não ia fazer diferença nenhum. O pai podia lhe excomungar, lhe renegar, cuspir na sua cara. Não se afastaria de Sam por nada no mundo. Só se afastaria de Sam se Sam não o quisesse. Esses pensamentos o fortaleceram mais ainda, sentir que nem mesmo o medo e o respeito que sentia por John abalaria seu amor por Sam lhe deu forças para falar tudo que precisava.

_Eu te respeito muito, eu sei que você não tem que aceitar isso. Porra, você não tem nem que tentar entender, essa que é a verdade, mas eu...nós estamos precisando de ajuda e eu só posso contar com você. Por isso estou aqui, mas se você não quiser...não puder...se você não puder suportar a gente junto Bobby, tudo bem! É direito seu, cara. Nós vamos embora, tá. Só deixa ele acordar e a gente se manda!

Bobby arranhou a garganta, limpou a boca sem dizer nenhuma palavra. Ficou olhando Dean com olhos astutos, expressão impenetrável. Depois de longos segundos proferiu.

_Vou lá pro triturador, tenho que ajeitar umas sucatas pra transporte.

Dean ficou olhando pras costas do velho caçador se afastando sem proferir nenhuma sentença sobre eles.

_Bobby!

Bobby parou no meio do pátio dos fundos e sem se virar para olha-lo respondeu.

_Prepara alguma coisa pro seu irmão comer, ele vai acordar com fome. Depois conversamos.

Sem mais nenhum gesto ou palavra voltou a caminhar até se perder entre as pilhas de sucata enferrujada.

Aquilo era uma permissão para ficarem. Por hora pelo menos. Se Dean bem conhecia Bobby, ele ia ficar longe ruminando aquela conversa deles, depois, talvez lá pelo fim do dia voltaria com sua sentença final.

Em qualquer outra situação com qualquer outra pessoa Dean simplesmente o mandaria ir se foder e se mandaria com Sam dali, mas era Bobby.

Dean achava que Bobby tinha o direito de falar o que ele pensava e Dean tinha obrigação de ouvi-lo, nem que fosse para dizer o quanto ele era doente e imprestável e depois correr com eles de lá.

Dean rumou para dentro de casa, para o escritório, puxou a velha poltrona de couro para perto da caminha improvisada de Sam e sentou-se ali velando seu sono intranquilo.

-W-

Em meio ao ruído ensurdecedor do compactador de sucata Bobby pensava nos últimos acontecimentos.

Dean era perturbado, sempre foi. E piorou depois da estadia dele lá embaixo, no porão.

Bobby sabia disse desde que ele era garoto. Dean tinha um terrível complexo de inferioridade. Um senso de dever desmedido para com o garotinho menor, o irmão caçula. Tudo era pra Sam, Dean tinha idolatria por Sam.

Em parte isso era culpa de John, pois John tratava Sam como se ele fosse especial, diferente de Dean que sempre foi tratado como um soldadinho em miniatura.

Para John, Sam era o bebê especial que deveria ser sempre protegido, Sam era a peça valiosa, sua melhor lembrança de Mary.

Sam era a criatura pela qual Mary se sacrificara, John lembrava-se de vê-la lutando no quarto, gritando para algo ou alguém deixarem seu bebê em paz. Ele contou essa história muita vezes para Bobby, entre os vapores do álcool. Dean foi encarregado de cuidar da peça mais valiosa daquela família desde muito pequeno.

Aquela preciosidade que era Sam, era sua responsabilidade.

Bobby era astuto o suficiente para entender como na cabeça do pequenino Dean, Sam foi crescendo de valor enquanto ele próprio só era indispensável na medida que se tornava o protetor daquele que realmente importava.

Sam.

Vendo por esse lado era fácil de entender como emocionalmente essa adoração que Dean tinha por Sam foi crescendo até descambar para aquele sentimento impróprio.

Bobby também era sensível o suficiente para perceber que apesar de totalmente impróprio, não significava que não era verdadeiro. Dean realmente amava Sam.

Como homem.

Isso levantou outra questão que lhe pareceu até mais importante do que o fato de Dean ser apaixonado por Sam.

O que Sam sentia por Dean.

Esse pensamento o assustou porque não via o mesmo mecanismo que desencadeou a paixão romântica de Dean para Sam, agindo de Sam para Dean.

Sam sempre aparentou nutrir pelo irmão amor, respeito e admiração que qualquer um nutriria por seu irmão mais velho, então como esse sentimento mudou e se transmutou em amor?

Sam realmente amava Dean?

Ou esse amor que Sam aparentemente afirmava ser recíproco era fruto apenas da insegurança de ter que se afastar do irmão mais velho por causa da revelação chocante de ser amado como homem e não como irmão.

Quais eram as opções de Sam nessa situação?

Se afastar de Dean, ter que perder o porto seguro que Dean sempre representara para ele? Num momento que Sam estava tão frágil, pois como ele mesmo afirmou, vinha tendo esses flashes de lembranças já há muitos meses, a barreira ameaçava ruir e ele sabia disso.

O que ele sentia por Dean era amor mesmo? Ou era só o medo, a solidão, o pavor de se ver sozinho para enfrentar a loucura, que o fazia romantizar e aceitar aquela situação com o irmão?

Essa pergunta era muito assustadora porque se Sam não amasse realmente Dean e em algum momento se desse conta disso, como Dean poderia sobreviver a essa revelação?

Pela primeira vez desde que tomara conhecimento daquela situação toda Bobby realmente temeu por Dean.

Porque Dean não ia suportar.

-W-

Sam dormiu praticamente o dia todo e quando acordou não aparentava estar revigorado pelo sono. Ao contrario, estava abatido e cansado e muito a contra gosto se obrigou a comer um pouco da comida que Dean fizera. Só comeu mesmo por causa da cara de preocupação de Dean, porque tudo na sua boca parecia que tinha gosto de isopor.

Enquanto Dean lavava a louça do jantar Sam sorrateiramente subiu para o banheiro do segundo andar e vomitou. Não conseguiu segurar nada no estômago, naturalmente não contou pra Dean, ele já tinha preocupações demais.

Dean colocou Sam a parte da conversa que teve com Bobby, Sam não se mostrou preocupado com a aceitação de Bobby, mas sim com o estado emocional de Dean.

_Nós vamos ficar bem Dean, você vai ver. Se ele quiser que a gente vá a gente vai.

_Não é assim Sam. Pra onde a gente vai? Você não tá bem, a gente precisa de ajuda.

_A gente resolve Dean, eu já to me sentindo melhor. Não se preocupa.

Dean sentiu o coração apertar com o sorriso que Sam lhe deu tentando convencê-lo que estava bem. Tocou seu rosto num carinho suave.

_Você tem razão, vai ficar tudo bem.

-W-

O sol já ia quase sumindo no horizonte quando o velho caçador finalmente entrou na casa. Os dois Winchester olharam-no apreensivos, mas ele não proferiu nenhum palavra sobre o ocorrido. Apenas perguntou a Sam como ele estava se sentindo.

Depois rumou para a cozinha, fez seu prato e comeu solitário, sentado à mesa sem buscar a companhia dos rapazes. Dean se aproximou depois que ele terminou de comer e tentou puxar pelo assunto do dia.

_Bobby, então...o que você decidiu?

Bobby raspou a garganta, levou seu prato e copo para a pia e os lavou ainda sem proferir nenhuma palavra, enxugou e guardou a louça. Só depois deu atenção a Dean.

_Você dorme no sofá! Fica de olho no seu irmão, eu vou dormir. Se tiver algum problema você me chama.

_Mas Bobby...

_Depois a gente conversa.

Dean entendeu que Bobby ainda não tinha tomado uma decisão quanto a eles.

Sam e Dean ficaram na sala com a TV ligada até tarde, Sam acabou cochilando contra o ombro de Dean, que passou o braço por ele e o aninhou contra o peito, acabou dormindo também.

De madrugada Bobby desceu à cozinha para buscar um copo de água, não conseguia dormir. Ficou parado no primeiro degrau da escada olhando os irmãos dormindo abraçados no sofá. Sam aninhado contra o peito de Dean, que recostado contra o braço do sofá tinha os braços protetoramente passados pelas costas de Sam. Sam tinha as pernas dobradas sobre o sofá e Dean tinha as pernas esticadas para frente deitado todo torto, mas proporcionando a Sam um colo aconchegante.

Foi assim a vida inteira e sempre seria assim.

Dean sempre faria tudo para Sam ficar bem, fosse qual fosse a situação. E Sam sempre encontraria conforto no colo dele.

Bobby se pegou pensando quem era ele afinal pra achar que aquilo não era real.

Ou não era bom, certo e justo.

-W-