Capítulo 2
- Zaphilyr !
O garoto, já com quinze anos, riu ao sentir uma mão bagunçar-lhe o cabelo.
- Reeft. - Cumprimentou sorrindo. - Bom vê-lo são e salvo.
O mestre jedi olhou-o sorrindo, lembrando-se da primeira vez que o vira, há quatro anos: Zaphilyr aparentava estar com tanto medo que chegava a partir o coração. Seu futuro foi discutido pelos jedis restantes para no final Obi-Wan simplesmente ignorar a decisão e tomar o garoto como seu padawan, chocando a todos. Mas a maior surpresa foi ver o pequeno e assustado Zaphilyr escondido atrá de seu mais novo mestre, confiando completamente nele. Tinha uma história por trás disso. Mas não cabia a ele perguntar. Mesmo assim, muitos foram contra afirmando que o garoto estava traumatizado e necessitaria de uma pessoa mais qualificada para treiná-lo. O que eles não tinham entendido era que a única pessoa a quem Obi-Wan fazia mal era a si mesmo. Infelizmente. Obi-Wan ajeitara toda sua vida para melhorar a do garoto. Já não pegava mais missões tão perigosas e agora seu trabalho era basicamente de coletar e repassar informações;
- Ben ficou preocupado. - A voz do padawan o trouxe de volta para a realidade, logo para fazê-lo divagar no minuto seguinte. Daonde surgira esse "Ben"? Mais de uma maneira totalmente incompreensível para os meros espectadores, funcionava entre os dois. E era isso que importava.
- Ele não vai se livrar de mim assim tão fácil. - Reeft riu. - Falando nele, onde se meteu?
- Você ainda pergunta? - Zaphilyr riu e saiu andando.
Reeft teve que respirar fundo antes de se dirigir ao quarto de seu amigo.
XXX
- Eu não preciso de um sermão, passei a manhã inteira fugindo do pequeno elfo. - Obi-Wan murmurou assim que sentiu a presença do amigo, continuando a beber sabe-se-lá-o-que ele estava tomando.
- Não vim aqui para isso.
- Não acredito em você.
- Eu tenho conversado com Zaphilyr. - Sentou-se do lado do companheiro jedi.
- E?
- Ele quer saber quem é Anakin.
- Eu também quero saber quem ele é.
- Obi-Wan...
- Não... não quero falar sobre isso.
- Não falar não vai fazer o assunto desaparecer... Acha que eu não sei o quanto você pensa nisso?
- Isso ajuda a não pensar. - O loiro levantou um pouco a garrafa de bebida.
- Isso está tão errado... - Reeft balançou a cabeça. Memórias de dias felizes vinham assombrá-lo. Imagens de Bant, Garren e até de Obi-Wan apareciam-lhe de vez em quando, todos sorrindo, brincando, duelando, contando piadas e descrevendo as missões entusiasticamente. Ele sentia falta de tudo isso, da sensação de felicidade, de plenitude... e agora tudo desaparecera. Só ele restara. A busca para justiça alimentava o seu lado jedi, mas o seu humano estava morrendo a cada dia que passava e honestamente, ele pouco se importava, estaria indo para casa. Para todos os seus amigos e irmãos. - Isso tudo está tão errado. - Ele repetiu, as lágrimas agora ameaçavam apostar corrida pelas suas bochechas e seu pescoço. - Eu sinto sua falta, Obi.
Por mais que o outro quisesse responder uma gracinha do estilo: "Mas eu estou aqui do seu lado.", ele não podia. Simplesmente porque ele não era mais Obi-Wan Kenobi. O padawan radiante, impulsivo, estudioso que ele um dia fora parecia tão longe da realidade, tão inimaginável que ele se perguntara se esse garoto mesmo chegou a existir ou se não era fruto de sua própria imaginação. Ele agora era Ben. Reeft não gostava de Ben, o que era completamente compreensível já que nem ele mesmo gostava Ben. Mas Reeft simplesmente recusava a se afastar dele, a aceitar isso. Uma parte dele seria eternamente grata ao amigo por isso. Era bom saber que ele ainda era o "Obi" de alguém. Fechou os olhos e tomou um longo gole.
- Por quanto tempo mais você pretende ignorar a minha visita a Khost?
Reeft suspírou. Sabia que a conversa ia para aí.
- Pelo tempo necessário.
- Eu falei com Yoda ontem.
- E?
- Tenho permissão.
- Como ele pôde fazer isso?
- Ele sabe que eu preciso fazer isso, você também sabe.
- E o que você vai dizer? "Oi, eu sou o Obi-Wan do futuro e vim avisá-los para matar o Palpatine antes que ele mate todos vocês" ?
- Preciso tentar.
- Isso se aquela máquina ridícula funcionar! Você não pode arriscar a sua vida por uma chance.
- Litha afirmou...
- Litha é um maluco que nunca testou aquela máquina porque sabe que morreria se o fizesse.
- Ele nunca testou porque alguém precisa ficar operando-a.
- Nâo vou deixar você fazer isso.
- Reeft.
- Nâo. E ponto final.
- Não é como se existisse um Conselho para impedir que eu vá.
- Eu vou impedir.
- Essa é a nossa chance de reverter a situação, de mudar de futuro.
- Não, essa é apenas uma desculpa para se matar.
- Também.
Agora Reeft levantou as sobrancelhas surpreso, nunca pensou que o amigo fosse um dia admitir tal coisa.
- Por favor, Reeft. Eu odiaria ir sem me despedir de você.
- Se tudo isso realmente funcionar... Qui Gon vai te matar, você sabe, não?
- Não vou deixar que ele se aproxime.
- Não, estou falando de você adolescente. Ele vai te colocar de castigo pro resto da vida.
- Como se certas pessoas me deixassem ficar no castigo por mais de meia hora. - Ben riu lembrando-se que todos os amigos iam fazer-lhe companhia e ele acabava por não meditar como fora mandado.
- Bons tempos.
- É.
- Quer saber? Me passa um pouco disso daí. - Reeft pediu a garrafa e bebeu tudo com vários longos goles. Umas duas horas depois ele já se encontrava desmaiado na cama de Ben. O jedi loiro balançou a cabeça.
- Você está certo. Isso tudo está tão errado... e é por isso que eu preciso ir. - Ben virou-se para sair mas parou antes, pedindo que R2D2 gravasse uma mensagem para mostrar ao amigo quando acordasse. Agora ele tinha que falar com Zaphilyr. Por que será que ele tinha um mau pressentimento sobre isso?
XXX
- Lily!
- Quantas vezes já falei para não me chamar assim, Ben? - Zaphilyr apareceu imediatamente, irritado com o apelido que ganhara. - Isso é nome de garota.
- Exatamente por isso que combina com você.
O garoto resmungou algo baixinho, até hoje não sabia de onde seu mestre saíra com esse apelido ridículo. Ben falara que só o chamaria de "o Forte" quando ele se tornasse realmente forte...até aí Zaphilyr entendia mas...Lily? Lily era demais.
Tudo que ele recebeu de resposta foi a mão de Ben despentear-lhe os cabelos negros. E pensar que todos duvidavam da capacidade de Ben treinar um padawan. No início todos o avisaram a procurar um novo mestre e até outros aprendizes, com quem ele conversou em Dagobah o contaram que sentiam medo de Ben. Mas de algum jeito Zaphilyr sempre se sentiu ligado a seu mestre de uma forma inexplicável. Ele o entendia. Todos tinham seus problemas, frustrações, porque eles ficavam implicando com os de Ben? Ele achava que na verdade todos tinham medo de que o garoto puxasse a personalidade confrontadora de Ben, mas isso era impossível, até porque Ben o fazia recitar pelo menos umas três vezes por dia o código jedi e fazia de tudo para que o aprendiz entendesse e o respeitasse.
- Vamos duelar. - Ben abiu um largo sorriso e empunhou seu sabre de luz.
Zaphilyr o copiou, ativando seu sabre verde.
- Pronto?
- Estou sempre pronto, Ben. - Dizendo isso, ele atacou apenas para ter seu sabre bloqueado pelo jedi. Como sempre.
O rapaz tentou reunir toda a Força em volta de sua mão e jogou-a em cima de seu mestre, que deu uma cambalhota no ar, impedindo de ser jogado na parede. O contra-ataque de Ben não demorou muito e o jedi partiu para cima de seu aprendiz, que se defendia do melhor jeito possível. Um ataque na direita, depois esquerda, por cima, rodando. Zaphilyr sabia que Ben tentava atacá-lo de todas as formas para fazê-lo melhorar sua defesa. De novo reunindo a Força, o padawan conseguiu criar uma distância razoável entre os dois. Ele pulou alto procurando pegar o outro de surpresa. Ben deu um passo para trás, deixando seu aprendiz aterrisar em frente a ele e chutou-o com toda a força, jogando-o na parede, não sem antes lhe tomar o sabre.
Zaphilyr apertou os olhos e gemeu de dor com o impacto. Ao abrí-los viu logo Ben ajoelhado perto dele mexendo em seu braço.
- Dói?
- Não... não é ruim. - Ele mentiu.
O jedi riu.
- Mentindo desse jeito... você me lembra uma pessoa...
- Eu aprendi com o melhor.
- Huh, eu não posso curar isso.
- Vou falar com Reeft.
- Não acho uma boa idéia. - Ben lembrou-se do amigo completamente apagado.
- Vou ficar bem.
- É. - O loiro apoiou-se na parede ao lado de seu aprendiz e fechou os olhos.
Ben, você está bem? Zaphilyr perguntou através do laço mestre-padawan que eles possuíam.
- Anakin foi meu padawan. - O jovem surpreendeu-se ao ouvir essas palavras. - Hoje você deve conhecê-lo por Darth Vader.
- O... O QUÊ?
Ben não respondeu, deixando que Zaphilyr digerisse a informação. O rapaz agora entendia. Ignorância era realmente uma benção.
- Eu não vou te decepcionar, Ben. - Falou por fim.
O jedi quase caiu na gargalhada. Afirmar isso de nada servia. Afinal, ninguém planeja ir para o lado negro e trair as pessoas que o amam... Mas ele ficou feliz com a afirmação ingênua de seu padawan e agarrou-se a ela, querendo desesperadamente acreditar.
- Obrigado, Lily.
- Ben...eu ouvi você conversando com Reeft.
- O quê?
- Eu estava passando por perto e ouvi... o... plano.
Silêncio o respondeu.
- Você... hum... vai hoje?
- Não vai tentar me deter?
- Eu não quero que você morra. - Zaphilyr abraçou as pernas e enterrou a cabeça nos joelhos, balançando-se para frente e para trás, como se tentasse ninar a si próprio.
- Essa é uma chance única.
- Eu sei.
- Você tem que compreender a importância de minha missão.
- Eu sei.
- É a vontade da Força.
- Eu sei.
- Mas...? - Ben balançou a cabeça uma outra vez.
- Mas eu continuo não querendo que você morra.
Agora Ben teve que sorrir.
- Prometa-me uma coisa, Ben. - Zaphilyr olhou-o diretamente.
- O quê?
- Que... se tudo der certo... que você voltará para me buscar.
O loiro passou o braço em volta de seu padawan relutantemente. Fazia séculos que não demonstrava afeição tão abertamente.
- Sabe de uma coisa? É preciso coragem para ir enfrentar o perigo. Mas é preciso ter coragem e força para deixar as pessoas que ama enfrentá-lo. Eu voltarei por você, Zaphilyr. Sempre.
A menção de seu nome, quebrou o rapaz, que aceitou imediatamente o braço de seu mestre e o abraçou, e enfiou a cabeça em seu peito, molhando-lhe a camisa com as lágrimas que teimavam em cair.
Nenhum dos dois ousou se mover por bastante tempo.
XXX
Era o momento. Aqui. Agora. Não dava para adiar. Quem falou em adiar? Ben resmungou e entrou na chamada máquina do tempo que Litha criara. Pegou-se pensando melancolicamente em Reeft surtando ao descobrir o que ele estava fazendo agora e em Zaphilyr chorando. Ele parecia tão frágil. Não ia pensar nisso. "Claro, esse é o seu jeito de lidar com as coisas, né? Não pense nelas que elas simples desapareceram como se nunca tivessem existido", sua consiciência gritou e Ben ficou surpreso por ela ainda existir e por ela soar quase como Reeft. Será que isso era certo? Num tempo de desespero os jedis precisariam de toda ajuda possível. Não era sábio se arriscar dessa maneira. O que seria de Zaphilyr? E como Reeft se sentiria? E o que Ben faria se desse certo? Ele não poderia simplesmente tacar a bomba no colo do conselho. Eles surtariam. Sem contar que ele não estava muito animado parar ver Qui Gon. Bom, melhor ver seu antigo mestre do que... Anakin. Talvez ele estivesse fugindo, tomando o caminho mais fácil, o mais egoísta.
- Está pronto, mestre Kenobi? - Litha perguntou antes de fechar a porta.
A resposta era óbvia. Então por que ele não conseguia verbalizá-la?
- Nós podemos deixar para outro dia. - O cientista ofereceu um sorriso amarelo.
- Não. Eu... estou pronto.
- Tem certeza?
Fecha essa maldita porta logo!
- Sim. - Respirou fundo.
Já chegara muito perto da morte inúmeras vezes mas sempre conseguira sobreviver, enquanto que pessoas melhores, mais fortes, mais dignas iam acabavam vítimas desse destino. "Não há morte, há a Força." Será que ele ainda acreditava nisso? Não tinha nada a temer então. Não aguentava mais perder ninguém. E Zaphilyr aguentaria perdê-lo? E quanto a Reeft? Yoda? Tudo ao redor dele começou a rodar em uma velocidade maior do que a da luz e ele começou a se sentir mal, quase vomitando. Fechou os olhos mas o desconforto não passou. Começou a perder a forças. Era isso que ele tanto desejara, tanto queria? Não. Ele era um jedi. Terrivelmente quebrado e fodido. Mas era um. E ele acreditava na Força: Se ela dizia que não era hora... é porque não era hora. Apertou ainda mais os olhos e cerrou os dentes e os punhos. Ele não ia desistir. Por Zaphilyr e Reeft, por Yoda e pelos outros jedis, pela pessoa que ele um dia amara como um irmão, pelos filhos dele e pela galáxia. Ele não ia morrer, ele não podia.
E tudo ficou preto.
XXX
