Capítulo 11 – A Compreensão de Ambos

Voltar no tempo. Regredir para crescer novamente e de outra forma. Uma proposta tentadora! Ao mesmo tempo tenebrosa e oscilante, pois o que será modificado pode ser para pior, imprevisível. Ainda assim sedutora, para que os mais corajosos vão em frente e tentem alterar o passado conturbado.

Tentador, imprevisível e incorreto. Voltar no tempo e mudar suas ações não é nada diferente de fugir dos caminhos escolhidos. Mas o mundo poderia abrir exceções quando as escolhas feitas são tão tristes, e redondamente erradas.

Não é, Edward?

Pelo olhar consumido pela algidez das lembranças, ao mesmo tempo vazio pelos arrependimentos era visto o desejo desesperançado de voltar no tempo e corrigir erros passados do zero. Aquele mesmo desejo me tomava. Aquela mesma vontade predominava no coração de todos os que passavam pela mesma coisa.

O problema se repetia... O que fazer, quando não se pode fazer nada? O que fazer, quando seguir em frente se torna algo digno de medo?

E o que levaria uma pessoa a ter medo? E do que ela teria? De si mesma. De seus próprios atos, e das conseqüências causadas por ela. Esse medo é traiçoeiro; aparece quando os tempos se tornam pacíficos, ou quase nessa hora. Culpa do instinto, que se torna uma justificativa para matar no campo de batalha, por mais dúbia e inumana que ela lhe pareça. Mas então se dá conta do que fez a outras pessoas, e do que se tornou ao fazer isso com elas. A insegurança sobre a própria identidade acaba por tomar conta de pensamentos já perturbados. Tal insegurança segue ostentada por emoções negativas, terror, choque, frustração, traumas e mais pensamentos, dessa vez maldosos, que caminham eternamente ao lado de seu corpo marcado. É nessa hora que a pessoa volta a sentir medo. Segue com tentativas de apagar tudo da mente, não importando os meios. E não vê como sentir pena de sua própria consciência que acaba pesando de forma enlouquecedora. Porque eu fiz isso, não há volta, ela pensa.

Perguntava-me se era aquilo que passava pela cabeça de Edward, que parecia até mesmo receoso de me olhar nos olhos.

- Sabe, Ed... – murmurei para a silhueta sentada no sofá à minha frente. Mordi o lábio, hesitando, com medo de feri-lo de alguma forma – Você está com medo...?

Vi a mão humana de Edward tremer em reação à pergunta que eu tinha feito. Pensei em dizer para que ele ignorasse a pergunta, arrependida. Mas não; nesse caso, eu estaria fugindo da possibilidade de fazê-lo ver seus atos de outra forma. Ainda assim, estava demorando; deixei de contemplar o dourado apagado quando ele baixou a cabeça, fitando o chão. Sentia uma vontade enorme de abraçá-lo, erguê-lo, pois apenas vê-lo em um estado tão deplorável e tão diferente do habitual era quase uma tortura para mim. Imaginava como estava sendo para ele.

O suspiro pesado me trouxe de volta dos meus devaneios. Voltei minha atenção para Edward, que voltara a erguer o semblante carregado – Winry... – o sussurro era quase inaudível – Eu não estou... – parou por um momento, arriscando-se em olhar nos meus olhos - Espere, eu não posso mentir para você. Não mais.

Parou, respirando fundo. Dei um único passo em sua direção, incentivando-o a continuar. Então, aos poucos, ele cedeu à vontade de expulsar uma frustração reprimida. Levou as mãos à cabeça, tremendo – Eu estou... Com medo. Com muito medo... Das coisas que fui capaz de fazer naquele inferno... – respondeu, mergulhando em desespero, presente na voz e no corpo oscilante.

Ao ir para o inferno, voltamos com ele dentro do coração. Assim retorna aquele que mata centenas e escapa ainda sadio. É justo? Não. Nada é justo. A vida é injusta. Porém, pensar em justiça e injustiça é uma coisa indefinida; nenhum dos dois termos é realmente alcançado pelo humano.

Talvez fosse por isso que eu discordava daquele murmúrio torturado de Edward.

- Eu sei, Ed – respondi – Eu sei... Mas você não pode se deixar levar por esse medo; você não pode ceder ao pensamento de justiça, precisa se erguer e seguir em frente. – minha voz falhava conforme eu proferia aquelas palavras, minha garganta atava-se em um nó que apenas se dissiparia quando lágrimas corressem pelo meu rosto – Não tente abandonar a sua família como você quase fez, Ed. Não esqueça daqueles que prezam por você.

- Você sabe que não era a minha intenção abandonar vocês! – ergui o olhar, assustada com sua exclamação repentina. Edward não me olhava, pelo contrário, parecia querer hipnotizar o chão abaixo dele – Eu tentei... Proteger vocês. Foi só por isso.

Proteger. Guardar, prezar por algo. Edward sempre fora super protetor, embora escondesse sua preocupação por trás de uma gentileza rude. Porém era ele que precisava ser protegido. De suas próprias emoções, de sua própria forma de pensar.

- É agora que eu pergunto, Edward – será que eu era a exagerada e impulsiva naquela história? Ele estava me provando ser mais – Proteger-nos de quê? Por acaso aconteceu algo que poderia nos ameaçar? Você escondeu algo de mim enquanto contou suas lembranças?

A neblina graúda de pensamentos e emoções que parecia tomar conta de mim, também estava minando Edward. Seu corpo prolixo envolve as pessoas em suas camadas turvas e dificulta a visão. Até que a seguir tome conta de todos, e acabamos sucumbindo no precipício da confusão dentro de nossa própria mente.

Deixou-se cair sentado no sofá novamente, como se ainda pensasse no que eu tinha dito. Não senti pena, porém não fiquei indiferente ao ver a silhueta enfraquecida, que parecia carregar o enorme peso das conseqüências de seus atos nas costas. A capa rubra, ainda úmida por causa da chuva, parecia pesar ainda mais. Lembrava sangue, lembrava medo, lembrava dúvida, lembrava ruptura.

Ostentava o olhar distante, sem me encarar. Antes que eu mesma me desse conta já estava me aproximando do sofá. Fui me aproximando o mais lentamente possível, e acabei me sentando ali, ao lado dele. Ergui a mão direita com o intuito de despi-lo da capa vermelha e molhada, mas fui impedida por sua mão humana – Proteger vocês de mim. – ele respondeu, colocando minha mão em meu próprio colo com delicadeza – Proteger vocês de um assassino. Não. De um monstro.

Minha primeira reação com a resposta tinha sido o choque. Mas tal não era pela denúncia falha de que era um assassino, e sim pelo que ele se considerava. Inclinei-me para mais perto dele – Você fala como se fosse fazer algo contra nós – retruquei – Não se deixe cegar pelos seus sentimentos negativos, Edward. Não há porque você fazer isso.

Nenhum de nós dois disse algo a mais; o silêncio prevaleceu durante um minuto. Era como se o mundo desse um minuto de calma, porém um minuto de reflexão para nós dois. Fechei os olhos e me mantive calada, mordendo o lábio inferior como uma forma de distração. Apenas pensava. Sonhava com o passado distante onde tudo poderia parecer perfeito, onde nenhuma dessas coisas estava prevista. Sonhava com a felicidade que eu sentia quando contemplava Ed e Al aproximando-se da minha casa, prometendo descansar por um mês inteiro. Descansar? Não. Sofrer. Apenas isso.

Era apenas um sonho. Era extremamente irônico pensar em um período sem quaisquer preocupações. Apenas a menção disso em minha mente já era necessária para que eu conseguisse captar o som de risos sarcásticos, vindos do meu subconsciente.

Mas nada impede de se realizar tamanha utopia. Sorri um pouco, e abri os olhos, me deparando com o olhar do próprio Edward sobre o meu. Segurei o rosto dele, fazendo com que continuasse daquela forma – Não há como proteger a nós de você mesmo, Ed. – disse – Não há porque, você não é um assassino. E você não fará nada.

Não sabia, mesmo assim, se tinha dito o certo. Sabia que no fundo estava sendo hipócrita, que existiam razões piores para ele se afastar. Pelo menos, era algo que abrangia Alphonse e o próprio Edward; pelo menos não era mais uma maneira egoísta que eu tinha de ver as coisas.

- Winry, você sabe que isso... – ele começou, mas eu não iria deixar.

- Não é só por isso, Edward – não me contive, mordendo o lábio novamente – De que adianta me proteger e ao seu irmão, se isso só nos faria sofrer?! Sei muito bem que você tratou de não nos avisar da sua volta, afinal, eu descobri por Gracia, uma semana depois. Você acha que esconder a verdade dessa forma, quase mentindo que estava morto, vai ajudar em qualquer coisa? – minha voz embargava, sabia que lágrimas não tardariam a rolar pela minha face - Pois saiba que não vai. Você só me faria sofrer. Você só faria Alphonse sofrer. Você também sofreria, e se puniria por isso.

Sofrer. A escolha errada da palavra. Aos poucos me arrependia de abrir a boca para falar algo. Qual era o tão importante papel que eu tive nessa história para falar de sofrimento? – Sofrer... – murmurei vagamente, afastando minha mão que ainda pousava na face mórbida de Edward – Você em dois anos acabou passando por coisas piores do que isso. Desculpe.

Parecia que cada palavra dita dilatava impiedosamente aquele abismo que se formava entre nós. Aquele precipício agonizante do qual eu queria me livrar. O mesmo precipício que crescia dentro de mim com tanta pressão e grandeza, que parecia próximo de me dividir ao meio.

- Não, Winry – Edward me fazia voltar minha atenção para ele – O que você disse antes... É verdade, e eu sempre soube disso. Eu fui rude com você porque era preciso. Afinal, quem gostaria de viver ao lado de alguém que matou centenas de pessoas? Isso é injusto.

Uma sensação estranha tomava conta do meu peito. Era como se ele inchasse e doesse, como se aquelas palavras me ferissem. Fechei o punho e fitei o chão tristemente, com aquele mesmo sentimento fazendo sua presença constante – Eu gostaria de viver ao seu lado – murmurei de forma quase impossível de se ouvir. – Eu gostaria de poder ter você e Al do meu lado, nós três, juntos, sem nenhuma preocupação, apenas retomando nossas vidas normais. Essa é a única coisa pela qual me permito sofrer... Embora seja um pensamento levemente egoísta.

- Você viveria ao meu lado? – o tom de voz descrente me feriu. Era como se fosse desacreditada por ele. Se antes já tinha dito aquilo sem encará-lo, agora temia encontrar uma expressão irônica no semblante. Mas senti sua mão receosa em meu ombro e me voltei para ele – Ao lado de um assassino?

Apenas dei um suspiro pesado – Somente você não confia em si mesmo, Ed – ele me olhou de forma ainda mais penetrante; o eclipse que inibia o sol dourado de seus olhos ainda estava presente, mas deslocava-se. Aos poucos, senti a vivacidade daqueles olhos me invadir – Assassino? Eu não viveria ao lado de um assassino. Eu não acordaria todos os dias e diria: "Bom dia!" a um assassino! Todas essas coisas eu faria... À pessoa que eu mais amo. Eu viveria ao lado da pessoa que eu mais amo, apenas isso.

Sorri tristemente, enrubescendo da mesma forma que acontecia dois anos antes. As coisas podiam ser diferentes. E eu faria de tudo para que elas fossem da melhor forma possível. Se fosse preciso gritar, eu gritaria. Se fosse preciso chorar, eu choraria. Se fosse preciso abraçar, eu abraçaria. E quando não precisasse, eu abraçaria mesmo assim.

Sentia falta dos velhos tempos. Segurei a mão de Edward, que ainda me encarava calado. Senti meu coração bater mais forte, e lágrimas desceram pelo meu rosto.

Apenas duas.

Apertei a mão dele com força – Você seguiu ordens, apenas. – murmurei com a voz embargada – Será um assassino enquanto pensar assim. Para mim, você é Edward Elric, nascido em Rizempool, o meu querido Ed.

Seria realmente apenas um sonho pensar em tempos pacíficos?

- Winry... – a voz dele soava rouca. Olhei para Edward, que baixara a cabeça novamente, mas estava de frente para mim – Eu... Também quero isso.

Depois daquelas tristes palavras, fui puxada repentinamente para um abraço apertado.

Percebi o quanto tinha sentido falta daquela proteção que eles me passavam. Mas agora era uma proteção frágil, como se necessitasse de alento. Aquele ato era o que mais me fazia feliz em dois anos agonizando pela provável perda de Edward para sempre. Correspondi com toda a força que tinha naquele momento. Mais lágrimas corriam pelo meu rosto. Lágrimas de felicidade.

- Eu não sei o quanto deve ter sido difícil para você, Ed – saí do abraço e segurei seu rosto – Difícil, na verdade, é pouco para se falar. Mas o que eu quero dizer é que você não pode ficar reprimindo tudo dentro de si. Você pode me contar tudo... Ou pode chorar, se quiser colocar sua frustração para fora dessa forma.

Houve uma pausa em palavras e reações. Olhei para ele, incentivando-o. Ele me olhou de volta; seus olhos diziam aquilo que ele temia verbalizar. Seus olhos transmitiam o verdadeiro medo de sua alma. Sorri de leve.

Edward, por sua vez, baixou a cabeça. Não pude mais ver aquele filme de emoções dos orbes dourados. Parecia que ainda assim, Edward era orgulhoso... Ou não confiava em mim.

Mas logo depois ele ergueu a cabeça. Pude ver lágrimas em seu rosto.

Apenas duas.

Limpei a lágrima da sua face com a mão. Não pensei que ele faria aquilo, não pensei que ele me obedeceria. Mas Edward o fez. Novamente, precisava abraçar aquela criatura, e sabia que ele também precisava disso.

- Não tenha medo – murmurei em seu ouvido, como se falasse com uma criancinha – Não tenha medo de si, não tenha medo de demonstrar suas emoções, não tente agir de forma tão precipitada... Eu vou te ajudar, certo? Todos nós vamos.

Senti que ele me apertava com mais força – Obrigado – sussurrou.

Uma sensação de paz... Era como se fosse o fim daquela época conturbada, como se apenas precisasse retornar para Rizempool com Ed e Al e viver na merecida tranqüilidade. Mas eu não podia me iludir; aquele pequeno sonho teria que esperar um pouco.

Mas no final, não é um sonho. É um objetivo a ser alcançado.

- Não, Ed. – respondi calmamente – Eu... Eu é que tenho que lhe agradecer. Já devo ter dito a você que não vim até aqui para pedir desculpas, mas sim para dizer que sei o quanto fui egoísta naquele dia...

O som da porta abrindo rapidamente me impedira de terminar – Nii-san! – o enorme corpo da armadura adentrou o quarto de hotel e parou ao me ver – Winry?! Quando você chegou...?

Sorri de leve – Olá, Al – cumprimentei com um aceno tímido – Faz algumas poucas horas que estou aqui, mas o que aconteceu? Você entrou tão rápido...

- Não é nada de muito importante – respondeu gentilmente – Mas é uma coisa que o Nii-san precisa ver. E saber. Temos que ir até o quartel.

Edward levantou-se do sofá ao meu lado – É algo importante? – pronunciou-se pela primeira vez desde que Al chegara. Por sua vez, a armadura respondera um simples "sim".

Uma sensação estranha me invadiu. Senti medo; não sabia o que era e no que poderia resultar. Edward começava a se mobilizar para ir ao quartel. Trinquei os dentes e postei-me à frente da porta antes de dizer:

- Eu vou junto.

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Estou na fase de adaptação às aulas. Ainda não me acostumei totalmente a acordar cedo, e tive que fazer trabalhos e provas logo nas primeiras semanas... Resumindo? Não tive tanto tempo para escrever, e nem muitas ideias. Esse capítulo não ficou o que eu esperava, realmente. Mas pretendo melhorar no 12, me sinto renovada agora, e me esforçarei para compensar a demora e ao cap razoável.

Mesmo assim, espero que tenham gostado :T o suficiente para me acompanharem nos próximos caps, os meus preferidos da fic (ela vai ter 18 caps, heeeee)

Obrigada por lerem =D

PRÓXIMO CAP: 12 - Linha de Chegada (amanhã postarei um spoiler no meu ~~blog poético~~, o link para ele tá lá no meu ~~quem sou eu~~ do heeee :D)