Bella teve um sono leve, perturbado por pesadelos. O mais nítido, que por ser mais marcante, ficou cravado na sua memória foi o que mais a inquietou.
Estava numa praia deserta, reconheceu o local de imediato, enquanto pequena costumava passar os Verões ali perto, na casa de praia. As ondas ondulavam no mar até embaterem na costa, emitindo seu característico som que se misturava com o barulho das gaivotas.
Sua família esperava-a reunida, isso não a admirou. Desde sua infância que suas férias eram passadas naquela praia pouco lotada, juntamente com seus familiares. Estar ali sem eles, seria estranho. Eles pertenciam àquele local, tanto como a areia branca, as rochas cinzentas e o cheiro característico do mar.
Bella sorriu perante a mãe, o pai, irmãos, tios e tias. Seu sorriso de desvaneceu ao reparar nas caras carrancudas que a fitavam e engoliu em seco.
-Bella! – Uma voz fez-se soar atrás de si, rapidamente se virou para o ver. Era Edward. Parecia perfeição demais para uma só pessoa, seus cabelos pretos ondulavam ao sabor do vento, enquanto ele corria graciosamente à beira-mar, em câmara lenta como nos filmes de Hollywood.
A jovem se preparou para correr na direção de seu amado, porém sentiu seus pulsos serem aprisionados pelas mãos de seu pai.
-Não, querida! – A sua mãe repreendeu sorrindo, como se tivesse acabado de apanhar uma criança a roubar um doce. – Você não pode ir com ele!
-Porquê? – Bella perguntou com o seu rosto se molhando pelas lágrimas que caíam de seus olhos – Eu amo ele, de verdade.
- Como consegue amar aquela coisa? – Sua prima Lauren sublinhou com sua voz nasalada e irritante. – Não é possível. Ele não serve, não tem sequer onde cair morto. Coitado, tenho pena dele. Mas ainda tenho mais pena de você. É patética. Patética.
Edward parara a cerca de dez metros deles, observando a cena, visivelmente confuso. Era óbvio que não era bem-vindo a se perto deles. A sua expressão divertida foi substituída por outra que demonstrava a dor que toda aquela situação lhe provocava. Isso chocou Bella mais do que qualquer outra coisa, Edward nunca demonstrava suas fraquezas, aparentando sempre ser forte e inabalável mesmo que estivesse sofrendo por dentro.
Bella correu até ele, que permanecia estacado no sítio onde parara.
- Eles não significam nada. – Bella sorriu. – Por favor, me diz que não está bravo comigo.
Edward riu, era um riso leve, superficial. Ele estava magoado, Bella conseguia notar.
-Eu nunca me zangaria com você por isso. Mas eles têm razão, eu não pertenço a seu lado. Somos estranhos, de mundos diferentes. Era melhor se seguíssemos por caminhos diferentes. Você ficará bem. – Garantiu. – Tem o Jacob – acrescentou amargamente.
-Por favor, não me deixe!
-Eu tenho de ir, e não se preocupe comigo. Eu sei tomar conta de mim, ficarei bem também. – Edward interrompeu o discurso para interpretar a expressão no rosto de Bella. Do seu rosto brotou um sorriso irónico. – Não, não vou chorar, se é isso que te preocupa. Você sabe que eu nunca choro, é desperdício de tempo e de água. Espero que você não desperdice seu tempo.
-Nós vamos arranjar uma solução. – Bella estava atingia agora o limiar do desespero, suas mãos agarravam firmemente os ombros de Edward. – Não vá! Por favor!
-Não faço drama, é melhor assim . – Pediu ele já exasperado. Olhou seriamente para Bella. – Parece que essa é a hora do adeus. Por favor, tente me esquecer. Não quero que sofra. – E acrescentou, em jeito de despedida. -Adeus.
Ditas essas derradeiras palavras, o corpo de Edward começou a se desvanecer, se transformando em areia, igual à que cobria o solo. Bella tentou em vão agarrá-lo, mas quando suas mãos se fecharam, tudo o que conseguiram captar foram aqueles odiosos grãos de areia. No local onde Edward permanecera momentos antes, estava agora um pequeno monte de areia. Apenas uma sombra do que ele uma vez fora.
Bella soluçou, atormentada com a conclusão à qual acabara de chegar. Uma sombra era tudo o que alguma vez teria. Uma sombra das carícias, dos momentos, das memórias.
Uma sombra de Edward.
Bella acordou quando o sol ainda começava a aparecer no céu. Sabia que tinha de abandonar a cama quente e Edward que nela dormia calmamente. Afagou os cabelos acobreados do homem que amava e depositou um beijo em seus lábios, muito provavelmente o último.
Bella agradeceu mentalmente o fato de Edward estar a meio de um sono profundo. Se ele estivesse acordado nunca conseguiria se obrigar a fazer a coisa certa. Não aguentaria seus olhos tristes e arranjaria uma forma de escapar àquele casamento que nunca desejara.
Vestiu a roupa provocante que trouxera na última noite, cobrindo a mesma com seu casaco preto comprido.
Bella abandonou o apartamento de Edward e apanhou um táxi, viatura que era escassa nas ruas da cidade àquela hora da madrugada. Recostou-se no banco traseiro e forneceu o endereço do destino. Bella não tinha total consciência do que aconteceria depois do casamento. Prometera a si própria que cessaria qualquer interação de caráter amoroso ou sexual com Edward. Edward nunca se sentiria totalmente pleno e feliz, estando Bella casada com outro homem: a melhor solução era se afastar, por mais que isso lhe doesse. Não era saudável alimentar uma relação cujo futuro fracasso era evidente. Para quê dirigir o barco quando o naufrágio é eminente? Quem quereria ser o capitão do Titanic?
Bella não tinha a certeza absoluta de que seria capaz de aguentar a abstinência permanente e definitiva dos beijos de Edward, da paixão, dos toques. Só de imaginar, sentia um vazio no coração.
-Chegamos. – O taxista baixo e anafado informou. O homem observou Bella indiscretamente através do espelho retrovisor.
-Quanto é? – Bella pegou na carteira.
-9.30 dólares. – Respondeu, cofiando o bigode grisalho e farfalhudo.
Bella pegou numa nota de dez, entregando-a de seguida.
-Fique com o troco. – Pediu enquanto abria a porta da viatura.
A mansão de sua família era a única habitação visível. Além dela, apenas árvores. Aquela casa havia sido mandada construir pelo seu trisavô no início do século passado e, desde aí, passara de geração em geração até chegar à posse de seu pai.
Bella avançou pelo jardim que se tornara quase irreconhecível. Olhando em sua volta, era obrigada a admitir que a sua mãe fizera um excelente trabalho na decoração e nos preparativos. O branco estava presente em todo o lado, desde as rosas que cobriam todo o recinto até às cadeiras almofadadas onde os convidados se sentariam para assistir à cerimônia.
Avançou para a porta de entrada, girando a chave para abri-la, mal entrou foi bombardeada pelas inquisições da mãe.
-Bella! Onde esteve esse tempo todo para chegar tão tarde? – Rennée, sua mãe a observava do topo das escadas.
-Dormi em casa da Jessica. Jantei por lá e acabei por adormecer no sofá, vim mal acordei. – Mentiu Bella. Mentir era uma arte que aperfeiçoara ao longo destes últimos anos. Ao fim desse tempo todo, conseguira deixar de sentir qualquer tipo de remorso.
-Tudo bem, só estava preocupada. – Clarificou Rennée. – Pensei que tinha desistido. Ainda temos imenso que fazer. Falta arranjar o cabelo, tratar da maquiagem, vestir…
-Tudo bem, já tratamos disso. Mas agora preciso de um banho urgentemente.
-Não demore.
Bella subiu as escadas, se dirigindo ao último quarto do corredor, o seu.
Despiu toda a roupa e entrou em banheiro privativo. Dentro da box, deixou que a água morna que corria pelo chuveiro a relaxasse. Ali, sozinha, ouvindo apenas o som da água batendo em seu corpo, parecia impossível que a realidade fosse tão difícil como ela a imaginava.
Saiu do banheiro, enrolada na toalha, sentando-se em frente da penteadeira. Começava a ficar nervosa, sentia seu estômago se revirando. Bateram à porta.
-Posso entrar? – A voz de Alice sua irmã, dois anos mais velha fez-se soar.
-Pode.
-Então, como está a noiva mais bonita desse mundo? – Entrou ela permanecendo alguns passos atrás da irmã.
-Bem… - Divagou. – Acho eu.
As feições de Alice mudaram drasticamente, assumindo um tom subitamente mais sério.
-Você não tem de fazer isso. Ainda pode desistir, antes que seja demasiado tarde.
-Não… Eu não quero desapontar os pais… Eles precisam de mim. Eu não posso fazer como… - Bella se deteve.
-Fazer como eu? Ter vontade própria? Eu fiz o que era melhor para mim e tomei a decisão certa. Faria tudo de novo, se fosse preciso. Eu nunca casaria com ninguém por interesse.
-Eu não vou casar com Jacob por interesse, por interesse próprio, pelo menos. – Bella revidou. – É para o bem de todos nós, da família.
-Não foi isso que eu quis dizer e você sabe disso. – Alice esclareceu. – Os pais estão te usando. O pai está falido e seu casamento com um homem podre de rico seria o único modo de recuperar algum do dinheiro e manter o estilo de vida a que está habituado. – Ela continuou com uma ponta de indignação. – E você, como fica nessa situação? E o Edward?
Bella baixou o olhar, Alice acabara de tocar no seu ponto fraco.
-Não vale a pena. Eu já tomei minha decisão. – Uma lágrima traiçoeira deslizou pela sua face, Bella continuou ignorando a gota. – Eu sei que você se preocupa comigo, mas eu tenho de fazer o que é certo.
-Se é isso que quer… Quero que saiba que eu te vou apoiar seja qual for a decisão. – Garantiu Alice.
-Obrigada.
-Adiante, se você se vai casar, ao menos tem de estar perfeita. Me deixa tratar do seu cabelo.
-Ok. – Bella suspirou.
Alice começou, contrariada a pentear a irmã. Ela tinha a certeza de que Bella estava prestes a cometer um grande erro. Não queria ver a irmã mais nova presa a um casamento forçado. Parecia até ridículo, era como se todos à sua volta se tivessem, subitamente esquecido que estavam em pleno século XXI.
Espero que tenham gostado!
Muito obrigada pelos reviews, amei cada um deles.
Beijos ;*
