Provavelmente eu tinha acordado menos de duas horas depois de ter conseguido dormir. O sol já nascia por completo, mas aparentemente ainda era cedo demais para qualquer coisa, inclusive visitas em um hospital. Mas mesmo assim, com cara de sono, completamente vestida com as calças escuras e a blusa sem mangas de cor clara, eu esperava ansiosamente pela hora certa, sentada na cama e olhando para fora, em direção aos tons amarelados deixados nas casas e nas ruas, pelo sol nascente. Aquele era o meu terceiro grande dia. Eu considerava os "grandes dias" como se fossem simplesmente datas em que algo iria mudar bastante. Provavelmente não era por acaso, mas os três tiveram relações com Ed: a carta, dois anos atrás; a despedida, no fim do mesmo mês que se iniciara com aquela carta e, agora, o reencontro.

Meus pensamentos foram interrompidos por um ruído próximo a mim. Olhei para o lado e vi Sheska, levantando-se preguiçosamente da cama. Ao finalmente conseguir me notar, me olhou com espanto – Já acordou, Winry?! – perguntou-me incrédula. Eu apenas sorri e voltei minha atenção para a janela, estava com muito sono e sem muito estoque de palavras para lhe responder. – Caramba – ouvi Sheska murmurar para si mesma. Olhei-a novamente, e ela se virou séria para mim – Sabe, Winry, eu sei que isso não tem nada a ver com o que está acontecendo agora, eu sei que é algo que talvez você não se sinta à vontade falando, mas é algo que eu percebi um tempo atrás, e queria lhe perguntar... Você não acha que é paranóica demais com relação a Edward?

A pergunta me pegou de surpresa, chegou a fazer meu sorriso sumir da face, mas eu tinha que admitir, talvez ela estivesse realmente certa – Na verdade – comecei fitando o chão -, talvez isso nunca tenha sido a coisa mais normal... – eu não queria falar tanto assim sobre isso, e talvez Sheska tivesse percebido quando não me perguntou mais nada, e apenas continuou me olhando daquele mesmo jeito. A calmaria silenciosa voltou a tomar conta do pequeno dormitório. Mas agora que Sheska tinha acordado, essa calmaria era melancólica – Que horas são? – na verdade, eu nem ao menos sabia quando começava o horário de visitas no hospital.

Sheska foi em direção ao seu uniforme do exército e tirou um relógio de bolso simples – Céus, não são nem oito horas ainda. O que eu estou fazendo acordada... – resmungou. Eu realmente amaldiçoava o fato de ser tão terrivelmente ansiosa, porque isso apenas faria com que eu fosse obrigada a esperar.

- Oito horas em ponto, nós vamos para lá – avisei me levantando da cama e caminhando em direção à porta. Aproveitaria o tempo para comer alguma coisa.

Sheska suspirava dramaticamente – O que é que você quer tanto pegar no hospital, a ponto de acordar praticamente antes de amanhecer direito? – ela choramingou enquanto pegava o uniforme do exército e ia para o banheiro trocar-se.

Antes de sair pela porta, me virei para poder lhe responder antes que ela entrasse no banheiro, e sorri – Não é exatamente uma... coisa.

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Oito horas em ponto. Levantei-me da mesa onde eu degustava um café e alguns biscoitos, voltei caminhando a passos largos e rápidos para o dormitório. Revisei novamente os automails, peguei a maleta e fui atrás da sala onde Sheska me dissera que trabalhava. Cheguei lá, e vi que ela terminava de ajeitar uns papéis – Só um minuto – ela me disse, se apressando para ir mais rápido.

Alguns instantes depois, eu já caminhava com ela em direção a enorme porta de entrada do quartel. Notei o olhar de minha amiga sobre mim, e principalmente para a maleta com os automails – O que foi? – perguntei, quando o olhar já começava a me deixar impaciente.

- Eu estava me perguntando – Sheska começou -, por que você está levando essa maleta?

Mas é claro que ela notaria. Eu estava tentando fazer-lhe uma surpresa com a volta de Edward, e não tinha argumento que disfarçasse a presença do objeto – Não é nada – me limitei a responder. Mas por que, afinal, eu estava querendo tanto que fosse surpresa? Isso nem mesmo eu sabia.

Ao ver que eu não lhe daria uma resposta, Sheska não tentou responder nada. De novo, ficamos no silêncio enquanto nos aproximávamos lentamente do fim de nossa pequena "viagem" até o hospital. Agora, eu apenas tinha a palavra "chegar" em minha mente. É, talvez eu realmente fosse muito paranóica com relação a Edward.

Quando paramos em frente à porta, a minha vontade foi de entrar correndo. Mas eu apenas chamei minha amiga junto e entrei calmamente – Espere aí por um momento – disse a ela, que parou logo ao lado da porta, já dentro do hospital. Eu andei um pouco à frente, procurando pela enfermeira dos cabelos curtos e castanhos do dia anterior. Tive sorte ao encontrá-la ainda ali na recepção. Fui caminhando rápido na direção dela, chamei sua atenção e perguntei baixinho – Como ele está? Já podemos subir?

Como eu já esperava, ela sorriu gentilmente antes de responder – Ele está bem. Você já pode ir vê-lo. Vamos? – assenti e depois gesticulei para Sheska nos acompanhar.

Subi novamente a quantidade infinita de escadas, e senti que cheguei ao andar um pouco menos cansada do que ontem. Já Sheska parecia se segurar para não respirar pesadamente, aliviada por ter chegado. Quase ri de sua expressão reprimida.

Dessa vez não foi preciso que a enfermeira me guiasse até a porta. Fui até ela calmamente e, antes de abrir, voltei a olhar para Sheska – Finalmente – então, eu abri a porta -, chegamos.

Ela, ao contrário de mim, não precisou entrar no quarto para perceber o que ou quem estava lá dentro. Sheska encontrava-se parada em frente à porta, com os olhos arregalados de surpresa. De muita surpresa. Eu tinha conseguido, afinal, manter a volta de Edward em segredo sem que ela suspeitasse, embora ainda não soubesse o porquê de ter feito isso.

- Edward... – Sheska murmurou, a expressão em seu rosto era algo semelhante ao choque. Perguntei-me se eu tinha ficado daquele jeito ao reencontrá-lo. Depois, assim como eu, Sheska sorriu e foi até ele – Ed! Que bom que você está bem! – disse entre risos, indo em direção à cama e o abraçando com força.

Ed retribuiu o abraço de forma tímida – É bom te ver de novo, Sheska – murmurou, enquanto eles se separavam do abraço. Depois, entrei no quarto também, sorrindo levemente e carregando a maleta.

Ele me olhou, como se me perguntasse algo. Olhei para ele e ergui a maleta – Pronto para trocar os automails? – depois, olhei em volta do quarto e achei um pequeno banco, coloquei-o ao lado da cama de Edward e me sentei enquanto abria a maleta.

- Winry... O tamanho disso está certo? – ele me perguntou de forma receosa. Assenti enquanto pegava as ferramentas necessárias. Ed agora me olhava em dúvida – Mas quando foi que...

- Vai ficar perfeito - eu o interrompi, enquanto tentava ser o mais cuidadosa possível para tirar o automail. Afinal, essa coisa de ligar ou separar os nervos provavelmente fosse um tanto dolorosa – Confie em mim, você vai ver.

Eu tive a infelicidade de vê-lo morder o lábio inferior, como uma forma de ignorar a sensação dolorosa que ele provavelmente sentia quando tirei rapidamente a prótese secundária, pela desconexão dos nervos e do automail. Agora eu me sentia tão mais preocupada com isso do que no passado, e eu não fazia idéia do por que. – Aguente só mais um pouco, Ed – limitei-me a dizer. Ele assentiu e respirou fundo.

Coloquei o automail velho na maleta e peguei o novo para colocar no lugar. Edward, dessa vez, quase gritou, e eu me vi fechando os olhos para esquecer aquilo. Depois, comecei a fazer os ajustes finais, e Sheska, que estava ao meu lado observando tudo, inclinou-se para mais perto – Winry... – ela se interrompeu, e eu olhei para ela, esperando-a terminar – Você não acha que causaria muito tumulto em levá-lo para o quartel agora?

Parei o que estava fazendo na hora. Winry, sua idiota, pensei. A guerra ainda continuava na fronteira leste, e a volta de Edward realmente seria um tanto comentada. E ele não poderia descansar o quanto fosse necessário...

- Talvez a Gracia-san poderia cuidar dele...? – Sheska sugeriu, pensativa.

- Não acho que seja certo perturbá-la com isso – recusei, enquanto começava a repetir o processo da troca do automail das pernas. Quando terminei, levantei do banco, suspirando – Mas eu acho que é a única opção que nós temos.

Sheska começou a caminhar em direção à porta – Vou ligar para ela. Ah, e vou pedir para alguém trazer suas coisas, pois acho que você vai querer ir junto...

- Ah, sim... – assenti. Assim que ela saiu, virei-me para Ed e ajudei-o a deitar na cama – Como se sente?

- Está tudo bem – ele murmurou. Sentei-me na cama, tentando estudar sua expressão dispersa. Não, não estava tudo bem. O Ed que eu conhecia provavelmente responderia uma pergunta dessas sorrindo, com a voz firme e olhando diretamente nos olhos, determinado a esconder qualquer sinal de dor que o procedimento com os automails causasse. Ele tinha feito exatamente o contrário.

Nesse momento, Sheska entrou no quarto – Já liguei para Gracia e para o pessoal do quartel. E também chamei um taxi, porque acho que não seria bom ele caminhar – depois, ela sorriu tristemente – Acho que não vou mais te ver durante o tempo aqui, não é?

Retribuí o sorriso da mesma forma – Não, mas eu prometo que voltarei – depois, chamei a enfermeira e, juntas, ajudamos Edward a se levantar da cama.

Depois do lento processo de descer as escadas chegamos à recepção, e depois na porta de saída, onde um taxi já esperava por nós. Despedi-me de Sheska e da enfermeira e fui com Ed para o carro.

O caminho até a casa de Gracia foi algo estranho. Edward não falou comigo, nem ao menos disse uma palavra, e eu estava pensativa demais para quebrar aquele silêncio sombrio. Olhei para ele, que apenas mantinha-se cabisbaixo. Ed... No que você está pensando? Ele estava tão completamente disperso, perdido no próprio mundo particular, que nem pareceu notar que eu o observava. Perguntava-me se era algo bom, se era algo ruim, se era algo que eu poderia saber. Mas do jeito que ele estava, eu ficaria querendo descobrir o que era.

De repente o carro parou, e eu pude perceber que tínhamos chegado e Gracia já nos esperava na porta de casa. Paguei o táxi e ajudei Edward a descer do carro.

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Depois dos cumprimentos, fui com Ed para o quarto onde ficaríamos. Corei violentamente por ter uma única cama, e de casal. Mas logo me recompus e fui ajudá-lo a se deitar – Vai dormir agora? – perguntei enquanto fechava as janelas para diminuir a luz do quarto. Depois, sentei-me ao lado dele na cama, onde ele já tinha até mesmo fechado os olhos.

- Sim – respondeu em um murmúrio fraco. Eu apenas permaneci ali ao lado dele, que mais nada falou depois disso. Apenas olhava o seu rosto, já quase adormecido, sua expressão serena, sem aparentar ter aquela tristeza que parecia se fazer constante em seus olhos. Era infinitamente melhor vê-lo assim. Na verdade, aquele rosto tranqüilo o deixava semelhante a uma criança. E ele parecia estar frágil. Frágil como uma pequena criança. Acariciei a pele macia e quente de seu rosto. Também era como a de uma criança. Ele nem parecia ter dezessete anos daquele jeito...

– Pare com isso – ouvi Ed murmurar, com a expressão fechada. Ele estava me evitando?

Tirei a mão rapidamente – Desculpe – levantei com delicadeza da cama e caminhei em direção à porta – Vou deixar você sozinho agora. Durma bem.

Fui até a sala e apenas vi Elysia brincando em um canto. Sentei-me no sofá, suspirando. Quando um problema acaba, e eu penso que vou me sentir completamente feliz pelo menos uma vez... Pensei, fechando os olhos e mordendo o lábio inferior. Mas logo voltei a abrir os olhos enquanto ouvia passos em direção à sala – Você não foi dormir também? – Gracia voltava da cozinha com uma bandeja onde se viam xícaras e uma chaleira – Você está com uma cara de sono que chega a dar pena, Winry. Por que não vai descansar?

Apenas sorri de leve para ela – Não se preocupe. Eu... – o sorriso sumiu de minha face, involuntariamente – acho que eu estou bem.

Gracia me fitava tão séria que fez com que eu me encolhesse um pouco. Mas depois, sua expressão pareceu mais suave depois – Aproveitando que você está aqui – ela disse, sentando-se em uma poltrona à minha frente – Queria conversar um pouco com você.

Arregalei os olhos com o pedido, que me deixou um pouco nervosa e confusa – Ah... Tudo bem – murmurei timidamente me ajeitando no sofá. Era uma coisa séria, isso era óbvio – Sobre o que você quer falar?

Provavelmente por causa de minha expressão tensa, Gracia sorriu gentilmente – Não se preocupe tanto – tentou me tranqüilizar, mas sem sucesso – O que eu pretendo lhe dizer não é nenhum ultimato ou algo do gênero. São apenas alguns conselhos, que eu acho que você vai precisar daqui pra frente.

Engoli em seco. De certa forma, aquilo me deixava meio nervosa – Tudo bem – respirei fundo e tentei sorrir. Céus, eu estava daquele jeito por nada – Pode falar.

Gracia voltou a ficar séria, e parou de me olhar – Sabe, Winry... – mordeu o lábio inferior, pensativa como se tentasse encontrar as palavras certas – Notei que o Edward está meio... Recatado. Calado... Isso não é o normal dele. – assenti, concordando com ela – Pode existir uma série de motivos para isso, você sabe. O Maes voltou assim de Ishbal. – talvez naquele momento o comportamento de Edward fizesse um pouco mais de sentido para mim. Apenas assenti cabisbaixa, e esperei que ela prosseguisse – Winry... Quando Maes voltou, foi terrível. Por mais que ele soubesse das conseqüências dessa guerra, ele parecia que nunca mais seria o mesmo. Demorou muito para que ele retomasse sua vida normalmente. Porque, você deve saber, guerras são coisas desnecessárias, e não fazem bem a ninguém. Nem para quem pode ter a felicidade de ver um familiar voltando vivo para casa. Não é saudável para quem ganha, muito menos para quem perde, e ninguém fica realmente feliz ao voltar vivo do campo de batalha. A maioria...

- Volta querendo não ter voltado, não é mesmo? – completei a frase para ela, os lábios trêmulos, assim como minha voz, e até mesmo minhas mãos – Eu... Eu entendo tudo isso que você me falou.

Gracia sorriu para mim novamente – Sim. E o que eu estou tentando lhe dizer é que por mais que no início seja difícil, não desista de Edward. Ele precisa de você mais do que nunca – ela segurou minhas mãos entre as dela – Nesse momento, ele precisa muito de você. E do irmão dele. Ele precisa das pessoas que ele ama. Proteja-o, escute o que ele tem para lhe dizer. Mas não o force muito a falar. A primeira coisa que você deve pensar é em voltar para Risembool, para que ele reencontre o irmão, e também porque lá é uma opção melhor do que a Central.

Assenti novamente, suspirando. Quanto mais eu ouvia as palavras de Gracia, mais a imagem daquele frágil Edward, adormecido ali no quarto ao lado fixava-se em minha mente. Sorri para Gracia – Eu vou providenciar as passagens já para partirmos no dia seguinte. Obrigada por isso.

- Você precisava saber disso, Winry – ela respondeu, sorrindo – Mas, por ora, descanse. Essas olheiras não combinam com você. Pode deixar que eu consigo as passagens para vocês.

Agradeci a ela e voltei para o quarto. Quando cheguei, Edward debatia-se na cama de forma perigosa. Pesadelos. – Ed! – sussurrei para não acordá-lo e fui rapidamente a sua direção. Ele arfava, tinha suor em sua testa e de vez em quando grunhia coisas que eu não conseguia entender

Entre arfadas, grunhidos incompreensíveis e expressões de pânico, eu conseguia entender uma ou duas palavras – Eu... Eu não posso... – ele repetia isso constantemente – Eu não quero – ele se debatia com força demais. Tentei segurá-lo, agora já com o pânico presente até mesmo em minhas mãos trêmulas. O que ele estava sonhando? Isso era algo que me preocupava, e me angustiava – Me solta!

- Ei, Edward! – abracei-o com força, tentando pará-lo antes que se machucasse ou abrisse os ferimentos ainda não recuperados – Ed... Está me ouvindo? É só um sonho ruim, se acalme... – repeti essas palavras várias vezes, vendo-o parar de se debater aos poucos enquanto eu o abraçava. Depois, senti sua cabeça apoiada em meu ombro. Ele já estava acordado – Melhor? – perguntei.

- Sim... Pode me soltar – ele respondeu, ofegante, com a voz ainda meio trêmula. Ele parecia até mesmo uma criança. Deitei-o na cama e me acomodei ao seu lado, sem o abraçar, nem nada. Apenas observando o seu rosto, enquanto ele já estava quase dormindo de forma serena novamente.

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Quando eu abri os olhos, o céu aparentava ter recém escurecido. Edward não estava mais dormindo ao meu lado. Levantei da cama, grogue, e fui para a sala, onde provavelmente ele estaria conversando com Gracia. Porém, a sala estava completamente escura, e somente Edward encontrava-se sentado no sofá, com um copo de água em sua mão direita e dois papéis retangulares na esquerda – Boa noite, Ed – sentei-me ao seu lado, e vi que os dois papéis eram na verdade passagens de trem, que Gracia gentilmente tinha se oferecido para comprar.

- Winry... – Edward chamou pelo meu nome, sem tirar os olhos das passagens – Boa noite não é o cumprimento certo. São cinco da manhã.

-Hein? – olhei para o relógio na mesa de canto. Indicava 05h05min. O que aquilo significava? Eu tinha dormido durante o dia inteiro, e mais uma noite. Céus, eu tinha dormido demais. – Faz quanto tempo que você acordou?

- Não muito – ele nada disse depois disso. E nem eu queria falar. O silêncio se fazia presente outra vez e, agora, a confusão também. Porque Edward olhava para aquelas duas passagens de trem tão fixamente, sabendo que reencontraria seu irmão, mas ao mesmo tempo... Ele olhava com uma mistura de tristeza... raiva e desgosto.

Como se não quisesse reencontrar seu irmão.

Como se não quisesse voltar para Risembool.

Como se nunca quisesse voltar para lugar algum.

- Quando é que nós vamos? – pela primeira vez desde que eu tinha chegado à sala, Edward tirou os olhos das passagens ao falar comigo. Olhei para ele meio atordoada por ter tido meus pensamentos interrompidos tão repentinamente.

- 07h30min é o primeiro trem... Vamos? – perguntei, ansiosa. Consegui ver Ed vacilar por um segundo, uma espécie de arrependimento presente em seus olhos. Dessa vez, fui eu quem desviou o olhar para o outro lado. Ele rejeitava tanto assim a idéia de voltar para Risembool? Mas o que era aquilo? Gracia disse que seria difícil no início, mas aquilo não era normal. Ed sempre foi unido demais a Alphonse, ambos eram como um só, a ponto de me deixar incomodada por muitas vezes. Dei um suspiro longo, tentando me recompor, e voltei a olhar para Ed com um sorriso forçado no rosto – Por que você parece tão confuso? – eu disse, e segurei a mão dele com suavidade – Vai ser bom voltar. Você tem uma família te esperando.

Edward fechou a cara, levemente corado com a minha mão, e afastou a sua um pouco – Não me entenda mal – ele disse, fitando o chão – Eu não estou... confuso.

Você tem certeza de que está falando a verdade, Edward? A minha vontade era de dizer aquilo, mas mantive dentro de meus próprios pensamentos.

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O trem já estava quase partindo. Gracia levara-nos até a estação, com Elysia junto, para se despedir. Ela tinha abraçado Ed com força, e depois foi até a mim e me abraçou da mesma forma – Volte sempre, querida. E lembre-se daquilo que eu lhe disse.

- Eu me lembrarei. Obrigada – respondi, me separando de Gracia. Abracei Elysia, depois peguei as malas e fui com Edward para o interior da locomotiva.

De dentro do vagão, sentada, dei um último aceno, e depois o trem começou a andar. Era hora de voltar para casa.

Se eu achava que o silêncio tinha sido melancólico, agora era o triplo. Novamente eu não tinha coragem para começar um assunto e, pelo comportamento estranho de Edward, não seria ele quem faria isso. As coisas pareciam estar... mudando.

Eu não me sentia mais tão segura ao lado dele. Porque ele não parecia mais ter aquele orgulho e aquela coragem, misturados com sentimentos e características tão puras que ele sempre teve. Aquele meu Edward, que dois anos atrás tinha me dito: "Uma guerra não seria capaz de me derrubar". Mesmo parecendo tê-lo derrubado, eu ainda tinha um fiapo de confiança na determinação daquelas palavras. E eu esperava que conseguisse ter certeza de que aquela confiança não seria em vão assim que chegasse em Risembool.

Aos poucos, as casas grandes e os prédios de grandes cidades eram substituídos por campos extensos e casas de madeira simples. O ar fresco e puro do interior já entrava pela janela, trazendo consigo o cheiro de animais, flores e árvores frutíferas. Eu já me sentia em casa. E, afinal, poucas horas depois, eu já estava na estação de Risembool, voltando com Edward, como eu tinha prometido.

Ambos estávamos em casa, afinal.

Até mesmo Pinako foi surpreendida ao me ver com Edward apenas três dias depois de partir – Winry...! – eu cheguei a pensar que poderia matá-la. Mas não, ela era forte. E abraçou Ed com força – Que bom que você está bem, baixinho.

Edward ignorara completamente a palavra baixinho. Nada normal. Mas, qualquer pensamento meu foi interrompido ao ver uma armadura enorme totalmente paralisada no vão da porta. Logo depois, ao levantar o olhar, Ed também percebera. E em um momento bastante tenso, nenhum dos dois ao menos se movia. Edward permaneceu ali, olhando sério e fixamente para o irmão mais novo.

Esse era o reencontro de Ed e Al. Mesmo que as expressões não pudessem ser vistas em uma armadura, Era como se eu pudesse ver que Alphonse encarava Edward da mesma forma que era encarado. E, quase na mesma hora, os dois resolveram tomar iniciativas – Al... – a voz de Edward chegou a fraquejar pelo nervosismo.

- Nii-san... Nii-san! – Al foi até Ed correndo, e o abraçou com força – Ed... Eu sei que eu não vou sentir, mas eu precisava fazer isso... Nii-san... Você...

- Sim – e, mesmo sabendo que o irmão não sentiria, ele retribuiu o abraço.

Tomei um copo d'água na cozinha, conversando com Pinako e com Al, explicando detalhadamente os motivos por Edward ter voltado tão cedo. Contei sobre O que Riza me dissera sobre a guerra, sobre Gracia, o hospital... Tudo. No final, nem tinha noção do tempo em que eu fiquei conversando com eles. Só sei que apenas me dei conta de que Ed não estava lá quando pensei em chamá-lo para ir dormir. Mas não fui atrás dele. Apenas peguei as malas que estavam no canto da sala e fui largar a dele no quarto.

Quando entrei lá, encontrei Edward sentado sobre a cama, olhando distraidamente pela janela. Ele apenas me olhou por um momento quando eu entrei

- No que você tanto pensa, Ed? – perguntei, por fim.

- Nada de mais... – essa era uma daquelas respostas que eu cresci me adaptando a responder. E elas me traziam perturbadoras lembranças. Mas eu nem ao menos esperava que ouviria algo como o que ele disse a seguir – São apenas coisas que eu quero pensar sozinho. Posso?

Eu sabia que Edward tinha total direito de querer ficar sozinho, mas aquela resposta tinha sido... direta demais. E eu me senti um tanto magoada – Tudo bem. – disse por fim, saindo do quarto.

Não era a primeira vez naqueles dias que Ed me rejeitava. Mas era a primeira vez em que eu ouvi palavras rudes vindas dele para fazer isso.

Esse capítulo foi enorme. O maior que eu já escrevi, isso que eu cortei 20% das coisas desnecessárias que tinha nele para não passar das 4.000 palavras, e mesmo assim ele conseguiu passar T_T. Ele ainda não é TÃÃÃÃO menos chatinho que os outros. Mas é depois dele que eu acho que as coisas ficam do jeito que eu gosto, hehe.

Espero que gostem desse novo cap gigante. Beijos geente ;*

Reviews? :D