Diário de Viagem de


Alice Brandon

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CHEGAMOS! Ao hotel, quer dizer.

O lugar é lindinho, enfiado em uma ruazinha estreita onde não dá para passar dois carros ao mesmo tempo. E lotada de gente! Achei que era um calçadão de pedestres e que o taxi tinha entrado em um lugar proibido, mas acontece que era a Via di Buffalo, que é a rua onde fica o nosso hotel.

Mesmo assim, foi meio assustador quando todos aqueles colegiais italianos começaram a bater nas janelas do carro. Fico só imaginando o que o taxista gritou para fazer com que saíssem correndo daquele jeito. Isso é o que acontece quando não existem programas sociais suficientes para os jovens. Essa garotada devia ter algo melhor para fazer em um sábado à tarde do que ficar na Via di Buffalo batendo nas janelas dos carros dos turistas.

Não que eu tenha a pretensão de dizer a outro país como criar seus jovens. Mas, mesmo assim...

Eu só queria chegar ao meu quarto e tirar uma soneca, mas o Jasper teve que começar a discutir com o taxista quando viu o recibo. Disse que não pagaria 80 euros por uma corrida do aeroporto nem morto e que o taxista até podia achar que era capaz de roubar turistas daquele jeito, mas que ele, Jasper, já tinha estado em Roma e sabia que a corrida do aeroporto não era nem um centavo a mais do que 40 euros. Em inglês. E acontece que o taxista entendeu tudo perfeitamente. E, depois de muita discussão, ele finalmente concordou que 40 euros seriam suficientes.

Então, foi bom o Edward ter convidado o Jasper para vir com agente. Acho.

Mas, bom, o meu quarto é adorável, uma coisinha azul e branca com cortinas douradas que ao serem abertas, revelam uma janela com vista para um pátio maravilhoso, com pombas brancas voando de um lado para o outro, e primaveras saindo de floreiras de todas as janelas ao redor, e o céu que se estende por cima de tudo, juro, parece mais azul do que o céu de Manhattan, de algum modo. É EXATAMENTE igual ao quarto da Helena Bonham Carter na pensão em Uma Janela para o Amor. Só que não tem vista. Bom, só o pátio e o céu.

E há enormes garrafas de água bem aqui no meu quarto, para mais tarde, e eu liguei a TV, e tudo era em italiano!

Eu sei, eu sabia que seria, só que é MUITO ESQUISITO!

Achei que eu estaria cansada demais para ter vontade de sair para passear, mas agora que finalmente cheguei, estou ligada demais! Quero sair e ver TUDO. Afinal de contas, só temos umas 24 horas em Roma antes de viajar para Lê Marche.

Pensando melhor, eu não dormi muito bem no avião graças ao Nazista do Descanso De Braço. Acho que não devo mais chamá-lo assim, por ele ter levado aquele pé na bunda tão trágico da tal modelo há tantos anos.

Mas, falando sério, o que ele esperava ao se casar com uma modelo? Homens que gostam de modelos recebem exatamente o que merecem.

Talvez eu vá repousar os olhos por um momento ou dois...

Engraçado. Estou com tanta saudade do Cara. Estou tão acostumada com o corpão cinzento dele enrolado junto com o meu na cama que nem sei se vou conseguir dormir -

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Para: Jasper Withlock
De:
Arthur Pendergast
Assunto:
O livro

Onde você está essa semana? Na Nigéria? Bom, seja lá onde for, eu queria dar uma boa notícia: Extensão de Areia entrou na lista geral dos livros mais vendidos do jornal New York Times. No número 18. Se você tivesse concordado em fazer uma turnê de lançamento, nossa estréia provavelmente teria sido em posição mais alta. Mas eu sei, eu sei. Você teve que ir a esse casamento. Ah, e também está no número 48 da lista do USA Today. O que não é nada mau para um livro de capa dura.

Dê uma olhada neste esboço para a capa da edição britânica e me diga o que acha.

Já pensou um pouco a respeito do tema do nº 2? Estou falando do segundo livro do seu contrato. Não tem pressa, é só que você tem que entregar daqui a uns dois meses e ainda não recebemos a proposta. Pensou nos diamantes sujos? Este é um assunto bem quente hoje em dia. E ouvi dizer que o clima é ótimo em Angola nesta época do ano.

Arthur Pendergast

Editor Sênior

Editora Rawlings

1418 Avenue of the Americas

Nova York, NY 10019

212-555-8764

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Para: Jasper Whitlock
De:
Aaron Spender
Assunto:
Coisas

Que história é essa que eu ouvi a respeito de você jogar a toalha na carreira de correspondente internacional e aceitar um posto nos EUA? O que é? Está ficando preguiçoso depois de velho? Não pode ser por causa do contrato literário multimilionário que eu fiquei sabendo que você assinou há um tempo, porque o Jasper Whitlock que eu conheço nunca ligou para dinheiro. Eu me lembro especificamente de você dizer, naquela noite em que ficamos presos em um abrigo anti-bomba em Bagdá, que nunca queria ter nenhum bem material porque isso podia "pesar" sobre você.

Só posso dizer que você vai poder comprar um montão de luvas térmicas com todas as verdinhas que vai receber, camarada.

Bom, mas se você está falando sério sobre ficar no país por um tempo, por que trabalhar para aquele trapo? Pode acreditar, eu já passei por lá, e não é o tipo de lugar que você vai gostar.

Venha para onde as notícias DE VERDADE são feitas. A imprensa de papel morreu. Hoje tudo gira em torno da televisão. Posso arrumar um contrato bastante bom para você, se estiver interessado. Diga-me.

A Barbara mandou um beijo.

Aaron Spender

Correspondente Sênior

CNN- Nova York

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Para: Jasper Whitlock
De:
Mary Whitlock
Assunto:
Mamãe

Então, o papai me disse que você voltou para os EUA para ficar um tempo - bom, tirando uma viagenzinha para a Itália para ser padrinho de casamento de alguém chamado Edward (não é o Edward que era nosso vizinho, é? Ele não virou médico ou alguma coisa tão chata quanto isso? Típico).

Também ouvi dizer que você recebeu um belo milhão por algum livro que escreveu, e que encomendaram mais outro. O que você vai fazer com toda essa grana? Tentar fazer a sua ex largar o Sr. Investidor? Por que você não manda um pouco para mim?

Essa coisa de tecelagem não está dando muito certo, aliás, e eu estava pensando em ir para o norte com um cara que faz Tie-Dye na Kombi dele.

Bom, mantenha contato. E bem-vindo de volta aos bons e velhos Estados Unidos da America. Continuam a mesma porcaria que eram quando você foi embora.

Mare.

P.S. Você está sabendo da mamãe? Ela conseguiu mesmo uma EXPOSIÇÃO. Uma exposição de ARTE. Com aquele negócio idiota dos bonequinhos de pregador com fiapo de tecido. Não sei como ELA consegue uma exposição e eu não. Meus trabalhos de tecelagem são muito mais artísticos do que os bonequinhos de fiapo dela.

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Para: Jasper Whitlock
De:
Graziella Fratiani
Assunto:
Você

Que história é essa que eu soube de você vir a Roma e não me ligar? Eu não teria a mínina idéia se por acaso Charlotte Vargas não tivesse mencionado o fato durante a nossa entrevista. Você é mesmo um garoto malvado, muito malvado. Onde vai ficar hospedado? Me liga. Você tem o número. Eu passo no seu hotel para dar as verdadeiras boas vindas italianas.

Ciao, amore

Bjs,

Grazi

Palmtop de Jasper Whitlock

O departamento de arte mandou o design da capa de Areia para o Reino Unido hoje. Tem um ar muito romântico, e não tenho certeza se é inteiramente apropriado, levando em conta o tema do livro. Bom, se servir para fazer leitores desavisados comprarem achando que é uma obra de ficção sobre alguma maldição da múmia, e não um tratado sobre os campos de exploração de petróleo que estão se exaurindo na Arábia Saudita, tanto melhor.

Não acredito que o Aaron Spender ainda está no reino dos vivos. Eu achava que a Barbara Bellerieve já tinha arrancado a cabeça dele à dentadas e engolido na noite de núpcias. Ainda me gabo de ter escapado das garras dela. Se não fosse por aquela Daisy Cutter...

E a Mary. Acho que aqueles mil que eu mandei para ela no mês passado não duraram muito. Que diabo ela fez com tudo aquilo? Ela nunca consegue mostrar onde gastou o dinheiro. Ela não pode ter fumado TUDO, pode? Eu bem que gostaria que a mamãe e o papai a tivessem controlado mais no início da adolescência. Provavelmente, assim, não estaria até hoje vivendo na traseira da Kombi de algum cara, aos 25 anos.

Mas acho que eles não foram exatamente os melhores modelos de conduta, levando em conta a obsessão do papai pelas corridas de cavalo e a convicção da mamãe de que ela seria a próxima Grandma Moses - aquela senhora que começou a pintar aos 70 anos e acabou famosa. Aliás, é uma surpresa a Mary não ser ainda mais louca do que é...

Bem parecida com certas pessoas que eu poderia mencionar. Foi divertido, no caminho do aeroporto, ver a amiga da Bella soltando gritinhos cada vez que via um monumento - e cada vez que passávamos por um outdoor. Já faz muito tempo desde a última vez que vi alguém ficar tão animada ao ver um cartaz de anti-séptico bucal.

Achei que ela ia ter um infarto quando passamos na frente do Coliseu. Não tenho bem certeza do que a deixou mais impressionada...o fato de ele estar lá há mais de dois mil anos ou o fato de a Britney Spears ter passado por lá recentemente, gravando um comercial de televisão (pelo menos, foi o que a amiga da Bella anunciou para todos nós).

É interessantíssima a maneira como os americanos demonstram entusiasmo por tudo o que é antigo. Acho que eu me esqueço de como é isso, já que fiquei fora tanto tempo, de que ainda existe algum lugar nesta terra onde as estruturas não têm mais do que meio milênio de idade. Deve ser impressionante ver algo que existia mil e quinhentos anos antes do Mayflowe - o navio que transportou os primeiros colonizadores dos EUA...

Claro que, se não tivéssemos assassinado todos os índios e destruído suas terras, tudo seria diferente.

Meu Deus. Acabou de me ocorrer. E se não fosse por isso que ela ficou impressionada? E se foi por causa da coisa da Britney Spears?

Mas não. Não pode ser. Nem mesmo uma artista poderia ser assim tão superficial.

Preciso me lembrar de trocar dinheiro mais tarde, se conseguir encontrar algum lugar com taxa de câmbio decente. Acabei com todos os meus euros naquela corrida de taxi, e –

Era o concierge. A Grazi chegou. Ela não demorou muito. Faz menos de meia hora que eu liguei para ela. Mesmo assim, achei que ela passaria aqui à noite, não AGORA.

Mas acho que não seria nada cavalheiresco da minha parte se eu não me encontrasse com ela...

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Para: Julio Chasez
De:
Alice Brandon
Assunto:
O Cara

Oi, Julio! Sou eu de novo! Só queria confirmar, porque não recebi notícias suas. Como vai o Cara? Ele gostou daquele patê de salmão que eu comprei para ele? Achei que ele iria gostar de um mimo, já que estou viajando. Espero que você tenha encontrada a Garra. Deixei em cima do balcão, junto com as luvas de cozinha. Mas você só vai precisar da Garra se ele tentar atacar. E ele não vai querer atacar você, quer dizer, ele CONHECE você. Vocês são amigos. Certo?

Bom, me diga se ele está bem assim que puder. Não tem problema nenhum. É só mandar um email, se você quiser. Ou ligue. Do meu telefone no apartamento. Não se preocupe com o fuso horário. Pode ligar a qualquer hora. Eu não me importo de ser acordada, se for por causa do Cara.

A

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Diário de Viagem de


Alice Brandon

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Ai, meu Deus, este lugar é FABULOSO! Quando acordei da minha soneca, eram duas horas, e eu liguei para a Bella para ver se ela ainda estava com fome, e ela estava, mas o Edward ainda estava dormindo, e o Tarado por Modelos/ Nazista do Descanso de Braço não atendeu ao telefone (para o meu grande alivio) quando a Bella ligou...sabe como é, para ser educada e não deixá-lo de fora.

Então a Bella e eu nos encontramos na recepção e nós duas saímos caminhando direto para a minúscula Via di Buffalo, que eu suponho ser batizada em homenagem à mozzarela, que é feita de leite de búfala, pelo menos na Itália, e saímos passeando e, em meia hora, a menos de cinco quarteirões do nosso hotel, já tínhamos visto a Fontana di Trevi, o Panteão, a Piazza Navona e um monte de outros cartões-postais de que eu nem me lembro, já que todos incluíam obeliscos com escrita em relevo.

Mas isso não é tudo! Vimos retratistas na rua mesmo - dos bons, não daqueles cafonas como os de Nova York- e pessoas comendo gelati, e um grupo de senhoras seguindo guias turísticos com bandeiras, e eu joguei dinheiro na Fontana di Trevi - não sei quanto, porque era italiano - e parece que isso garante que algum dia você vai voltar.

Espero que seja verdade, porque aquela fonte é um arraso, quase tão legal quanto a piscina do Ozzy em The Osbournes.

E um anão corcunda sem camisa e com uma tatuagem no ombro que dizia Antonio pediu esmola para a gente, e eu dei um pouco de dinheiro para ele, e então comprei uma garrafa de Diet Coke que custou cinco euros, o que é mais do que um pacote de seis garrafas nos EUA, e eu percebi que dei ao anão corcunda dinheiro bastante para comprar CINCO Diet Cokes italianas.

Eu realmente preciso me ligar nesta coisa de dinheiro. Mas tenho certeza de que o Antonio (se o nome dele for esse) precisa mais do dinheiro do que eu preciso de Diet Coke.

E daí a Bella quis tirar uma foto com um gostoso vestido de gladiador na frente do Panteão, então comecei a tirar, mas daí uma senhora de idade toda desleixada, de toga, chegou e pediu MAIS cinco euros só pra me deixar tirar a foto do namorado gostoso dela vestido de gladiador! O cara só ficou lá parado com cara de bobo, enquanto isso acontecia, mas a Bella falou: "Eu quero, vai ser engraçado", então arranquei mais cinco euros do bolso e tirei a foto.

Depois a Bella disse que, logo antes de um bater a foto, o gladiador entregou a espada de plástico dele, e quando ela perguntou: "O que você quer que eu faça com isto?", ele respondeu, com uma voz de quem está sofrendo há muito tempo: "Me mata, por favor".

O que, por si só, totalmente valeu os cinco euros.

E, a todo lugar que íamos, camelôs italianos vinham para cima de nós, a cada cinco segundos e falavam assim: "Bolsa, Califórnia?". Acho que é porque nós parecemos ser da Califórnia, apesar de obviamente não sermos, só que estamos um pouco bronzeadas porque a Bella e o Edward têm uma casa de praia alugada em East Hampton.

Mas como souberam que nós éramos americanas eu não faço a menor idéia, apesar de estarmos conversando muito, suponho. E parece que eu sou a única mulher em toda a Roma que usa tamancos Steve Madden.

Mas daí o Edward ligou para o celular da Bella e disse que estava com fome e que o Jasper não estava atendendo o telefone no quarto dele, então combinamos de encontrar o Edward para tomar um lanche.

Só que, quando estávamos voltando para o hotel, passamos por uma igreja onde estava acontecendo um casamento - ou estava para começar, sei lá. Vi a multidão e achei logo que era mais um monumento que deveríamos ver, mas daí descobrimos que era só mais um monte de turistas como nós parados na frente da igreja com algumas daminhas e madrinhas, e percebemos que era um casamento!

Então a Bella disse que tinha que ficar para ver a noiva para ter sorte, já que ela também ia se casar.

Então entramos na igreja e ficamos lá esperando e não demorou muito até que uma Mercedes sedã bege bem chique estacionou, e a noiva, que estava chiquérrima com um tubinho cor marfim e um véu bem pequenininho, saiu, toda radiante e falando em italiano com as daminhas que começaram a pular para cima e para baixo.

Tirei algumas fotos muito boas da coisa toda e quis perguntar a ela se queria que eu mandasse cópias (a noiva, quer dizer), mas eu não sabia as palavras certas em italiano e, além do mais, o pai dela já tinha saído da igreja e lhe dado o braço e foi aí que a Bella e eu percebemos que estávamos bem no meio do caminho, com o noivo na frente com o padre, tentando olhar atrás de nós para enxergar a linda noiva dele com o tubinho de cor marfim.

Então saímos da frente e eu olhei para a Bella e vi lágrimas nos olhos dela!

Pensei que ela tinha sido picada por uma abelha ou algo assim, então eu disse: "Vamos arrumar um pouco de gelo", mas acontece que não era nada disso. A Bella olhou para mim toda chorosa e disse: "Eu quero que o meu pai me leve até o altar! Só que ele não sabe que eu vou me casar. E eu nem vou ter altar. Porque um juiz vai nos casar em um cartório qualquer".

Daí ela caiu no choro ali no meio daquela rua de que eu nem lembro o nome.

Claro que eu não tive escolha além de levá-la o mais rápido possível para o café onde combinamos de nos encontrar com o Edward para fazer um lanche. Só que eu sabia que era minha função como dama de honra/testemunha deixá-la bonita antes que o futuro marido dela pudesse ver que iria se casar com uma louca. Não que ele já não soubesse, porque a Bella chora no final de todos os episódios de Seveth Heaven a que assiste, mesmo quando são reprises, e por isso não atende ao telefone às segundas à noite.

Mesmo assim.

Arrumamos logo uma mesa no café na frente do Panteão - era até uma mesa na calçada. Em Nova York, a gente praticamente tem que mastigar o próprio pé para conseguir uma mesa na calçada em qualquer lugar. Talvez o garçom tenha percebido como nós estávamos necessitadas daquilo, levando em conta as lágrimas da Bella. Mas bom, ele arrumou um lugar para nós na sombra embaixo do toldo esvoaçante do restaurante dele, e eu disse: "Un verre de vin blanc pour moi et pour mon amie", esquecendo que eu não estava na aula de francês do Ensino Médio, e sim na Itália.

Mas o garçom levou na esportiva. "Frizzante?", perguntou para mim.

Eu não fazia a menor idéia do que ele estava falando, mas me lembrei de que estava na Itália, e não na França, e consegui responder Si em vez de Oui.

Minha primeira interação em uma língua estrangeira! Eu tinha falado em inglês com o cara da Diet Coke e com a cafetina do Sr. Gladiador. E, tudo bem, a intenção não tinha sido exatamente na língua que se fala neste país. Mas ainda assim tinha sido uma língua estrangeira.

Então chegou a cestinha de pão, com um potinho de manteiga branca cremosa, e nós mandamos ver, porque mesmo quando a Bella está chorando, ela consegue continuar comendo, e esta é uma das muitas razões por que eu a adoro.

E eu disse que ela tem muita sorte por o pai dele NÃO estar aqui, já que, como a mãe dela, ele não é exatamente o maior fã do Edward. O que é ridículo porque o Edward é totalmente o modelo de marido perfeito, já que ele é um amor completo e é preocupado e engraçado e não é exibido, totalmente o oposto do amigo dele Jasper, o que é bem bonitinho. Ah, e é médico. E tem uma coluna de saúde semanal em um jornal de Nova York que é lido por milhões de pessoas. O que mais os Swan podiam querer?

Parece que queriam um católico.

Às vezes eu fico tão brava com os pais da Bella por estarem fazendo isso com ela que tenho vontade de cuspir.

Mas bom, os pais do Edward também não são nem um pouco melhores, do jeito deles.

"A-até parece que isso faz diferença para nós", a Bella soluçou, quando o garçom voltou com as duas taças de vinho branco em uma bandeja. "Quer dizer, eu não vou à igreja desde os 18 anos! A igreja é importante para eles, não para mim. E o Edward não coloca os pés na sinagoga desde o bar mitzvah dele. Não temos intenção de criar os nossos filhos nem em uma religião, nem na outra. Vamos educar os nossos filhos sem religião nenhuma. E, quando tiverem idade, vão poder decidir a qual religião querem pertencer - se é que vão querer pertencer a alguma."

Assenti com a cabeça porque já tinha ouvido isso muitas vezes antes. O vinho nas taças que o garçom colocava à nossa frente parecia refletir o sol e dançar perante os meus olhos como o ouro-de-tolo que a Laura encontrou no fundo do riacho naquele episódio de Os Pioneiros.

"Por que eles simplesmente não podem respeitar o fato de este ser o homem que eu amo?", a Bella perguntou, pegando a taça dela e dando um gole. "E, sim, ele é judeu. Vejam se conseguem superar."

Eu também experimentei o meu vinho...

E quase cuspi tudo! Porque não era vinho coisas nenhuma! Era champanhe!

Só que muito melhor do que champanhe! Porque as bolhas do champanhe geralmente me dão dor de cabeça na hora.

Mas essas bolinhas eram minúsculas e leves - parecia que nem estavam lá.

"O que é isto?", perguntei maravilhada, erguendo meu copo contra a luz e olhando para todas aquelas bolinhas adoráveis.

"Frizzante", a Bella respondeu. "Está lembrada? Ele perguntou, e você respondeu Si. É tipo... vinho com gás. Você não gostou?"

"Eu amei."

Amei tanto que tomei mais uma taça. Quando o Edward se juntou a nós, eu já estava de MUITO bom humor.

Por sorte, a Bella também estava. Tinha tanta gente para olhar no nosso canto da piazza que ela logo se esqueceu de tudo a respeito do casamento que tínhamos visto e a vontade que tinha de o pai dela acompanhá-la até o altar. Logo passamos a distinguir os turistas americanos com tanta rapidez quanto os italianos obviamente distinguiam. Não tenho a intenção de dizer nada de ruim contra os meu conterrâneos, mas, alô, aquele pessoal do Queer Eye for the Straight Guy está mesmo trabalhando no país certo.

A Bella ficou logo animada, como sempre, ao ver o Edward. Ele pediu um cardápio e recebeu - em inglês! - e pediu uma entrada de mariscos e antepasto, e ficamos lá comendo pedaços de queijo parmesão e azeitonas picantes frescas e fatias amanteigadas de salame e mariscos com alho e nos divertimos vendo outros desavisados serem atraídos pelo gladiador bonitão aborrecido e seu cafetina.

Então as sombras começaram a ficar mais compridas e o Edward deu uma olhada no Blackberry dele e disse que devíamos voltar para o hotel para nos trocar para o jantar. Então pedimos a contar - que o Edward insistiu em pagar - e começamos a retornar, o Edward com o braço em volta da cintura de Bella, e a cabeça dela apoiada no ombro dele, toda a infelicidade de poucas horas antes completamente esquecida.

E eu desejei TANTO que aquele pavoroso Tarado por Modelos do Jasper estivesse conosco, para ver como a Bella e o Edward ficam fofos juntos, e como serão ótimos pais, e que crime seria se não se casassem. Quer dizer, como é que alguém pode olhar para a Bella e o Edward e pensar, até mesmo por um minuto, que o casamento é uma instituição antiquada que deveria ser abolida? Eles são a prova viva de que funciona. Só porque a mulher do Tarado por Modelos por acaso era uma desqualificada do golpe do baú, isso não significa que...

Aaaah! Recebi um e-mail! No meu Blackberry! POR FAVOR, tomara que seja o Julio!

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Para: Alice Brandon
De
: James Weatherly
Assunto:
Ciao!

Oi, amor! Como está tudo? E aí, já chegou? O que está achando? Maior radical, né? É, a Itália me deixou chapado quando eu estive aí no ano passado para o Aberto da Europa. Até a porra do café é melhor aí.

Mas não entendi o papo "tudo fecha entre o meio-dia e as quatro e o almoço e ninguém serve nada além de massa depois das dez". É uma droga quando a gente acorda à uma e quer uma porcaria de um waffle.

Mas não se esqueça de experimentar um daqueles bidês. Vai mudar a sua vida!

Fique longe daqueles caras tipo Amante Italiano. Eu sei bem como esses caras agem. Mas a única coisa que eles querem é um green card. Não que você não seja, sabe como é, totalmente a maior gostosa.

Ah, preciso ir. Sou o próximo no half-pape. Te amo.

Jam

P.S. Sabe o quê? Eu meio que estou com saudade do Cara. Dê um beijão nele pra mim, pode ser? Ah, não dá, porque você está na Itália. Desculpa aí.

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Diário de Viagem de


Alice Brandon

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Não é um amor? Eu também estou com saudades do Cara. Se ele estivesse aqui, agora, estaria enrolado nos meus pés.

E os meus dedos dos pés estariam ficando sem circulação, porque ele é pesado demais. Mas não faz mal.

Mas não sei por que o Julio não escreveu. E se ele se esqueceu? De dar comida para o Cara, quer dizer?

Mas como é que ele poderia esquecer? Eu colei um aviso enorme na porta do apartamento do pai dele, para lembrar...

Onde eu estava? Ah, lembrei. Caminhando pela piazza atrás do Edward e da Bella.

Bom... enquanto eu estava olhando ele, e pensando como são fofos, e como era uma pena o Tarado por Modelos do Jasper não está lá conosco para ver os dois juntos e tudo o mais, eu senti uma pontada.

UMA PONTADA.

Confesso. Quer dizer, eu estou totalmente feliz pela Bella e dou o meu apoio total a este plano de fugir para se casar. Mesmo, levando em conta a situação, não veja que escolha ela e o Edward podiam ter ALÉM de se casar em segredo.

Mas daí, ao ver os dois juntos daquele jeito, a cabeça dela apoiada no ombro dele, o braço dele em volta da cintura dela, e senti uma pontada.

Porque, cadê o MEU Edward? Falando sério. CADÊ ele?

Porque eu sei que ele não está no Canadá neste exato momento, abalando no half-pape. Quer dizer, eu gosto do James e tudo, a gente se diverte um monte. Mas não dá exatamente para imaginá-lo passeando pela piazza com o braço em volta da minha cintura. Provavelmente ele estaria atravessando de skate. Mas tomar uma bela taça de bianco frizzante ao pôr-do-sol? Acho que não.

Tenho certeza que ele está por aí. O meu Edward, quer dizer. Ele tem que estar, certo?

Mas e se eu nunca encontrá-lo? Ou e se eu já encontrei, e estraguei tudo de alguma maneira? Não seria assim tão improvável, já que eu costumo estragar tudo mesmo. Quer dizer, e se o meu Edward fosse o EMMETT, aquele que me traiu com a Tanya Denali (aquela vagabunda)?

Ai, meu Deus, não. O destino jamais seria assim tão cruel.

E se o meu Edward foi o Tyler Crowley, que me levou ao baile de formatura no 2º ano do Ensino Médio, e depois a gente ficou no Chevette dele, e depois, no verão, eu descobri que ele ficou naquele mesmo Chevette com o Mike Newton depois da queima de fogos de artifício do Quatro de Julho?

E isso significa que eu devo ter feito o Tyler ficar gay, porque ele com todo a certeza não era gay ANTES de a gente ficar.

Ai meu Deus. E se o Tyler Crowley era o homem dos meus sonos e eu FIZ COM ELE VIRASSE GAY?

Espera um pouquinho, vou até ali me matar.