Acredito que certas coisas não possuem palavras para descrevê-las. Entre essas coisas, encontrava-se a sensação de reencontrar a pessoa mais importante da sua vida depois de mais de dois anos. Eu não conseguia dizer mais nenhuma palavra enquanto abraçava Ed com todas as minhas forças, sem nenhuma vontade de soltá-lo para o resto da minha vida. Eu já sabia o quão sem graça, triste e fechada eu tinha sido nos últimos dois anos. Mas foi necessário reencontrar Edward para perceber que eu era extremamente triste. Agora eu estava ali, sentindo as emoções felizes e perfeitas do reencontro que eu tanto temia que não acontecesse. Era como se eu soubesse que aquele pesadelo nunca mais iria voltar para me atormentar. Era como se a chuva que antes chorava a morte daqueles que lutavam na guerra, agora servisse apenas para lavar a melancolia e a tristeza que teimavam em permanecer ali mesmo depois da sua volta. O mais impressionante era que o quanto eu conseguia me sentir protegida naquele abraço. Eu estava no paraíso, no meu porto seguro. E faria de tudo para permanecer ali para sempre.

Eu sentia como se abrisse os meus olhos, despertasse de um longo pesadelo e Ed estava lá, ao meu lado, para me fazer esquecê-lo. Também sentia o meu coração quase saltando do meu peito enquanto lágrimas emocionadas continuavam teimando em rolar para fora de meus olhos. Sentia que meus lábios se abriam formando um sorriso radiante enquanto repousava a cabeça no ombro largo dele. Se existisse uma palavra que significasse felicidade, emoção, paixão, empolgação, amor, alívio e saudades, ela ainda seria um eufemismo ao modo como eu realmente me sentia.

Mas mesmo tendo essas sensações, aquilo não tinha sido nenhum sonho ruim. E a prova disso, era que eu realmente sofri, e que nesse momento Ed estava hospitalizado e eu tinha que cuidar para não machucá-lo enquanto o abraçava. Foi aí que eu me lembrei de algo importantíssimo.

Totalmente contra a minha vontade, saí do abraço apertado e segurei o braço direito de Ed. Bem como eu tinha pensado, ele estava com outro automail por ter crescido e as suas não lhe servirem mais.

- O exército tem seus próprios mecânicos – Ed me explicou depois que eu o olhei em dúvida, e deu um meio sorriso – Mas não se pode nem comparar; as suas são bem melhores.

Eu ri um pouco e olhei para seu rosto, para aquele sorriso que continuava igual ao de dois anos atrás. E, como sempre, fazia com que eu me perdesse olhando para ele. Mas não olhei por muito tempo: subconscientemente, senti vontade de abraçá-lo de novo. E foi isso que eu fiz.

- Eu senti tanto a sua falta... – murmurei baixinho, com a cabeça novamente apoiada em seu ombro. Senti sua mão esquerda acariciando meus cabelos e o aço frio do automail envolvendo minha cintura.

- Eu também – Ed falou depois de um tempo, beijando o topo da minha cabeça.

Eu me sentia tão... Renovada? Quase isso. Era como se eu tivesse nascido de novo, ou então como se o mundo me desse a chance de finalmente ser feliz ao lado de Edward.

- Quando você poderá sair daqui, Ed? – perguntei ainda abraçada nele. Quando ele disse a palavra "amanhã", soltei-o na hora, sorrindo empolgada – Sério?!

Ele assentiu, rindo baixinho. Talvez estivesse rindo da minha cara de felicidade, que provavelmente lembrava a de uma criança ao admirar o tão desejado brinquedo que ela ganhou. Se bem que, pensando por um lado, isso não era muito diferente do jeito que eu me sentia. Porque para mim, poder tê-lo ao meu lado, perfeito como sempre, sem nenhum problema para nos atormentar... Era com certeza, o melhor dos presentes que eu poderia ganhar. Céus, de vez em quando eu me sentia tão sortuda...

- Eu me sinto bem... – Ed falou, ou melhor, sussurrou, de tão baixo que saiu a sua voz – Por ver você alegre desse jeito. Eu me sinto realmente muito bem.

Eu senti que tinha corado levemente. Mas é claro que tinha. – Eu só estou assim – eu disse, sorrindo abertamente – por sua causa, Ed. Porque agora eu tenho mais do que motivos para me sentir a pessoa mais feliz do mundo.

- Credo, você é tão exagerada! – ele respondeu, me olhando com uma expressão forçada de terror. Era tão... Engraçadinho – Você tem vários outros motivos para ser feliz.

- Mas eu estou falando sério, Ed – eu disse, ainda com o sorriso no rosto. – Eu acho que... Eu não seria tão feliz assim se... Bom, se você... não voltasse. Na verdade, eu não seria nem um pouco feliz – coloquei uma mecha do meu cabelo atrás da orelha, olhando para baixo. Porque enquanto eu falava, imagens dos meus piores dois anos de vida voltavam à minha cabeça. Eu não queria que Edward visse a possível tristeza agora presente nos meus olhos. Respirei fundo e tentei ignorar aquela tristeza: céus, como eu conseguia ainda me sentir arrasada, se agora ele estava ali? Levantei a cabeça, sorrindo novamente para ele – Mas você está aqui. Isso basta... Eu me sinto aliviada. Por uma série de motivos.

Ele reagiu de uma forma que eu achei um tanto estranha. Desviou o olhar, virando a cabeça para o lado enquanto olhava fixamente para os raios de sol da tardinha. Ele não tinha corado, nem nenhuma outra reação que o Ed que eu conhecia tentaria evitar mostrar para mim... Apenas o olhar triste e distante.

Aos poucos, eu notava que existia algo de diferente nele além de estar mais velho. Tinha alguma coisa que eu não gostava nem um pouco de ver, algo que me agoniava, desagradável... Triste. Mas eu não sabia o que era. Eu não conseguia entender o que era.

E eu provavelmente não teria tempo de entender hoje, porque ouvi batidas leves na porta e escutei a voz doce da enfermeira pedindo para entrar no quarto. Edward e eu murmuramos um "entre" leve ao mesmo tempo. Ao entrar, a enfermeira me olhava como se o que ela tinha vindo fazer não era algo que ela quisesse fazer – Desculpe-me, senhorita. O horário das visitas já terminou, mas você poderá vir amanhã mais cedo para buscá-lo, porque ele já está melhor.

Levantei da cama de Ed e sorri para a enfermeira – Está tudo bem, eu virei amanhã – ela parecia-me ser confiável, e querida. Depois, me aproximei de Edward e lhe dei um beijo na testa – Até amanhã. – e saí lentamente da sala, logo depois de ouvir um "tchau" murmurado por Edward.

A enfermeira fechou a porta logo atrás de mim, e eu apenas fiquei parada ali, enquanto sentia o vazio tomar conta. Eu queria passar mais tempo com Ed, isso era algo até meio ridículo de se dizer. Mas eu não podia. Senti uma mão pousada delicadamente sobre o meu ombro e levantei a cabeça, pega de surpresa. A enfermeira sorria para mim, de novo – É só por hoje – ela me disse. Sua voz era tão tranqüilizadora... – Amanhã ele poderá sair daqui, esqueceu?

Um dia? Nem isso. Daqui a pouco já iria anoitecer, e no dia seguinte, de manhã eu já poderia buscá-lo. Eu tinha esperado por dois anos, esperar apenas mais um dia... provavelmente, não seria grande coisa – Eu sei... – tentei sorrir, mas tudo o que eu consegui foi uma careta lamentável – É que... eu estava tão preocupada, e... ele já estava naquele inferno a dois anos. Eu sinto falta. Muita falta – tudo bem, já dava para parar por aí. Eu nem ao menos sabia o nome da enfermeira, que eu me lembre ela também não sabia o meu, e certamente ela já escutara histórias mais importantes, interessantes e tristes do que a minha – Bem... é por isso mesmo. Mas... não importa. Eu agüento mais algumas horas.

Ela apenas continuou sorrindo da mesma maneira para mim. Era um tanto irritante, mas também eu achava que era a melhor coisa que ela poderia fazer no momento. Apenas sorri de volta, fazendo o mesmo que ela – Obrigada. Eu vou indo – depois de me despedir, olhei tristemente para a porta uma última vez, sentindo a saudade parecendo aumentar. Respirei fundo, virei as costas e caminhei rapidamente em direção às escadas intermináveis pelas quais eu tinha subido algumas horas atrás.

Enquanto descia as escadas, completamente sozinha e sem ninguém me observando, eu quase senti que sairia pulando, cantando ou berrando de alegria. Edward estava vivo. Eu já tinha pensado nessa mesma frase mais de vinte vezes só naquele dia. Edward iria voltar para casa. Voltaria para Risembool, reencontraria o Al... E finalmente, todos nós teríamos o tão merecido final feliz nessa triste história em que estávamos envolvidos. Porque todos já sofremos o suficiente com ela.

Agora, eu começava a refletir sobre o sofrimento dos meus dois amigos de infância. Se eu me senti tão terrivelmente angustiada com dois anos de puro medo... Não adiantava. Eu era realmente fraca. Acho que se eu tivesse a personalidade, o modo de pensar, tudo que Edward tem... Eu não teria me sentido tão mal. Além do mais, minha breve "morte psicológica" de dois anos não tinha como ser comparada aos mais de quatro anos em uma busca não tão bem sucedida e que estava sendo realizada antes dessa maldita guerra. Muito menos comparar com a morte da mãe deles. Resumidamente, eu ainda não sabia o que era sofrer de verdade. E me perguntava se eu ficaria pior se Edward fosse meu parente de sangue e acabasse morrendo na guerra...

... Mas, no final, provavelmente não existiria diferença nenhuma.

Porque se tem uma coisa que eu sei, é que eu realmente o amava. E eu sentia como se amasse Ed não só como um namorado, mas também desejava protegê-lo e ouvi-lo como se ele fosse meu irmão, e indubitavelmente, prezava a amizade que existia junto com tudo isso.

Depois de muito descer as escadas – graças aos céus, descer mais de dez escadas não é tão exaustivo quanto subi-las – cheguei ao andar térreo, que agora estava visivelmente menos movimentado do que antes, devido ao término do horário de visitas. Pela porta de vidro enorme que levava ao exterior, já entravam os primeiros raios dourados vivos do pôr-do-sol. Céus, o tempo passava tão anormalmente rápido, que uma hora poderia anoitecer e na próxima vez que eu olhasse pela janela já veria o sol nascendo. Bom, o próprio sol já mostrava sem precisar de palavras: estava na hora de ir. Saí pela porta, sentindo as leves diferenças de temperatura entre o hospital e o exterior. Lá fora era tão mais quente... E esse calor combinado com as luzes douradas, nem se podia dizer: deixava-me simplesmente eufórica. Era como se o mundo quisesse me fazer acreditar de todas as formas que Edward estava vivo. E eu ainda sentia vontade de responder: "eu sei, eu sei!" e sair pulando e contando para quem se prestasse a ouvir – e mesmo quem definitivamente não quisesse – que Ed tinha voltado.

Pelo quartel ser logo ao lado do hospital eu não demorei a chegar. Fui caminhando até o portão, onde já estavam abrindo-o para mim, como se já soubessem quem eu era. Devia ser alguma ordem da Sheska, embora fosse mais provável que fosse da Riza. Entrei no terreno, e depois passei pela porta gigantesca da entrada, e lá estava eu de volta aos corredores grandes e intermináveis.

Depois de um tempo caminhando perdida pelo quartel, consegui achar os dormitórios. Chegando lá, encontrei o quarto da Sheska e entrei. Aparentemente, ela ainda estava trabalhando. Mas notei que ela tinha providenciado uma cama para mim.

Fui até um canto do quarto onde as minhas coisas estavam e encontrei a maleta com os automails de Ed. Abri-a e me certifiquei de que as próteses estavam ajustadas e sem nada faltando. Tudo estava do jeito certo; deitei-me na cama, feliz, e com um sorriso no rosto.

Edward... parecia tão difícil de acreditar na sua volta...

Por que esperar menos de um dia para poder vê-lo de verdade era tão torturante? Céus, eu queria estar ao lado dele agora. Eu sentia tantas emoções contraditórias num mesmo momento, que chegava a ser assustador. Mas amanhã isso iria mudar. A partir de amanhã as coisas seriam diferentes. Elas iriam voltar a ser como antes daqueles dois anos, e bem antes daquele mês tão feliz, mas tão triste.

Pelo menos, era o que eu acreditava.

Fechei os meus olhos sentindo os últimos raios de sol, que invadiam o quarto pela janela acima da minha cama, me aquecendo. Respirei fundo. Eu estava um tanto exausta; o dia tinha sido algo de grandes revelações para apenas uma Winry.

Ouvi a porta se abrindo, mas por saber que era Sheska, nem ao menos me levantei ou abri os olhos – Winry... Será que já dormiu...? – ouvi sua voz murmurando baixinho.

- Eu estou acordada – respondi e, pelo que eu ouvi, ela tinha pulado de susto – Como foi seu dia, Sheska?

Ouvi-a dar um suspiro pesado e jogar-se em sua cama – Nem me fale. Foi mais cansativo do que todos os outros dias... Eu só quero dormir pelo resto da minha vida – eu ri um pouco – E o seu dia, como foi? – ela me perguntou depois. Eu abri um sorriso de orelha a orelha.

- Foi ótimo! – eu exclamei com tanto entusiasmo que cheguei a erguer os braços enquanto falava – Eu reencontrei algumas pessoas queridas para mim, sabe. – Sheska pareceu rir de minha cara, assim como Ed tinha feito. Ed... Levantei da cama, abrindo os olhos – preciso de um banho. Já volto.

- Tudo bem – Sheska respondeu, levantando-se da cama também.

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Quando já estava bastante escuro lá fora, nos ajeitamos para dormir. Porém, eu não conseguia nem ao menos fechar os meus olhos. Ficava apenas deitada na cama olhando para o teto, um pouco iluminado pelo luar. Eu mal conseguia esperar para voltar para casa, fazer os outros reverem Edward, aproveitar todos os dias... Eu nem os avisei sobre Ed, porque queria que ficassem um tanto surpresos com sua volta. E também, eu tinha prometido que voltaria para casa junto com ele. Bom, pelo menos essa promessa já estava praticamente cumprida. Suspirei, e olhei para o lado, para a cama de Sheska. Surpreendeu-me que ela também não tinha dormido ainda – Sheska... – assim que eu a chamei, ela me olhou para que eu continuasse falando – Vai comigo até o hospital amanhã?

Ela sentou-se na cama num salto, me olhando com uma expressão preocupada – Winry?! Por que ir ao hospital? Se você está se sentindo mal devemos ir imediatamente!

Eu ri da minha amiga preocupada com vontade – Não é para mim, sua boba! – ri mais um pouco de sua expressão preocupada e depois sorri, tranqüila – Eu estou ótima.

- Então... Por quê? – agora, ela estava apenas confusa.

Suspirei novamente, voltando a observar o teto – Tem algo que eu preciso buscar por lá. Se fosse por mim, eu ia agora, mas isso não seria muito educado. – ela me olhava ainda mais confusa – Ah, deixa pra lá. Mas eu acho que você gostaria de saber o que é.

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Geente, eu peço desculpas pela demora, e pelo cap ser chatinho também. Mas sabem... eu tava completamente sem conseguir escrever uma linha, e tinha muitas provas e tal, e o meu colégio dá muitos temas, mas em breve isso acabará XDD

Os próximos caps, eu prometo me esforçar para fazer capítulos melhores e mais rápido. Desculpa gente, e não desistam de mim por favor :(