Scorpius teve um sono pesado. Acordou com dificuldade, mas tarde que o normal. Droga, hoje tinha aula. Olhou para o lado. Lá estava a foto que ele tirou no ultimo dia de férias do ano passado. Ele, Albus, Luce, Dom, Kayla, Gemma, da Lufa-Lufa, Donna e Golias, da Corvinal, estavam no Caldeirão Furado, no quarto de Luce. A foto foi tirada pela Sra. Longbottom. Tinha sido um dia bem engraçado. Alguns estavam de pé, alguns deitados na cama da amiga. Luce, por sua vez, estava de cavalinho em Albus, contra a vontade dela, e ela esperneava. Todos riam, e o momento que a foto pegou, ele ficava rindo que nem um idiota na animação.
Luce. Como pode ter esquecido? A aposta, claro. Se vestiu rapidamente e penteou os cabelos de qualquer jeito, escovou os dentes e pegou o material. Foi até o Salão Principal, dizendo "bom-dia" para todos que encontravam. Alguns retribuíam, a maioria estranhava.
Novamente, ao procurar por Luce na mesa vermelha-e-dourada, não encontrou. Será que ela tinha passado mal de novo? Verificou o bracelete, nada. Decidiu que provavelmente ela deve ter se atrasado. Sentou ao lado de Albus e começou a passar geléia no pão. O movimento do salão acalmou, essa hora todos já haviam acordado e já estavam tomando café. Mas Luce não.
De repente, Scorpius ouve a colher de Albus cair no prato. Ele olhou para o amigo, que estava boquiaberto.
- Que é?
O moreno apenas apontou para a porta. Scorpius reparou que não era só ele que olhava. Sua boca se escancarou mais que a do moreno. Bem mais.
Luce vinha vindo no corredor. Mas não era a Luce. Não a Luce que ele conhecia. Era uma Luce diferente.
A menina vinha andando a passos largos e lentos pelo corredor. Estava quase irreconhecível. Os cabelos, geralmente revoltos e presos num coque malfeito, estavam soltos, mas belamente arrumados, com a franja presa no lado. Os olhos, geralmente extremamente marcados de preto, ainda estavam marcados com o preto, mas menos forte do que o normal. Estava usando uma sombra dourada bem de leve e um gloss vermelho, deixando os lábios ressaltados. A roupa, geralmente uma saia que ia até os joelhos, um casaco que deixava ver só um palmo da saia, meias compridas e all star preto, haviam sido trocados por uma saia o dobro mais curta. A barra batia no meio das coxas dela. Ainda usava o meião até os joelhos, mas agora o sapato era um salto preto, estilo boneca, sem fivela, não muito alto, mas deixava ela mais ou menos da altura do loiro. O casaco havia sido trocado por uma camisa colada, que tinha a barra enfiada para dentro da saia. Os três primeiros botões estavam abertos, mostrando a clavícula e um pouco mais. A gravata estava bem folgada. A bolsa de couro pendia no ombro dela, e ela segurava displicentemente a alça única. Nos lábios, um sorriso satisfeito com o efeito que queria. Ah, com certeza não era a mesma Luce.
- Ela ta... – Albus começou.
- Linda. Ela está realmente linda. Mas é ela mesmo? – Scorpius terminou.
- Claro que é, olha o pescoço, aquela cicatriz de quando ela caiu da vassoura. Meu Deus. Olha o resto do pescoço, Scorp, o que deu nela?
Luce olhou para o bracelete. A barra dourada tinha enchido de liquido verde até a metade. Bom. Olhou com o canto do olho para Malfoy e sorriu para ele. Um sorriso quente. Quase sensual. Ele balançou a cabeça.
Luce se sentou ao lado de Rose. Sabia que isso ia acontecer, a amiga havia avisado, tinham até combinado o horário perfeito para ela chegar. Ficou bem feliz que a barra tivesse enchido. Olhou para o pai. Ele estava sentado na mesa dos professores, com um olhar pasmo no rosto. Ela desviou o olhar para a comida, e escolheu uma maçã verde.
Olhou o horário. Primeira aula era de Poções com a Lufa-Lufa, depois Herbologia com Sonserina e depois dois tempos de Feitiços. Blargh. Não que ela não gostasse de Feitiços, longe disso, Feitiços e Transfiguração eram suas matérias favoritas, mas ela já sabia toda a matéria do ano inteiro, e do próximo, e do próximo, e do próximo também. Então, as aulas ficavam, meio... Entediantes. Mas talvez hoje elas até fossem divertidas.
Depois de terminar a primeira maçã, ela pegou mais uma. Quando saiu do refeitório acompanhada de Kayla e Rose, sentiu os olhares caírem sobre ela de novo. Olhou por cima do ombro e viu Scorpius olhando para ela com uma cara estranha. Deu outra risada calorosa.
- Ah aquelazinha me paga... – Scorpius resmungou.
- Que que você ta falando sozinho ai? Ela é sua melhor amiga, se ela quis mudar a aparência, você deveria apoiar. – Albus disse, enquanto eles se encaminhavam para aula de Transfiguração.
Luce teve uma aula de Poções engraçada. Luce se ofereceu para experimentar as poções no começo da aula, como sempre fez (ela achava divertido). Eles tiveram que fazer uma Poção da Confusão, que tem quase o mesmo efeito do Confundus. Mas, acidentalmente, um menino da Lufa-Lufa fez uma Amortentia. Mas foi totalmente acidental. Totalmente, e não tinha nada a ver como fato de Luce ter se voluntariado para experimentar as poções. Claro que não. Pffff.
Depois da aula, ela foi até o dormitório pegar sua Mimbulus Mimbletonia. Pertenceu ao seu pai quando ele tinha a idade dela, e agora ficava em seu dormitório. Ele tinha pedido a planta emprestada. Ela e Kayla foram juntas.
Pegaram o pequeno cacto acinzentado e foram em direção às estufas. No caminho cruzaram com James e um amigo dele. James olhou diretamente nos olhos de Luce, e sorriu. Ele nunca havia dado bola para ela. Não que ela já tivesse querido que ele desse bola para ela, longe disso. Mas ele sempre a tratava como "a artilheira premiada do meu time". E, para ser sincera, ela sempre o achou bem bonito, desde a primeira vez que o tinha visto no trem. E por esse motivo que ela retribuiu o olhar profundo do moreno e sorriu radiante, do mesmo jeito que havia feito para provocar a paciência de Scorpius, do mesmo jeito que tinha ficado horas treinando na frente do espelho e com as amigas.
Depois que James passou feliz, Kayla se virou para ela e a encarou com aquele olhar que já diz tudo.
- HMMMMM, ele ta caidinho por voceeee! – a menina disse.
- Cala a boca Kayla, nem pense em contar pra ninguém, só pra Rose.
- Mas se rolar algo você me fala?
- Claro que falo.
A menina sorriu satisfeita quando entraram na estufa. Toda a turma já estava lá, sonserinos e grifinórios. Ela viu Rose sentada ao lado de Albus, e ao lado de Albus estava Scorpius. Ao lado de Rose, estavam Alex e Jean. Luce entregou a planta para o pai e se sentou no meio de Albus e Rose. Essa, olhava para a amiga de um modo acusatório divertido, o que significava que Kayla já havia contado sobre James.
Luce se debruçou na mesa inconsciente de que o modo que estava mostrava o decote para um menino da Sonserina que estava sentado à sua frente na mesa redonda, que ela não sabia o nome. O menino nem tentou desviar o olhar. Ela esticou as mangas até os cotovelos, de modo que a mão que tinha o bracelete ficava a mostra. Ela colocou a mão na frente de Albus, de um jeito inocente, mas que Scorpius pode ver a barra dourada preenchida até a metade de liquido verde. Ele bufou, com raiva de si mesmo.
Ela se distraiu um pouco na explicação do pai, que estava passando em volta da mesa enquanto falava. Já tinha voltado à posição normal, e o menino da Sonserina estava se esticando para conseguir ver mais. Luce levou um susto quando uma biribinha estourou na frente do menino, o fazendo pular.
- Sr. Carterspell, seria bom se o senhor prestasse mais atenção à minha aula do que na Srta. Longbottom. – o professor disse, indicando que fora ele que jogou a biribinha.
- Desculpe, Prof. Longbottom.
Luce deu uma risadinha, e quando o pai olhou para ela, quando tinha voltado a falar, numa pergunta muda de "o que está acontecendo?", ela apenas deu de ombros e riu. O pai deu um sorrisinho de lado e continuou a explicar a matéria.
- Hoje temos que colher alguns ramos de Venomous Tentacula. Portanto, podem vir aqui e pegar as luvas e os óculos.
A sala se levantou e pegou um par de luvas e de óculos cada um. Eles se aproximaram de uma mesa com vários vasinhos da planta, que era extremamente venenosa, mas bem fácil de se colher, e ótima para fazer Poções. Cada um ficou com um vasinho cheio para si.
- Bom, cortem todas as folhas que estão grandes e começando a amarelar e espremam com uma colher de prata. Me tragam aqui quando acabarem.
Luce começou a cortar as folhas. Terminou rápido, em casa tinha montes dessas plantinhas, eram um ótimo remédio para dor de cabeça quando misturado com uma gota de Stinksap da Mimbulus Mimbletonia. Ela já tinha experiência em cortar as plantinhas, nem precisava das luvas, mas essas que tinham na escola eram um pouco mais rebeldes da que o pai criava em casa. Terminou rápido e foi em direção ao pai para entregar as folhas.
- Quem ta com dor de cabeça? – ela perguntou para o pai, já que era a única na mesa dele e que já tinha acabado.
- Ninguém, a Madame Pomfrey pediu um pouco para deixar de reserva. Já moeu também? Já? Ok. – ele disse, pegando o potinho com as folhas moídas e colocando num pote maior. Se aproximou de modo que só a filha escutasse e sussurrou – o que que aconteceu com você, Luana Alice Longbottom?
- O que? – ela respondeu, no mesmo tom de voz.
- Que que aconteceu pra você mudar tanto? E esse decote?
- Ah pai, não enche. Eu só quis ficar mais feminina.
- Gostava mais de antes.
- Parece que o Carterspell não pensa assim. Nem ninguém.
- Alem de você – o pai retrucou.
- Talvez, mas eu gosto de ficar assim.
- Olha o tamanho dessa saia Luana Alice, imagina se ela voa! Não gosto nem de pensar. – ele disse, se afastando e fechando os olhos.
- Calma pai, olha.
Ela levantou discretamente a barra da saia, revelando um pedaço invisível.
- Que que você fez com as sua perna? – ele exclamou. Agora, os dois chamavam um pouco de atenção.
- Nada, é um short que eu to usando, com o feitiço da desilusão.
- Já falei para você parar de ficar jogando feitiços da desilusão em todo pano que encontra.
- Ah, não enche pai, e ainda mais que...
Nesse momento, Scorpius gritou.
- Professor! Tem veneno no meu braço! Esse bicho cuspiu em mim, ta ardendo!
- Ah, dramático que nem o pai – ele disse, baixinho para a filha. – Você poderia...
- Pode deixar. – ela disse, levantando do banquinho que tinha sentado.
Ela foi até um armarinho e pegou um potinho com pomada. Depois, andou calmamente até o loiro.
- Cadê? – ela perguntou.
- Aqui.
Ele apontou para um pedaço do braço que estava exposto. Já tinha tirado a luva, e Luce pode ver uma mancha do tamanho de um polegar um pouco acima do pulso.
- Targeo – a menina ordenou com a varinha, e o veneno foi como aspirado do braço do menino. Colocou a varinha atrás da orelha.
Ela abriu o potinho e pegou um pouco da pomada azulada que tinha dentro. Passou de leve no braço do amigo. Conforme ela massageava a área, ele soltava grunhidos de prazer, ao sentir a dor se esvair e ser tomada por uma refrescancia.
- Ta melhor? – ela disse, fechando o potinho, mas ainda massageando o local com a outra mão.
- To, obrigado.
- Parece que você não tem feito muito sucesso na aposta. – ela sussurrou quase inaudivelmente, reparando no bracelete, que tinha no subido no máximo um milímetro de liquido vermelho, provavelmente no dia que ela tinha ficado doente.
- Você poderia parar de mostrar o decote para os meus amigos. O Jason pediu o seu endereço de dormitório quando você tava conversando com o professor.
- Jason? O Carterspell?
- Isso.
- Pensei que ele fosse nascido trouxa.
- E daí?
- E daí que você não fala com nascidos trouxas.
- Mas ele é uma exceção.
- Se você diz. Só falou isso?
- Não, mas a outra parte eu prefiro não comentar.
A imagem veio à cabeça do loiro. Foi bem estranho. O menino, Jason, veio andando devagar até ele e se inclinou para ninguém ouvir.
- Ei, quem é aquela menina que ta conversando com o professor? – ele perguntou.
- É a Luce.
- Você é namorado dela ou algo assim?
- Não, ela é minha melhor amiga.
- Mas ela é mó gostosa. Mas jpa que você não investiu, eu invisto. Você tem o numero do dormitório dela?
- Não, vaza. – ele mentiu.
Scorpius balançou a cabeça ao pensar nisso. A menina riu e voltou para o seu lugar, para ajudar Kayla e Rose a espremer as folhas.
