Capítulo 5

Katara foi voltando à realidade aos poucos com um raio de sol que teimava em iluminar seu rosto. Espera! Sol? Dentro da cabine? Tentou abrir os olhos, mas a luminosidade não a deixava. Tentou virar-se pro outro lado, mas alguma coisa a estava prendendo. Alguma parecida com... Um braço?

Com uma das mãos em cima dos olhos para protegê-los, ela esperou sua visão focar e finalmente conseguiu discernir um rosto parado a poucos metros do seu. Zuko. O inimigo príncipe banido da nação do fogo, Zuko, estava deitado abraçando-a. Abraçando sua inimiga dobradora da tribo da água e companheira do Avatar, Katara. Talvez ela ainda estivesse sonhando.

Tentou se lembrar do que acontecera no dia anterior, mas não encontrava nada, nada além da escuridão - talvez ela tivesse dormido o dia inteiro? - e do frio. Ela tinha ficado doente? Fechou os olhos e respirou fundo, tentando-se lembrar e finalmente poucos flashes lhe atingiram.

Iroh estava lhe forçando a beber alguma coisa. Ele estava falando... alguma coisa que ela não conseguia discernir. Então ele virou-se para Zuko, que ainda estava adormecido a seu lado e sorriu. Ela sorriu também e voltou a dormir.

Isso tinha se repetido algumas vezes durante a noite. Se esse flashback não tivesse respondido se estava doente, a dor de cabeça que sentia provavelmente o teria feito. Secou o suor de sua testa com uma das mãos. O frio desaparecera sendo substituído por um calor excruciante. Mas ela não se importou e com a outra mão acariciou o rosto do dobrador de fogo.

Era a primeira vez que Katara conseguia ver o outro sem ter as feições zangadas. Na verdade, ele parecia tão inocente, tão... não-Zuko nesse momento. Deslizou as costas de sua mão pelos lábios entreabertos dele e engoliu em seco. O que ela estava pensando? Ele era um inimigo! Uma parte de si mesma gritou, procurando a razão. Seus rostos estavam pertos. Mas ele demonstrara se importar com ela, não?

Isso não deveria estar acontecendo. Ela não deveria ter sido capturada, os piratas não deveriam ter descoberto a identidade de Zuko, o príncipe não deveria tê-la levado para seu navio, ela não deveria ter ficado doente, ele não deveria ter se importado e acima de tudo: ela não deveria estar prestes a beijá-lo.

Só existia uma explicação racional para tudo isso: Era um sonho. Pura e simplesmente.

Então... por que não?

Não era real mesmo.

Katara se arrastou para mais perto dele e só parou ao sentir seus lábios roçarem nos dele. Nesse momento sentiu como se uma corrente elétrica tivesse percorrido todo seu corpo. Quando o dobrador de fogo tinha começado a exercer todo esse poder sobre ela?

- Isso não significa que eu goste de você. - Ela sussurrou, um sorriso se formando em seus lábios antes dela beijá-lo outra vez de leve. - Só que eu não te odeio mais.

Ele não respondeu nem acordou e Katara agradeceu por isso. Sentiu-se corar só de imaginar sua reação, por mais que estivesse curiosa pra saber qual seria. O que faria ele se descobrisse de algo que ela mesma ainda não desvendara? Quando foi que as coisas ficaram assim tão complicadas?

Zuko resmungou algo baixinho e a garota fechou os olhos imediatamente. O príncipe abriu os dele relutante e levou a mão à boca. Ela estava dormindo, não tinha como ela... Que diabo de sonho foi esse? Balançou a cabeça negativamente e se levantou, tomando cuidado para não acordá-la.

- Zuko?

Virou-se para ela quando viu que seu esforço fora em vão.

- Por que que tem um buraco enorme na cabine? - Katara perguntou enquanto esfregava os olhos. Não queria parecer que já estava acordada a um tempo.

- Porque eu quis. - Foi a resposta rápida mesmo que essa afirmação nada respondesse. - Você está melhor? - Perguntou, de cabeça baixa.

- Sim, eu... O remédio de seu tio deve ter feito efeito.

- Que remédio ? Meu tio... Ele entrou aqui durante a noite? - O príncipe perguntou temeroso.

- Eu... acho.

Ótimo. Agora ele nunca mais teria paz.

Não que ele tivesse muita paz antes. Principalmente de espírito.

- Ele falou alguma coisa obre eu ter ...hum... passado a noite com você?

- Por que você passou a noite comigo?

- Ele falou alguma coisa? - Zuko ignorou a pergunta da garota.

- Ele disse várias coisas, mas eu não... Me lembro. - Katara levou a mão à cabeça. - Oh! - Exclamou de repente. - Ele disse que você era um bom garoto.

- Eu não sou um garoto. - Ele reclamou, cruzando os braços.

- Mas você é bom.

o garoto bateu com força o pé no chão ao ouvir essas palavras. Porque ele não era uma boa pessoa. Ele não podia ser.

- Você! - Aproximou-se dela até o ponto em que seus narizes estivessem batendo um no outro. - Você não sabe nada sobre mim! - Gritou para a dobradora de água. - Você não... - Foi interrompido ao ter sua boca calada pela dela.

Por uns segundos eles ficaram com os lábios pressionados. Nenhum deles conseguia dizer, fazer e principalmente pensar em alguma coisa. Zuko sentiu um tímido sorriso formar-se nos lábios dela e ele não conseguiu evitar retribuir. Eles se separaram aos pouquinhos, mas suas testas continuavam coladas, como se um precisasse respirar o outro.

- Se meu tio nos visse agora... Ele provavelmente já estaria preparando nosso casamento.

- Uau... Um casamento de um dobrado de fogo com uma de água em tempos de guerra seria...

- Estúpido, inconcebível, insultante, hediondo? Escolha um adjetivo.

- Eu ia dizer interessante. - Completamente sem graça, ela começou a enrolar uma mecha de cabelo com os dedos.

- Você... Você aceitaria se casar comigo? - Ele perguntou, evitando os olhos dela.

- Você me pediria em casamento?

- Eu perguntei primeiro.

- Mas eu não posso aceitar ou recusar uma proposta que você não fez.

- Esse não é o ponto.

- Então qual é?

- Nós não vamos nos casar. - Ele falou de uma vez e sua voz saiu mais dura do que pretendia, imediatamente sentindo-se culpado. - Eu sinto muito.

- Eu acho que eu já... estava esperando.

- Eu não consigo, Katara. Por mais que eu quisesse, eu não poderia esquecer... deixar de lado. Você também não. E você merece alguém que seja realmente bom ao seu lado.

Katara sentiu seus olhos de encherem de lágrimas e se recriminou por isso.

- Então... Tudo isso talvez desse certo se você não fosse... Você. E se eu não fosse eu? - Ela tentou rir.

Ao vê-lo assentir com a cabeça, ela explodiu.

- Isso é idiota! VOCÊ É UM IDIOTA!

- Sinto muito. - E com essas duas últimas palavras, ele saiu pela porta para fora da cabine.

XXX

- Eu ainda não decidi. - A voz de seu tio o trouxe de volta a realidade. - Se deveria estar orgulhoso de você ou não.

Zuko não respondeu e continuou andando, como se não tivesse ouvido nada.

XXX

- Katara, rápido! Suba no Appa! - Aang gritou para ela, mas a garota não se moveu. Seus olhos estavam fixos no dele.

- Venha conosco. - Ela pediu sem fazer som.

Ele balançou a cabeça negativamente. Por um minuto ficaram se olhando como se a própria vida dependesse disso.

Ele fizera sua escolha.

- VAMOS! - Sokka gritou e agarrou-lhe o braço, levando-a para longe. Ela desviou o olhar primeiro e ficou com vergonha de olhar de volta e saber se ele continuava mirando-a ou se também desviara. E ela não sabia qual das alternativas teria sido pior.

Appa alçou vôo com os três, tentando se desviar das bolas de fogo que eram lançadas contra ele.

Katara se levantou e começou com seus movimentos de dobra de água.

- O que você está fazendo? - Sokka perguntou, franzindo as sobrancelhas.

- Aang, ajude-me! - Ela pediu ao Avatar, que não precisou pensar duas vezes antes de começar a copiar seus movimentos.

Não demorou muito e a água do mar começasse a se mexer com mais ferocidade e começasse a se levantar, formando uma grande onda.

O s tripulantes, já cobertos pela sombra que tal onda fazia, olhavam-na estupefatos, sem saber o que fazer para impedir o inevitável. Iroh pegou o sobrinho pelo braço e ambos pularam na água.

Mas não tinha como voltar atrás agora.

Ele tinha tomado sua decisão.

Estava na hora dela tomar a dela.

E assim o fez.

Com um último e rápido movimento, a onda se quebrou bem em cima do navio dele. Aang e Sokka começaram a comemorar, pulando felizes com o fato. Mas Katara apenas fechou os olhos e agarrou seu colar com força. Dessa vez ela não fez nenhum esforço para conter as lágrimas.

FIM

N/A: Então é, acabou. Não me matem ainda! Juro por Zuquinho lindo que tem um epílogo hahaha

Espero que você gostem