Hope? This do not expect those that not the saw

Na frustada tentativa de afastar o relógio

Só resta o baque insano e o choro côncavo

O desejo reprimido de possuir novamente

Aqueles sentimentos que não mais se lembra

E que um dia os perdeu.

88

Severus observava a casa em silêncio. Já havia anoitecido. Era uma noite sem estrelas. Os bombeiros haviam sumido e a multidão também. Agora só restara a casa. Uma casa com um cheiro forte de madeira velha e queimada, a cor preta, cor de cinzas, as janelas quebradas, o quintal mal cuidado e agora preto e machucado pelo fogo... Severus a encarou, procurando não esquecer nenhum detalhe.

Ele não escutou o caminhão de bombeiros sumindo no fim da rua, ele não escutou os pêsames daqueles que nunca haviam feito nada para salvar a ele e a sua mãe, ele não escutou o som das gotas contra o asfalto frio e ele não se importou com as lágrimas que se misturavam com essas gotas que desciam friamente pelo seu rosto. Severus já não se importava com nada ao seu redor.

"Foi tudo culpa minha... Eu não estava aqui e eu demorei demais e eu deixei minha mãe sozinha com ele." Devagar uma sombra se aproximava dele, mas Severus não se importou. "Ele a levou. Por que ele a levou? Por que pai?" Uma mão tocou seu ombro tentando passar-lhe conforto. "Por quê?"

- Severus. – Dumbledore apertou seu ombro com mais força e o trouxe para mais perto, encarando a casa do rapaz. Ele sabia que uma tragédia aconteceria, ele sabia que precisava tirar Severus e Eileen daquele lugar, mas Eileen se recusava a abandonar aquele homem abusivo e seu filho se recusava a abandonar ela. Suspirou com pesar, a culpa era sua, tudo o que fez foi colocar esses problemas "menores" de lado e se preocupar somente com Voldemort. O que importava se preocupar com um mal tão grande e que crescia mais, se mais e mais crianças sofriam com razões suficientes para depois aliar-se ao mal? Como ele pudera se esquecer deles? Com um suspiro, o bruxo dirigiu um olhar cheio de culpa e pena, agora deveria se preocupar com Severus. – Eu sinto muito, rapaz. Se houvesse alguma coisa que eu pudesse fazer antes disso, eu teria feito.

"Havia. Você não fez..."

- Tudo bem, senhor.

Nada mais falaram por algum tempo. Até que, cansado e com o desejo de tirar o pobre menino daquele lugar, Albus se virou e trouxe Snape consigo e disse calmamente:

- Vamos. Vamos para Hogwarts.

Sem fazer nada para impedi-lo, Severus deixou-se virar e ficou de costas para a casa que nunca, nem mesmo agora, pôde chamar de lar, e seguiram o caminho até a saída do bairro. Dumbledore nunca o soltou, deixando o rapaz muito perto de si. Não demorou muito para desaparatarem.


Fazia algum tempo que estava deitado ali, em uma das camas desocupadas da enfermaria. O lugar estava vazio. Agora Severus se dedicava a observar cada detalhe do teto, cada buraco bem disfarçado, alguns feitos por brigas ali dentro. Quantas vezes ele havia estado ali mesmo?

Levantou-se, nenhuma dor, nenhuma pontada em sua costela. Ele não se lembrava quando curaram suas feridas, na verdade ele lembrava muito pouco de ontem, depois de terem lhe avisado que sua mãe e seu pai estavam mortos.

"A casa dos Snape pegou fogo. Ninguém sabe como começou o incêndio." Lembrou enquanto olhava pela janela, o céu nublado e extenso. "Só se sabe que o senhor e a senhora Snape estão mortos"

A dor em seu corpo não mais existia, era verdade, mas uma pontada solitária e intensa estava presente em seu peito. Severus nunca pensou que sentiria algo tão forte, mas pensar que sua mãe estava morta e como ela havia morrido, junto daquele monstro... Deus, ele queria morrer também.

- Sr. Snape? – Severus encarou a enfermeira, a bola de desespero presa em sua garganta não lhe dava segurança para falar com ela, então ficou em silêncio. A jovem enfermeira sorriu gentilmente, ela já estava acostumada a tratar de Severus, então não se importou com seu silêncio. – O senhor Dumbledore está lhe esperando em sua sala. Ele quer te explicar algumas coisas.

Embora Severus não estivesse seguro de si, ele não iria desobedecer a um pedido do diretor, então se levantou da cama quando viu a enfermeira se afastar, ele não queria ir. Talvez Dumbledore estivesse o esperando para dizer que já havia encontrado um orfanato para ele.

Ele sentiu seu estômago se retorcer cada vez que sentia que estava mais próximo, e quase acreditou que vomitaria ali mesmo quando ficou de frente a gárgula que marcava a entrada da sala do diretor. Mas seu estômago estava vazio, não havia nada para vomitar. Murmurou a senha e gárgula se mexeu a sua frente e a porta para o escritório se abriu. Severus subiu rapidamente as escadas e esperou, até que ouviu um som oco atrás de si quando a parede se fechou.

Severus subiu alguns degraus e esperou a escada ficar imóvel antes de subir o resto. Ele encontrou a grande porta de madeira já aberta e conseguiu ver ao fundo o diretor em meio a vários papéis e objetos mágicos. Além de um grande pote com balas de limão e vários doces.

- Severus. - Assim que Dumbledore o viu um grande sorriso acolhedor nasceu em seu rosto. Ele acenou para que o ele se sentasse a sua frente e Severus obedeceu, entrelaçou seus dedos e apoio o rosto pensativamente sobre os mesmo. - Como você está?

- Bem, senhor.

Ele esperou que o outro continuasse, mas como Snape não parecia querer dizer alguma coisa além daquilo, Dumbledore decidiu continuar.

- Se você tem certeza que está bem, então eu não lhe desmentirei com isso. Quer uma bala? - ofereceu, mas Severus recusou educadamente vendo que o diretor preferiu comer a bala que havia lhe oferecido. O silêncio não sendo algo que incomodaria algum deles. - Bem, que tal um chocolate? Você deve estar com fome, meu rapaz.

"Eu estou morrendo de fome." Pensou, era difícil encarar o pedaço de chocolate que Dumbledore estava estendendo para ele. Talvez ele pudesse aceitar pelo menos um pedaço.

- Se o senhor insiste. – murmurou e segurou o chocolate. Dumbledore abriu um grande sorriso, então ele não estava irritado e era seguro que Severus comesse aquele pedaço.

Ele deixou que o mesmo derretesse em sua boca e aproveitou cada momento. Ele nunca poderia dizer quando iria comer novamente. Ele olhou para o diretor e o mesmo o olhou nos olhos, e pela primeira vez não houve desfio e Dumbledore parecia incapaz de piscar. Severus se perguntou se ele parecia tão desesperado e com fome quanto os olhos de Dumbledore diziam que estava.

- Severus... Você sabe por que eu o chamei?

- O senhor iria me explicar algo, senhor.

- Ah, sim. Claro. – então Dumbledore se curvou sobre a mesa, o rosto ficando mais sério. – Mas você sabe o que eu pretendo lhe explicar, Severus?

Severus maneou a cabeça negativamente e esperou o mais velho terminar.

- Você precisa de um tutor.

- Sim, eu sei. – afirmou – Até os meus dezessete anos, senhor."Graças a Deus, só falta dois anos. Apenas dois anos". Severus esperava com ansiedade o dia em que ele seria maior de idade e poderia fazer magia e se tornar um mestre de poções livremente, sem o Ministério da Magia em seu pé. Ele queria se ver livre principalmente para poder salvar sua mãe, mas agora sua mãe estava morta, lembrou.

- Correto. – Dumbledore arrumou os óculos na ponta de seu nariz, seus olhos parecendo maiores e mais determinados, uma determinação antes não presente ali. – Eu acredito que não há parentes vivos em sua família. Não conseguimos contatar nenhum dos Prince ou dos Snape.

Severus não demonstrou, mas estava aliviado. Ele não havia conhecido nenhum parente da família de seu pai e ele temia que fossem parecidos com ele. A única menção de um parente que conhecia seria a irmã de sua mãe. Uma mulher muito bonita que um dia havia feito uma visita quando seu pai não estava e ela era educada e alta e elegante, mas Severus nunca esqueceria o olhar de decepção que ela lhe dirigia. Um olhar igual ao do seu pai, mas sem o desprezo e o ódio.

- Eu nunca conheci ninguém, senhor. Nenhum parente. – confirmou. O agora chocolate esquecido sobre seu colo. Dumbledore o observou e sorriu, ele afirmou e depois se afastou seu corpo agora encostado na grande cadeira dos diretores de Hogwarts.

- Claro. Mas não se preocupe. – disse com tranqüilidade. – Ontem encontramos uma família que aceitou ficar com você, Severus. De muito bom grado o senhor e a senhora Potter escreveram uma carta para mim e ofereceram qualquer tipo de ajuda. Eles disseram alegremente que lhe ofereciam sua moradia e seu apoio. – a alegria transbordava por cada poro de Dumbledore. Ele se referia à família Potter com uma intimidade e carinho, como se fossem seus filhos. – Isso não é ótimo, meu rapaz?

Mas Severus só poderia ficar ali, mergulhado na descrença... Potter... Esse era o nome de seu inimigo, seu rival, o homem que ele mais odiava no mundo, embora o mesmo ocupasse o segundo lugar em relação ao seu pai. Ele foi como um substituto. Ele lhe batia quase igual ao seu pai, mas nem cem vezes pior do que Tobias Snape poderia ser. Potter sempre escolhia um local muito bom. Um lugar onde todos pudessem ver "Snivellus" sendo torturado por existir, e agora ele poderia fazer isso livremente e dentro da sua própria casa. Não havia nenhuma maneira que ele, Severus, iria ficar com aquele ser e sua família. Eles provavelmente eram tão sádicos como seu filho.

- Eu prefiro ir para o orfanato. – disse firmemente e observou uma sombra de tristeza aparecer no rosto de Dumbledore. Ele não se importava. Ele preferia isso a ter que viver dois anos sobre mais abusos.

- Severus, você só ira ficar com eles durante os meses de verão. Falei com o Sr. Potter, e ele disse que pagaria por sua escolaridade, livros e tudo mais que você precisa. – Dumbledore suspirou, e tentou mostrar ao rapaz que não havia nada a temer. Severus o encarou com raiva, deixando sua máscara de normalidade cair. Ele participava de Hogwarts com a garantia de que o próprio Dumbledore pagaria sua estadia ali, mas ele jurara que iria lhe pagar cada centavo quando se tornasse um mestre de poções. A idéia de ter alguém garantindo sua escola era tentadora, mas a idéia de que seria os Potter a fazer isso lhe trazia o sentimento de impotência, como se tudo em que acreditava e esperava agora lhe escapasse pelas mãos sobre um preço injusto a se pagar.

- Quer dizer que não há escolha? Quer dizer que não me deram uma escolha?

Dumbledore o encarou um pouco envergonhado, mas não havia sinal de culpa. Ele não iria correr o risco de perder um dos seus mais importantes e preciosos alunos.

- Me desculpe Severus, mas é isso ou o orfanato. Eu não poderia permitir que completasse sua formação aqui se estivesse em um orfanato. Não se preocupe, ainda há esperança.

Severus lhe encarou silenciosamente. "Esperança?" pensou com ceticismo "Isso não existe para mim, senhor."


Ele desceu do carro e ficou ao lado do diretor que havia se oferecido para levá-lo. Ele havia refletido a noite passada sobre o assunto e embora tudo lhe parecesse muito injusto, uma cruel brincadeira do destino, ele admitia que não pudesse as coisas se tornar piores do que já eram e ele se esforçaria para não estragar tudo. Começaram então a subir uma bela rua, limpa e bem asfaltada.

"Então agora irei viver com os Potter." Pensou. Aquilo lhe soando surreal demais. Ele nunca se imaginara em uma situação como aquela. Eles pararam diante a um grande, enorme, portão de ferro e mais ao fundo Severus podia ver sua nova "casa". A mansão Potter se erguendo como um paraíso.

Eram cinco andares, a mansão era branca e limpa e parecia brilhar sobre o sol, e as plantas penduradas nas extremidades da varanda, além do lindo jardim e o terreno todo verde que dominava toda a área até a mansão. Era tão maravilhoso... Havia um homem que vinha em sua direção, seguido de um jovem. De repente, seus pensamentos tolos evaporaram. Aquele lugar era a sua prisão, muito mais do que uma câmara de tortura. Ele estava em território inimigo, sem uma varinha. "Que a misericórdia me seja concedida." Desejou, reconhecendo James. O garoto lhe olhando com raiva.

- Sr. Potter. É bom falar novamente com você. – Dumbledore disse calorosamente e abraçou o homem. O senhor Potter não era o que Severus esperava. Ele parecia ter quarenta anos ou mais, possuía os mesmos cabelos e fisionomia de James, ele até usava óculos igual ao seu filho. Mas seus olhos e seus modos eram muito parecidos com os de Dumbledore.

Mas quando o mesmo se virou e lhe encarou, Severus não conseguiu reprimir um tremor de medo.

- Você deve ser Severus Snape. – disse e sorriu calorosamente, ele estendeu a mão para o garoto, mas Severus apenas olhou para baixo mostrando obediência.

- Sim, senhor. – ele devia mostrar respeito. Assim não apanharia e nem criaria conflitos logo em seu primeiro dia com os Potter.

- É um prazer tê-lo conosco. – a mão que antes havia sido estendida agora havia voltado para o lado do corpo do Sr. Potter. Mas seu sorriso ainda era caloroso. Severus podia dizer que ele parecia feliz em vê-lo, mas ele não queria se enganar. Aquilo tudo só estava acontecendo porque Dumbledore estava presente.

- Obrigado, senhor.

Sr. Potter se virou e encarou seu velho amigo – Agora Albus, quero lhe mostra algo novo que encontrei em meu quintal. – colocando um braço no ombro de Dumbledore, ambos estavam prestes a saírem quando o Sr. Potter se virou para seu filho.

- Ah sim, pode mostrar a casa para ele, James?

James apenas observava tudo tediosamente. "Então ele age da mesma forma em casa." Pensou enquanto se lembrava das várias vezes que havia visto seu algoz com uma expressão entediada antes do mesmo começar a persegui-lo.

- Que seja. Eu não tenho nada para fazer mesmo. – respondeu e então Dumbledore e o Sr. Potter se afastaram os deixando sozinhos. Severus se perguntava se Dumbledore não era capaz de perceber o que estava acontecendo, ou será que não iriam se importar de encontrá-lo morto mais tarde... Rapidamente Severus se sentiu mal por pensar daquele jeito. Ele deveria respeitar o garoto daqui a diante se desejava ter uma vida mais confortável. Mas como se James pudesse ler seus pensamentos, o rapaz se aproximou ameaçadoramente e Severus se afastou um passo.

Ambos se encaravam.

- Hey, Snivellus.

- Olá, Potter.


N/A: Mais um capítulo. O que acharam desse? A fanfic está fluindo muito naturalmente e isso me assusta. Desde quando eu escrevo tão bem e tanto assim? o_õ Mas no geral está sendo muito fácil escrever Save Me Slowly e eu acho que atualizarei semanalmente enquanto esse bom humor se manter. Só espero que consiga terminar o próximo a tempo e atualizar logo amanhã.

E cadê as reviews?