2º ano, manhã do mês de Março.
As coisas mudariam drasticamente nesse ano. As patrulhas continuariam, mas eu não faria mais parte da maioria delas. Era a minha vez de seguir com a artilharia e com a infantaria...
... Para o campo de batalha. Ou seja, até o coração de uma cidade de inocentes.
Além do mais, foi o ano onde eu pude presenciar e sentir coisas mais fortes do que eu imaginava. Um choque.
As sombras projetadas pela lona da barraca tinham forma de folhas grandes, das árvores da mata que eu já tinha me acostumado. Mas nos espaços entre as árvores, a luz de um sol forte também se fazia presente de forma constante. Abri os olhos e, como sempre, me vi cegado pela claridade, e meu rosto aquecido pelo calor das luzes naturais. Céus, eu dormia muito pouco por causa disso. Mas não tinha o que fazer para mudar algo, por isso tratei de levantar da cama e vestir a farda do exército. Peguei o cantil com água e lavei o rosto, como sempre fazia todas as manhãs.
Sentia o ranger desconfortável do automail provisório. Eu tinha crescido demais para permanecer com o mesmo braço e a mesma perna; a sorte é que o exército tinha seus próprios mecânicos. Mas, sem dúvidas, o automail dela era – e sempre seria melhor.
Continuei com o cantil na mão para beber a água, e saí da barraca. Naquela parte do acampamento ele geralmente era tranqüilo; os acampamentos eram divididos pelos comandos da infantaria e da artilharia. Eu fazia parte de um comando que praticamente apenas executava patrulhas e defesas de pontos chave, então, quase nunca tinham emergências de feridos, ou muito alarde. Por enquanto.
À medida que eu caminhava entre as barracas e me dirigia para outros comandos, os burburinhos aumentavam – Foram recrutados mais quarenta soldados – ouvi alguém dizer – Parece que eles chegaram hoje. Vinte irão para as linhas de frente com a infantaria, e os outros vinte farão parte de batarias da artilharia.
Quarenta... Apenas trinta e nove soldados morreram depois da minha chegada. Eu mesmo e os outros soldados que vieram naquele dia distante eram apenas para substituir as perdas. Fechei o punho com força; aquelas atrocidades não terminariam até todos os cidadãos serem exterminados?
Aquele pensamento me chocou. É claro que não iria terminar antes disso. Resolvi dar meia-volta e retornar para a minha barraca. De repente, o dia ensolarado se tornara uma desgraça. Ele faz tudo parecer tão tranqüilo, pensei. Apenas para ferir a consciência quando acordamos para a realidade.
Era assim que as coisas estavam sendo para mim naquele último ano turbulento.
Ao chegar à barraca, levei um susto tremendo; uma garota magricela e mais ou menos da minha altura estava sentada na outra cama que tinha no seu interior. Os cabelos negros e compridos estavam completamente soltos, e a franja ocultava os olhos dela por estar com a cabeça baixa. Quase pulei ao adentrar a barraca – Quem é você e o que diabos está fazendo aqui?! – perguntei com espanto.
A garota levantou a cabeça, dessa vez ela era a assustada. A franja deixou de tapar os olhos verdes e grandes, agora arregalados. Ela segurava um envelope nas mãos. Levantou da cama rapidamente, e começou a gaguejar um pouco antes que as palavras saíssem de maneira mais compreensível – D... D... Desculpe! – ergueu as mãos, o rosto corado – Me mandaram para essa barraca, era a única que tinha lugares vagos nesse comando... Desculpe por não avisar, é que ninguém sabia onde você estava... Então eu...
- Tudo bem, Tudo bem – respirei fundo e ergui a mão para interromper a tagarelice da garota – Eu já entendi, não precisa se desculpar tanto assim, pode ficar aqui – aos poucos, ela foi se acalmando novamente, agora me observando com certa curiosidade. Também a observei durante um tempo. Sua face era tão infantil, mas ela era alta, fazendo com que sua idade fosse um mistério. Ostentava um rosto de meigas distinções. E visivelmente nunca tinha matado ninguém na vida.
Ela estendeu a mão para um cumprimento – Bem... Sou a soldado Charlotte Harmon – disse-me sem graça novamente. Era um tanto tímida, afinal – Prazer em conhecê-lo, er...
Apertei a mão dela – Edward Elric – disse, apenas.
Charlotte congelou. Depois, bateu continência, os olhos arregalados de espanto – Perdoe a minha falta de cortesia com um superior! – ela quase gritava, aterrorizada. Mas quem estava mais assustado com aquela bipolaridade era eu. Segundos atrás ela estava quase dormindo sentada na cama, depois pulou de susto quando eu tinha chegado, se acalmou e agora estava nervosa de novo.
- Não precisa ser tão cortês – eu lhe disse, tentando acalmá-la novamente. Seu medo de agir conforme o decoro chegava a ser engraçado – Eu não me importo, nem gosto disso. Vou chamar você apenas de Charlotte, e você apenas me chamará de Edward. Se quiser, pode me chamar até mesmo de Ed.
Ela baixou a mão e novamente foi voltando a agir de forma mais natural – Tudo... Bem. – murmurou, estranhando a própria situação. Porém, durante um pequeno momento, seus orbes verdes como as folhas das árvores do lugar exibiram certo brilho, como se ela se lembrasse de algo importante. Então, ela estendeu-me o envelope que segurava durante o momento – Se você é o Edward, essa carta lhe pertence.
Apenas fiquei estático à sua frente, olhando a carta com um misto de emoções que fizeram meu coração bater mais forte. Aquilo era coisa do Al e... Dela.
Por um momento, arfei. A carta que estava em meio às mãos pequenas daquela recém conhecida garota que me entregava... Era a minha luz, a minha salvação de um mundo obscuro, que eu tentava disfarçar ao máximo, mas que, no fundo, eu admitia sua existência. Ainda assim, era como se eu temesse aquele pedaço de papel dobrado e selado.
Charlotte me observava, interrogativamente – Aconteceu alguma coisa, Ed? – ela perguntou ao notar que eu demorava demais para apanhar a carta.
Apenas acenei negativamente com a cabeça. Peguei a carta das mãos dela e me sentei na cama, começando a abrir vagarosamente, com medo do que poderia encontrar em seu interior, das palavras que eram minha esperança, mas também o meu medo. Charlotte sentou em sua própria cama e observou a cena com interesse. Ao puxar o papel dobrado de dentro do envelope, outro objeto escorregou para fora do envelope e caiu, com o verso vazio para cima, sobre o colchão. Por ora, ignorei aquele outro papel e abri a carta com mãos trêmulas. Comecei a ler silenciosamente:
Olá, Nii-san!
Recebemos sua carta. Fico feliz em saber que você está, por enquanto, bem. Winry enlouqueceu ao saber do ferimento na primeira patrulha, eu demorei a conseguir acalmá-la, mas agora está tudo... Bem. Eu acho...
Sim, estamos muito preocupados, Nii-san. Não sei o que poderia fazer se você morresse. Mesmo assim, tudo aqui parece bastante calmo. A Winry também age naturalmente, na medida do possível, pelo menos. Agora ela está dormindo, porque passou a noite em claro construindo o mesmo automail. Ela é forte... Mais do que você pensa.
Sabemos que deve estar sendo muito difícil pra você, sem dúvidas muito pior do que já é para nós, que simplesmente estamos aqui. Esperamos que você esteja bem, e que retorne para casa assim que essa guerra terminar.
E agora, eu sei que essa carta vai tardar a chegar, assim como a sua também demorou. Mas eu espero que você continue seguindo de cabeça erguida. Não deixe que as coisas atrozes que você precisa encarar durante essa guerra tomem conta de você. Seja forte, porque nós também estamos sendo.
E seja ainda mais forte do que nós, e do que você já é.
Anexei na carta uma foto a pedido da Winry. "Para que ele não se esqueça que tem milhões de motivos para retornar" foi o que ela disse.
Abraços
Al.
Congelei no lugar, e apenas direcionei o olhar para o papel caído sobre a cama. Era a foto. Senti uma espécie de frio no estômago, ao segurá-la nas mãos. E, ao ver a fotografia, meu coração bateu ainda mais forte. Era uma antiga foto onde estávamos eu, Al e Winry, brincando alegremente... Naquele lago. Uma estranha sensação começou a tomar conta. Eu sentia saudades, daquelas épocas sem preocupações, naquele tempo em que o destino não teria uma guinada extrema nos acontecimentos, e quando o futuro não estaria marcado por mortes... Aquela imagem e a carta me transmitiam mais mensagens do que o curto texto presente ali. Al... Pensei. Foi então que eu soube, era uma sensação de desamparo, de abandono, cresciam na consciência e quase provocavam dor física. Eu sou um fraco. Está sendo mais difícil do que qualquer problema que tivemos no passado.
Fechei os olhos e segurei a carta e a foto com força na mão. Fiquei daquela maneira por muito tempo, tentando esquecer a tristeza, a saudade... E tentando esquecê-los, pelo menos naquele momento. Não era hora de ser tão fraco como já sabia ser.
Depois, deixei as coisas dentro da mala entreaberta aos pés da minha cama. Fiz tudo isso de forma a impedir que Charlotte, que observava tudo, visse a emoção que aos poucos começava a transparecer em meu rosto.
- Então... O que estava escrito? – perguntou amigável e inocentemente.
- Nada de mais – respondi secamente, ainda sentado na mesma posição, com a franja escondendo meu rosto de Charlotte. Chega, era hora de centrar-se apenas no tempo e no lugar, e não em pessoas amadas; doía-me lembrar delas ao mesmo tempo em que poderia matar alguém – Agora... Eu prefiro esquecer isso.
- Esquecer? – ela perguntou incrédula. Chegou a arfar em surpresa – Ed, isso é... Ridículo. – disse. Eu teria até mesmo levado na brincadeira, se o se modo de falar aquilo não fosse tão severo.
Mas ela não entenderia. Ela sempre julgaria o meu comentário como uma coisa estapafúrdia – Charlotte... Eu não acho bom pensar nas pessoas que eu quero bem... Enquanto eu mato outras pessoas, que também amam e querem o bem de muita gente – disse apenas de forma simplificada. O sentimento que fazia com que eu reprimisse lembranças familiares era algo mais complexo, mas que até mesmo eu não compreendia direito. Talvez, algum senso de heroísmo e altruísmo excessivos, chegando até mesmo a serem desumanos – Mas é que isso parece agravar a injustiça que essa guerra é ao meu ponto de vista.
Ela não respondeu direto. Pareceu pensar em minhas palavras. Depois, ouvi ruídos vindos da cama dela, seguidos de sons de passos leves. Quando dei conta, ela estava ajoelhada ao lado da cama, justo onde eu me sentava, olhando meus olhos com interesse indisfarçado. A visão repentina de Charlotte ali me assustava.
Apoiou a cabeça na mão esquerda, e continuou me olhando penetrante, bem fundo nos olhos. Tentei ignorar a presença dela ali – É um bom motivo, Ed. Mas tem um porém nisso tudo – ela respondeu calmamente – Acho que se você pensasse neles nessa guerra, e utilizasse tais acontecimentos como forma de proteger sua família, o que não é tão errado pensar, levando em conta o desenvolvimento da cidade que estamos atacando, você se sentiria melhor – uma centelha de tristeza e saudade tomou conta de seu olhar – E também... Se eu tivesse uma família que me esperasse ao retornar, eu pensaria neles em todos os momentos. Mas eu... Não tenho. O único que me resta é o meu irmão gêmeo, Charles. E ele está aqui, é um soldado servente na artilharia. Minha mãe morreu no parto em que eu e Charles nascemos, há um pouco mais de 16 anos. Durante um ano, meu pai se afogou em bebida, até morrer de uma forma absurda. Briga com facas depois de uma noite de bebedeira.
Ouvir aquelas palavras quase me despertara. Devolvi o olhar da garota, que não mais me observava; parecia perdida em pensamentos e lembranças de uma época antiga. Sua face meiga e infantil, os olhos verdes aos poucos se tornavam molhados, até estarem cheios demais para suportar a torrente de lágrimas que viria a seguir.
Eu nem ao menos sabia o que fazer. Mas a deixei ali, escondendo o rosto entre os braços enquanto chorava e soluçava copiosamente. Entre lágrimas e soluços, ela murmurava coisas desconexas – Eu... Queria... – consegui distinguir algumas palavras com dificuldade – Poder... Me... Lembrar... Do rosto... De algum deles.
Suas palavras me chocaram. Mesmo do pai, que pelo pouco ano que passara com ela, e cujo semblante sua memória havia desvanecido, ela queria se lembrar. E eu, que tinha um pai vivo, queria poder esquecer. Mas é claro que as coisas eram completamente diferentes; o pai dela fizera isso por sofrimento. Hohenheim fez o que fez porque quis.
Mesmo com isso, as palavras dela martelaram em minha mente. Talvez, sua afirmação fosse realmente melhor do que o que eu tentava fazer. Por ora, não conseguia deixar a garota que chorava aos prantos ao meu lado – Você devia dormir – não soube mais nada que pudesse dizer – Você... Está cansada da viagem, devia descansar... Para estar bem para cumprir as ordens que nos forem dadas.
A desculpa que eu tinha dado era absurda se comparada ao que ela realmente sentia, mas fora o suficiente para fazê-la concordar, caminhar lentamente de volta à cama no canto da barraca e atirar-se, ainda soluçante. Fiz o mesmo em minha cama. Mas, em vez de choro ou soluços, eu estava ocupado em vislumbres rápidos do rosto humano de Alphonse, da mamãe, do meu odiado pai, de Pinako, e também da Winry. Aquelas eram as pessoas que sempre foram, ou então eu considerava parte da família – exceto uma delas.
Os rostos foram se repetindo várias vezes até que parasse novamente no de Winry, e me fizesse lembrar uma coisinha constrangedora. De certa forma, me sentia aliviado por ela me poupar de um papel de bobo ao lhe pedir algo que agora eu via como seria... Ridículo. Corei violentamente, e até ri um pouco. Céus. Pensei entre um sorriso leve, admirando as sombras na lona da barraca. Eu tenho que admitir; ficar perto dela faz com que eu me transforme em um romântico piegas.
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2º ano, mês de Abril, o começo de um fim que tardaria a chegar.
Aquele mês tornara-se em um dia, um divisor de águas na minha forma de pensar nas pessoas à minha volta.
O choque começaria... E não se preocuparia em permanecer durante tempo demais.
Toda a vasta extensão do acampamento mobilizara-se para seguir as ordens estabelecidas pelo Führer. Dessa vez, todos estariam presentes no campo de batalha. O planejamento teria de ser seguido à risca.
Fileiras infinitas de oficiais da infantaria podiam ser vistas entre as poucas árvores – já que grande parte teve de ser cortada para mobilizar os muitos tanques e canhões da artilharia, e eu estava lá, em meio a algumas delas. Eram, no total, doze tanques, formando dois grupos de seis, escoltados por milhares de infantes, divididos pela metade entre granadeiros e atiradores. Algo um tanto complexo, e que poderia causar uma destruição de grandes proporções.
Aquela sensação desconfortável no estômago se fazia presente mais uma vez. Minhas mãos suavam enquanto seguravam uma metralhadora, e não conseguia parar de olhar, nervoso, para todos os lados. Senti-me menos covarde ao ver que não era o único.
Em uma ação totalmente oposta, Charlotte encontrava-se rígida como uma estátua ao meu lado. Como se tivesse maior experiência – Acredite – disse ao perceber meu olhar sobre ela, tensa, sem me olhar – Eu estou tão nervosa quanto você, Ed.
Por um momento, me lembrei de quando ela se deu conta de que eu era um Alquimista Federal. Uma Charlotte que não se preocupa com o decoro não é a Charlotte que eu conheço, aquele foi o único pensamento descontraído que pude me permitir, pois os ataques começariam...
... Naquele exato momento.
- Apontem as bocas de fogo! – o soar grave da voz de um General soou por todas as tropas. Imediatamente, muitos serventes apontadores começavam a se mobilizar. Logo depois, os municiadores trataram de colocar a munição nas bocas de fogo já apontadas, e apenas esperaram uma nova ordem do General, que todos sabiam qual seria – Fogo!
Apenas era possível ver a quantidade inimaginável de projéteis e bombas destruindo vários prédios altos e brancos da cidade à nossa frente, e os sons de gritos de dor e terror aos poucos tornavam se cada vez mais audíveis. Trinquei os dentes. Por mais que tentasse, aquilo era algo que não existia maneira de se adaptar.
Porém, uma única ordem acabou por mobilizar a infantaria. Os comandos deslocaram se à frente, correndo contra os muros da cidade. Eu corria entre eles. Os cidadãos, por sua vez, enganados e atacados, reagiram rápido. Muitos homens estavam posicionados entre os muros destruídos, atirando, derrubando várias das pessoas próximas a mim. Porém, eram quatrocentos infantes contra alguns poucos cidadãos, e logo os comandos entravam na cidade. E, por sorte, eu tinha chegado até ali, vivo.
Mas depois de ter matado muita gente.
Tiros. Bombas. Às vezes as pessoas, por não terem tido essa experiência, imaginam ser horrível, mas não algo tão chocante quanto realmente era. Matar alguém fere parte da alma, pelo menos era o que eu tinha certeza depois de passar por tudo aquilo. Eu me sentia sujo, me sentia um assassino sanguinário e impiedoso. Com apenas algumas mortes. Por mais que eu tentasse, não seria capaz de não pensar dessa forma. Não seria capaz de perdoar aquele lado insensível. Minha alma, pesada e retalhada, não seria capaz de perdoar seu corpo irracional. Muito menos, as pessoas que padeciam estiradas no calçamento duro e branco, como quase tudo na cidade. Mas agora, completamente borrado de vermelho pelo sangue.
Tudo o que eu fiz naquele dia teria sido pelo instinto, pela vontade, pelo desejo de sobreviver e proteger pessoas importantes. Um instinto quase animal. O mesmo instinto que me levou a fazer coisas atrozes, entre elas, a que me fez despertar completamente. A pior de todas, a última coisa que eu tinha feito naquele dia.
Mesmo tendo feito outras coisas terríveis e inaceitáveis durante dois anos, coisas piores do que quaisquer outras que eu já tinha visto, aquela me feria. Aquela seria a que me assombraria em sonhos e pesadelos, pelo resto de toda uma existência, que seria marcada por uma guerra irregular, injusta, e certamente absurda. Como todas as guerras, como todos os crimes.
Como violar um tabu inquebrável, e perceber-se ignorante das próprias limitações.
Chutei uma porta de madeira rústica. Era uma das casas mais simples e pequenas que eu tinha visto enquanto trocava tiros com os homens que tentavam defender suas casas. Quando adentrei aquela casa, não tive tempo para pensar; um homem carregava um punhal e corria a toda velocidade em minha direção. Atirei, matei para não ser morto.
Foi então que ouvi ruídos e sussurros vindos de outro quarto. Minhas pernas moviam-se automaticamente em direção ao som. Onde havia pessoas, teria que haver morte. Era o meu único instinto de sobrevivência.
Aproximei-me da porta com cautela, a arma carregada, pronta para atirar. Sons de choro, ruídos, e vozes finas entravam pelos meus ouvidos. Era desumanamente convidativo. A porta estava cerrada. Chutei novamente, e desejei nunca ter feito aquilo.
Os cachos muito ruivos de uma menina pequena escondiam uma face inchada e vermelha pelo choro constante. Essa mesma menina, acomodada nos braços de uma jovem quase idêntica, porém mais velha. Ambas estavam sendo protegidas por uma idosa. A única que não chorava, e nem parecia querer isso.
Ela me olhava de forma intrigante, não era um tom de desafio, era quase pena. No momento em que vi aquele trio inesperado, minha mente enevoada tornou-se limpa, meus pensamentos e instintos abandonaram o lado cruel. E eu pude acordar para uma realidade indesejada.
Minhas mãos, que seguravam a arma apontada para elas, suavam e tremiam. Tudo apenas tornava-se ainda mais injusto do que já era. Injusto era um termo fraco. Mas eu não conseguiria executar as três pessoas à minha frente. Falando de injustiça, e pensando nisso, Edward? Me via censurado por mim mesmo. Você matou toda aquela gente lá fora, e vai fugir com o rabo entre as pernas por causa de três pessoas? Olha quem falando de injustiças!
- Por favor... – pedia suplicante. Não sabia se dissera aquilo para meus pensamentos desnecessários ou para as três mulheres. Os choros altos da menina pequena faziam meu coração martelar no peito, minhas pernas quase cederem enquanto tremiam descontroladamente. Eu teria que ser cruel, mas eu não queria, e a minha consciência se recusaria a fazer isso eternamente. Mas se eu não matasse... - ... Desculpem-me.
... Outras pessoas as matariam.
Fechei os olhos, e tentei expulsar o som agudo dos gritos da menininha menor. Três tiros trouxeram silêncio total.
Mortes.
Atirei a arma com toda a força no chão, repulsa, náusea, ódio mortal, todas as emoções que eu sentia de mim mesmo. Eu era um nojento, um assassino, um demônio, um monstro. Não podia ter sido capaz de fazer isso. Arfei como se corresse por quilômetros e quilômetros seguidos, deixei-me levar pela fraqueza, deixei-me quebrar, cair no chão.
A sensação de ter feito uma coisa tão injusta... E ainda, tal coisa estava ali, na minha frente. Como que se apenas estivesse ali para confirmar tamanha crueldade, tal ato demoníaco. A dor crescente em meu peito tornava-se física e intensa, o suor corria como se um balde tivesse sido jogado sobre mim. O desespero crescia. Levei as mãos ao rosto... Eu iria explodir de raiva.
- ONDE ESTÁ?! – gritei para o vazio, para aquele mundo mergulhado em sangue. Ri com zombaria – VOCÊ NUNCA EXISTIU, E EU JÁ SABIA DISSO! NÃO É VERDADE, DEUS? ENTÃO... DIGA-ME?! – nem ao menos mudei a posição em que eu estava atirado no chão. Precisava expulsar aqueles pensamentos maldosos, aquela fúria, aquele choque que se mostrava crescente a cada minuto no campo de batalha – POR QUE NÃO FAZ NADA POR AQUELES QUE ACREDITAM NESSA SUA EXISTÊNCIA ABSURDA?! POR QUE NÃO MOSTRA QUE EXISTE E QUE TODOS NÓS NÃO SOMOS PEÇAS DE UM JOGO DE MORTES?! POR QUÊ?! PARE DE ME INGORAR E VENHA, SEU DESGRAÇADO!
Minha voz falhava... Minha respiração ficava difícil. Minha raiva diminuía – Por favor – implorei, fraquejando, sentindo uma vontade imensa de desabar em lágrimas reprimidas... Durante anos. – Por favor, proteja essas pessoas, por favor, me tire daqui. Por favor. Por... Favor.
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2º ano, mês de junho, uma noite no inferno.
Eu estava caminhando em meio a um vasto campo verde. O cheiro da relva úmida invadia as narinas, o vento fresco agitava minhas roupas úmidas. Estando naquele lugar, era como se eu sentisse uma imensa sensação de paz.
Senti algo puxando a manga da minha capa vermelha – Ei, maninho... – uma voz de criança me chamou. Virei para trás.
Ao ver o rosto da menina, acabei por ficar sem reação. Aquele cabelo laranja cujos cachos emolduravam o rosto e completavam-lhe os orbes cor de chocolate... Eu sabia quem ela era.
Ainda assim, a criança sorria, estendendo-me suas mãos minúsculas como ela – Vamos dar uma volta? – perguntou, seus dentes brancos reluziam à luz do dia. Fiquei estático, não sabia como reagir, não ao saber que tinha sido capaz de matar a criança que sorria para mim – Está tudo bem – ela encorajou, aproximando a mão ainda mais – Eu já esqueci aquilo, maninho. Vamos?
"Eu já esqueci aquilo, maninho..." a frase ecoou por um bom tempo na mente, tentando me fazer acreditar – Mas eu não esqueci – murmurei cabisbaixo. No final, comecei a estender minhas próprias mãos para a garotinha, que sorriu, satisfeita.
No momento em que toquei a mão quente, a paisagem mudara por completo. À minha frente apenas encontrava-se chão e paredes brancas, e no lugar do barulho do vento tranqüilo ouvia-se o som das bombas, dos tiros, dos gritos, do choro. Agora eu vestia uma farda do exército, estava no meio daquela confusão toda, sem saída, sem rumo.
Olhava para os lados, confuso. As pessoas corriam, apavoradas. Alguns poucos tentavam reagir. Eu não fazia nada, apenas olhava, perdido, confuso, parado. Foi então que senti algo muito estranho no estômago, e olhei para baixo.
Sangue escorria pela farda. Meu coração parou; a ponta de uma faca emergia das minhas roupas. Mas eu não sentia nada. Meu único choque naquele momento ocorreu quando tentei olhar para trás e vi quem tinha me atingido.
Arregalei os olhos, aterrorizado, incrédulo – Al... – murmurei por uma última vez.
Acordei com um salto na cama. Estava coberto de suor e com o coração descompassado. Minhas mãos tremiam – Céus... – murmurei com a voz rouca, levando as mãos ao rosto – Outro pesadelo... Quando isso vai parar?
- Tudo bem, Ed? – Virei para o lado, vendo Charlotte encolhida com uma toalha nas mãos. Apenas confirmei com a cabeça, arfando. Ainda tentava me recuperar do medo que sentia ao ter aquele pesadelo... Era o Al no corpo verdadeiro... O Alphonse que eu tinha tanta falta... Engoli em seco, tentando secar o suor do rosto.
Senti um tecido áspero dispensando minhas mãos para fazer o trabalho; talvez Charlotte tenha usado a toalha para isso o tempo inteiro – Caramba Ed, - ela comentou, forçando uma expressão assustada – Se eu não soubesse que você tem pesadelos de vez em quando, pensaria que estava morrendo. Nunca cheguei ao ponto de acordar e ver você gemer e se debater.
Corei com o comentário, pedindo desculpas. Foi então que eu notei que nem ao menos era dia, a iluminação fantasmagórica na barraca vinha de um lampião aceso. Talvez faltasse muito para o nascer do sol. Mas não queria dormir e ter outro pesadelo daqueles.
Mas ninguém mais teria tempo – ou vontade de dormir naquela noite.
O som de um estrondo próximo me faz pular da cama – O que foi isso?! – perguntei, alarmado. Resolvi verificar. Coloquei a cabeça para fora da tenda, e pude ver todos os soldados correndo para o lado oposto do acampamento. Tudo ficou claro como o dia. Suspirei pesadamente, e me virei em direção à Charlotte – Estamos sendo atacados aqui mesmo.
Ela arfou de surpresa, os olhos verdes arregalaram-se, mas também se encheram de uma determinação tola – Nós temos que... Ajudar. Vamos – disse ela, largando a toalha em um canto, pegando o rifle dela e jogou o meu próprio em minhas mãos - De que parte veio aquele estrondo?
- Não sei ainda – disse enquanto era praticamente arrastado para fora da barraca – Só sei que foi ao norte.
Uma centelha de preocupação pôde ser vista no rosto dela. Olhei mais fundo, curioso, mas Charlotte tratou de desviar o olhar e correr mais rápido – Vamos logo! O tempo... É curto.
Realmente, o tempo era muito curto. E justamente quando seria melhor se fosse longo. Porque a falta de tempo pode alterar muita coisa, conforme as circunstâncias em que você se encontra. E, também, estando numa guerra, um tempo curto traria pressa, e muita morte. Para todos os lados, para todos os amigos e inimigos.
E, consequentemente, para as pessoas estimadas por nós.
Mais sons de bombas foram ouvidos, mas dessa vez foi possível contemplar o clarão causado pelas explosões. Cada bomba parecia mais próxima enquanto eu corria para o local. Mesmo assim, era longe. O acampamento era enorme, e só tinha uma parte dele que era tão ao norte dessa forma. A artilharia.
Pelo que Charlotte tinha me contado, seu irmão era um dos serventes da artilharia. Droga, pensei, acelerando o passo involuntariamente. Se o cara morrer, como ela ficaria? Observei a face atenta a horizonte, o olhar preocupado e distante cujos orbes verdes deixavam ainda mais intensos. Depois, me lembrei daquele mesmo rosto infantil que desabava em lágrimas copiosas e desesperadas, apenas por causa de lembranças dos pais cujos semblantes ela não recordava. Ela era sensível demais, e Charles era a sua única família.
Assim como Al era para mim.
Fui tomado por uma vontade intensa de ajudá-la e protegê-la. Céus... Ela é a minha única amiga. Dei-me conta, distraído. Por esse motivo, tentaria ajudar o máximo que pudesse, a todo custo.
Continuei correndo rapidamente ao lado de Charlotte pela trilha irregular do acampamento. Até que mais adiante uma aglomeração imensa de soldados impedia todo e qualquer meio de passagem – Ei! – chamei a atenção do mais próximo e parei, arfando. – Por que vocês estão parados aqui?!
- As bombas deixaram a situação caótica – ele começou a responder, o suor escorrendo pelo rosto magro – Há apenas alguns soldados por lá, tentando resgatar os feridos ou trocando tiros com os invasores. A artilharia do exército foi prejudicada em altas proporções, tanto em equipamento, quanto em pessoas.
Charlotte assustou-nos segurando, repentinamente, o braço do soldado com força – Artilharia? – perguntou, entrando em estado de choque. A voz tremia, os olhos arregalados em medo e preocupação mantinham-se fixos no nada. Arfou, voltando a si, olhando para todos os lados, perdida e confusa – Charles... Meu irmão...
Senti um aperto no coração ao vê-la daquela forma. O medo tomava conta, e quase era possível ouvir o som do choro que ela tanto parecia se esforçar para reprimir, subindo em seu peito. Pousei a mão em seu ombro, em um ato solidário, porém eu sabia que seria inútil. Mas ela empurrou a mão, disparando rapidamente entre os soldados aglomerados no caminho, exigindo passagem.
O soldado que nos dissera o ocorrido partiu atrás dela, e eu não fiquei para trás. Ele segurou-a com força pelo braço, impedindo-a de prosseguir. Ajudei a pará-la. Ela voltou-se, mostrando-se indignada e alarmada – Meu irmão! – dizia desesperada, tentando desvencilhar-se das mãos do soldado – Deixe-me ir! Meu irmão está naquele lugar, você não entendeu?! – o desespero na voz alterada era quase agonizante. Ela se impulsionou para frente, tentando fazer seu peso muito leve vencer a força do homem. Gritou, estendendo os braços à frente – Charles! Charles!
Era insuportável. Levei as mãos aos ouvidos, tentando ignorar os gritos dela, o som de tiros, de bombas, de gritos de terror, do fogo que consumia os trapos de barracas e que era alimentado com pólvora dos depósitos da artilharia. Mas não adiantava. Os gritos não cessariam, o desespero prosseguiria, o fogo não seria extinto, os sons ainda permaneceriam. E ainda me fazia mal contemplar o desespero de uma amiga, por causa do irmão, e não fazer absolutamente nada.
- Charlotte! – gritei o mais alto que conseguia, irritado, porém com um peso enorme na consciência. Se possível, eu já teria ido e resgatado Charles. Ela parou de se debater e ficou analisando meu rosto, ofegante, preocupada e muito ativa. Engoli em seco – Eu sei muito bem da sua preocupação, mas ir até lá vai acabar matando você!
Ela olhava-me incrédula, como se eu nunca fosse capaz de dizer uma coisa daquelas. Encarei de volta, mas com censura. Os lábios de Charlotte se estreitaram em uma linha reta e fina – Idiota! – ela vociferou de repente. Arregalei os olhos – Era isso o que você faria se fosse o seu irmão que estivesse em perigo?! Ficaria aqui, seguindo ordens tolas para esperar? Não reconheço esse Edward. Agora, me solte.
Fiquei sem reação, lembrando do pesadelo daquela noite. Al... Cenas terríveis começavam a vagar pela imaginação. Charlotte aproveitou-se do momento e livrou-se das mãos que lhe impediam sem se preocupar se isso machucaria si mesma.
Quando me dei por si, já não conseguia mais enxergar sua silhueta no meio de tanta aglomeração. Saí correndo atrás dela. Era perigoso demais! – Ei... Charlotte! – chamava, nem baixo nem alto, era mais para mim mesmo do que uma tentativa de chamá-la.
Atravessei a multidão com dificuldade. Os estrondos violentos pareciam ainda mais altos e ensurdecedores do que antes. Adiante, a escuridão triunfava em meio a pequenas chamas. Não era possível enxergar corpos no chão.
- Charlotte! – gritei mais uma vez, correndo em meio ao lugar exposto e perigoso. Não tive resposta. Não ouvi som algum, a não ser o de tiros restantes. Fiquei com o rifle preparado...
- Fullmetal! – uma advertência, e eu me senti puxado pela gola da farda. Tossi com a falta de ar, e senti meu estômago revirando pela velocidade. Depois, eu entendi; fui puxado para um lugar suficientemente longe de uma bomba.
Tapei os ouvidos e fechei os olhos no auge da explosão. O som parecia ser capaz de estourar os tímpanos, e o clarão resultante do ato era possível de ser percebido mesmo de olhos fechados. Fora possível ouvir mais e mais gritos, acompanhados de muitos tiros. Assim que o local se acalmou, abri os olhos, e vi o ser que me afastou da bomba encostado à árvore.
- Coronel?! – aquilo tinha sido mais uma acusação do que uma pergunta.
- O que você faz aqui? – ele aparentemente estava exausto, pelas arfadas que acompanhavam a voz na hora de formular a pergunta.
Foi aí que eu me lembrei de Charlotte. Levantei do chão rapidamente, porém, fiquei estático. Não fazia a menor idéia de onde ela poderia estar, ou para que lado tinha ido.
- Fullmetal, você não respondeu a minha pergunta. – a voz do Coronel soou novamente
Virei para trás, impaciente – Procurando uma pessoa. – resmunguei, começando a caminhar para longe do Coronel – Céus... – praguejei novamente – Onde ela se meteu?
Não precisei mais perguntar por nada. Quase invisível no chão escuro pela falta de luz, um corpo jazia de bruços sobre alguma outra coisa. Os cabelos, tão negros e compridos que nas partes onde eles descansavam em suas costas pareciam ser um espaço do chão. A farda do exército encontrava-se suja de terra e um pouco de sangue.
Corri rapidamente em sua direção – Charlotte?! – ao chegar mais perto, era possível de se ouvir soluços. O alívio que senti na hora foi imenso. Abaixei-me, pousando a mão em seu ombro com delicadeza – Venha. Temos que voltar.
- Não – choramingou, soluçando ainda mais – Não quero sair daqui... Eu quero que ele... Acorde.
- Ei... – tentei puxá-la para cima, mantendo-a sentada. Assim que consegui fazer isso, pude ver um corpo franzino, os cabelos negros curtos emolduravam um semblante calmo e pálido.
Charles.
Fiquei estático, dirigindo o olhar para a expressão morta e chorosa de Charlotte. Não era preciso formular quaisquer perguntas sobre o ocorrido, a resposta estava mais do que clara.
Por mais que não fosse culpa de ninguém que estava ali presente, eu sentia como se fosse por minha causa. Era isso o que você faria se fosse o seu irmão que estivesse em perigo?! As palavras desesperadas de alguns minutos antes martelavam em minha cabeça, assim que eu pousava o olhar no corpo inerte e idêntico ao de Charlotte, em todos os traços de rosto e corpo. Teve momentos em que o meu subconsciente chegou a projetar uma imagem do corpo de Alphonse ali no lugar de Charles. Eu não era uma pessoa que se arrependia tão facilmente do que fazia, porém, naquele dia eu queria ter ido com ela ao invés de impedi-la de prosseguir.
Eu me sentia completamente inútil por não ser capaz de fazer nada, a não ser ficar parado assistindo o padecer de Charlotte e o corpo imóvel de Charles. Entre esses dois, a minha fraqueza e covardia preferiam observar o corpo imóvel estirado à minha frente.
Mas eu não chegaria a fazer isso, pois instantes depois pude sentir algo tentando puxar a manga do meu casaco, mas que não tinha forças o suficiente para tal ato. Olhei para a manga e vi a mão fraca de Charlotte. Levantei o olhar, com receio do quão intenso seriam as emoções tristes presentes em seus olhos verdes.
O corpo todo dela tremia em choque, seu olhar erguia-se em súplica e sofrimento. Quando encarei penetrante nos olhos molhados, pude notar a familiaridade presente naquele misto de emoções negativas. Era como Winry. Ela estava completamente acabada, assim como Winry – Ed... – sua voz saía em sussurros quase inaudíveis – Tem como trazê-lo de volta, certo? – seus olhos brilharam em falsa expectativa – A alquimia pode trazê-lo de volta, não é verdade?!
As palavras da garota me feriam. Elas lembravam o meu desespero e empenho em pesquisar sobre transmutação humana para poder viver ao lado da minha mãe e do Al. Então eu via o quanto o sofrimento humano era capaz de fazer com que eles pensassem em coisas proibidas para extinguir esses sentimentos agonizantes, e trazer de volta as coisas boas que perdemos mesmo que isso seja feito com meios ilegais.
Mas eu me mantive calado. Era aparentemente melhor do que dizer que era algo proibido e que certamente daria muito errado. Seria triste até demais para ela. Porém, Charlotte ainda aguardava uma resposta. Desviei o olhar, mas senti meu rosto sendo puxado de volta – Não me ignore! – ela elevou o tom de voz com dificuldade – Você é um alquimista genioso, não é? Por que não tentar?! Por favor, Ed. Eu preciso muito disso...
- Chega, Charlotte. – aos poucos, suas palavras que já tinham aberto uma ferida antiga das minhas lembranças, agora pareciam cutucar a lesão com vontade. Não me importei mais se estava sendo duro ou não – Essas coisas são proibidas, e eu sei que elas nunca deram, nem darão certo. Resumindo, eu não vou fazer isso. Você está se deixando levar pelo momento, pelo choque e pela dor de perder o seu irmão. Mas você ainda está viva, não está? Você apenas precisa superar isso, seguir em frente. Você vive por si mesma e não pelo seu irmão.
No início, ela me encarava em um misto de raiva, desespero e indignação, mas aos poucos parecia absorver cada palavra que eu lhe disse, e era como se ela caísse na real. Seus olhos tornaram a encher-se de lágrimas grossas que não tardaram a escorrer pelo seu rosto tão infantil.
- Charlotte – murmurei perdido quando ela escondeu o rosto nas próprias mãos, e seus ombros voltavam a se mexer em meio aos soluços. Então, de repente, ela me abraçou, enterrando a cabeça em meu ombro. Pisquei duas vezes, enrubescido e surpreso pela ação repentina, mas correspondi o abraço da garota. Era o mínimo que eu poderia fazer no momento. Não falei nada, por não ser preciso, e a abracei forte enquanto ela chorava copiosamente.
Na manhã seguinte, Alquimistas Federais foram chamados à tenda do Führer.
- Receio ter poupado demais as habilidades de vocês. É hora de agir. Não podemos nos submeter a tantas perdas, principalmente na artilharia. – disse o Führer – Preparem-se, pois o final disso dependerá das habilidades de vocês.
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2º ano, início de Setembro (três meses depois)
Podemos definir o final de tudo dessa maneira.
Quem olhava para a cidade do lugar onde o exército podia ver, pensava que eram apenas restos de uma cidade outrora branca e bela, que com o tempo foi abandonada, com as paredes já não mais cuidadas acumulando resíduos até escurecerem. Mas, óbvio que não era isso. As habilidades dos Alquimistas Federais – que, claro, eu era um deles – tinham começado a serem utilizadas em proporções destrutivas, como forma de corrigir um erro grave e poupar o exército de perdas como antes.
Mesmo assim, a cidade era extensa demais. E seus habitantes eram fortes e habilidosos; em três meses, eles conseguiram resistir a ponto de apenas duas áreas da cidade – norte e oeste – tinham sido destruídas e seus habitantes... Mortos.
Eu praticamente servia para transmutar armadilhas. Só recorria a assassinatos quando era atacado diretamente por alguém. Fazia com que eu me sentisse menos monstruoso do que já me sentia por todo aquele tempo naquela... Guerra? Não. Uma coisa daquelas não era uma guerra, era um massacre, um extermínio, porém não uma guerra. Uma coisa irregular daquelas não poderia receber esse nome.
Afinal, o que é uma guerra, se não um extermínio regular?
Um comando na infantaria foi organizado somente com os Alquimistas Federais. Tal comando tinha sido escoltado por mais três comandos de soldados comuns. Eram praticamente o que restava completamente ileso do ataque repentino três meses antes. E também, acreditavam que mais do que isso não seria preciso, "devido às grandes habilidades" diziam as pessoas. Será que esqueciam que éramos humanos também?
Seguimos marchando pelo norte extinto da cidade. O Coronel pegava pesado na hora de incendiar casas. Mas quem era eu para dizer isso? Depois de tudo o que eu tinha feito, não só como alquimista, mas como soldado, e como humano, eu não tinha moral alguma para falar do Coronel, ou de qualquer outra pessoa que estava ali.
Na verdade, não me restava humanidade o suficiente nem para retornar para casa. Eu era uma pessoa completamente marcada como um assassino. Tirava muitas vidas e, conforme o tempo passava aquilo se tornava apenas um ato impiedoso. Eu tinha encontrado a essência da guerra, mas não da forma que eu queria – e nem ao menos isso eu queria.
Porém, aquela guerra terminava para mim.
Segui correndo pelas ruas vastas da cidade, rifle na mão, porém também estava preparado para usar alquimia. Era seguido de perto por Charlotte. Nos meses que se passaram posteriormente à morte de Charles, a garota acabou por adotar uma postura calada e reclusa. Seus outrora admiráveis e determinados orbes verdes como as folhas das árvores saudáveis, agora pareciam recobertos por uma névoa de pesar e tristeza que escondiam o tão adorável e antigo brilho que realçava a infantilidade do seu rosto.
Ao dobrar em uma rua estreita, acabei me deparando com um homem munido de uma faca. Atirei assim que ele corria em minha direção, mas acabei errando. Então a adrenalina não tardou a tomar conta. O homem era muito rápido, e me atacou repentinamente, e apenas tive tempo de colocar a arma na frente e me proteger, mas acabei de mãos vazias. Apenas consegui sentir o pânico crescente. Esse é o verdadeiro medo da morte? Pensei. Tentei me afastar enquanto transmutava uma espada curta no automail.
Mas comparado a ele, eu era lento. Senti uma dor lancinante e intensa no lado esquerdo do corpo, acompanhado pelo calor do sangue que escorria fortemente, provocando náusea e tonturas fortes. Acabei caindo contra o chão, sentindo o estômago revirando.
Minha única salvação foi o som do disparo ensurdecedor de um rifle oriundo do começo da rua. O tiro foi seguido de gemidos roucos de dor, e o som de um corpo chocando-se contra o chão com força ainda mais intensa do que eu mesmo. Sem vida.
Mesmo assim, não me levantei. Não conseguia, então permaneci arfando com o rosto contra o chão frio. De início, cheguei a pensar que aquele ferimento, cuja extensão e profundidade eram de tamanhos desagradáveis de se pensar, me faria sangrar até a morte. Mas ouvi passos apressados se aproximando – Está tudo bem?! – era a voz de Charlotte, trêmula e intensa. Não respondi na hora, o que fez com que eu levasse um tapa forte na cabeça – Me responda, Ed! Está tudo bem?! ED!
O tapa me pegou de surpresa, fora um ato completamente inesperado. Levantei a cabeça do chão, com a intenção de resmungar e xingar, mas abandonei tais vontades ao ver seu rosto. Os olhos verdes estavam arregalados de preocupação e ligeiramente úmidos. Sorri sem graça – Não se preocupe – respondi, enquanto me esforçava para levantar com um pouco de dificuldade. Assim que consegui, respirei fundo várias vezes seguidas e tratei de esquecer a sensação de náusea que se fazia presente. Virei-me para Charlotte, escondendo qualquer indício de dores que eu realmente sentia – Vamos. Temos coisas para fazer.
Ainda agachada na posição em que estava quando tentava me reanimar, Charlotte concordou logo depois se erguendo também. Tentei com o meu máximo de resistência não demonstrar sinais de fraqueza; seriam preocupações desnecessárias para alguém que já passara por muito em menos de um ano de guerra – por ela ter chegado ao meu segundo ano, ou seja, aquele. E também, eu tinha o meu orgulho.
Caminhava ligeiramente manco e cambaleante, seguido e observado de perto pela minha amiga. Naquela rua estreita apenas podiam ser vistas janelas e muros brancos, nenhuma porta ou pessoa, o que apenas deixava como alternativa seguir até o fim da rua.
Mas a rua parecia não ter fim. Quando comecei a pensar que apareceria sua saída, ela começou a se estreitar cada vez mais. Até que se tornava praticamente claustrofóbico se manter ali. A luz do sol não conseguia mais esgueirar-se até o chão, deixando apenas a sombra fantasmagórica. O problema será se armarem emboscadas, pensei. Dependendo da proporção do número de pessoas, eu e ela não teremos chance. É preciso ser cuidadoso.
- Ed... Olhe – Charlotte sussurrou como se estivesse pensando na mesma coisa que eu. Olhei para o local onde seus dedos magros apontavam. Então, parei de caminhar bruscamente. Onde deveria ter o fim da rua apenas podia ser visto a junção de dois prédios formando um beco completamente sem saída. E bem onde parecia ser impossível de ter algo, podia ser vista...
... Uma única porta.
Eu não precisei olhar para ela para indicar que era lá que entraríamos. Talvez fosse tolice julgando o beco macabro, a única parte cinzenta de uma cidade onde o branco era predominantemente oficial. Mas não sabia o que nos esperava no início da viela estreita, e talvez atrás daquela porta estivessem pessoas, e que ambos sabíamos que nosso trabalho era matá-las, por mais selvagem e desumano que isso pareça para alguém e para nós mesmos.
Chutei a porta com selvageria. Uma casa decadente e bagunçada fora revelada. Mas o som de respirações externas podia ser ouvido, o que denunciava a presença de pessoas ali dentro, apenas esperando para atacar. Transmutei braços na parede, apenas para provocar e revelar o esconderijo.
O plano dera certo até aí. Charlotte atirou e eu usei alquimia, conseguindo abater três dos cinco homens presentes ali. O que ninguém pensou é que um dos homens teria uma bomba escondida. Na verdade, não teríamos tido nenhum dano, se não fosse pelo meu tosco ato de adentrar ao centro da casa, seguido por Charlotte que me dava cobertura. Se eu não tivesse feito isso, a bomba que explodira não teria feito o que aconteceu.
O som do estrondo causado pela explosão tinha sido ensurdecedor. Quase me senti arremessado para trás e caindo em meio a destroços, sentindo dores profundas nas pernas, no braço e no meu ferimento feito minutos antes. Era como ter a sensação de agulhas e cacos forçando passagem pela sua pele até o interior do corpo. A dor que eu senti não era nada, se comparada à agonia sentida quando eu ouvi um som de um choque forte contra a parede, semelhante ao de um ovo quebrando, porém muito mais alto e assustador. Tinha fechado meus olhos para evitar quaisquer acidentes graves, e assim que o som de desmoronamento cessava, os abri e olhei o resultado.
A parte onde eu e Charlotte entramos agora estava ao ar livre; um pedaço da parede tinha sido destruído, abrindo-se em um meio círculo que se esfarelava. Os móveis já decadentes tinham sido reduzidos a pó. Os homens aparentemente fugiram. Mas o que me intrigava era não enxergar o corpo de Charlotte em lugar algum.
- Droga – resmunguei, no mesmo lugar. Meu coração começou a pulsar ainda mais loucamente, e eu tentava me levantar. Porém, o esforço muscular das pernas fazia mais sangue jorrar. Mas ou aquilo, ou morrer ali, e acabar por Charlotte desaparecer de vez. Caminhei com dificuldade extrema, pois cada passo me enfraquecia cada vez mais. Porém, fui até uma parte mais ao lado, onde a pilha de destroços parecia um pouco volumosa demais por lá – Charlotte... Você está aí? – sussurrei enquanto me abaixava novamente e tentava afastar pedaços de pedra e lascas de madeira do caminho.
Eu estava certo em pensar que ela estaria ali; depois de um pouco de esforço, o corpo dela já era possível de ser visto. Acelerei a tarefa, fazendo mais sangue escorrer pelos meus braços e pernas, mas aquilo não me importava.
Desenterrei a garota, que se encontrava ilesa, porém parecia desacordada – Está me ouvindo?! – sentia medo. Medo de ter sido o culpado da morte de uma... amiga. Céus, talvez só naquela hora eu tivesse me dado conta do quanto ela tinha sido importante naquele curto tempo. Segurei seus ombros, sacudindo-a com o máximo de delicadeza que aquilo permitia – Charlotte! – gritei.
Seu rosto se retraía como se ela sonhasse com algo, os olhos ainda fechados – Mamãe... – murmurou com a voz embargada – Mamãe... É você? Veio me buscar, não é?
Não respondi nada. As coisas que ela murmurava faziam com que eu me lembrasse da minha própria mãe. Mas a dela também tinha morrido; de início, eu sentia pena. Mas, depois, ao realmente me dar conta das coisas que ela murmurava, ao ver os ferimentos e os olhos que teimavam em permanecer cerrados, senti uma dura tristeza crescente. Minhas mãos que ainda seguravam os ombros magros dela apertavam-se com força – Sua mãe não veio ainda, Charlotte – respondi engolindo em seco, temendo dizer algo forte demais para ela, afinal, eu não sabia o que tinha acontecido em meio à explosão. Tratei de logo erguer minha amiga dos destroços, mantendo-a sentada – Porque ainda não é a hora, entendeu? – voltei a dizer – Consegue se levantar? Abrir os olhos?
Suas pálpebras tremeram, revelando os seus olhos verdes distantes, confusos e estranhamente vazios – Ed? – perguntou sem olhar nos meus olhos, a voz soava em murmúrios roucos, quase sem som – Minha visão está distorcida, e às vezes fica tudo preto... – ela hesitou, mordendo o lábio com força – Eu não sinto nenhum braço ou perna, tudo... Dormente...
Olhei fixo no rosto ainda virado para os lados. Agora via que a confusão em seus olhos era causada pelas dificuldades de enxergar as coisas. Pelo menos, ela estava viva, e conseguia conversar, ainda que passasse por dificuldades para fazer isso. Mas já era o suficiente para que eu me sentisse um pouco mais aliviado. Porém... – Onde você se machucou para estar assim, Charlotte?
Ela tentou falar, mas a voz sequer saíra. Então, subiu o braço direito com dificuldade, dobrando os dedos da mão, exceto o indicador, e apontou para a parte de trás da própria cabeça.
Quase senti meu coração parar; aquilo era agonizantemente esclarecedor. Senti um arrepio percorrer a espinha ao me lembrar do som que eu tinha ouvido, algo se chocando contra a parede. Era a cabeça dela. Senti meu estômago embrulhar, e algo parecido com ânsia de vômito. Um choque daqueles poderia provocar uma morte lenta. Céus, por que eu não tinha perguntado antes?
Com o máximo de esforço que consegui fazer, me virei de costas para ela e a ajudei a se pendurar. Fazia questão de levá-la até o acampamento nas costas. Assim que a tarefa lenta tinha sido concluída, me levantei do chão. Senti mais sangue saindo dos cortes fundos das pernas e braços, pontadas fortes de dor corriam pelo meu corpo. A pressa me deixou tonto, mas caminhei até o buraco deixado na parede pela explosão.
Por sorte, o portão da entrada sul ficava exatamente ao lado do prédio destruído. O lugar estava completamente deserto, os sons de explosões eram distantes. Saí da cidade, indo para o meio das árvores que se estenderiam por trilhas infinitas até o acampamento.
A dor me consumia por completo. As calças, antes azuis, assumiram um tom de vinho por conta do sangue que saía sem parar. A mesma coisa ocorrera com os braços. Mas eu não parei de caminhar em momento algum. Não iria parar até que chegasse ao acampamento e Charlotte estivesse segura.
Por que eu me esforçava tanto para salvá-la? Isso era algo que nem eu mesmo sabia. Conhecia-a apenas durante um ano... Talvez eu inconscientemente tivesse me identificado com ela por causa da infância sem a mãe, e os problemas que enfrentara.
O sangue perdido começava a trazer suas conseqüências muito negativas; eu sentia a tontura e o cansaço do corpo, causados pela quantidade insuficiente de sangue nas veias. Arfava em exaustão, meus passos ficavam cada vez mais irregulares e cambaleantes, me sentia enjoado. Mas não parei.
Senti algo apertando fracamente minhas roupas – Ed – Charlotte sussurrou - Não se force desse jeito, você não precisa fazer isso. Me deixe aqui... Eu quero dormir...
Continuei seguindo em frente, arfando – Você... – tentei dizer, dando mais um passo mecânico à frente – Não... Pode... Dormir... Ainda. Aguente até chegarmos lá.
- Seu idiota – ela respondeu – Esqueça isso, Ed. Eu não tenho mais chances – seu escasso tom de voz se alterou, triste – O único que está tendo que aguentar algo é você. Eu não tenho ânsia por viver. Eu perdi tudo; minha mãe, meu pai, meu irmão e agora perderei a vida. Eu me sinto cansada... Quero ficar aqui.
Minha paciência chegava ao limite. Parei de caminhar – Você não vai morrer aqui! – gritei com o pouco de energia que eu tinha – Você disse que seguiria em frente depois da morte de seu irmão. Eu acreditei em você e disse que estaria ao seu lado para lhe ajudar. Será que isso que você disse estava na sua cabeça durante os três meses que se passaram? Viva por aquilo que você deixou de ter. Talvez esse esforço que eu estou fazendo seja desnecessário, mas é porque eu acredito que você vai ficar bem. E, além do mais, com quem eu poderia conversar aqui se você morresse? Não durma ainda. Não faça isso comigo, nem com você mesma. Nós já vamos chegar, eu lhe prometo.
- Ed... – ela murmurou. Ignorei ao notar algo ao longe. Ao voltar a rastejar pela mata, um homem maltrapilho surgira de trás de uma árvore. Ferimentos também tinham presença constante em seu corpo, e ele segurava o rifle apontado para mim com mãos trêmulas.
Não havia tempo para nada.
Tentei usar alquimia para reagir, mas meu corpo estava lento pela fadiga e pela falta de sangue. Antes mesmo do som do disparo se propagar, senti a dor intensa do impacto da bala ao lado do meu corpo.
Gritei de dor. Senti minha visão falhando, minhas pernas cedendo, e logo depois tombei de lado, derrubando Charlotte. Minha consciência quase perdida.
- Aguente firme... – a voz fraca e sufocada de Charlotte tinha sido a última coisa que meus ouvidos captaram.
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Vozes, murmúrios, sussurros, respirações, passos. No abismo profundo da inconsciência, eu ainda era capaz de ouvir todos esses sons. Sentia o toque delicado de mãos nos meus braços e pernas, sentia que alguma coisa era puxada para fora, mas não sentia a dor. Outra mão pousou em meu rosto.
- Ele ainda está vivo? – uma voz masculina fora captada pelos meus ouvidos. Era apenas masculina; não havia detalhes reconhecíveis.
- Sim, embora esteja febril – dessa vez, uma mulher falava – Não conseguimos remover todos os estilhaços, nem a bala. Ele não poderá mais lutar. Voltará para a Central hoje mesmo.
Para mim, qualquer coisa que falavam era completamente vazia. Mas como se houvesse algum sentido, aquela frase fora capaz de me fazer abrir os olhos. Despertei para uma realidade quase inexistente para alguém no meu estado; sentia que estava deitado em uma cama macia, meus braços e pernas enfaixados, dentro de uma tenda enorme e algumas pessoas à minha volta, entre eles, o próprio Coronel.
- Por que eu estou aqui? – perguntei pausadamente, sentindo a luz fantasmagórica do crepúsculo entrando entre a lona da tenda. Sentia suor escorrendo do meu corpo, e dores fortes começavam a vir.
- Encontramos você e uma garota no caminho de volta – a mulher ainda estava com a mão no meu rosto, antes sorria, mas depois de tocar no assunto seu rosto assumiu uma expressão séria – Ela foi mandada imediatamente para a Central, tinha uma hemorragia interna em sua cabeça. Está com alto risco de vida, ainda mais alto é o risco de ter seqüelas se sobreviver.
Suspirei da forma que consegui – Entendo. – respondi – E o que vai acontecer comigo?
O som de passos se aproximando; o Coronel parou mais próximo de mim, e me olhava com um sorriso formal – Parece estranho dizer algo assim, mas você tem sorte de ter levado esse tiro, Fullmetal – disse – Se não fosse por ele, você não seria mandado de volta. Mas agora, está liberado para voltar. Quer esperar até amanhã, ou partir agora.
Uma luz? Não. Uma salvação? Também não. Sabia que não tinha me sentido alegre ao ouvir a notícia. De início eu nem ao menos acreditei, e continuei parado ali, olhando com desinteresse total para o teto de lona. Estavam me enganando, só podia. Não me imaginava voltando vivo daquele inferno. Era como o paraíso? Claro que não, essas coisas não existiam. Mas era um verdadeiro alívio.
Eu estava voltando para casa.
Olhei para o braço do automail, lembrando dos rostos das pessoas que eu reencontraria. Aquilo me dera forças para responder – Quero ir agora mesmo.
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Mas aquela alegria duraria pouco. Aos poucos, o peso das mortes que eu tinha sido culpado aumentava, e a preocupação também. Eu me dava conta de como tinha sido impiedoso, de como eu era um demônio.
Ao ir para o inferno, voltamos com ele dentro do coração.
Quando voltei para a Central, estava em um hospital militar, que ficava próximo ao quartel. Lá, perguntei por Charlotte, já um tanto temeroso do que receberia.
Mas ela não resistiu. Teve morte cerebral que a levou ao óbito tempos depois. Ela tinha morrido, assim como o irmão, assim como o pai, assim como a mãe.
Recebi uma carta da Winry. Logo após ler, rasguei a carta. Não era por ódio, não era por repulsa, não era por raiva. Apenas porque as coisas teriam de ser diferentes.
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Oi gente!
Eu sei que eu tinha prometido para uns dias atrás, mas é que eu tive que cuidar do cachorro doente ç_ç ele já tá bem rs
Espero que gostem!
bjbj
