Tão fantasiosos são os sonhos, tão tenebrosos são os pesadelos.
Mas não era uma fantasia tenebrosa que predominava nas mentes e corações, nem na realidade. O que estava presente, nada mais era do que uma intensa sensação de tranquilidade, de deveres cumpridos, uma paz que adentrava pelos corpos e tornava suas respirações uniformes. Tranquilo demais para se sentir agitado.
As sensações e os sentimentos afloravam. Cabia à própria pessoa interpretá-las da maneira que lhe parecesse melhor para aquela situação; tamanho repouso nos graves acontecimentos seria o sinal de novos tempos, ou a calmaria que está para anteceder violenta tempestade?
Para mim, era apenas um tempo feliz.
Um eufórico tempo de sorrisos sinceros, de corações feridos, porém cicatrizados. Aquilo que eu tanto ansiava, que eu tanto buscava, agora se encontrava à minha frente, esperando para que eu agisse. E eu agia, de certa forma.
Era um tanto animador ver que as mudanças não eram apenas ilusões criadas pela fantasia de um sonho. O tempo passava, e aqueles que dessa passagem necessitavam para qualquer coisa, mudavam. Meus lábios se abriam em um sorriso ao contemplar a animação que emergia vagamente de um semblante outrora recluso, ao ver o quente sol surgir detrás das nuvens de agonia que antes o mantinham escondido. Ao notar o retorno tão natural dos velhos tempos de dois anos antes.
Assim era aquela paz que nascia.
Lágrimas eram lentamente esquecidas, e coisas como o som de um riso tornavam-se mais facilmente ouvidas e menos forçadas. Meu coração acelerava ao som baixo daquele mesmo riso descontraído que fora captado pelos meus ouvidos anos antes. Assim era, uma paz recém-nascida. Mas o que tornava tais momentos tranqüilos tão gratificantes, era o fato de que eles foram conquistados após uma passagem pela conturbada tormenta causada pela guerra, em nossos corações feridos, mas que já cicatrizavam. Era como zombar do medo e da angústia antes tão fortes e quase onipresentes.
Afinal, a felicidade, quem não deseja?
Espreguicei-me no sofá, no alto da manhã ensolarada que me fizera acordar há pouco tempo. Mesmo com o sol, era frio, por conta do avanço daquele outono; esfreguei minhas mãos frias tentando aquecê-las. Ninguém falava. Edward lia um livro deitado na cama que estava no canto, Alphonse folheava um jornal ao meu lado, e eu apenas contemplava a rua pela janela do quarto do hotel.
Ouviu-se o som da página sendo virada e uma exclamação de Al – Ei, Nii-san, olhe isso! – exclamou de repente.
Ed erguia o olhar do livro, e logo depois o fechou. Aproximou-se do sofá, e eu me aproximei mais do enorme corpanzil da armadura para ler a reportagem:
Mais um assassinato nos arredores do leste de Amestris.
Nos últimos dias, cidades do extremo leste do país sofreram diversas ocorrências estranhas. Entre elas, os possíveis atos de um assassino em série. A polícia encontrou, ontem à tarde, o corpo da menina Marie Bennet, de 16 anos. O corpo jazia em um beco escuro, e apresentava cortes cruzados em toda a sua extensão. Segundo os pais Jennifer e Henry Bennet, a garota não dava notícias há mais de cinco dias.
A preocupação dos outros habitantes da cidade com os recentes acontecimentos mobilizou tanto a polícia local como os próprios militares. Para precaução de novos assassinatos não é mais permitido transitar pelas ruas à noite, onde a maior parte das mortes aparentemente ocorreu. Também, foram proibidos turistas nas cidades do leste do país como forma de proteger às pessoas de fora. Dessa regra excluem-se pessoas ligadas à polícia, a serviços de investigação ou militares.
O corpo de Marie Bennet será enterrado provavelmente hoje à tarde em um cemitério local. Os familiares e amigos preferiram se manter em silêncio e estão muito abalados com a morte da garota.
- O leste – Alphonse murmurou pausadamente – É um lugar um tanto movimentado.
Fiquei em silêncio, sentindo um estranho medo dentro de mim. Não era a primeira, nem a segunda vez que uma notícia como aquela vinha parar em jornais. Engoli em seco, ao imaginar um corpo sem vida estirado e esquecido em uma viela escura, senti-me culpada por estar tão tranqüila e ao mesmo tempo me preocupava que a zona perigosa crescesse e mais pessoas sofressem.
Olhei para Al, que não poderia transparecer emoções, mas que eu tinha ciência de que estava um tanto alarmado. Depois vi Edward no outro lado da armadura, o semblante fechado em uma expressão séria e vacilante no dourado preocupado de seus olhos.
Tentei dar um sorriso leve – Mas tenho certeza de que a polícia descobrirá o assassino. – tentei dizer, olhando para ambos, e fazendo a atenção deles voltar-se para mim – Vai dar tudo certo, estou confiante disso.
- É o que eu espero. – Alphonse respondeu. Ed não disse nada, mas pelo menos o vi sorrir sem muita emoção. Considerei que já fosse o suficiente.
Às vezes eu acabava por admitir que aquele senso de heroísmo e desejo de sempre proteger a todos que Ed tanto defendia era algo realmente irritante. Era um sentimento bom, porém uma causa inatingível. Era algo que eu realmente não queria que existisse, porque era algo que apenas o atormentava e que fazia com que ele regredisse em sua evolução, mostrasse uma face preocupada e decepcionada com si mesma e escondesse pensamentos sombrios na mente, isso, a todo infortúnio visto por seus olhos e captado pelos seus ouvidos. Ao mesmo tempo eu sabia que tudo aquilo era, por mais que me parecesse irritantemente repetitivo, reflexos da guerra se manifestando. A cada coisa que via, percebia a verdadeira amplitude das conseqüências que os conflitos trouxeram no comportamento do Edward. E parecia algo ainda mais repetitivo quando eu via que tudo isso levava à mesma justificativa: ele precisava de tempo para se recuperar daquele trauma.
No silêncio que seguiu posterior ao fim da leitura daquela reportagem, Edward voltou à cama no canto do quarto e prosseguira com a leitura. Al se levantou do sofá e me entregou o jornal – Vou ver uma coisa na recepção e já volto, certo? – avisou enquanto caminhava até a porta.
- Tudo bem – murmurei antes que ele saísse. Após o som da porta ao fechar restara apenas um desconfortante silêncio absoluto. Resolvi por fim, ler o jornal que estava em minhas mãos para esquecer aquilo tudo. Embora fizesse isso, não deixei de me perguntar por que Alphonse teria ido à recepção.
Do canto onde Edward lia, ouvi um pequeno resmungo – A propósito, Winry – olhei para ele, que largava novamente o livro ao lado e me encarava com seriedade – Você... Vai ficar na Central por muito tempo? Afinal... Não parece que você tenha algo tão importante a fazer aqui.
De início interpretei tais frases como uma deixa para que eu retornasse para Rizempool. Quase me senti ofendida com as palavras de Ed, mas resolvi pensar nelas de forma diferente. O jornal que repousava, novamente abandonado em minhas mãos, fora largado na mesa de centro, e eu voltei a olhar para Edward calmamente – Na verdade, creio eu, estar fazendo algo importante por aqui. – respondi. Os olhos ambarinos se fixaram ainda mais em mim, curiosos, cuja expressão me fazia sorrir – Sabe, Ed... Pretendo ficar na Central pelo tempo que achar suficiente para encontrar em seu rosto, seus olhos e seu coração, a mesma determinação e força que você tinha há dois anos.
Como esperado, minha resposta arrancou de seu semblante a expressão séria e colocou no lugar uma face surpresa. Seus lábios se abriam para proferir alguma palavra, mas que ele logo desistira de dizer.
Desviei meu olhar à janela por onde o sol da manhã se esgueirava, suspirando longamente – Preciso confessar que grande parte da minha estada aqui também é porque... Eu me sinto bem, mais tranqüila perto de você e do Al – murmurei. Nessas horas eu era capaz de perceber o tanto de coisas que eu me esquecia de dizer, e o outro tanto de coisas que eu repetia. Fechei os olhos ao continuar – Mas a minha prioridade é ver você feliz de verdade, Ed. Sinto falta disso. Também sentia muita falta do seu sorriso, de ver você rindo descontraidamente, do calor de um abraço... Mas principalmente de um Edward vivo como aquele que tinha 15 anos.
Ed levantara repentinamente da cama, a face novamente séria ao se aproximar do sofá. Sentia naquele ato a notável inversão dos fatos; uma semana antes, quem se aproximava dele daquela mesma forma era eu.
Ainda em silêncio total, Edward acomodara-se ao meu lado no sofá, olhando para frente. Senti um misto de confusão e uma agitação crescente no peito. Os orbes dourados de Edward então se voltaram para os meus – Por que você quer aquele Edward de 15 anos de volta? – perguntou inexpressivamente.
Desviei meu olhar para a mesa de centro – Porque aquele era um Edward cheio de si – respondi – Era um Edward mais feliz, mais despreocupado, mais confiante. São essas e mais qualidades que você ainda tem que eu admiro em você. O problema é que agora estamos voltando de tempos corridos e conturbados, nos quais seus olhos pararam de brilhar com a mesma intensidade. Sinto que você está tão perto, mas tão longe de mim, e isso me machuca, me preocupa, me entristece. E parece que eu não estou conseguindo fazer o que queria da forma que eu queria.
Edward não respondeu, pelo menos não com palavras, nem imediatamente. Evitei voltar a olhar pra ele, mas me assustei de leve ao sentir sua mão levantando meu queixo e me fazendo contemplar um dourado cheio de intensidade de seus olhos, digno de enrubescer-se ao senti-lo penetrar a mente pelos meus próprios orbes azuis.
- Se o que você quer é me animar, me deixar mais feliz, você está sim tendo êxito, Winry – dissera – Eu me sinto cada dia melhor, eu não subestimei tudo o que você já me disse. Muito pelo contrário. Mas se você quer tanto que eu supere tudo isso, continue estando ao meu lado, seja um pouco mais otimista e não me subestime tanto. – seus lábios esboçaram um sorriso – Eu estou, nesse momento... Feliz. Mas poderia estar melhor.
Acompanhei o seu sorriso e devolvi seu olhar intenso – Eu sei disso – mordi o lábio.
- Agora... – a voz dele soara receosa. Olhou para o lado, como que calculando o próximo passo. Quando pensei em falar algo, seu braço esquerdo enlaçou minha cintura e me puxou para perto. Meu coração batia descompassado e ambas as faces, minha e dele, estavam completamente coradas. Senti sua respiração alterada em meu rosto, a distância já curta sendo totalmente cessada, e depois tudo parava com o toque dos lábios.
Fechei os olhos e me entreguei àquele momento que me dei conta fazer mais falta do que me lembrava. Mas algo naquele beijo fazia com que parecesse o primeiro. Talvez a saudade que ele ostentava e a que dele eu sentia, a nostalgia causada por estar nos braços de Edward, tão acolhida, tão aquecida, tão intensa. A vontade de permanecer daquela forma para sempre.
Sentia em seu toque as palavras que Edward tanto tentava dizer, porém não conseguia passar em palavras. A mão metálica segurava a minha cintura e a mão esquerda, que antes fazia isso, subira para minha nuca e ali segurava com força.
Quando a necessidade de respirar se manifestou, me afastei dele, arfando, surpresa ao mesmo tempo em que eufórica. Senti os lábios dele em meu ombro e depois disso um abraço apertado – Melhorou – sussurrou em meu ouvido, rindo de leve
Acompanhei-o em seu riso, e correspondi o abraço com força. Naquela hora, olhei para a porta e me perguntei distraidamente por que Al estava demorando tanto para voltar da recepção.
Era como se nenhum terror passado tivesse realmente acontecido, era como se eu realmente voltasse dois anos naquele tempo traiçoeiro. Às vezes era um tanto estupenda a velocidade com que as coisas passavam de boas para ruins, e para boas de novo.
Eu me sentia verdadeiramente feliz.
E assim prossegue as coisas, continuamente seguindo o rumo que provavelmente teria sido escrito pelo tão incerto destino. Algo imaginado tão repentinamente por nós, já diz muita coisa. E talvez por ironia desse mesmo destino, conforme os dias tornavam a passar da mesma forma, voltaram a ser nublados. Mais cinco jovens foram encontradas mortas no leste. Uma rotina aterrorizante ao mesmo tempo em que era... Completamente previsível.
Todavia, por mais monstruoso que pareça, meu pequeno manifesto egoísta fazia com que aquilo apenas me trouxesse tranqüilidade e felicidade. Pois finalmente via que o momento que eu tanto desejava a chegada apenas contava os segundos para começar: o momento em que Edward realmente já teria superado aquelas lembranças e pensamentos que o atormentavam, o momento em que ele estaria realmente feliz. E que eu poderia me sentir ainda melhor perto dele e do irmão mais novo. Pelo menos era isso que se passava animadamente pela minha imaginação.
Às vezes apenas é preciso dar tempo ao tempo.
E damos. Encontramos um lugar imaginário em nossa mente, onde permanecemos, cruzando os braços irreais da consciência e esperamos a também irreal personificação do tempo passar por ali, para que então pudéssemos seguir em frente nosso próprio caminho.
Quando esperamos pacientemente pelo resultado... Dessa mesma espera. Bom ou ruim? O tempo está à frente e irá nos dizer.
Naquela tarde – apenas aparente tarde triste e cinzenta, estava sozinha no quarto do hotel, admirando a combinação incolor dos prédios da Central e do infinito céu nublado. A brisa fria prosseguia sua tarefa de esgueirar-se pelas frestas do quarto. Ao contrário do frio vazio, aquilo me era apenas agradavelmente refrescante.
O som da porta rangendo me fizera parar de observar a rua. Virei-me para encarar aquele que adentrava o quarto – Estou de volta – disse Al, fechando a porta. Sorri em resposta, tola ao pensar que Edward voltaria do quartel em simples cinco minutos, tendo o irmão dele me dito que ele passaria no mínimo duas horas por lá. Apenas voltei minha atenção ao frio e ao cinzento dia.
E assim ficou por um tempo. Silencioso, afinal, ninguém tinha o que comentar. O dia invernal que marcava os fins do outono que me prendia apenas superficialmente; eu observava a janela buscando a resposta de outros pequenos detalhes que, apesar de tudo, estavam fixos em tudo aquilo que eu pensava; principalmente sobre os incidentes que sucederam a guerra no leste.
- Winry – Alphonse chamou depois de um tempo – Você vai passar o dia todo observando a mesma coisa?
Mais uma vez deixei de olhar pela janela e voltei-me para Al. Ao vê-lo acomodado ao sofá, uma pequena resposta irônica me surgiu pela cabeça – E você vai ficar o dia inteiro lendo jornais? – ele não respondeu, o elmo inexpressivo da armadura, que ostentava sempre a mesma expressão, obviamente não mudava nem um pouco. Sorri de leve – Talvez permanecer aqui na mesma forma, o dia inteiro, fará com que o mesmo seja muito longo. E um tanto entediante... Por que não damos uma volta pela Central?
- Ah – começou a armadura, largando o jornal, que antes estava entre suas mãos metálicas, sobre a mesa de centro. Depois disso, levantou-se – É realmente... Conveniente. Vamos?
Senti-me animada com a oferta aceita; talvez no fundo, contemplar uma paisagem que não muda à procura de respostas, seja tamanho esforço no qual eu já me cansava. Deixei meu lugar próximo à janela – Só vou pegar um casaco e nós já vamos sair, certo? – avisei enquanto tirava um casaco bege e comprido de dentro da mala ainda feita aos pés da minha cama.
Depois de colocá-lo e prender os cabelos, saímos do hotel. Na rua, o vento gélido soprava sem piedade para com aqueles que não podiam se aquecer – Está... Tão frio... – murmurei, encolhendo-me dentro do agasalho enquanto caminhava com Al pelas ruas, sem um rumo verdadeiro.
- Está? – ele perguntou em um triste murmúrio – Me pergunto o quanto... Talvez eu não me lembre mais do frio que faz nessa época do ano.
Aquilo me doeu como uma facada – Desculpe-me, Al. – murmurei cabisbaixa – Me esqueci... Que você não sente isso.
- Não se preocupe com isso, Winry – ouvi a voz doce responder – Então... Para onde nós estamos indo?
Parei de caminhar por um momento e me flagrei rindo sozinha – Não faço a mínima idéia – respondi, parando de rir e olhando para um ponto distante – Mas acho que tenho um lugar específico para irmos.
Acelerei o passo, fazendo com que Alphonse imitasse tal movimento. Sentia um pouco de saudades daquele lugar que eu tinha pouco mais de um mês antes, o primeiro lugar que eu tinha ido no dia em que descobri que Edward estava vivo e já tinha retornado da guerra.
A pequena praça onde eu encontrara Gracia e Elysia.
Pouco mais do que quatro minutos caminhando à companhia do vento foram o suficiente para encontrar a praça, naquele momento completamente vazia; talvez o frio repelisse os adultos e suas crianças pequenas. Mas não me repelira.
- Esse lugar é nostálgico, Al. – comentei baixinho, contemplando o jardim com bancos espalhados harmoniosamente pela extensão, à volta de um pequeno espaço onde crianças brincavam alegremente – Eu estava aqui quando fiquei sabendo que o Ed voltara. Encontrei Gracia e Elysia por aqui, e ela me contou.
Avistei balanços em uma parte da área infantil. Moviam-se muito levemente quando açoitados pelo vento que soprava. Cedi à vontade de sentar-me em um deles, que lembravam a minha infância com Ed e Al em Rizempool, agora tal infância tão esquecida, com um futuro tão arrebentado pelas forças do destino que levaria Edward e Alphonse a tentar o impossível.
Balançava-me de leve em um deles, e Al se aproximou novamente – Sabe, Winry... – murmurou brevemente – Sinto que você fez muito bem em aparecer por aqui. E por ainda estar aqui. Fez muito bem pelo meu irmão.
Olhei para a armadura durante aquele curto monólogo – Cada dia ele parece melhor – continuou – Cada dia ele parece voltar ao passado e resgatar as suas perdas para o presente. E eu sei que foi por sua causa. Isso faz com que eu me sinta melhor. As coisas parecem tão calmas e inexistentes agora, é como se somente um passo fosse necessário para abandonar de vez tamanha tormenta. Mas não entendo direito o que falta.
Sorri para ele, piscando seguidamente enquanto pequenos fios de cabelo caíam sobre meu rosto a cada balanço dado – Não é por minha causa, Al. – respondi entre suspiros tranquilos – É por causa dele mesmo. E por sua também. Quem está tentando mudar é ele. Os humanos são assim, precisam de algo que sirva para eles como uma válvula de escape, ou um precioso ponto de apoio. Para que então sigam em frente e conquistem o que tanto almejam... Sozinhos. E ele está conseguindo, o que me faz realmente feliz.
- Exatamente – ele respondeu. – As pessoas aprendem muito, no final.
Assenti positivamente àquele comentário – Talvez eu também tenha aprendido muito com essa história. – disse fitando meus próprios pés – E provavelmente, o passo que falta para finalizar tudo isso seja a recuperação dos corpos de vocês dois.
- Na verdade, eu não confio muito nisso – respondeu. Olhei para ele, confusa. Al prosseguiu – A seu ver eu posso estar sendo pessimista, mas no meu é apenas o que eu acabei sendo forçado a acreditar conforme o tempo passava. Eu sinto que isso é uma causa perdida, e muito provável erro pode ser avistado nesse caminho. Mas continuo seguindo por ele, para não perder as esperanças de recuperar os membros que o Nii-san perdeu.
Senti-me um tanto irritada com aquela resposta. Levantei de ímpeto do balanço e encarei a fenda do elmo onde olhos normalmente estariam – Você não pode perder esperanças de nada, Al. Tenho certeza que o tanto de chances que Edward tem, você tem também. Não faça como ele estava fazendo antes, de pensar que não havia mais como reverter as coisas, porque realmente há. Céus, por que vocês dois fazem isso? Vocês saíram de Rizempool, saíram de perto de mim, e passaram a correr perigo para simplesmente me dizerem essas coisas? Que era uma causa perdida? Não desista com tanta facilidade! Nem depois de tudo isso!
Os sons de burburinhos vindos da esquina cortaram a leve discussão que despertava aos poucos. Sons de passos pesados também se faziam presentes. – Mas o que será... – murmurou Al, olhando para o lugar. Olhei também.
- Vamos lá ver – comecei a caminhar em direção ao local.
À medida que nos aproximamos, os murmúrios alarmados ficavam mais altos, por mais que persistissem indecifráveis. Pela rua passavam cerca de dez militares, e as poucas pessoas presentes que murmuravam entre si pareciam saber de alguma coisa.
Aproximei-me de uma delas, e cutuquei seu ombro timidamente. A mulher magricela de cabelos negros presos em um coque virava-se para mim – O que está acontecendo? – perguntei ligeiramente nervosa.
A senhora se aproximou – Foi mais um caso no leste – disse – Seria algo quase completamente normal, se não fosse pelo fato de que desta vez a morte veio acompanhada de uma mensagem. Toda em enigmas.
Senti uma pontada de medo com aquilo. Arregalei meus olhos levemente por um momento. A mulher suspirou – Essas coisas estão cada vez mais tensas. Me pergunto se ir para um lugar distante não me livraria desses problemas. Sou muito velha para isso.
Assenti sorrindo tristemente. Agradeci à mulher pelas informações e me virei para encarar Alphonse, me sentindo tensa – O que está acontecendo, Al? – lamentei olhando o céu nublado. Quase encontrava um motivo para que ele estivesse daquela forma. Tinha que parar de pensar nessas coisas; nada mais era do que instabilidade climática – Pergunto-me se o Ed já sabe disso.
- Não sei – Al respondeu, começando a andar. – Mas acho melhor voltarmos ao hotel.
Concordei e comecei a caminhar logo atrás dele. Não pude deixar de pensar, enquanto retornava, que aquelas coisas pareciam realmente um tortuoso caminho sem volta. Uma bola de neve que apenas tendia a aumentar. Mas recusava-me a perder as esperanças, como fizeram Edward e Alphonse.
E tamanho seria meu susto ao encontrar um Ed com as mãos na testa, atirado no sofá e encarando o teto, pensativo. Sua própria expressão corporal já dizia que ele sabia da mensagem recebida pelo exército, e até além.
- Ed! – exclamei enquanto me aproximava dele – Conte-nos direito o que está acontecendo.
Seus lábios entreabriram-se, mas ele não falou. Insisti impaciente, enquanto Al apenas observava. Depois de um tempo, o ambarino soltou-se e falou – Isso tem ligações com a guerra.
Tanto eu quanto Al sentimos o choque nas palavras. Sobreviventes da guerra, provavelmente, fossem os responsáveis pelo bilhete... E pelas mortes? – Você está realmente certo disso, Ed? – perguntei incrédula, e fiquei ainda mais ao vê-lo assentir sem hesitar.
- E tem mais – continuou. Senti em seus orbes dourados uma espécie de apreensão. Tal apreensão que eu comecei a sentir em minha própria face. – Eu vou ter que ir para o leste, em uma semana. Eu e mais um grupo de dez militares que participaram da guerra vamos ajudar a investigação da polícia local.
Tentei fechar meus olhos e simplesmente ignorar sua fala. Tentei esquecer o bilhete, a guerra, tudo. Tentei transformar tenebrosa realidade em irreal pesadelo. Mas era apenas uma tentativa frustrada; não há como fugir da verdade. E foi essa mesma verdade que me fez abrir os olhos e encarar fortemente os de Edward. Não me perdi no dourado de seus olhos nem me compadeci de um olhar perdido. Encarei para dizer – Não serei eu quem ficará esperando pela volta de vocês, muito menos serei eu quem voltará para Rizempool.
Com aquelas palavras sabia que receberia uma resposta alterada. E assim veio; Edward saiu de sua disfarçada tranqüilidade e me encarou com um misto de raiva... E medo. – Você enlouqueceu completamente! – vociferou com tamanha intensidade que me encolhi – Winry, não pense nisso, você não vai, de maneira alguma!
- E por que não?! – era minha vez de gritar – Edward, não pense que vai conseguir me convencer dessa vez. Eu simplesmente estou exausta de implorar para qualquer coisa para que vocês voltem vivos a cada ato perigoso seu e do Al! Não ficarei "sobre um pedestal" dessa vez. Não mesmo.
Edward engoliu em seco. Respirou fundo várias vezes, fechou os olhos e levantou-se do sofá, se aproximando de mim. Abriu seus orbes dourados tomados pela apreensão, E segurou meus ombros com força. – O que eu vou fazer com você? – murmurou, baixando a cabeça e apertando as mãos em meus ombros – O que eu vou fazer se eles te pegarem?
Eu sentia a mesma coisa indefinida que ele deveria estar sentindo naquele momento. Minha garganta congestionava-se em um nó, e eu segurei as mãos de Edward, tirando-as de meus ombros, que doíam pela força que ele os segurava. Cheguei mais perto, e me abracei nele – Eu não estou com medo do que pode acontecer – sussurrei para ele. – Ficar esperando vocês voltarem de lá me dá mais medo do que qualquer coisa relacionada com esse assunto. Eu não quero esperar, por favor. Deixe-me ir, eu preciso ficar perto de vocês, eu preciso saber o que acontecerá com vocês.
Senti os braços dele me envolvendo com força. – Por que você é tão... Impaciente? – ele perguntou em derrota. Senti um misto de satisfação e tristeza pela dramaticidade do momento – Você não devia ser assim... Você é uma idiota.
Talvez eu fosse. Mas ele é mais. Pensei, aconchegada em seus braços quentes.
TÔ SUMIDA MAS TÔ VIVONA ! q
Posteeeeei o novo cap finalmente *-* não posso deixar de justificar que a demora foi por conta dos tempos corridos x___x muito corridos. Mais de uma prova nos mesmos dias, prova de matemática com conteúdos de 5ª, 6ª e 7ª séries. Percebi que mesmo estudando, a minha memória é PÉSSIMA AEHSAEOISHEISH mas comparada ao resto, eu realmente fui bem ._.
Melhor assim, minha mãe vai me matar com menos raiva. Ou não. HSAOIEHSIAEHSI Mas essa prova me determinou a estudar mais, então... Eu vou estudar mais! :D
Eu espero que mesmo com essa demora de uma semana a mais, essa demora tenha valido à pena :3 ou seja, espero que vocês tenham gostado do capítulo *--*
Revieeews ? :3
