- No que você tanto pensa, Ed?
- Nada de mais... São apenas coisas que eu quero pensar sozinho. Posso?
Passaram-se dois dias, e eu não sabia mais o que fazer. Eu não tinha falado com Edward de alguma maneira que pudesse ser decentemente considerada como um diálogo. Apenas falei dois "bom dia", nas manhãs. Na verdade, até teve um momento em que eu falei algo mais do que isso com ele. Foi durante a noite anterior, quando eu tinha acabado de subir as escadas, caminhava distraidamente pelo corredor em direção ao meu quarto e, de repente, esbarro em alguém. Então, eu me desequilibrei e fui segurada antes que eu caísse. Abri os olhos, e Edward me olhava com um mínimo de preocupação – Você está bem? – ele me perguntou. Eu ainda tive o azar de pensar que ele voltaria a falar comigo, e sorri como uma criancinha que acabava de ganhar um doce.
- Sim – eu respondi já mais alegre. Edward, então, me colocou de pé com cuidado, sorriu levemente e murmurou:
- Fique mais atenta, você vai acabar se machucando desse jeito. – e saiu, sem mais nenhuma palavra, em direção ao próprio quarto.
O resto do tempo, Edward passava trancafiado no quarto, sozinho ou conversando sobre alguma coisa com Alphonse. Por mais que ele tivesse me magoado com palavras secas, eu me preocupava com ele, mas apenas para logo depois tentar fingir que ignorava o seu comportamento.
Você não devia dar tanta importância para isso, Winry. Eu dizia mentalmente para mim mesma, quando me flagrava preocupada com a saúde – física, e de vez em quando a mental também – de Edward, e com o próprio. Mas céus, era tempo demais para ele passar sozinho, trancafiado no quarto, perdido em seus próprios pensamentos confidenciais. Ele faz isso porque quer. Eu sempre lutava contra minha consciência nesses momentos. Mas isso era algo que não adiantava. Eu nunca conseguiria pensar assim dele. Eu nunca conseguiria deixar de me preocupar com ele. E meu próprio lado indiferente a isso não conseguiria me impedir, como já estava sendo mostrado.
E agora, na manhã de um terceiro dia, eu tentava fazer a água fria do meu banho levar, para bem longe de mim, esses acontecimentos estranhos que martelavam minha cabeça. Fugir um pouco da realidade talvez fosse covardia, mas eu já sentia uma necessidade de fingir que tudo não poderia estar melhor. Porque eu já tinha esperado demais, e agora, mesmo não precisando esperar, era como se ele ainda estivesse muito distante.
Mas era uma tentativa frustrada. Saí do chuveiro ainda sentindo as mesmas sensações, e com os mesmos pensamentos me atormentando. Sequei-me com a toalha, coloquei meu habitual vestido branco e saí do banheiro.
Quando saí para o corredor, escutei a voz de Edward, que era ouvida da porta entreaberta de seu quarto -... que nós precisamos, Al – parei de caminhar, tentando escutar algo que explicasse o que eles estavam dizendo – Eu não quero mais esperar.
- Mas, Nii-san... – a voz doce do mais novo se manifestava. Dei dois passos o mais silenciosamente possível em direção à porta. Eu queria saber do que eles estavam falando, mas ainda não havia escutado nada que me explicasse claramente o motivo da discussão – Poderia esperar um tempo, não poderia? Não precisa ser exatamente...
- Precisa sim, Al – Edward interrompeu, parecendo meio impaciente – Hoje, à tardinha.
Alphonse não respondeu, e a conversa parecia estar acabando por ali. Droga, eu pensei. No final, a conversa apenas serviu para me deixar curiosa. Ou melhor... Apenas serviu para me irritar, e me preocupar ainda mais.
Olhei para o relógio na parede do corredor: já tinha passado do meio-dia. Talvez a vovó precisasse de alguma ajuda para fazer o almoço. E eu precisava me ocupar com alguma coisa.
Desci as escadas e entrei na cozinha – Bom dia, vovó – eu disse. Ela me cumprimentou de volta e voltou sua atenção para as panelas – Precisa de ajuda?
Ela acenou negativamente com a cabeça – Apenas ponha a mesa e chame os meninos, aqui está tudo pronto.
Suspirei enquanto pegava os pratos no armário. Eu estava fazendo algo, mas eu não queria nem um pouco olhar para a face vazia de Edward, pelo menos não para ser ignorada.
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Aquele, com certeza, era o almoço mais quieto e pesado que aquela casa já tinha presenciado. Ninguém falou uma palavra sequer, e nem parecia pensar em uma para falar. Ed estava sentado à minha frente, com a mesma expressão vazia e triste que ele carregava agora. Quando me olhava, era apenas algo breve, e me deixava, de certa forma, nervosa.
Quando todos já estavam quase terminando a refeição, Ed resolveu falar – Sabe, vovó... – eu, Pinako e Alphonse voltamos a atenção para Edward – Agora que eu já estou quase... recuperado dos ferimentos... – ele hesitou, mantendo a cabeça abaixada. Eu sentia uma vontade tremenda de encorajá-lo de alguma forma, mas já sabia que seria rejeitada se fizesse isso. Ed apenas mordeu o lábio inferior, respirou fundo e ergueu a face – Eu e o Al vamos voltar para a Central e voltar ao que estávamos fazendo antes... recuperar os nossos corpos.
Meu punho, escondido em meu colo, apertou-se com força. De certa forma, eu não queria que Edward fosse para a Central. De jeito nenhum. E também... por que essa decisão repentina? Ed sabia melhor do que ninguém que seus ferimentos ainda estavam longe de se recuperar. Porém, que mais me deixava insegura era a probabilidade de sua decisão ter sido tomada...
... Por minha causa?
O jeito que ele me olhava, o jeito que ele agia comigo, os cortes, as rejeições... Edward quase nem permitia que eu chegasse perto dele. Raiva? O que eu tinha feito...?
- Eu acho que... – falei com a voz trêmula, olhando para minhas próprias mãos em meu colo, alguns instantes depois. Hesitei um pouco, tentando me acalmar. Afinal, eu não tinha motivos o suficiente para ficar tão nervosa – Vocês deviam esperar mais um pouco. Ainda é cedo demais, principalmente por causa dos...
- Eu não quero mais esperar – Edward me interrompeu secamente. Ergui o olhar, sem conseguir deixar de me assustar com o seu tom de voz – Você não acha que quase seis anos já é muito tempo?
Abri a boca para falar, mas percebi que eu não tinha nada para dizer. Mordi o lábio. Eu realmente estou fazendo isso pelos dois? Pensei. Ou... eu apenas quero que ele fique porque eu me sentiria sozinha e preocupada?
Isso era algo que eu sabia a resposta, e me envergonhava dela. E também, aquela não era a hora certa de começar uma discussão com Edward. Assim que estivéssemos sozinhos, eu iria tentar falar com ele.
E eu não precisaria esperar muito, pois logo depois daquelas palavras, Edward se levantou da mesa e foi para o seu quarto. Mas antes de resolver ir atrás dele, sentei-me no sofá da sala, abracei os joelhos e fiquei olhando para o teto, pensativa. Imaginando o que dizer, ou o que fazer...
- Desculpe por isso, Winry... – a voz doce de Alphonse se fez ouvir próxima de mim – Você sabe, o Ed não é muito paciente – ele murmurou logo depois de não ter visto nenhuma reação minha.
Apenas acenei negativamente com a cabeça – Não precisa se desculpar, Al. Você não fez nada. – fechei os olhos, suspirando – E, infelizmente, eu sei muito bem que o Edward é assim. Sabe, Al... – baixei minha cabeça, agora olhando para a armadura que estava em pé ao lado do sofá onde eu me encontrava sentada – Eu sei que pode ser um medo idiota, mas é algo que eu realmente duvido... Acredito que Edward não voltará para casa depois que vocês recuperarem seus corpos.
Al me olhava sobressaltado – Por que você acha isso? – ele me perguntou, logo depois. Eu apenas dei de ombros, antes de responder:
- É dolorosamente simples, Al. Ele não parece se sentir à vontade perto de mim, vejo isso pela forma como ele me evita, a forma como ele fala comigo, a forma como ele me olha... O problema, talvez, seja comigo. O que eu mais queria no momento era poder falar com ele, mas sempre que tento fazer isso, sou simplesmente abandonada no lugar. E eu não tenho coragem, e nem acho que no momento, seria bom para ele se eu o deixasse de lado... – eu olhava para a mesa de centro à minha frente, em uma forma de esconder os meus olhos, que provavelmente estavam marejados – Eu não sei mais o que pensar, eu não sei mais o que é certo ou o que é errado de fazer com relação a Edward. Eu me sentei aqui em uma tentativa de pensar em como poderia falar com ele, mas tem momentos que penso que é melhor deixar como está agora.
Alphonse pareceu pensar por um momento – Eu concordo, em parte, com você. Mas eu sinceramente acho que você deveria levantar daí e tentar falar com ele, Winry – Al estendeu-me sua mão grande e metálica. Olhei para ela, por um momento, sem saber o que fazer – O Nii-san é um cabeça-dura, talvez vá ser um pouco difícil, talvez até nem adiante. Mas isso, a gente não pode sair dizendo que acontecerá, antes de tentar pelo menos mais uma vez. Agora vai lá, Winry. Eu já tentei conversar com ele algumas vezes, mas sinto que é melhor que seja você quem converse com ele.
Eu não consegui deixar de abrir um largo sorriso. Al parecia ter o dom de conseguir ajudar qualquer pessoa confusa e pessimista como eu. Levantei-me do sofá, com a minha coragem renovada – É verdade, Al. Não custa nada tentar pelo menos mais uma vez. – depois disso, eu agradeci por tudo o que ele tinha me dito. Sem dúvidas, era o melhor amigo que eu tinha. Mas agora, era hora de resolver – ou pelo menos tentar – tudo aquilo que estava acontecendo. Por isso, tratei de ir rapidamente em direção ao quarto de Edward.
Depois de subir as escadas e caminhar silenciosamente pelo corredor, parei em frente à porta fechada do quarto dele. Eu tinha vindo determinada até ali, porém, sem pensar muito em como tentaria começar a falar com Edward. Mordi o lábio, tentando pensar. Depois de um tempo, respirei fundo, e bati três vezes na porta.
- Entre – a voz baixa de Ed era quase impossível de se ouvir, mas eu entendi claramente. Eu estava autorizada a entrar, por isso, abri a porta lentamente.
Prendi a respiração ao ver Edward sentado na cama, mas dessa vez a cena não era ele olhando de forma melancólica pela janela. Ele tinha ao seu lado uma mala aberta e alguns pertences espalhados à sua volta, que Ed estava organizando dentro da pequena mala. Então, eu me lembrei que ele tinha dito que eles iriam partir hoje mesmo, logo mais tarde. Eu tinha que falar com ele naquele momento, ou, dependendo do que acontecesse eu nunca mais poderia olhar para o seu rosto.
- Eu tenho algumas... perguntas – eu comecei, ainda parada no mesmo lugar, sem olhar para Edward. Naquele momento, com tais coisas acontecendo, eu não imaginava que seria fácil de mee expressar da forma certa, mas eu não fazia idéia de que seria tão difícil até mesmo abrir a boca para falar – O que aconteceu com você, afinal?
Ele ergueu o olhar frio, mas ainda assim, confuso – Não aconteceu nada. – ele respondeu, e logo depois voltou a sua atenção para a tarefa anterior. Aquela resposta tinha me deixado irritada de uma forma que fazia uns bons dois anos que eu não me sentia.
- Nada mesmo? – perguntei, tentando me controlar para não falar outra coisa – Então, pelo menos seja sincero comigo me dizendo por que você anda sendo tão frio comigo. Sabe, Edward... Eu sinto como se você não me deixasse nem ao menos chegar perto, quase não fala, me rejeitou diversas vezes em que eu tentei falar com você, mesmo que apenas seja uma tentativa de conversar normalmente.
- Você não entenderia, Winry – ele apenas disse isso, ainda concentrado em sua tarefa de organizar as coisas na mala.
Apertei o punho com força. Cada palavra dita por Edward parecia apenas servir como uma forma de me irritar um pouco mais. Ele não dizia nada, apenas continuava dizendo coisas que me confundiam. Por que eu não entenderia, afinal? – Céus, Ed, do jeito que você anda tão recluso, tão pensativo, e tomando essas decisões repentinas... Como você quer que eu entenda dessa forma? Se eu vim até aqui, é porque eu estou tentando te entender!
- Mesmo assim, Winry, isso não é algo que você precise saber – Ed também já estava levemente mais irritado ao dizer isso.
- Mas é algo que eu quero saber, Edward – eu comecei a caminhar nervosamente pelo quarto, sem chegar perto dele, e parei, de costas para Ed, pensando no que falar. Virei-me para dizer algo antes que ele respondesse – Por acaso... esse seu comportamento é por minha causa?
Eu não sabia dizer se estava dando tudo certo, ou tudo estava ocorrendo exatamente da única forma que não poderia terminar. Edward suspirou de forma audível, em uma visível tentativa de se conter. Mas ainda assim, fechou a mala com força e se levantou da cama – Céus... Winry, por favor, cale a boca.
- Ah, claro, Edward – respondi mesmo assim, ainda mais brava com ele – Por que você não tenta ser um pouco mais compreensivo comigo? Não é só você que está se sentindo realmente mal por aqui. Seu irmão também...
- Por que você simplesmente não tenta ser um pouco menos egoísta, Winry? – parei de caminhar pelo quarto, e continuei parada ali olhando para o chão, depois que ele me interrompeu – Você sempre acha que tudo é por sua causa, e é você que não está sendo nem um pouco compreensiva aqui – antes de terminar a frase, a voz de Edward tinha fraquejado, mas eu não ergui a cabeça para ver por que. Ao voltar a falar, a voz dele soou baixa e triste – Eu não estou com raiva de você, a culpa... não é sua. Quando eu disse que você não entenderia, é porque você não seria capaz de entender realmente. E enquanto agir dessa forma, achando que é o centro de tudo, jamais será capaz de entender quaisquer problemas. Não só meus, mas das outras pessoas também.
Talvez realmente, esse fosse o meu problema.
Porque eu pensava, durante esse curto tempo, que ele se sentia ressentido comigo e, na minha opinião, era algo sem sentido. Porque eu não tinha feito nada para que ele agisse daquela forma. Mas, mesmo assim... se realmente fosse pela guerra, ele teria que voltar feliz por estar de volta, devia ter se sentido bem ao reencontrar seu irmão, sua família. Era algo incompreensível. Dei um passo em sua direção, rezando para que ele não desse um passo para trás – Então, por favor, me ajude a entender – minha voz soou fraca, talvez pelo nó que se formara em minha garganta. Me aproximei rapidamente de Edward e o abracei antes que ele se afastasse, com a cabeça em seu peito – Eu poderia ser egoísta pela última vez, e pedir para que você espere alguns dias para voltar para a Central?
Ed pegou os meus braços que o envolviam e os afastou o mais delicadamente possível. Segurou-me pelos ombros, fazendo com que eu me distanciasse um pouco mais dele. Me olhou fundo nos olhos – Eu não posso mais ficar aqui, e por uma série de motivos. Eu já fiz o meu irmão esperar demais. Eu ainda sou um Alquimista Federal, e tenho que voltar.
As palavras de Edward foram como uma facada em meu peito. Aquela raiva que tomara conta de mim momentos antes, fora completamente substituída por uma sensação de vazio. Mas, tinha outro detalhe que, naquele momento em que eu apenas correspondia seu olhar penetrante, me chamou ainda mais a atenção.
E, eu finalmente, entendi.
Mesmo quando alguém volta vivo de uma guerra, ela continua marcada para sempre na pessoa. Lembranças podem atormentá-la por muito tempo, principalmente porque... em meio a uma guerra, ou você mata, ou será morto. Uma vida por uma vida. E algo desse tipo, pode ser presente nos olhos de alguém por toda uma existência.
Os olhos de um assassino.
Aquele pequeno detalhe, que fez toda a diferença. Eu tinha sido tão... completamente burra. Eu não fui capaz de pensar nas palavras de Gracia em momento algum.
Não force.
Baixei a cabeça – Desculpe por lhe incomodar, Ed – eu virei as costas, decidida a deixar o quarto. Afinal, eu já tinha conversado com ele, porém sem bons resultados. Caminhei em direção à porta e a abri, sem olhar para trás. Fui para o corredor e fechei a porta, também sem olhar para trás, e entrei no meu próprio quarto, fechando a porta com um pouco mais e força do que o normal.
Deixei-me cair na cama. Você não entenderia... Eu não posso mais ficar aqui... Não é algo que você precise saber... Não. Não era algo que eu quisesse saber. E talvez, realmente fosse algo complexo demais para que eu entendesse. Porque eu não sabia de nada. Virei-me de lado na cama, me abraçando. Aquela sensação de que Ed realmente tinha me dado uma facada no peito permanecia ali, e me feria. Eu não tinha mais coragem de fazê-lo ficar aqui, e sabia que não era bom forçá-lo a fazer isso. Talvez, esperar fosse a única opção que me restava.
Fechei os olhos, sentindo minha consciência dirigindo-se lentamente para o mundo dos sonhos. Então, é isso que me resta?
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Capítulo triste i_i
Bem... Gente, talvez esse tenha sido o último capítulo que eu vou conseguir postar esse mês. Porque quarta-feira eu vou viajar para o Paraná! \õ
Vou passar o Natal e o Ano Novo na casa na praia do meu padrinho. Vou de carro, nove horas de viagem, haha *-* amo viagens longas, dá pra ficar ouvindo música e dormir :)
É claro que eu vou tentar escrever o máximo possível até quarta, além do mais, eu vou viajar quarta de tarde porque a minha irmã ainda tem aula O_O' daí, eu ainda vou ter quarta de manhã.
Mas, caso eu não consiga, já vou desejando um Feliz Natal pra vocês, e um feliz Ano Novo também, ook? *-*
Beiijos gente, obrigada por lerem a fic dessa pessoa cruel aqui \õ/
